terça-feira, 21 de agosto de 2007

O ABROLHOS E OS TÍTULOS DE "CAIXA ALTA"




 Hoje sinto falta de qualquer coisa ou de alguém. Olho à volta e vejo rostos vazios, como se carregassem o mundo às costas, como se tivessem perdido o jeito de rir. Bolas, não gosto disto! É que para eu ver toda esta solidão é porque estou igual. Vou passando nestas ruas estreitas, carregadas de história, onde o edificado têm o mesmo brilho dos semblantes. Ou seja, não têm nenhum. Realmente, penso para mim, se as ruas perderam toda a sua graça imanente, como podem as pessoas estarem alegres? Hoje é um bucolismo demasiado implantado, não é que a vida simples, inocente, quase paradisíaca não agrade, nada disso, mas as cidades não são campos perdidos na imensidão, apenas calcorreados por pastores, dos poucos que restam, se é que ainda os há. As cidades são vulcões em erupção, fervilhando de gente, com barulhos quebrando os silêncios incomodativos. É a pequena discussão de rua, é a lenga-lenga do cego na esquina: “uma esmolinha, por favor, senhor…que Deus lhe pague senhor”. É a abordagem das figuras típicas a solicitar-nos uma moedinha. É o romeno a vender o “Borda de água”. É o seropositivo no “cravanço” de uma “flor” -dois bocaditos de fitas coloradas, com um pequeno alfinete- e apelando, num discurso remelado e viscoso, para uma qualquer instituição fictícia de luta contra a sida. É o cigano, com um cesto, a vender t-shirts, com o grito estridente: “comprem meninas…é só 5 euros”. Sempre com o olho no transeunte e outro a ver se vem o polícia municipal. Mas mesmo este ruídos estão a desaparecer. Qualquer dia as urbes serão cemitérios de silêncios, percorridos por vivos-mortos que nem força anímica terão para reclamar de um encontrão levado por alguém mais afoito.
Olho para os comerciantes de rua: apáticos, tristes, como sentinelas em posição de sentido, de guarda às portas, dos seus estabelecimentos. Como se o vazio de clientes passasse a ser a companhia diária de fantasmas invisíveis. E até o Santo Onofre, num cantinho escondido, meio adormecido pelo torpor à sua volta, parece ter deixado de lutar, contra as políticas desvitalizantes e desertificadas de quem nos governa, que, apregoando o bem do todo, leva sistematicamente à destruição do individual. E o mercador de rua, paradigma dessa política de purga neoliberal, assiste à queda diária de mais uma loja que se finou. E, no seu pensar constante, fazendo contas à vida, interroga-se acerca do que quererão estes burocratas de gabinete que não conhecem o pulsar das gentes que populam as cidades.
Fogo, desculpem lá isto, mas como ia a caminhar da Praça do Comércio até à Praça 8 de Maio não pude deixar de pensar nesta coisa. Desculpem mesmo. Que raio de pensamento este, completamente pessimista. Ainda bem que vou beber um café com o meu amigo Almerindo Abrolhos. Ele é para mim uma espécie de carregador energético, quando estou assim, é a ele que recorro, à sua boa disposição recorrente. 
Lá está ele na esplanada do Café Santa Cruz. Parece estar absorto a ler o jornal, mas eu sei que está completamente vigilante, sobretudo “à coca” duma morenaça brasileira, ou duma pálida e esquálida loiraça nórdica. O Almerindo lá nisso não discrimina ninguém. Aprecio este seu altruísmo. Estou a aproximar-me. Apercebo-me do carisma imanente deste homem. Não admira que todas as mulheres gostem dele. Pudera. Se eu fosse mulher queria-o para mim.
