Afonso Garcia é um simpático velhote de 91 anos. Mora em Coimbra. Ágil no andar e mais lesto no pensar, este médico-poeta, naturalmente utópico,de uma sensibilidade à flor da pele, uma versão de João semana –até porque conviveu e conheceu muito bem Fernando Namora- tem uma história de vida que se perde nas linhas do fantástico. Ouvi-lo é um gosto. Quando começa, o difícil é parar, e nós, quem o escuta, enleados, a reviver com ele o seu extenso rol de acontecimentos, perdemos a noção de tempo, enquanto contado num qualquer relógio.
Licenciou-se, conta, em Julho de 1945. Estava a 2ª Guerra a terminar no seu armistício, assinado em 2 de Setembro. Poucos anos depois de ter acabado o curso, por volta de 1947, foi colocado em Évora Monte, freguesia do concelho de Estremoz. Esta linda terra alentejana, foi sede do concelho até ao século XIX. Teve foral em 1248. Em 1801 tinha 2 661 habitantes. Em 1849 tinha 3030. Actualmente, tem 724 habitantes (último censo de 2001). Aqui se assinou, em 26 de Maio de 1834 a Convenção de Évora Monte, que pôs termo à guerra civil de 1832-34, travada entre absolutistas e liberais.
Já casado, nos primeiros tempos, deixa a mulher em Coimbra e parte rumo aos confins do mundo, que nesse tempo as distâncias não eram medidas pelos quilómetros percorridos, mas pelas dificuldades em aceder a um determinado lugar de Portugal, com caminhos de picada, em terra batida e com imensos buracos. Basta lembrar que os 17 quilómetros que distavam de Évora Monte A Estremoz eram percorridos em 2 horas e 30 minutos, de carro. Era um caminho picado e sulcado por imensas crateras. Andava 100 metros, aparecia um grande buraco, tinha de se fazer marcha-atrás para o poder contornar. Não haviam nem estradas nem camionetas.
Com o seu Vauxhall usado, oferecido pelo sogro, depois de um dia de viagem, chega então a Évora Monte. Corria então o ano de 1947, esta terra, que se viria a tornar tão querida para Garcia, nesta altura do pós-guerra, era paupérrima do ponto de vista maioritariamente social. Todas aquelas imensas terras, a desaparecerem no horizonte, eram propriedade de meia dúzia de abastados proprietários latifundiários. Garcia lembra-se de alguns nomes. Eram o Fernandes, mais conhecido por menino d’oiro, o José Castelo Branco, o inglês Reynolds e do homem mais rico de toda aquela pradaria: o senhor Coelho. Lembra-se de muitos bons amigos; do presidente da Junta, o Isidoro Chia e do talhante, que esqueceu o nome, mas não olvidou da memória, por ser um bom amigo e dono do único açougue daquela terra abandonada por Deus e pelos homens que comandavam os destinos de Portugal, nomeadamente, Salazar e Óscar Carmona.
Sendo médico, depressa constatou que aqui o que soçobrava era a miséria e a carência de tudo. Não havia posto médico e os próprios instrumentos médicos eram dele. Foi viver para uma casa cedida por aquele que viria a ser o seu grande amigo, Isidoro Chia, o Presidente da Junta. Era aí que dava as consultas. Sim, “dava”, porque praticamente eram dadas. Exceptuando os proprietários abastados, as pessoas não tinham dinheiro. Nem sequer para os medicamentos. Garcia ganhava 5 contos por mês. Como cedo se apercebesse que as pessoas não aviavam os medicamentos, na única farmácia da terra, por falta de liquidez, fez um contrato com o farmacêutico: este serviria os medicamentos aos doentes e, no fim do mês, este médico acertaria contas. Porém, uma cláusula obrigatória: ninguém deveria saber quem era o benemérito. Houve meses que o seu ordenado mensal não chegava para pagar os medicamentos. Algumas vezes teve de transitar, em débito, para o mês seguinte. Mas toda a gente passou a ter aceso a medicamentos.
