terça-feira, 3 de maio de 2022

O FOTÓGRAFO ESTAVA LÁ… E VIU E OUVIU, OU TALVEZ NÃO

 



O PENSADOR


Guilherme Duarte, ex-vice-presidente da Câmara Municipal da Mealhada e actualmente presidente interino da Fundação Mata do Bussaco em regime voluntário (sem auferir ordenado) desde 30 de Janeiro de 2021, já avisado pela tutela há um mês de que não será nomeado para o cargo, como se estivesse a ser queimado em lume brando pelo Governo, “apanhado” na pose existencialista do “Pensador” de Rodin, há dias, numa conferência de imprensa:


- Quem sou eu?

- O que faço aqui?

- Por que razão, numa espécie de “usar e deitar fora”, estou a ser instrumentalizado pelo

Governo?

- Porque fui abandonado pelas estruturas locais do meu partido?



segunda-feira, 2 de maio de 2022

MEALHADA: HOJE HOUVE REUNIÃO DE CÂMARA MUNICIPAL

(imagem do jornal online Bairrada Informação)



O dia estava lindo, com o Sol a beijar à surrelfa todos vereadores através da vidraça. Na parede em frente, Marcelo Rebelo de Sousa, em pose institucional, assim ou nem tanto, parecia contente no abrir da Reunião de Câmara Municipal. Ao longo da sessão, chamaria a si os mais diversos semblantes, de serenidade, de estupefacção, de preocupação e até de sorriso mordaz. O nosso Chefe de Estado, como se fotografasse tudo, esteve sempre atento.

Ao bater das 9 badaladas na igreja matriz da Mealhada, António Jorge Franco deu início ao Período de Antes da Ordem do Dia.

Rui Marqueiro, ex-presidente e agora vereador da oposição, a abrir as hostilidades em forma de interpelação, como disco riscado a fazer lembrar aquele slogan publicitário “no meu tempo...” começou por fazer a já conhecida introdução “constou-me que… constou-me que...”.

Lá no alto, Marcelo, pelo imaginário brilho dos olhos, como a adivinhar divertimento, parecia esfregar as mãos de contente e como a querer dizer: “vamos ter cena. Vamos ter cena!”

E assim indicava quando o actual vereador do Partido Socialista, fazendo alusão a alguma invasão indiscreta no interior dos serviços camarários, disse que tinha um email endereçado ao presidente da edilidade e acusando este de, ilegalmente, delegar competências em funcionários.

Numa reviravolta de centenas de graus, como se estivesse a teatralizar, Marqueiro, como se estendesse uma ilusória passadeira vermelha ao seu sucessor, vestindo uma opa de humildade, enfatizou: “peço desculpa, é com amizade que o digo”.

Perante um desempenho tão real do vereador, adivinhava-se, na parede em representação, Marcelo estaria a apertar a barriga com tanto rir.

António Franco, em resposta a tão inusitada e tamanha generosidade do socialista, interrogou: “penso que não votou em mim… pois não?”

Luís Tovim, vereador da bancada socialista, interpelando o chefe da mesa acerca das comemorações recentes sobre o 25º de Abril, sobre o Movimento Mais e Melhor, disse: “a campanha eleitoral já acabou”.

Franco, remetendo a alusão para a Assembleia Municipal, e para o presidente do hemiciclo, exclamou: “o professor Carlos Cabral tem dado muito à Mealhada, e é um bom amigo”.


E COMEÇOU O PERÍODO DA ORDEM DO DIA


Sem munícipes para intervir no tempo de audição do público, passou-se para o primeiro ponto. Como é hábito, começou-se pela aprovação da acta anterior.

Palavra puxa palavra, e, numa discussão acesa em odiozinho de estimação, veio ao de cimo o azedume nunca curado entre Rui Marqueiro e Filomena Pinheiro, vice-presidente, relativo ao período do após 2013, quando a vice-presidente, depois de não poder concorrer por limite de mandatos na equipa de Carlos Cabral e ter estado ao serviço da autarquia durante cerca de vinte anos, foi sumariamente despedida e impedida de voltar para o anterior cargo que exercia na Escola Vasconcelos Lebre pelo então vencedor das eleições. A anterior vereadora e vice-presidente, e antes disso funcionária da edilidade, depois de um litígio aberto, seria indemnizada em 35 mil euros.

