sábado, 3 de abril de 2010

O LIVRO NÃO EDITADO






 Trabalho há muitos anos numa grande livraria da Baixa da cidade. Gosto muito do meu trabalho. Laborar numa livraria é como estar na terra dos sonhos, partilhá-los, e fazer parte deles. Sim, porque um livro editado é sempre a concretização de uma utopia de alguém. Nesta engrenagem humana é como se eu fosse o fiel depositário dos segredos do autor.
Um livro carrega uma carga mística muito para além de uma imagem sacra. Não há livros bons ou maus. Há livros simplesmente, que na sua missão entre os homens, carregando e dando a conhecer a história, tentam aperfeiçoar e torná-lo melhor. Umas vezes conduzem à paz outras vezes à guerra. Para além do romance ficcionado e da poesia, há livros para todos os géneros: de cozinha, de estética, de viagens, de sonhos, de Tarot, tantas coisas mais, e até de crenças.
Na minha livraria vendo o “Livro de São Cipriano”. É espantoso o que se passa com as pessoas para o adquirir. Parece que estou a ver, passo-entre-passo, entra a mulher de meia-idade, dá uma volta pela livraria, disfarçadamente pega noutros títulos, mas verdadeiramente ela está fixada no “São Cipriano”. Observo o seu aspecto exterior de mulher em luto profundo. Aposto que perdeu um amor há pouco tempo. Os humanos são mesmo assim, quando a má-sorte bate à porta tudo serve para agarrar o seu reverso.
Quando vê que ninguém está a observar, com mil cuidados, pega no livro, entrega-mo para embrulhar e diz: “é para a minha vizinha. Pediu-me que lho comprasse. Dizem que este livro é de bruxaria, é verdade?”. Como sempre, rio-me e exclamo: minha senhora, qualquer livro pode ser bom ou mau, consoante a fé que se tem na sua mensagem escrita. Se a senhora acreditar, provavelmente, o seu desejo acontecerá. Responde imediatamente a senhora: “eu só estava a perguntar…o livro não é para mim!”.
Com o tempo, fui-me tornando um psicólogo nato. Aprendi a conhecer as pessoas. Afinal nem é assim tão difícil, somos todos tão infinitamente iguais. É certo que há umas pequenas diferenças, mas para um observador atento facilmente se pode dividir os humanos em três graus. Depois é só classificá-los, e inserir os exemplares nos grupos correspondentes. É extraordinário como, fazendo bem o encaixe, se pode adivinhar tudo, até os gostos mais íntimos, daqueles que só o próprio sabe. Normalmente, observando uma pessoa durante escassos minutos, ou falando com alguém, consigo acertar em cerca de 80 por cento da sua forma de ser e estar na vida. É certo que às vezes tenho recaídas, mas é raro. Mas acontece. Estou a lembrar-me de um episódio que me aconteceu há tempos e nunca consegui entender.
Até há uns meses atrás, tive um cliente muito especial na minha livraria. Ele era um homem de cerca de cinquenta anos. Vestido medianamente, sem grande rasgo de moda. Notava-se que deveria ser uma pessoa simples. Era afável mas não permitia grandes avanços no trato. Era um homem triste, isso tenho a certeza, eu lia a nostalgia nos seus olhos. Muitas vezes, discretamente observava os seus gestos pausados e ia fazendo as minhas deduções e classificando-o no grau 1 –que, no meu manual psicológico existencial, corresponde a uma pessoa que, apesar de disfarçar bem, carrega um karma negativo, talvez porque não foi amado na infância, muitas vezes preterido em relação a outro irmão, quem sabe separado de uma pessoa que gostava muito, ou, provavelmente, maltratado fisicamente. Este meu elemento de grau 1 percorrerá a sua existência à procura de ser amado sem nunca o conseguir. É um ser que se habituou a dominar, manipulando a presa a seu bel-prazer. É bipolar, os seus sentimentos balançam entre o amor e o ódio. É um predador de amor.
Procurará o impossível. Anda de amor em amor, de alcova em alcova, sem nunca encontrar a estabilidade emocional de que tanto necessita. O curioso é que procura incessantemente o amor, mas quando o encontra foge dele e parte para outro como se fosse um mendigo. Curioso também, é que estas pessoas serão criativas por excelência nas letras e nas artes.
Era sempre assim, semanalmente, ele entrava na livraria, com olhar minucioso de detective, percorria todo o escaparate sem deixar de olhar um único título. Era como se procurasse um livro especial. Várias vezes tentava aproximar-me com o tradicional cumprimento: boa tarde! Se puder ajudar alguma coisa, faça o favor de dizer, mas ele nunca dizia nada. Jamais perguntava o quer que fosse. Este homem era para mim um mistério. Mesmo com a minha experiência empírica de conhecer as pessoas existencialmente, eu não tinha palavras para esta imagem. Era como se fosse o Alberto Soares, do livro de Virgílio Ferreira, “A Aparição”. Quem sabe uma imagem no presente, um espectro do passado, em projecção para o futuro? Eu não tinha explicação racional para enquadrar este homem nas referências do quadro por mim inventado.
O que procuraria o homem? Quem sabe um livro que lhe recordasse aquele amor passional, aquela paixão de fogo ardente que lhe consumira a alma e fizera dele uma sombra de ninguém? Mas ele nunca abria um livro. Limitava-se a ver os títulos na capa e na lombada. Esta incongruência de atitude consumia-me diariamente. Quando ele entrava, ao sábado, na livraria, ficava ansioso. Apetecia-me abaná-lo e obrigá-lo a dizer-me ao que vinha. Confesso que já odiava este personagem saído das nuvens do mistério. Cada vez mais sentia o seu distanciamento como um desprezo.
Mas eu não desistia. Um dia haveria de saber a causa que o motivava e o levava, como autómato à minha catedral de livros.
Há uns meses atrás, mais uma vez o vi transpor a porta de entrada. Junto ao balcão, tenho sempre uns rebuçados de fruta para acalmar a minha inquietação. Lentamente, fui retirando o plástico que envolvia um “drop” e coloqueio-o na boca. Mentalmente, lancei o desafio: é hoje! É hoje que vais saber o que traz este homem aqui!
Devagar, devagarinho, fui-me aproximando dele.
-Boa tarde, como está? Então é hoje que fala comigo? Olhe que eu não tenho lepra…ao mesmo tempo que me abria num largo sorriso.
-Desculpe –disse-me a titubear, como um menino traquina apanhado em falta pela professora-, eu ando à procura de um livro…só isso!
-Ai sim? Ora, então já podia ter dito há muito tempo. Diga-me o autor e o título, e é fácil, contemporizei.
-…Afonso do Espírito Santo…”Os anjos precisam de ter sexo?”…
-Não conheço…sabe qual é a editora? Interroguei.
-Não tem editora. O autor sou eu…mas nunca foi publicado!