As consultas eram pagas em géneros. Os mais pobres davam se podiam. Os mais abastados pagavam obrigatoriamente, pela Páscoa e pelo natal, com cabritos, vitelos e porcos. O único modo que Garcia vislumbrou para fazer algum dinheiro foi fazer um contrato com o talhante da terra: ele aceitaria os animais, matá-los-ia, e depois venderia a carne e só então, depois, pagaria ao médico o resultado da venda.
Era uma pobreza impressionante. Este médico lembra-se de fazer imensos serviços de obstetrícia no domicílio das parturientes. Quando era chamado, lá carregava ele a mala com os seus bisturis e fórceps. Era médico para todas as doenças: ginecologia, oftalmologia, obstetrícia, cirurgião e clínica geral.
As crianças andavam quase todas descalças e expostas às intempéries do tempo.
A qualquer simples dádiva faziam fila e esperavam longas horas expostas ao frio ou ao calor. Garcia recorda o latifundiário inglês Reynolds: todos os meses, num determinado dia, em hora imprecisa, passava no seu Rolls-Royce. Quando circulava na praça principal, afrouxava e atirava montes de rebuçados aos miúdos da terra. Os putos, sabendo o dia, chegavam a estar na praça, em magotes, horas a fio à espera do abastado agrário.
Das poucas que iam à escola, muitas delas percorrendo cerca de 15 quilómetros para cada lado, de casa ao estabelecimento de ensino, era comum este médico notar que a maioria levava, como alimentação, para todo o dia, uma fatia de pão, meia-dúzia de azeitonas e um marmelo assado. Este pequeno-almoço “alancharado” era comido debaixo de uma qualquer árvore, fizesse sol ou chuva.
Então uma ideia começou a germinar na cabeça deste clínico: iria fundar uma cantina. Falou com o seu amigo Isidoro Chia, presidente da Junta e este logo abraçou a ideia. Cedeu-lhe imediatamente um pardieiro abandonado. Em seguida, escreveu uma carta ao Ministério da Instrução a solicitar uma verba para iniciar o processo de fundação da cantina…que lhe veio negado. Mas não cruzou os braços. Falou com os grandes e abastados agricultores e estes comprometeram-se a abastecerem a cantina com sacos e sacos de arroz, batatas e carne para todo o mês. O latifundiário Fernandes, o menino d’oiro, de dois em dois meses, entregava um envelope com 5 contos de reis, para as despesas correntes da cantina, como por exemplo, pagar à única funcionária, a cozinheira, que ganhava muito pouco, cerca de 100 escudos por mês, diz Garcia, a propósito. O restante serviço era feito pelos professores e voluntários. Os panelões para cozinhar, na cantina foram oferecidos por um oficial do exército. O mais forreta de todos os latifundiários, curiosamente era o mais rico do grupo de beneméritos: o senhor Coelho. Não tinha filhos. Quando morreu deixou uma fortuna e um imbróglio jurídico in testato aos seus sobrinhos.
Lutando contra ventos e marés, Garcia abriu a cantina com 25 alunos a tomarem o pequeno-almoço e a almoçarem. Chegando mais tarde a ter 120 crianças. Aos mais necessitados continuava a dar alimentação mesmo durante as férias. Todos os aniversários de qualquer criança eram comemorados nas cantinas.
Fundou uma biblioteca pública com centenas de títulos doados, em que as crianças e adultos podiam levar para casa os livros. Aquando da devolução do livro, a pessoa, criança ou adulto, era interrogada, para saber quantas pessoas na sua casa, em serão, assistiram à leitura do livro.
Garcia, durante os 10 anos que permaneceu em Évora Monte, ainda fundou e orientou um rancho folclórico, que viria a ganhar um 1º prémio entre grupos concorrentes. O orientador musical era o senhor Cardoso.
Ao fim de 10 anos transferiu-se, de armas e bagagens para Avis, onde permaneceu até poucos meses antes do 25 de Abril de 1974.