-Bom dia Abrolhos…as saudades que tinha de ti, homem. –cumprimento efusivamente com calor, envolvendo as suas mãos nas minhas.
-Xô…”ó meu”, estás-te a passar ó quê? Desconfio que estás “a virar”. Mau, mau, chega-te p’ra aí…descola...descola! –e remata com uma sonora gargalhada, parecia que lhe tinha saído o Euromilhões. Todos os clientes da esplanada levantaram os olhos e até uma “cota” toda bem artilhada fisicamente, que estava a tomar chá, ficou com a com a chávena parada entre o pires e a boca. Parecia hipnotizada.
-Ó pá, vamos mudar de assunto –rematei quase secamente, um pouco incomodado por ter todos os olhos centrados em nós, coisa que para o Almerindo pouco incomoda- vamos mas é às novidades. Conta-me tudo.
-Ó “meu”, por aqui “no lo passa nada”. Isto é uma pasmaceira. Basta veres as notícias nos jornais, a falta de “caixa alta” é “bué” de deprimente. Olha aqui –e aponta no “Diário de Coimbra”- vê bem: “tomateiro com mais de 3 metros de altura”. Como se isto fosse notícia. Parece que estamos no Entroncamento, “meu”. Há dias foi no “Diário As Beiras”: duas páginas para noticiar uma licenciada numa aldeia próximo de Coimbra. Ó “meu” notícia seria alguém que não se licenciou, “tás” a ver coisa? Por este andar, um dia destes até eu viro notícia. "Ó meu", agora já nem o cão que morde o dono é notícia, estes jornalistas não têm faro para a coisa. –conclui o Almerindo com ar solene e profético.
-Ó pá entendo tudo isso –falo um pouco mais grosso, como que a admoestá-lo- mas eu quero saber verdadeiras novidades. Ainda não disseste nada. Estás a perder qualidades, ou é impressão minha?
-Ó “meu”, não me fales assim que até os meus cabelos do peito se eriçam. A única novidade, presentemente, é o duelo entre o Pina Prata e o Encarnação…
-Espera aí –interrompo o Abrolhos de supetão- o duelo? Entre o Pina…quê?
-Ó “meu”, estás lerdo ó quê? Então o Pina Prata não é aquele vereador do PSD que foi em tempos presidente da ACIC e depois vice-presidente da Câmara? E que primeiro era compadre do presidente da Câmara, depois zangaram-se e agora parecem comadres a trocarem galhardetes? –esclarece o Almerindo como se fosse professor. Isto é o que ele mais gosta de fazer.
-É pá, estou a ver…tens de me contar isso tin-tin-por-tin-tin. -solicito com olhos apelativos.
-Desculpa “meu” mas fui nomeado padrinho do duelo que vai ser aqui na Praça 8 de Maio, em frente ao fundador da nacionalidade, para a coisa ter mais solenidade. De modo que tenho ainda que pensar nas armas com que vão lutar. Não sei se aconselhe a espada, a pistola ou se será ao murro. Ainda estou a pensar.
De maneira que, “meu”, desculpa não tenho tempo agora. –começa a levantar-se da cadeira, como a querer pirar-se.
-Ó pá…deixas-me assim? –faço cara de zangado.
-Estou com pressa “meu”, depois falamos. Paga aí os cafés. –e abala a correr.
Fico a olhar para as costas dele, como habitualmente de boca-aberta. Eu sei a causa de ele abalar a correr: ele vai atrás daquela negra boazona de mini-saia.
Mas eu já o conheço, sei que ele um dia destes vai contar-me esta história inteirinha. Além disso estou muito melhor. Até parece que tomei um anti-depressivo. Pareço outro.
Mentalmente agradeço ao Abrolhos, mesmo tendo que pagar os cafés, aliás, como sempre.