*TEXTO ESCRITO PARA A "FÁBRICA DE HISTÓRIAS" SOB O MOTE "PALAVRAS PARA UMA IMAGEM.
http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/42896.html?view=459664#t459664

A COLUNA DO MARCO...






A propósito de bicos e beneficiários do RSI:

 É verdade -levando em conta os comentários do Jorge Neves-, existem outras formas mais bicudas ou menos, mais florais, alumínio, madeira, etc. Mais estético ou mais inestético, bonito ou feio. Mas não é essa a questão, o essencial é libertar o espaço para as pessoas trabalharem. Inestético é estarem 2 ou 3 prostitutas a negociar à entrada de um local de trabalho. Portanto o cerne da questão mantêm-se.
Também concordo que a percentagem de falsos necessitados do RSI não estão concentrados neste local, estão espalhados por diversos locais, quase sempre cafés, tascas e tabernas. Tem razão, não posso afirmar se a maioria dos habituais utilizadores deste largo são beneficiários, pois não efectuei nenhum inquérito. Comentei este facto de uma maneira genérica. Mas posso afirmar que a forma e os critérios de atribuição do RSI, deveriam ser revistos. Têm de ser critérios rigorosos e com constante acompanhamento, pois todos conhecemos casos em que não se entende porque determinadas pessoas usufruem desta ajuda. Não confundir as coisas, não sou contra a atribuição de subsídios, desde que sejam justamente atribuídos. Sou contra, isso sim, os abusos e o desperdício de dinheiros públicos. Aquela máxima religiosa (chinesa) de dar uma cana de pesca e não o peixe, seria um bom princípio. Muitos dos beneficiários do RSI são pessoas com capacidades, tanto físicas como intelectuais, acima da média em certos domínios. Ou, por exemplo, trabalhar em prol da comunidade em trabalhos como limpeza de espaços públicos, jardinagem, etc. Ganhariam mais dinheiro e mesmo a nível pessoal se sentiriam mais úteis e com auto-estima superior. Seria uma forma de inserção social, combatendo o sentimento geral e vulgar de excluídos da sociedade como amiúde se escuta de alguns utentes das diversas ajudas sociais e humanitárias da cidade (cozinha económica, Caritas, etc).
Abraço.
Marco.

