(imagem de arquivo do jornal online Bairrada Informação)
“Quando
se esperava ver um Marqueiro, furibundo e vingador,
a expelir fumo pelas
narinas, entrusivo e incómodo, (…) eis
que nos aparece um
“Ruizinho de Antes”, sem acordeão, sem
bigode e sem chapéu,
titubeante e colaborativo...”
O
dia apresentava-se entre o “nem
lá vou nem faço nada”,
como quem diz, nem parecia Verão, nem Outono, nem Inverno, assim
para o desenxabido, mais ou
menos, como a cara de
Marcelo retratada em pose institucional na parede do Salão Nobre.
A
Ordem de Trabalhos era pequenina, com nove pontos, apenas.
Presumidamente, exceptuando
um, o número 2, sobre o Mercado Municipal, que tinha sido agendado
pela bancada socialista, nada fazia abrir a pestana de curiosidade.
E
ainda estava nos ouvidos o som martelado do relógio da Igreja
Matriz, a bater as 9 horas, e o chefe da missão, António Jorge
Franco, com um caloroso cumprimento deu início aos trabalhos, ao
Período de Antes da Ordem do Dia.
Mas
se tudo indicava que não
ia haver
assunto interessante
que saltasse daquelas quatro paredes, isso é que se veria. Ou não
fosse a criatividade e o aproveitamento um dos maiores talentos dos
políticos. E foi o que aconteceu.
Sónia
Leite, vereadora do PS, logo a abrir, propôs um voto de louvor a
Leonor Quinteiro, de 11 anos, e a Pedro Pimenta, de 14 anos, ambos
finalistas do concurso “Uma
Canção para ti”, da
TVI, e com a primeira, a Leonor, a vencer a gala.
Parecendo
aproveitar a boleia da sua colega de bancada, Rui Marqueiro,
corroborando, propôs que os dois alunos no concelho e a sua
professora de música, Maria Antónia Mota, fossem recebidos na
Câmara Municipal.
António
Jorge Franco, sem enfado,
concordou – oxalá,
esperemos
que o executivo, pelo manifesto exagero em
auto-benefício, não venha
a ser acusado por exploração de trabalho infantil.
Embalada
pelo sucesso de
ter largado uma “lança
em África”,
Sónia Leite
voltou ao ataque e interpelou
o presidente da mesa sobre se a ida de Mário Gaspar, presidente da
Junta de Freguesia da Pampilhosa, na última reunião, significava
não se estar a verificar um
tão apregoado entendimento entre
a edilidade e as freguesias.
Respondeu
Franco: “eu não vou
evitar que ninguém possa vir à reunião. Isso era o que mais
faltava. As pessoas são livres. Tenho
reunido com todos os presidentes de junta. Não direi todos os dias,
mas quase. Temos falado sobre todos os assuntos.”
E
ENTRAMOS NO PERÍODO DA ORDEM DO DIA
E
como gaivota que esvoaça no mar, caímos no então anunciado ponto
número
2, o tal que foi agendado pela bancada socialista: “Análise
da situação da obra do Mercado Municipal.”
Quando
se esperava ver um Marqueiro, furibundo
e vingador, a expelir fumo
pelas narinas, entrusivo
e incómodo, e, verbalmente,
com voz grossa e intimidatória a exigir a Franco uma data precisa
de compromisso para a abertura do (novo) Mercado Municipal, eis que
nos aparece um “Ruizinho
de Antes”, sem
acordeão, sem bigode e sem chapéu,
titubeante e colaborativo,
a propor em votação à
mesa que “os
serviços informem o executivo sobre o andamento dos trabalhos no
prazo de dez dias afim de ser considerada aplicação de multas ao
empreiteiro”. Como era
de prever, mesmo com a cadeira vazia de Filomena Pinheiro, a proposta
foi chumbada com o voto de qualidade do chefe – na
mesa, pressentiu-se o prefeito a levar a mão à barriga e a
esfregá-la de contentamento e
a pensar: quem te viu e quem te vê agora, Marqueiro. Estás no papo!
E,
para terminar no que detinha algum interesse, passou-se ao ponto 6,
onde foi
proposto por
Franco, substituir a obrigatória escolaridade mínima por comprovada
experiência para contratação de "assistentes
operacionais".
Conforme já o afirmara
anteriormente em encontros similares, a autarquia pode entrar em
rotura por falta de mão-de-obra. Poder ultrapassar esta obrigação
legal pode ser a solução para um problema que se torna cada vez
mais insolúvel.
Marqueiro
votou contra a proposta e, acoplando ao seu sentido de voto, deixou
uma mensagem: “por não o ter agora aqui, desconheço o que diz
o Código dos Contratos Públicos. E é por não saber que voto
contra.”
E
pronto, tinha passado uma hora. Uma reunião breve,
talvez a mais curta de sempre da vida autárquica mealhadense.