ILUSÃO

Procuro-te no meio da multidão,
nos pequenos magotes de gente,
onde paras ilusão?
Parece que alguém mente;
Dizem conhecer-te bem,
mas só te conhece quem sente,
uma tristeza ou solidão tem,
aquele que sofre e bem te tente;
Procuro-te na água do rio,
espelhada como imagem,
nem o sol me tira o frio,
nem o vento me dá aragem;
Penso que és uma utopia,
um sonho pouco real,
se te visse o que eu fazia,
construía o meu canal;
Como não te vejo, espero,
endureço muito então,
pode ser que sendo sincero,
alcance uma paixão;
Se eu te visse tu fugias,
ó minha querida ilusão,
eu sei que tu bem me querias,
se eu te desse o coração;
Mas ele está fechado para balanço,
à espera de um qualquer amor,
que musique um falhanço,
um fado ou balada de trovador.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

ODE À LUA

Ó lua porque evitas o meu olhar?
Se estou só, perdido no universo?
Como tu, balouçando se calhar,
entre uma rima, esquecida, de um qualquer verso;
Porque foges de mim lua?
se és o meu satélite congregador?
Porque insistes nessa teimosia tua?
Porque corres e evitas o meu amor?
Ó lua gostava de te entender,
porque tens essas faces enganadoras?
Com esse desprezo quero desaparecer,
ir para o inferno, junto de almas pecadoras;
Ó lua porquê essa face triste,
parece que o sol não te chega não,
os teus olhos tem o brilho em riste,
como uns vadios de paixão;
Ó lua olha para mim,
deixa de olhar o espaço,
se me olhares, eu por ti,
dou cambalhotas, rio, nem sei que faço;
Mas ó lua tem paciência,
não pago a tua frustração,
depois do logro a exigência,
confia, deixa-me consolar teu coração

sábado, 18 de agosto de 2007

UM PRAGMATISMO DE ESQUERDA IDIOSSINCRÁTICO

O menssenger começou a piscar. Atendi. Uma senhora apelava: “podemos falar?”.
Caro que sim, respondi. E começámos um diálogo que, a meu ver, é riquíssimo do ponto de vista antropológico e sociológico. Vou transcrevê-lo na íntegra. Escusar-me-ei a fazer juízos de valor. Quem tiver a paciência de ler este texto e chegar ao fim, certamente os fará. Vamos então ao diálogo:

-Boa tarde. Podemos conversar? Interroga (ela).
-Boa tarde, claro que sim! –respondo (eu)
-Vamos ver se temos algo em comum –(ela). Eu sou Professora –área de Letras –
divorciada. Passo a dizer que tipo de pessoa que me interessa: para ter afinidade
comigo. Deverá ser agnóstico ou ateu e deverá ser de esquerda.
Com sentido de humor e pessoa que saiba o que quer.
Depois, é óbvio que o aspecto físico não está posto de parte.
-Muito bem! Vou responder-lhe ponto-por-ponto.-(eu)-Sou agnóstico.
-Pela sua escrita, acho-o um tanto formal. –(ela)
-Politicamente, não sei onde me coloco. Se a senhora quiser discutir comigo a
“sua esquerda”, aposto que se vai achar de direita, pelas similitudes existentes entre as
duas ideologias. (eu).
-NÃO GOSTEI DE OUVIR ISSO! –(ela)
Está errado…
-Pois…mas é o que penso! –(eu)
-Mas está errado. -(ela)
Oquê??! Porque de direita eu nunca serei. Isso ofende-me…
-Estamos a conversar. –(eu)
-Sei. –(ela)
Mas posso dizer-lhe do meu percurso: no 25 de Abril militei em organizações de
esquerda que faziam trabalhos nos locais. Alfabetizei, fundei associações culturais e
um jornal.
-Diga-me um ponto, para si essencial, que considere intrínseco na esquerda. –(eu)
-Honestidade, sentido de justiça…(mas isto são apenas palavras)…anti-racismo. –(ela)
-E a direita? Para si não tem essas premissas? –(eu)
-NÃO! –(ela)
-Está enganada…-(eu)
-É que nem discuto tal coisa. Não vale a pena. Esqueça! –(ela)
-Não estou a defender a direita… -(eu)
-Palavras, demagogia, todos têm…-(ela)
-Politicamente, consigo transcender-me. Considero-me um observador, ou se quiser um
especulador…-(eu)
-Direita é retrocesso, mediocridade e “incultura”. Logo nem discuto…-(ela)
-Esse seu “fechar-se” às ideias dos outros é estranho…-(eu)
-Sou radical, pode dizê-lo, não me ofende! –(ela)
-Tudo é argumentável…-(eu)
-Não, não é! -(ela)
Tenho orgulho das minhas convicções.
O racismo, por exemplo, não é argumentável. É pura sacanice e estupidez.
-A senhora, como professora, deveria saber que tudo é arguível. –(eu)
-Não concordo! –(ela)
-Tudo pode ser, sim. –(eu)
-A tolerância é um “brinde” para os retrógrados e injustos…-(ela)
-Antropologicamente pode ser questionável. –(eu)
-Isso querem “eles”. –(ela)
Não me venha com filosofias…
-Venho sim! –(eu)
Esse seu corte é contornar airosamente os problemas. Eu estou, de certeza, à sua altura
Para os discutir, se quiser…
-Eu, para isso não estou. –(ela)
Não discuto o que, para mim, é óbvio…
-Tudo passa pela filosofia, como sabe…-(eu)
-Como queira! –(ela)
-É assim…para si?-(eu)
-É! –(ela)
-Mas pode não ser para os outros…-(eu)
-Nesta idade (52 anos), não ando a convencer ninguém…-(ela)