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Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "A COLUNA DO MARCO...":



 Eu penso que é necessário dar-lhes primeiro o peixe, ensinar a pescar e só depois dar a cana. Sabe porque razão existe prostituição naquela zona em concreto não sabe? Eu sei e aposto que também sabe; e assim que existem vozes a defender a Baixa, quando se vão alimentando dela assim. Também defendo o trabalho cívico em prol da comunidade.

AMANHÃ É DIA DE PÁSCOA






  A minha secretária, a Cremilde –já conhecem, não já? Ai, quem é que não conhece a Cremilde? Quando ela passa, toda cheia de graça (muito mais que a garota de Ipanema) pelas ruas da Baixa, é um encanto de sorver. Naquele andar ondulante e libidinoso dá gosto ver os homens, com os olhos a querer saltar das órbitas e a babarem-se completamente, como caninos esfaimados, como lobos prestes a saltarem sobre a presa. Perante este movimento icónico, de deusa encantada, toda a Baixa pára para a ver. É de pasmar. A Cremilde é muito mais bela que a Soraia Chaves, mas a milhas de distância. Esta mulher é um monumento vivo. É tão bela, tão bela, que a queriam incluir nas 21 Maravilhas de Portugal, mas ela, como é muito humilde –vem-lhe do sufixo do nome…”milde”-, recusou. Claro que perguntou a minha opinião, e eu, como não gostava muito de ver o meu sítio invadido por tudo quanto é “voyeur”, e às tantas ainda ma levavam, lá lhe fui dizendo ó Cremilde você é que sabe, mas se fosse eu a si não aceitava. E o anjo da rapariga, sim é mesmo um anjinho, não aceitou. Mesmo não recebendo ordenado há vários meses –por que isto cá na sede do “Questões” anda muito mal de finanças- preferiu não entrar em futuros desconhecidos e continuar a apostar num presente sem destino. É aqui, neste gestos, que se vêem a alma enorme das gentes.
Bom, mas vamos lá ao que interessa, que, como as palavras são como a política nunca conduzem a lado nenhum, acabei por me dispersar. Então dizia eu que a minha assistente pessoal, a Cremilde, acabou de me comunicar que temos o hall de entrada, do edifício onde funciona o nosso jornaleco, cheio de amêndoas e folares. Por favor não enviem mais amêndoas. Para não vos desapontar, podem optar por umas camisetas “Lacoste”, umas calças de ganga “Lewis”, ou parecidas. Uns sapatos, mas tem de ser de marca. Pijamas, meias e cuecas, se fazem favor não ofereçam. Não esqueçam que devem comprar tudo no comércio tradicional.
Se às vezes tiverem dificuldades na escolha, podem optar mesmo por um presente fora de vulgar. Vão ali à Rua Corpo de Deus, à Loja da Adelino Martins, Lª, associada da Servilusa, e podem-me oferecer um funeral à vossa vontade. Como sabem, depois de há dias esta empresa ter assinado um protocolo com a ACIC e a APBC, podem pedir um pagamento a prestações. Ou seja, podem dividir a factura até 24 meses sem mais quaisquer encargos.
Para grandes dificuldades na escolha de presente, é ou não é uma solução inovadora? Ah, pois é mesmo!


P.S. –Como sou uma pessoa modesta, não escolham um caixão com muitos ornamentos. Prefiro uma coisa simples. Em contrapartida, podem acordar com a Servilusa, no dia do meu funeral, quero uma orquestra a tocar as centenas de músicas originais que tenho gravadas em cassetes e que, se calhar nunca verão a luz do sol comigo em vida. Outra coisa, não quero gente a chorar no meu funeral –bem sei que nem era preciso pedir, mas fica registado, pronto! Quero pinga a correr a rodos, mas bom vinho da região, nada de zurrapa. Mais: Toda a gente deve ir vestido de vermelho.
Deixo então o meu desejo escrito em verso:

Quando eu morrer, qualquer dia,
não quero gente a chorar,
quero sentir alegria,
de ninguém se lamentar;
Quero uma grande festa,
com cantares que eu cantei,
quero partir desta,
da mesma forma que entrei;
Quero um bolo muito grande,
vinho tinto a jorrar,
quero ter gente feliz,
para me acompanhar;
Para tristeza já me basta,
a vida que eu levei,
agora que já estou livre,
quero dar o que não dei;
A vida é uma passagem,
entre o nascimento e a morte,
é um vento, é uma aragem,
um virar de página, um corte.