Hoje, mora e vive em Coimbra, onde, com uma agilidade de cinquentão, percorre as ruas estreitas da Baixinha e, quando pode, troca umas impressões com o autor destas linhas, a quem foi cedendo parte da sua história, contada por ele próprio e, sem possibilidades de investigação probatória pelo segundo. Se você, que teve paciência de Jó, chegou até aqui e é da zona de Évora Monte, se souber alguma coisa que possa corroborar esta história, escreva aqui o seu testemunho de conhecimento.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
VERÓNICA NÃO QUER MORRER
Para onde vais Verónica?
Caminhas adormecida,
pareces meia biónica,
mas vais ficar restabelecida;
Corres atrás de um sentimento,
como se para esquecer,
queres viver todo o momento,
Verónica não quer morrer;
"Estou viva", gritas ao vento,
para te fazer escutar,
sabes que tens pouco tempo,
e neste pouco, queres amar;
Todo o passado queres olvidar,
fazer dele recordação,
num baú queres arrumar,
sem mexer no coração;
Ai Verónica, o teu olhar,
tão mortiço de solidão,
eu sei que vais amar,
por que esperas tu então?;
és neflibata e pareces sonhar,
com o teu príncipe, que há-de aparecer,
procura que vais encontrar,
luta Verónica, não te deixes morrer;
E custa tão pouco desejar,
mas tens de ter muita firmeza,
escolher, desbravar, e até lutar,
como se fosses uma Alteza;
Viver é fácil, sobreviver, uma dificuldade,
mas até respirar exige um entregar,
por isso, não te fiques na saudade,
parte rumo ao desconhecido e vai procurar;
Sei que vais encontrar,
e partes cheia de ardor,
tu precisas de amar,
e, podes crer, vais ter o teu amor.
Caminhas adormecida,
pareces meia biónica,
mas vais ficar restabelecida;
Corres atrás de um sentimento,
como se para esquecer,
queres viver todo o momento,
Verónica não quer morrer;
"Estou viva", gritas ao vento,
para te fazer escutar,
sabes que tens pouco tempo,
e neste pouco, queres amar;
Todo o passado queres olvidar,
fazer dele recordação,
num baú queres arrumar,
sem mexer no coração;
Ai Verónica, o teu olhar,
tão mortiço de solidão,
eu sei que vais amar,
por que esperas tu então?;
és neflibata e pareces sonhar,
com o teu príncipe, que há-de aparecer,
procura que vais encontrar,
luta Verónica, não te deixes morrer;
E custa tão pouco desejar,
mas tens de ter muita firmeza,
escolher, desbravar, e até lutar,
como se fosses uma Alteza;
Viver é fácil, sobreviver, uma dificuldade,
mas até respirar exige um entregar,
por isso, não te fiques na saudade,
parte rumo ao desconhecido e vai procurar;
Sei que vais encontrar,
e partes cheia de ardor,
tu precisas de amar,
e, podes crer, vais ter o teu amor.
UM SORRISO INESQUECÍVEL
Quando eu te vi,
o meu peito palpitou,
uma dor senti em mim,
a angústia se instalou;
Olhei os teus olhos,
entrei neles a sonhar,
adivinhei escolhos,
um canhão a ribombar;
Olhei os teus lábios,
pareceram-me tremer,
como velhos alfarrábios,
que não se devia mexer;
Vi as tuas mãos,
quase que as escondias,
sei que eram, mas não são,
as mesmas de todos os dias;
Olhei o teu coração.
senti o seu pulsar,
como estertor de paixão,
a morrer por não amar;
Quase gritei por ti,
num grito rouco sem jeito,
apeteceu-me beijar-te,
apertar-te contra o peito;
Ficámos ali parados,
sem saber o que dizer,
parecíamos espantados,
por saber e não querer ter;
Quando me lembro de ti,
recordo esse teu sorriso,
um oceano dentro de mim,
a turbular-me o juízo.