-A senhora, negando-se a ouvir os outros, com esse radicalismo, o que está a ser? –(eu)
-Cada um tem as suas opções feitas…-(ela)
Sou radical, “no problem”..-(ela)
-Eu não tenho, nem quero ter…-(eu)
-Ah…mas eu tenho…(ela)
De certos valores não abdico.
-Mudamos a cada minuto que passa..-(eu)
-Nem tanto. Não somos Camaleões… –(ela)
-Os valores são dinâmicos…-(eu)
-Aqui e ali, talvez. -(ela)
Mas no fundamental não…
-Já os princípios, (nem por isso), são mais estáticos…-(eu)
-Questão de terminologia. –(ela)
Não vou por aí. É perda de tempo. Desculpe…
-A senhora é que sabe…-(eu)
-Penso saber…-(ela)
-Por mim, respeito a defesa dos seus valores, não me perturba. Embora discorde…-(eu)
-Ok. –(ela)
-E o que quer fazer? –(eu)
-Não entendi…-(ela)
-Pergunto se quer desligar?! –(eu)
-Penso que somos muito diferentes…-(ela)
-Pois somos mesmo, sobretudo em género…-(eu)
-Ahahahahahahahah! –(ela)
Eu sou mais terra-a-terra, pelo saber do vento nas árvores e o olhar dum cão…
-Tenho dúvidas de que assim seja…-(eu)
-Assim como? –(ela)
-Duvido que saiba interpretar o vento…-(eu)
-Pode considerar-me uma utópica…-(ela)
-Repare, eu não tenho nada contra a sua utopia. –(eu)
O que sou contra, (perdoe a franqueza), é a sua intolerância, imprópria de uma pessoa
que tanto se arroga de apregoar que é de esquerda.
Pode até, se quiser, “dissecar” etimologicamente a palavra “tolerância”. Analisá- la-emos sobre o ponto de vista filosófico. Mas tenha calma. Por favor ouça
os outros. Desculpe.
-Lamento, penso que não vale a pena continuar..-(ela)
-A senhora é que sabe.-(eu)
-Fique bem. –(ela)
-Tenha uma boa tarde. –(eu)
-Obrigada. –(ela)
-Obrigada para si também. –(eu).

(HISTÓRIA VERÍDICA)

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sexta-feira, 17 de agosto de 2007

RECORDAÇÕES DE TI

JUNTO DE TI...ó saudade,
dos tempos do Azeiteiro,
quando lembro a mocidade,
prespasso um sorriso brejeiro;
JUNTO DE TI...eu sonhei,
fiz planos, olhei a lua,
nunca me ligaste, eu sei,
porquê essa distracção tua?
JUNTO DE TI...olhei o mondego,
vimos a água sempre a correr,
passeámos, um fado, em sossego,
como o rio, ao mar, vai morrer;
JUNTO DE TI...olhei para mim,
questionei, inferi, com calor,
senti o teu vago olhar, assim,
pressenti longe o teu amor;
JUNTO DE TI...sou um sol brilhante,
sem ti uma noite de bréu, escura,
gostava de ser mais acutilante,
para não me levares à loucura;
JUNTO DE TI...sou escritor,
sou artista reputado,
desenho na areia, sou pintor,
sem ti sou vazio e mal amado;
JUNTO DE TI...sou gigante,
erecto numa ilha do pacífico,
sem ti sou desinteressante,
um pigmeu quase tísico;
JUNTO DE TI...sou dobrado,
tu, eu, minha alma transcendida,
sou um sino a balouçar estrilhado,
badalando ao mundo: querida...querida!