Perante o perigo de “incêndio” alastrar a toda a mesa, o bombeiro de serviço, António Franco, puxou da mangueira e, jogando apelos à extinção da polémica, abafou as chamas.

E veio o ponto 4, “Anulação da deliberação tomada na reunião extraordinária da Câmara Municipal de Mealhada, de 24/09/2021.”

No caso, tratava-se de confirmar a não aquisição dos terrenos destinados à Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, para esta instituição construir uma valência destinada a doenças mentais. Esta deliberação tinha sido avançada em reunião de Câmara no tempo de Rui Marqueiro, enquanto presidente do executivo na altura.

Hoje, sobre esta anulação, insurgindo-se contra a medida proposta, diria Marqueiro: “não tenho qualquer dúvida de que a Câmara Municipal vai perder.”

Sublinharia ainda com ênfase: “aposto a minha vida em como a Câmara vai perder.”

Sobre este assunto comentaria Franco: “o senhor vereador, às vezes, faz provocações. Não vale a pena...”

Retorquiu o ex-chefe da edilidade: “não estamos na missa. Acho optimismo a mais. Sou eu que sou pessimista!”

Seria aprovada a anulação.

E veio o ponto 6: “Pedido de autorização para permuta dos Lotes 1 e 45 da ZIP”

No caso, tratava-se de aprovar um alargamento de prazo para troca de dois lotes entre duas empresas instaladas na Zona Industrial.

Afirmaria Marqueiro: “acho melhor os senhores falarem com o senhor. Se não o fizerem, faço eu...”

Acrescentaria ainda: “eu tenho as maiores desconfianças em relação à empresa (…). O que eu não admito é que ninguém seja vigarizado com a minha ajuda.”

Aparentemente a mostrar alguma desarticulação da bancada socialista, seria aprovado com maioria, com o voto contra de Marqueiro e votos a favor dos dois correlegionários, respectivamente, Sónia Leite e Luís Tovim.

E, com a pressa em sair de Rui Marqueiro bem expressa, deu-se por finalizada a reunião. (Lá na parede, Marcelo, novamente muito tranquilo, parecia querer revelar: eles podem, todos, discutir e guerrearem muito e até ao exagero, mas no fim, como moleiros no mesmo moinho, acabam todos em abraços. Isto é política, a arte de parecer)

 

O FOTÓGRAFO ESTAVA LÁ… E VIU E OUVIU, OU TALVEZ NÃO…

 




O AGRADECIDO


João Peres, provedor da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, apanhado hoje na instituição de benemerência a ver a Reunião de Câmara Municipal através de “streaming”, com a lágrima no canto do olho, entre dentes, a cantarolar a canção de Roberto Carlos: “Meu querido, meu velho, meu amigo...”

O momento não era para menos, Rui Marqueiro, ex-presidente da autarquia mealhadense e agora líder da oposição, antes de ser votado o ponto da agenda de confirmação de não aquisição do terreno destinado à Santa Casa, declarou solenemente e em tom premonitório:


“Não tenho qualquer dúvida de que Câmara vai perder…”

“Aposto a minha vida em como a Câmara vai perder...”