o meu peito palpitou,
uma dor senti em mim,
a angústia se instalou;
Olhei os teus olhos,
entrei neles a sonhar,
adivinhei escolhos,
um canhão a ribombar;
Olhei os teus lábios,
pareceram-me tremer,
como velhos alfarrábios,
que não se devia mexer;
Vi as tuas mãos,
quase que as escondias,
sei que eram, mas não são,
as mesmas de todos os dias;
Olhei o teu coração.
senti o seu pulsar,
como estertor de paixão,
a morrer por não amar;
Quase gritei por ti,
num grito rouco sem jeito,
apeteceu-me beijar-te,
apertar-te contra o peito;
Ficámos ali parados,
sem saber o que dizer,
parecíamos espantados,
por saber e não querer ter;
Quando me lembro de ti,
recordo esse teu sorriso,
um oceano dentro de mim,
a turbular-me o juízo.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
BAIXA: A DESGRAÇA DA GRAÇA
Dona graça tem um pequeno estabelecimento de hotelaria na Rua Velha, ali na baixa de Coimbra. É dali que, diariamente, extrai o seu sustento e o da sua família. Com muitos suores transpirados, muitos “sapos engolidos”, tantos bêbados aturados, quantas vezes a emprestar o ombro para ouvir dramas, quantas vezes a dar gratuitamente uma sandes à criança romena, assim é o dia-a-dia desta mulher com “M”grande, ao longo de mais de 15 horas diárias passadas no seu pequeno café.
Graça é daquelas heroínas que a história não regista, mas que o povo, na sua memória não esquece. É uma pessoa simpatiquíssima, calma, de trato afável e agradável. Na Baixa todos a conhecem e todos gostam muito dela. Sem o saber, tornou-se numa das muitas árvores-mães desta floresta selvagem em que, no seu impiedoso individualismo, se tornaram as cidades. Cada um olha para o seu umbigo e pouco mais. O que me interessa se o meu vizinho precisa de ajuda? "O que é que eu ganho com isso? Se ele morrer melhor. Eu quero lá saber! Antes ele que eu!" –Pensa cada um para si mesmo.
Graça é inquilina da Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Por um pequeno cubículo, paga cerca de 350euros. A Rua Velha, de três metros de largura, é uma transversal da Rua Eduardo Coelho. Um beco sem saída para quem lá entra e um túnel sem luz para aquela mulher.
Há um ano e meio, com o propósito de iniciar as obras no edifício, a CMC, proprietária do imóvel, que em princípio, se destinará a albergar carenciados, entaipou quase completamente a Rua. Deixou uma nesga de cerca de 80 centímetros, para que Graça acedesse ao seu estabelecimento. Resultado deste acto modelo de completa insensibilidade, o seu pequeno estabelecimento tornou-se um istmo, ligado à Rua dos Sapateiros por uma faixa de calçada onde só pode passar uma pessoa de cada vez. Fruto de estar escondida à força, os prejuízos, para esta mulher, têm-se somado ao longo deste ano e meio. De tantas vezes caminhar para a autarquia, as pedras da calçada já conhecem de cor e salteado o seu andar ligeiro e decidido. De engenheira em director de serviços, Graça, sente ser uma bola de pingue-pongue. Ninguém a escuta e sente-se completamente ostracizada por uma administração que ao invés de ser sensível aos problemas de quem trabalha, num completo autoritarismo, assobia para o lado. Mas Graça não desiste e vai vencer; escrevam nos seus livros negros os burocratas autistas e incompetentes
Devido a este entaipamento forçado, durante o último mês de Setembro, o estabelecimento de Graça foi assaltado 3 vezes durante a noite e uma vez durante o dia com recurso a violência espelhado nos hematomas deixados no seu pescoço. Este mês de Outubro, que vai no princípio, já voltou a ser assaltada, mais uma vez .