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O KARMA DE MALAQUIAS

(FOTO DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)

 Corria o ano de 1957 quando a mãe de Malaquias, em fim de estado interessante, se deu conta que o pimpolho se negava a sair do seu ventre materno. Nunca soube se por preguiça se por impossibilidade natural, a verdade é que, durante três dias, foi uma luta titânica da parteira da aldeia para tentar salvar os dois. O pai do futuro rapazinho fora avisado que um deles, a mãe ou a criança, poderia perecer. Claro que, imediatamente, sentenciara: “em caso de escolha, morra aquele que está para vir ao mundo!”
Entre gemidos dolorosos e transpirações sofridas, ao fim de três dias e três noites, depois de um profundo grito cortante ecoando em toda a casa, a parteira, com ar de vencedora, exclamou: “temos gente nova e mantemos a obreira, senhor Afonso!”.
O pai de Malaquias, de olhos esbugalhados, há três dias sem dormir, exclamou: “graças a Deus “ti” Etelvina, estava a ver que essa criatura me matava a minha Maria”.
Estava dado o mote para um iniciar de rejeição do futuro homem, quer pela mãe, que mesmo contrariando a natureza tão profícua na relação materno-infantil vira a sua vida em risco, quer pelo pai, que, pela sua custosa aparição em cena, ia levando para os anjinhos a sua Maria.
Malaquias, não se sabe se por carência de amor, não parava de chorar. Era de noite, era de dia, chovesse ou fizesse sol. A mãe Maria, resmungando por entre dentes a má sorte que lhe coubera em sina, levou-o ao médico da vila. Este, depois de um exame rotineiro, diagnosticara que o puto estava são que nem um pêro. Mas o raio do "meia-dose-de-gente" não parava de reclamar em agudos prantos sentidos. Esta incomodação contínua levou a mãe a ir a uma "mulher de fora” numa aldeia próxima, uma vidente, muito evidente nas coisas futuras. A mulher, olhando para o pequeno Malaquias, sem delongas ou dúvidas existenciais, pronunciou judiciosamente: “este pequeno ser tem fome!”.
A mãe Maria saiu com a mesma interrogação com que entrara. Como poderia a criança ter fome se até mamava no seio o seu leite sagrado? “A bruxa” não estava, certamente, nos seus melhores dias nas artes da presciência filosófica.
Já na sua aldeia, antes de entrar em casa, cruzou-se com a vendedeira de leite, com o seu cântaro debaixo do braço. Entre um cumprimento e uma interrogação acerca do pequeno herdeiro, é então, e sem que nada o faça prever, que o bebé estende o bracito em direcção ao cântaro leiteiro. A vendedeira, talvez movida por um instinto inexplicável, verte um pouco de leite numa das medidas à mão e, aproximando-a da boca do bebé, este ingeriu, de um só trago, o líquido branco segregado das glândulas mamárias da fêmea do boi.
Por acasos, ou não, a mãe Maria ficou a saber que o sustento do seu primogénito era "aguadilhado" e pouco nutriente para a sua necessidade alimentar básica.
A infância de Malaquias foi sempre temperada exageradamente com grandes tareias sobretudo do seu pai Afonso, que, instigado pela sua mãe Maria, tornou o Sábado como dia do castigo supliciante. Afonso era guarda prisional. Estava ausente de casa desde Segunda até Sábado. Fosse pelo hábito repressivo das cadeias do Estado Novo ou por um sentimento de rejeição, que começara aquando do nascimento do puto, a verdade é que o homem-pai, como um Deus vingador, parecia quase odiar o miúdo, seu filho, como se descarregasse nele toda a frustração de uma semana aprisionado entre muros. 
O infante já conhecia a rotina: o pai chegava a casa por volta das 10 horas da manhã de Sábado. Durante uma hora, mais ou menos, a sua esposa fazia-lhe o relatório minucioso da semana, das traquinices do piolho, “que andara a jogar à bola na rua, que fora tomar banho, juntamente com outros miúdos, para a represa do vale da serva”. 