O FOTÓGRAFO ESTAVA LÁ… E VIU E OUVIU ISTO, OU TALVEZ NÃO…


  



O APREENSIVO


Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, apanhado hoje na fotografia institucional, na reunião da Câmara Municipal da Mealhada, a mudar de semblante e a ficar preocupado perante as seguintes declarações de Rui Marqueiro, ex-presidente da autarquia e agora líder da oposição:


“Acho melhor os senhores falarem com o senhor… se não o fizerem faço eu…”

“Eu tenho as minhas desconfianças em relação à empresa (…)…”

“O que eu não admito é que ninguém seja vigarizado com a minha ajuda…”


O FOTÓGRAFO ESTAVA LÁ… E VIU E OUVIU ISTO, OU TALVEZ NÃO


A MULETA


Rui Marqueiro, ex-presidente da Câmara Municipal da Mealhada e agora vereador da oposição, hoje na Reunião de Câmara Municipal, nas suas várias interpelações ao chefe da mesa do executivo, António Jorge Franco, sempre a começar pela introdução:


“Constou-me que… constou-me que…”

 

domingo, 1 de maio de 2022

HOJE, 1º DE MAIO, É O DIA DOS TRABALHADORES… (TEXTO DE 2009)




O palco está montado para mais uma efeméride do dia dos trabalhadores em Coimbra, na Praça 8 de Maio. Mais logo, a seguir ao almoço, vozes inflamadas, que paulatinamente se vão tornado roucas pela emoção, vão vociferar contra o governo. Em apêndice, juntarão este sistema neo-capitalista agora em derrocada. Falarão dos ordenados escandalosos dos gestores de empresas semi-públicas. Dispararão os canhões argumentativos contra os políticos e o seu desinteresse em resolver os problemas de cada um.
Os sindicalistas, vestindo a pele de salvadores dos trabalhadores, fracos e oprimidos, de cravo vermelho ao peito, de braço no ar, pregarão por mais justiça social e reivindicarão a queda deste executivo governamental de direita, que se diz de esquerda.

Para além disso, clamarão contra os patrões, exploradores de mão-de-obra barata, e, em cantata, apelarão ao coro de “O povo unido jamais será vencido”.
No canto esquerdo, junto à Igreja de Santa Cruz, o Carlos Alberto, de cinquenta e poucos anos, engraxador de profissão, reformado por invalidez e que recebe pouco mais de 300 euros para alimentar a prole caseira, que mora ali próximo, numa transversal esconsa onde o sol nunca se põe, numa degradada casa de renda, e que já comeu a broa que o diabo amassou sem milho e sem fermento, olhando todo aquele aparato, levará a mão direita ao autocolante que tem pregado no peito. Mentalmente com os seus botões, pensará: “que diabo, há 35 anos que assisto a esta festa e a este discurso sempre igual. Que porra!, nem eu mudo de vida para melhor; nem nunca mais acabam com o velho inimigo, a direita – ou será a esquerda?, de repente até fiquei “valhelhas”!; nunca mais se acerta com um governo de vez; nunca mais se acaba com os capitalistas, ou com os comunistas? Ou serão os socialistas? – fiquei outra vez lerdo; nunca mais se acaba com os ricos… ou são os pobres que deveriam exterminar? Estou xexé de todo, não dou uma p’ra caixa”, reflecte o Carlos Alberto.
“Ora, Ora! Eu quero lá saber dos discursos destes tipos. Já que não me trazem nada de novo, eu quero é festa. Mas quando é que vem o Vitorino cantar? Ou é o Janita Salomé? Fosca-se, nem o homem canta, nem eu almoço…”


HOJE É O DIA DA MÃE






Hoje, 1º de Maio, comemora-se o Dia da Mãe.

Normalmente desvalorizo estas datas em jeito de efemérides póstumas. Bem no fundo, até entendo a intenção. Numa sociedade que nem tempo tem para pensar, é lógico, só mesmo com bandeiras existenciais, a chamar a atenção para tudo e mais alguma coisa, se consegue obter algum resultado prático. Mesmo assim, dando uma relativa importância à data comemorativa, dei por mim a recordar a minha saudosa mãe, falecida há cerca de uma dezena e meia de anos.