Como se toda esta desgraça fosse insuficiente para esta graça de mulher, no feriado do 5 de Outubro, a coberto de estar encerrado o estabelecimento, o empreiteiro da obra, certamente a mando de quem lhe paga, ou seja a CMC, tratou de tornar ainda menor o espaço visual da Rua velha. Começou a prolongar o entaipamento para a frente e a passagem, que era já estreita de 80 centímetros, ia passá-la para 60. Ia –disse bem- só que não contava que Graça, por ser feriado, estivesse no estabelecimento. Quando ela se apercebe daquele acto cobarde e de má fé, desata aos gritos e toda agente acorreu. Porém, o empreiteiro, pago para cumprir e não para pensar no prejuízo que pode causar aos outros, continuou como se nada fosse com ele. Até que viu a sua integridade em perigo. Podia ter perdido ontem ali a vida. Graça, uma mulher habitualmente serena e calma, pegou numa rebarbadora, com ela ligada e em riste dispôs-se a limpar um ou dois verdugos. Só então todos pararam. E se tivesse acontecido uma desgraça? A autarquia é uma entidade abstracta, mas constituída por pessoas. Se tivesse acontecido uma desgraça poderiam dormir descansados? Claro que podiam porque não têm consciência e, nos seus actos, são irresponsáveis…até um destes dias.
O que aborrece Graça é pensar que o seu senhorio, a CMC, usa estratagemas de má fé, porque parece querer a obrigá-la a desistir através de meios condenatórios e pouco éticos. Mas se pensam nisso, tirem o cavalinho da chuva. Hão-de mudar de residência muito antes do que ela.
E tem razões de sobejo para pensar assim: A CMC, nas obras particulares, no seu Regulamento, prevê que todos os andaimes montados no Centro Histórico devem ser aéreos, de modo a não obstruir os prédios ao nível do Rés-do-chão. Ora, sendo assim, nas suas obras, porque não cumpre a Câmara o seu próprio Regulamento?
Graça é daquelas heroínas que a história não regista, mas que o povo, na sua memória não esquece. É uma pessoa simpatiquíssima, calma, de trato afável e agradável. Na Baixa todos a conhecem e todos gostam muito dela. Sem o saber, tornou-se numa das muitas árvores-mães desta floresta selvagem em que, no seu impiedoso individualismo, se tornaram as cidades. Cada um olha para o seu umbigo e pouco mais. O que me interessa se o meu vizinho precisa de ajuda? "O que é que eu ganho com isso? Se ele morrer melhor. Eu quero lá saber! Antes ele que eu!" –Pensa cada um para si mesmo.
Graça é inquilina da Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Por um pequeno cubículo, paga cerca de 350euros. A Rua Velha, de três metros de largura, é uma transversal da Rua Eduardo Coelho. Um beco sem saída para quem lá entra e um túnel sem luz para aquela mulher.
Há um ano e meio, com o propósito de iniciar as obras no edifício, a CMC, proprietária do imóvel, que em princípio, se destinará a albergar carenciados, entaipou quase completamente a Rua. Deixou uma nesga de cerca de 80 centímetros, para que Graça acedesse ao seu estabelecimento. Resultado deste acto modelo de completa insensibilidade, o seu pequeno estabelecimento tornou-se um istmo, ligado à Rua dos Sapateiros por uma faixa de calçada onde só pode passar uma pessoa de cada vez. Fruto de estar escondida à força, os prejuízos, para esta mulher, têm-se somado ao longo deste ano e meio. De tantas vezes caminhar para a autarquia, as pedras da calçada já conhecem de cor e salteado o seu andar ligeiro e decidido. De engenheira em director de serviços, Graça, sente ser uma bola de pingue-pongue. Ninguém a escuta e sente-se completamente ostracizada por uma administração que ao invés de ser sensível aos problemas de quem trabalha, num completo autoritarismo, assobia para o lado. Mas Graça não desiste e vai vencer; escrevam nos seus livros negros os burocratas autistas e incompetentes
Devido a este entaipamento forçado, durante o último mês de Setembro, o estabelecimento de Graça foi assaltado 3 vezes durante a noite e uma vez durante o dia com recurso a violência espelhado nos hematomas deixados no seu pescoço. Este mês de Outubro, que vai no princípio, já voltou a ser assaltada, mais uma vez .