UMA IMAGEM...POR ACASO...



 Na parede, em letras gravadas a fogo, pode ler-se: Prosas Vadias.
Gosto de lá ir. É um sítio que frequento aqui. É como um retiro cheio de espelhos. Estes, para além de projectarem o corpo na sua massa física exterior a decompor-se diariamente, quase em provocação, como se rissem escarninho da vaidade do homem, dizendo-lhe que vai acabar em nada, mostram a alma a nu.
É como um templo sagrado, em que entramos todos, independentemente da classe, não para venerar os santos, mas para saborear aquele silêncio que nos envolve em introspecção e nos reenvia para o eterno retorno de humano simplesmente. 
As portas estavam abertas de par em par. Hoje, como sempre, entrei e dei de caras com esta velha fotografia. Palavra de honra que eu tento ser sério todos os dias...mas não é fácil resistir à tentação. Vai daí, "ospois", agarrei nela e coloquei-a aqui. Fiz bem, não fiz?...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE...)



Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "BICOS CONTRA A INDOLÊNCIA":



 Até concordo com o conteúdo do que levou a colocar os bicos em pedra, só não concordo com a forma. Ainda na quarta-feira vi um grupo de seis meninas estrangeiras com as mochilas às costas sentadas no plano abaixo dos bicos de pedras, ou seja, no chão, que é espaço público. Existem outras formas mais dignificantes para não deixar sentar por lá as pessoas durante o dia, aqueles bicos em pedra são um atentado ao urbanismo e não só. Segundo sei, constitui uma alteração das cantarias e proibido por lei.

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Marco deixou um novo comentário na sua mensagem "BICOS CONTRA A INDOLÊNCIA":



 Não podia estar mais de acordo consigo Luís. Já comentei a algum tempo atrás a vergonha e a miséria que acontece diariamente neste largo. E ainda me revolta mais a minha contribuição para que dezenas de indivíduos passem o dia naquele local (o RSI é pago por todos nós). Um local com todas as condições para ser aprazível é inundado por prostitutas e clientes diariamente, Imaginem o que é trabalhar e assistir a negócios deprimentes a toda a hora. Não dou muito tempo até este escritório tomar a mesma decisão da antiga Agência Abreu. Como compreendo o desespero da colocação dos bicos, é que possivelmente estará em jogo a sobrevivência de alguns postos de trabalho. E como sempre haverá quem critique este acto desesperado e venha defender os coitados que não têm trabalho, desfavorecidos que SÓ TÊM cerca de 190 euros do RSI (geralmente gastos em 2 ou 3 dias em copos e mulheres).
Bom trabalho Luís, por vezes é preciso mostrar outras perspectivas das situações.
Abraço. Marco.

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Jorge Neves deixou um novo comentário na sua mensagem "UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE...)":



 Como já afirmei, ate concordo com a finalidade dos "bicos" em pedra. Mas existem outras formas para atingir a finalidade, como por exemplo; em frente a porta dois vasos e com arbustos, nas montras dois tubos na horizontal, um na zona do alumínio e outro cerca de 10 cm acima, não tiraria a estética, nem se tornaria desumano.
Em relação a ser frequentado por pessoas que recebem o RSI, estou a vontade para afirmar que as esplanadas dos cafés na Portagem e praça 8 de Maio também estão ocupadas com quem o recebe. Afirmo que a maioria das pessoas que se sentavam naquele lugar, não recebem o RSI, nem outro apoio monetário.

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Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE...)":


Caros Srs,


Não esqueçamos que cada vez mais se nota um desaparecer do Comércio da Baixa.
Não só pela construção dos grandes centros comerciais mas também pela insegurança que se vive na Baixa.
Não estamos a falar em fazer mal a ninguém, mas em proteger postos de trabalho que estão no dito "escritório".
Querem os Senhores que todas as lojas fechem na Baixa, e se deixe "apodrecer"a Baixa?
Lembro-me dos tempos de miúda em que se vinha de propósito da Figueira às compras à Baixa de Coimbra...e neste momento o que eu vejo são lojas vazias, e tudo a sair da Baixa.
Salve-se a Baixa de Coimbra!!!