Escrever sobre ela, a mulher que me deu a vida, parece fácil mas não é. Sobretudo quando a memória, aturdida e ofuscada por teias, parece querer trazer ao cimo as passagens negativas mais marcantes e deixar lá no fundo as coisas boas. Para fugir a um destino marcado, que, a concretizar-se, me atrofiava, quase obrigado, abalei muito cedo da aldeia, ainda criança, e fui trabalhar para a grande cidade. Se somos o resultado de toda uma vida, baseada em momentos de alegria e outros de sofrimento, a verdade é que me custou muito a ultrapassar esse corte abrupto e traumático. Nas primeiras décadas subsequentes, dei em atribuir a culpa à minha progenitora – talvez Freud explicasse melhor, mas era como se a culpasse inteiramente de na altura devida não tivesse intervindo em minha defesa junto do meu pai e me deixasse partir desamparado.

Certamente por associação ao meio em que fui criado, e em projecção existencial, sempre que visitava a povoação, sem o poder evitar, era invadido por um sentimento enorme de tristeza. Era como se o contacto com o lugar me trouxesse à memória um tempo de miséria que não queria recordar. À medida que fui envelhecendo, esta comoção, progressivamente, foi desaparecendo e foi dando lugar a uma imagem idílica marcante. E ainda hoje é assim. Nos últimos tempos de vida, já bastante combalida, sempre que me via, aquando de visita, no alto dos seus cerca de oitenta anos, a minha mãe levantava os braços em concha, agarrava-se ao meu pescoço, quase sem descolar, e dava-me beijinhos sem conta. Os seus murmúrios, quase ininteligíveis, eram repetidos até à exaustão: “meu filho… meu filho… meu querido filho!”. Foram estas palavras de amor que me ajudaram a ultrapassar o lado menos bom da minha infância.

Nos primeiros anos de vida não tinha memória de carinhos da minha geradora. E foi a manifestação de amor, embora tardia, que me ajudou a encontrar-me e a perdoar – se é que havia mesmo alguma coisa para absolver.

É nestas alturas, num quadro de tanta ternura, que a carapaça, a minha armadura de todos os dias, cai. Tenho de fazer um esforço hercúleo para não chorar. É ali, naquela expressão sentida de “madona”, que sempre ligará uma mãe a um filho, que sinto que sempre fui profundamente injusto com os meus pais. Mas, em boa verdade, pouco posso fazer. Nem sempre reagimos todos da mesma forma perante uma situação igual. Até à morte, somos sempre o resultado de uma experiência de vida diária. Se por um lado, este saber empírico adquirido, mau ou bom, nos vai aperfeiçoando, tornando-nos melhores ou piores, consoante o cruzamento que nos aparece à frente e a estrada que encetamos, é sem dúvida a primeira dezena de anos que nos marcará para sempre. São estes primeiros anos de vida que constituirão a nossa identidade, intrinsecamente. Pouco importa que as restantes décadas sejam o oposto do início da nossa existência. Em estrutura mental, seremos sempre o produto desses primeiros anos, e no futuro, por muito que o evitemos, seremos sempre a consequência da nossa infância. E eu não tive uma meninice feliz. Não tive muito amor dos meus pais quando mais precisava dele. Pela vida miserável e difícil desse tempo, certamente preocupados apenas em conseguir que não passássemos fome, esqueceram-se de nos amar, a mim e à minha irmã.

Como hoje, Dia da Mãe, perante um gotejar sôfrego de saudade, a sensibilidade e a fragilidade, numa mistura de emoções, tocam no mais profundo do meu ser. Imagino a minha mãe agarrada a mim. Cheiro o seu odor campesino que já há muito esqueci. A sua pele nunca conheceu um perfume e muito menos um desodorizante. Foi sempre aquela fragrância a lavoura que a acompanhou nas lides da terra. Relembro o seu rosto, quase agarrado ao meu, revivo aqueles sulcos profundos e multiplicados na sua pele, como se fossem lavrados pelo arado do tempo. Os seus cabelos brancos, cor de prata, caídos, meio desgrenhados pelos ombros, lembram-me a outrora forte cabeleira preta e a inevitável transformação física que sofremos.

Feliz dia para todas as mães que ainda nos fazem companhia. Para as que já partiram, em evocação, uma lágrima de saudade.