(imagem do jornal online Bairrada Informação)
O
dia estava lindo, com o Sol a beijar à surrelfa todos vereadores
através da vidraça. Na parede em frente, Marcelo Rebelo de Sousa,
em pose institucional, assim ou nem tanto, parecia contente no abrir
da Reunião de Câmara Municipal. Ao longo da sessão, chamaria a si
os mais diversos semblantes, de serenidade, de estupefacção, de
preocupação e até de sorriso mordaz. O nosso Chefe de Estado, como
se fotografasse tudo, esteve sempre atento.
Ao
bater das 9 badaladas na igreja matriz da Mealhada, António Jorge
Franco deu início ao Período de Antes da Ordem do Dia.
Rui
Marqueiro, ex-presidente e agora vereador da oposição, a abrir as
hostilidades em forma de interpelação, como disco riscado a fazer
lembrar aquele slogan publicitário “no meu tempo...”
começou por fazer a já conhecida introdução “constou-me que…
constou-me que...”.
Lá
no alto, Marcelo, pelo imaginário brilho dos olhos, como a adivinhar
divertimento, parecia esfregar as mãos de contente e como a querer
dizer: “vamos ter cena. Vamos ter cena!”
E
assim indicava quando o actual vereador do Partido Socialista,
fazendo alusão a alguma invasão indiscreta no interior dos serviços
camarários, disse que tinha um email endereçado ao presidente da
edilidade e acusando este de, ilegalmente, delegar competências em
funcionários.
Numa
reviravolta de centenas de graus, como se estivesse a teatralizar,
Marqueiro, como se estendesse uma ilusória passadeira vermelha ao
seu sucessor, vestindo uma opa de humildade, enfatizou: “peço
desculpa, é com amizade que o digo”.
Perante
um desempenho tão real do vereador, adivinhava-se, na parede em
representação, Marcelo estaria a apertar a barriga com tanto rir.
António
Franco, em resposta a tão inusitada e tamanha generosidade do
socialista, interrogou: “penso que não votou em mim… pois
não?”
Luís
Tovim, vereador da bancada socialista, interpelando o chefe da mesa
acerca das comemorações recentes sobre o 25º de Abril, sobre o
Movimento Mais e Melhor, disse: “a campanha eleitoral já
acabou”.
Franco,
remetendo a alusão para a Assembleia Municipal, e para o presidente
do hemiciclo, exclamou: “o professor Carlos Cabral tem dado
muito à Mealhada, e é um bom amigo”.
E
COMEÇOU O PERÍODO DA ORDEM DO DIA
Sem
munícipes para intervir no tempo de audição do público, passou-se
para o primeiro ponto. Como é hábito, começou-se pela aprovação
da acta anterior.
Palavra
puxa palavra, e, numa discussão acesa em odiozinho de estimação,
veio ao de cimo o azedume nunca curado entre Rui Marqueiro e Filomena
Pinheiro, vice-presidente, relativo ao período do após 2013, quando
a vice-presidente, depois de não poder concorrer por limite de mandatos na equipa de Carlos Cabral e ter estado ao
serviço da autarquia durante cerca de vinte anos, foi sumariamente
despedida e impedida de voltar para o anterior cargo que exercia na
Escola Vasconcelos Lebre pelo então vencedor das eleições. A
anterior vereadora e vice-presidente, e antes disso funcionária da
edilidade, depois de um litígio aberto, seria indemnizada em 35 mil
euros.
Perante
o perigo de “incêndio” alastrar a toda a mesa, o bombeiro de
serviço, António Franco, puxou da mangueira e, jogando apelos à
extinção da polémica, abafou as chamas.
E
veio o ponto 4, “Anulação da deliberação tomada na
reunião extraordinária da Câmara Municipal de Mealhada, de
24/09/2021.”
No
caso, tratava-se de confirmar a não aquisição dos terrenos
destinados à Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, para esta
instituição construir uma valência destinada a doenças mentais.
Esta deliberação tinha sido avançada em reunião de Câmara no
tempo de Rui Marqueiro, enquanto presidente do executivo na altura.
Hoje,
sobre esta anulação, insurgindo-se contra a medida proposta, diria
Marqueiro: “não tenho qualquer dúvida de que a Câmara
Municipal vai perder.”
Sublinharia
ainda com ênfase: “aposto a minha vida em como a Câmara vai
perder.”
Sobre
este assunto comentaria Franco: “o senhor vereador, às vezes,
faz provocações. Não vale a pena...”
Retorquiu
o ex-chefe da edilidade: “não estamos na missa. Acho optimismo
a mais. Sou eu que sou pessimista!”
Seria
aprovada a anulação.
E
veio o ponto 6: “Pedido de
autorização para permuta dos Lotes 1 e 45 da ZIP”
No
caso, tratava-se de aprovar um alargamento de prazo para troca de
dois lotes entre duas empresas instaladas na Zona Industrial.
Afirmaria
Marqueiro: “acho melhor os senhores falarem com o senhor. Se não
o fizerem, faço eu...”
Acrescentaria
ainda: “eu tenho as maiores desconfianças em relação à
empresa (…). O que eu não admito é que ninguém seja vigarizado
com a minha ajuda.”
Aparentemente
a mostrar alguma desarticulação da bancada socialista, seria
aprovado com maioria, com o voto contra de Marqueiro e votos a favor
dos dois correlegionários, respectivamente, Sónia Leite e Luís
Tovim.
E,
com a pressa em sair de Rui Marqueiro bem expressa, deu-se por
finalizada a reunião. (Lá na parede, Marcelo, novamente muito
tranquilo, parecia querer revelar: eles podem, todos,
discutir e guerrearem muito e até ao exagero, mas no
fim, como moleiros no mesmo moinho, acabam todos em
abraços. Isto é política, a arte de parecer)