Pelas 11 horas, mais minuto, menos minuto, as cinturadas estavam a cair-lhe em cima, a ferir-lhe o corpo e a amachucar-lhe a alma, cortando-a, e fazendo esta em mil farrapos. Com o tempo, Malaquias desenvolveu capacidades superossivas à dor, o seu cérebro correra em seu auxílio, criando mecanismos imunitários ao sofrimento. Mesmo sentindo as vergastadas a lancinar-lhe as costas deixou de chorar e, no intervalo de cada cinturada, com um rosto mascarado de dor, pensava enraivecido:“um dia, quando for grande, vou te matar, cabrão!”. Um dia o pai dissera-lhe: “se tornas a tomar banho na represa de vale da serva, dou-te um “enxerto” que te mato!”.
Malaquias sabia que aquela ameaça velada, em caso de incumprimento, seria cumprida. Nunca mais tomou banho na represa. Um dia, num domingo de grande calor estival, ele e outros miúdos traquinas, depois de andarem a brincar às escondidas, estando todos suados, todos correram para a represa de vale da serva. Uns nus, outros meios despidos, todos mergulharam nas frescas águas do rio. Todos não! O Malaquias parou estático, a ver o prazer que os seus colegas deveriam estar a sentir ao serem embrulhados e banhados pelas águas da pequena lagoa. Subitamente, sentiu no seu ombro uma mão calejada tão sua já conhecida: era seu pai que, na companhia de um seu colega de trabalho, se aproximara sub-repticiamente. Aparentemente, aos nossos olhos, perante a razão, tudo estaria bem. Pois! Mas aos olhos de Afonso, seu pai, não estava. Ali mesmo, desenfreadamente, começou à chapada ao rapaz. Como o seu camarada de trabalho interviera a seu favor, enumerando a sua boa conduta –afinal ele não fora tomar banho como os outros, tinha seguido à risca as ordens do seu primogenitor- Afonso, hipocritamente, suspendeu as sevícias. Quando chegou a casa, levou Malaquias para o sótão da casa, amarrou-lhe as mãos atrás das costas, passou-lhe uma corda no pescoço e atou-a numa trave de madeira. Foi buscar o cão e prendeu-o à sua frente. Ali, com o animal como testemunha, brandiu-lhe nas costas várias cinturadas e deixou-o ali preso para o resto do dia. O cão, esse nobre amigo do homem, olhava para ele, de olhos ternos e meigos, parecendo querer chorar.
Malaquias, fruto dessas tareias constantes, ou karma existencial, tornou-se uma pessoa triste, apática, de pouco brilho no rosto. Desde cedo começou a sentir-se um íman atractivo de tudo o que era mau. Sem motivo plausível, sentia ser vilipendiado na rua e agredido sem motivo. Sem razão atendível, era o ir a passar debaixo de uma janela e de repente cair um vaso de flores mesmo ao seu lado ou à sua frente. Enquanto estudante numa das Faculdades de Coimbra, era comum nas orais de exame o examinador, como não fosse à bola com a sua cara, chumbá-lo injustamente.
Já depois de licenciado, concorreu a vários concursos, cujo limite de ingresso eram de vinte concursandos. Várias vezes ficou entre os primeiros. Pois, fosse por artes demoníacas ou do homem, a verdade é que mais tarde era derrogado para vigésimo- primeiro. Depois de "andas para bolandas", lá conseguiu entrar para a função pública e hoje está num serviço de atendimento. É normal, sem motivo compreensível, um utente, logo que se senta e olhar para o seu rosto, começar a insultá-lo e a discutir com ele.
Acidentes de automóvel já foram tantos que nem se lembra do número. Alguns sem explicação. Por exemplo, lembra-se de um, em que estava parado, numa recta, veio um individuo embriagado, bateu-lhe de frente, e destruiu-lhe o carro todo. Milagrosamente apanhou com algumas escoriações. Quando saiu do carro, o prevaricador, também com algumas arranhadelas, começou a agredi-lo ferozmente. Para cúmulo do azar o outro não tinha seguro.
Malaquias interroga-se: de onde virá tanta má sorte? Será que provém de tantas tareias levadas injustamente e, "ipso facto", levou a sua personalidade para campos desconhecidos, em que campeia a tristeza, o desalento e a solidão? Ou, hipoteticamente, como num karma budista, em espírito negativo reencarnado dentro da doutrina espírita, em aperfeiçoamento contínuo, terá de seguir o seu destino preconcebido? E, a ser assim, nesse caso, os seus pais, perante o seu fadário traçado, teriam sido apenas instrumentos ao serviço de um futuro construído antecipadamente? Quem poderá responder?