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NOTA DO REDACTOR: Primeira questão: admito perfeitamente o contraditório, ou seja, que para além da minha verdade, naturalmente, existem outras -não leve a sério o "bacoco" do texto principal. Ainda bem que comentou o post e, contrariamente a mim, vê as coisas de outra forma. Sinceramente, fico-lhe grato Jorge.
Mas, já que defendi o “incomum”, vamos chamar-lhe assim, tenho de defender a minha dama, como quem diz, apresentar argumentos capazes de o consubstanciar.
Vamos ao primeiro: diz o Jorge que “até concorda com o conteúdo só não concorda com a forma”.

I-Ora, portanto, num ponto estamos de acordo: o conteúdo.
Este “acordo”, tacitamente aceite entre os dois, pressupõe uma declaração de princípio de necessidade do autor, ou seja, um reconhecimento de que teve de fazer alguma coisa para salvar um bem que era seu por direito, mas que estava ameaçado por outro direito -embora, saliento que tenho muitas dúvidas neste invocar a legitimação-, ainda que aleatório, de terceiros. Estaremos então perante direitos conflituantes;


II-Estamos então em desacordo com a forma. Pegando na “forma”, isto é, no instrumento que dá consistência ao conteúdo, verificamos que se trata de pequenos triângulos em pedra pontiagudos colados na pedra base;
Então, em exercício mental, poderíamos aventar outros instrumentos que fossem tão eficazes quanto o primeiro utilizado? Poderemos sim senhor! Quais? Naturalmente, vários, desde pregos, vidros, ácidos, etc. Porém, verificamos que, estes agora apresentados, serão perigosos para a saúde pública e, logicamente não admissíveis. Então, também poderemos perguntar: e as pedras pontiagudas não o serão também? Sim, mas de perigosidade reduzida ou quase nula.
Poderemos ainda interrogar: e então não haveria outras formas mais pacíficas de obter o mesmo resultado? Aqui só vejo uma: seria o autor solicitar à autarquia autorização para colocar um gradeamento ao longo dos rebates. Mas, há uma coisa: quanto iria custar? Mais: implicaria um projecto de alterações à fachada do edifício. Mais ainda: daqui a quanto tempo estaria o autor na posse da licença para a colocação das grades de protecção? Nessa altura, provavelmente, já lhe teria acontecido o mesmo que à “saudosa” Agência Abreu”. Ou seja, em desespero, já teria abandonado aquelas instalações;


III-Não considero esta forma de colocar pedras pontiagudas no chão indignas. Considero sim, a viabilidade possível, para, através de um meio simples e rápido, conseguir persuadir estranhos a prejudicar uma actividade legal;

IV-Diz o Jorge que “alteração das cantarias é proibido por lei”. Ora vamos lá por partes:
1-Salvo melhor opinião, não houveram alterações das cantarias. Houve sim um acoplado provisório, um acrescento necessário para atingir um fim que, na eficácia rápida, não seria possível de afectar de outra forma.
2-Como disse em cima, não devemos esquecer que estamos perante dois direitos conflituantes: um, real, de propriedade, intrínseco, e outro aleatório -para mim muito duvidoso de invocação-, não declarado, e portanto extrínseco. Ora, nestes casos, manda o Direito que se faça a harmonização de interesses e prevaleça o de maior objectividade. É fácil aqui de ver qual é.