(HISTÓRIA ESCRITA BASEADA NO RELATO DO AUTOR, AQUI BAPTIZADO DE MALAQUIAS)

terça-feira, 14 de agosto de 2007

O ABROLHOS E O CENTENÁRIO DO TORGA

Passou o fim de semana e eu sem ter uma conversinha com o Almerindo Abrolhos. Fogo, a falta que me faz! Já não sei se vou ao Café Santa Cruz para beber café, se vou pela necessidade de falar com o Almerindo. É que, hoje, pela velocidade que imprimimos à vida, sempre a olhar para o relógio, parece que o tempo deixou de ser universal para passar apenas a ser unicamente nosso. Como se cada segundo perdido, em situações não lucrativas, fosse trágico, como se passássemos a ser “contadores” à enésima fracção de segundo. Como se nos tornássemos “aquela máquina” fria e impessoal, cuja função é debitar acções lucrativas em proveito próprio. Como se até o dar –dar? hoje nada se dá! -os simples bons dias é algo que deve ser rentabilizado, e então passa-se apenas a cumprimentar as pessoas mais chegadas e as importantes. Mas, rapidamente, porque temos pressa, o tempo é dinheiro, porque é escasso e, por isso, urge. É como se, obsessivamente, procurássemos nas acções mais simples uma constante interrogação metódica: o que ganho eu com isso?
Talvez por isso desaparecessem, ou vão desaparecendo paulatinamente, numa escala imparável, os velhos cafés, onde a tertúlia era muito mais do que uma simples conversa de amigos. Era a alma de uma cidade, que, ali, no espaço de quatro ou mais cadeiras, era dissecada até à molécula. Hoje come-se em pé, engolindo de um trago, apenas para confundir o estômago, sem ter muito em conta o valor pantagruélico do confeito; ora se para comer é assim, porque se haveria de perder tempo a conversar?
É por isso, -deve ser mesmo, não tenho bem a certeza- que gosto de conversar com o Abrolhos. No fundo, é como se eu, psicologicamente, como náufrago, me agarre a ele para evitar submergir, e me torne igual às outras “máquinas” que populam por aí. Eu preciso do Almerindo. Ele é, para mim, um dos últimos paradigmas existenciais. É controverso? Sem dúvida nenhuma! Mas afinal só o diferente é controverso. Às vezes, quando sentado na sua mesa, vejo o olhar venenoso com que é amiúde prendado, de quem está à volta, quer homens, quer mulheres. Os homens, obviamente, sentem por ele uma dor terrível de cotovelo. Algumas mulheres sentem que o Abrolhos é um personagem anacrónico, de macho latino que desejam ver fora das suas existências pouco românticas. Acham que o Almerindo, ao despejar nelas aquele olhar de enleio, misturado de lascívia, atenta conta a sua dignidade feminina. Como se ele pusesse em causa a igualdade entre géneros. Como se ele fosse um recalcado, um descompensado de afecto, com problemas para resolver, desde a infância, com as mulheres, quem sabe um complexo de Édipo? Mas quem não tiver, ou sofrer destas insuficiências afectivas, que ponha o dedo no ar.
Para mim, não quero saber! Gosto dele e pronto! Vou beber um café com ele. Lá está ele, sentado na esplanada, a ler o jornal. Volta e meia levanta os olhos, e estes parecem rir, sobretudo quando passa uma bonita mulher. Vou-me aproximando. Vou-me sentar.
-Bom dia Abrolhos! Há uns dias que não te vejo, pá. Confesso que tinha saudades –cumprimento efusivamente, apertando-lhe a mão com calor emotivo.
-Ó “meu”, que é isso?! Chega-te mas é mais para aí. Não te estiques! Mau, mau, estás a passar-te para o reviralho…ó quê? –responde o Almerindo com aquele seu trejeito encantador de dizer as coisas sem magoar.
- Ó pá, lá por ser moda, não me catalogues. Eu faço parte dos últimos moicanos, os últimos resistentes, como tu, aliás –respondo, fingindo alguma indignação, ao mesmo tempo que me escancaro numa sonora gargalhada.
-Ó “meu”, desculpa lá isso! –o Abrolhos pareceu ter emudecido, até parece não me conhecer.
-Ó pá, estás a brincar, ó quê? Isso só me incomodava se fosse verdade. Parece que não me estás a ver, pá! Olha vamos é às novidades. –corto a linha da conversa, como se tivesse utilizado uma lâmina com fio de corte.
-O que me dizes acerca das comemorações do Torga, neste fim de semana, cá no burgo, e da, aparente, falta de atenção do Governo em não se fazer representar ao mais alto nível? É pá uma vergonha! Já viste? Está bem que o Pedro Pita é um homem de cultura, -ó pá!- mas é um representante subalterno, um Delegado nomeado pelo Governo. É escandaloso! –soletro, quase letra-a-letra, esta última frase com grande solenidade, como que a mostrar a minha enormíssima indignação.
-Ó “meu”, tu és curtido! Às vezes pareces-me diferente do maralhal, outras vezes penso que és igual à carneirada. –replica o Abrolhos, de rosto ambíguo, entre o sério e o divertido.
-Ó pá, não me ofendas. Eu igual à carneirada do pensamento único? Estás a confundir-me. –reclamo, puxando dos meus galões de conhecimento adquirido.
-Olha “meu” os convites não se impõem. É um negócio bilateral gratuito. Ou se aceita ou não. Não percebo essa indignação que grassa por aí. Só posso entendê-la dentro do habitual parolismo atávico, ou complexo de pobre, tão característico desta terra, que teima em se pôr em bicos de pés e chamar continuamente a si um estatuto e uma importância que perdeu. Mas, sabendo dessa derrota, assumamo-la de vez e evitemos andar a carpir mágoas por tudo o que é sítio. Qualquer dia, esta cidade, deveria ser chamada de Santa Madalena. -retorque o Abrolhos de cara endurecida pela irritação surda que mina o seu espírito, como que envolvido por um paroxismo.
Reparei que o Almerindo começou a olhar fixamente para os seus sapatos de verniz, comprados na Sapataria Romeu, que tanto gosta de ostentar. Ele não faz a coisa por menos.
-Ó “meu”, já viste os meus sapatos? –interroga-me.
-Já, já vi, são lindos, com esse estilo de John Travolta, a dançar no Grease, por volta de fins da década de 70. –respondi.
-Não é isso, “meu”! Já viste, estão um bocado para o usados…precisava de comprar outros. Não estão a dar com a minha classe, “meu”. O problema é que o vale de correio do desemprego ainda tarda... ó “meu” emprestas-me 100 euros?
-Mas…não acabaste de criticar um certo complexo de pobre…? – deixei a frase suspensa, se eu conheço a Abrolhos para quê fazer-lhe perguntas e tentar compreendê-lo?