BICOS CONTRA A INDOLÊNCIA







 Estas imagens são de uma loja onde, até há cerca de poucos meses, funcionou a “Agência Abreu". Fica situada no Largo das Ameias, ali próximo da Estação-Nova –esta estação, apelidada de nova, dentro de poucos meses, como vai desaparecer, nem sequer passará a velha, morrerá simplesmente. É mais um pouco de nós que se vai.
Continuando, então no assunto que me trouxe à liça, acontece que presentemente está lá um escritório. E o que fizeram eles? Ora veja lá, indigne-se, então não é que eles colocaram bocadinhos de pedra afiada para evitar que as pessoas se sentem no rebate? Faça coro comigo: então isto não é um escândalo? Onde vamos nós parar? Quando não nos facultam o passeio da fama, até nos querem retirar o lancil da indolência? Admite-se isto? Responda…(disse o quê?)…que não se admite?
Desculpe lá mas você é mesmo bacoco. Você só vê o que está à frente dos seus olhos. A sua sorte é ser cliente deste “consultório”, que, apesar de não receitar nada, ensina a ver as coisas de detrás para a frente. Isto é, como se se estivesse atrás do espelho.
E se eu lhe disser que, segundo se consta, a anterior arrendatária, a Agência Abreu, saiu dali por causa de ter companhias pouco desejáveis por perto e que, para cúmulo, estavam sempre sentados ao longo do parapeito da loja? Isto já o faz pensar de outro modo, ou não? Aliás, se reparar na foto de cima, verá que está lá uma pessoa sentada. Só não estarão mais pessoas devido aos incómodos bicos pontiagudos.
É correcto um magote de pessoas que nada faz, vivendo do Rendimento Social de Inserção, estar a perturbar quem trabalha?
Bem sei que até chegar a esta conclusão não é fácil. Isso acontece igualmente comigo. O meu amigo que chamou a atenção para este facto, aparentemente anómalo, estava fixado no óbvio. Naquele momento, também só vi o óbvio. Mas, acho eu, quem escreve para um público leitor, seja grande ou pequeno, tem uma responsabilidade acrescida: não pode embarcar naquilo que, aparentemente, está à frente dos olhos. Em exercício mental, rejeitando o óbvio reflexivo, passando para o outro lado do espelho, tomando em conta que por detrás de uma atitude estará sempre uma causa, tenta chegar à verdade justa, que, mesmo sendo legitima, tantas vezes para lá chegar implica tomadas de força contra o arreigado costume.
É o que tento fazer aqui. Nem sempre o consigo. É normal. Porque, na maioria dos casos, é preciso alguma serenidade e, nem sempre ela está presente, por causa de múltiplas preocupações. Quanto mais se conseguir atingir esse estado de serenidade –a que os budistas apelidam de estado “Zen”-, mais facilmente conseguimos nos transcender acima do comum e apreender o que não é visível.
É óbvio que todos somos comuns, porém, todos diferentes. Inevitavelmente, na metodologia de pensamento, poderemos dividir a sociedade em várias classes ou grupos. Tantos quantos quisermos. Aqui, neste caso, dividirei apenas entre maioria e minoria. Nenhum deles é subalterno. Estarão ambos em paridade no mesmo plano do todo. Umas vezes as maiorias têm razão, outras vezes serão as minorias. Embora tenha a certeza que o “pensar diferente” germina sempre na minoria. Na maioria grassa o pensamento único, o lógico, aquilo que se vislumbra sem pensar muito. Na minoria, procura-se ver para além da nuvem. Com isto não estou a dizer que sou melhor que qualquer um. Umas vezes estarei na maioria, outra vezes na minoria.
Voltando à colocação dos bicos contra a indolência, tenho a certeza de que é um legítimo direito que assiste aos novos locatários daquele espaço.

UMAS RUAS COM MOVIMENTO INVERSO




 Apesar dos transportes urbanos na cidade, hoje, estarem reduzidos ao mínimo –continua a não se entender o porquê de, estando todo o comércio aberto nesta Sexta-feira santa, os transportes colectivos serem reduzidos a um normal feriado ou dia santo. Será que o senhor administrador dos SMTUC, Manuel de Oliveira, como está do outro lado do rio, não saberá que hoje é um dia de trabalho igual a outro qualquer da semana na Baixa? O problema é que todos os anos se verificam a mesma coisa. Deve haver uma razão. Especulando, sei lá!, às tantas, já estou a ver, Manuel de Oliveira, um católico fervoroso, não alinha em materialismos bacocos e não perdoa esta violação do princípio sacro-cristão. Pode ser isso, não pode? Mas também pode ser outra coisa qualquer. O senhor administrador, se quiser explicar-se, faça o favor, tenho uma página inteirinha para si.
 Dizia eu então que apesar de haver poucos transportes colectivos; apesar de as lojas da Baixa estarem vazias –“nuestro hermano” já não alinha em recuerdos, da cidade só quer levar mesmo umas fotos e…comer e dormir, porque tem mesmo de ser-, as ruas estão muito movimentadas. Estas fotos foram tiradas à volta das 15 horas desta tarde de sexta santificada.