Como se toda esta desgraça fosse insuficiente para esta graça de mulher, no feriado do 5 de Outubro, a coberto de estar encerrado o estabelecimento, o empreiteiro da obra, certamente a mando de quem lhe paga, ou seja a CMC, tratou de tornar ainda menor o espaço visual da Rua velha. Começou a prolongar o entaipamento para a frente e a passagem, que era já estreita de 80 centímetros, ia passá-la para 60. Ia –disse bem- só que não contava que Graça, por ser feriado, estivesse no estabelecimento. Quando ela se apercebe daquele acto cobarde e de má fé, desata aos gritos e toda agente acorreu. Porém, o empreiteiro, pago para cumprir e não para pensar no prejuízo que pode causar aos outros, continuou como se nada fosse com ele. Até que viu a sua integridade em perigo. Podia ter perdido ontem ali a vida. Graça, uma mulher habitualmente serena e calma, pegou numa rebarbadora, com ela ligada e em riste dispôs-se a limpar um ou dois verdugos. Só então todos pararam. E se tivesse acontecido uma desgraça? A autarquia é uma entidade abstracta, mas constituída por pessoas. Se tivesse acontecido uma desgraça poderiam dormir descansados? Claro que podiam porque não têm consciência e, nos seus actos, são irresponsáveis…até um destes dias.
O que aborrece Graça é pensar que o seu senhorio, a CMC, usa estratagemas de má fé, porque parece querer a obrigá-la a desistir através de meios condenatórios e pouco éticos. Mas se pensam nisso, tirem o cavalinho da chuva. Hão-de mudar de residência muito antes do que ela.
E tem razões de sobejo para pensar assim: A CMC, nas obras particulares, no seu Regulamento, prevê que todos os andaimes montados no Centro Histórico devem ser aéreos, de modo a não obstruir os prédios ao nível do Rés-do-chão. Ora, sendo assim, nas suas obras, porque não cumpre a Câmara o seu próprio Regulamento?
terça-feira, 2 de outubro de 2007
BAIXA DE COIMBRA: ESCOLHER O MAL MENOR
Na 2ª feira, dia 1 de Outubro, um comerciante da Baixa, com o coração ao pé da boca, emotivamente, de improviso, denunciou o que, a seu ver, constitui uma profunda e descarada omissão das instituições responsáveis pela segurança dos seus munícipes, na prevenção e no combate ao crime contra o património. Sendo ele também uma vítima, referia-se, nomeadamente, aos assaltos constantes e diários, durante a noite, a lojas e a residências. Perante os autarcas, e, em particular o Presidente da Câmara e alguns vereadores, em tom acusatório, referiu a insensibilidade e o pouco empenho no desempenho para que foram legitimamente eleitos.
Uns dias antes, este comerciante falou pessoalmente com um dirigente de uma entidade ligada aos comerciantes a dar-lhe conta de que iria desenvolver “demarches” no sentido de abanar as consciências adormecidas dos políticos partidários, com assento parlamentar na autarquia. Deu-lhe conta de que a situação era insustentável. Humildemente, tentou mostrar-lhe a necessidade de ser a sua organização a liderar o processo, uma vez que aparecendo alguém, fora do sistema, a reivindicar segurança, tal acto, perante os comerciantes, mostraria, a nu, mesmo que sendo injustos no seu juízo de valor, a ineficácia de um ente vocacionado para o “lobing” perante a administração.
Este dirigente declinou tal convite, assim como mostrou profunda aversão ao facto de se darem a conhecer os assaltos na Baixa ao público em geral e, em particular, na imprensa. Referiu que tais anomalias, quando “escarrapachadas” nos jornais eram muito prejudiciais ao Centro Histórico. “Afastava ainda mais as pessoas, pelo sentimento de insegurança que causava nos leitores”. Ao ser-lhe perguntado se, a seu ver, se deveria estar calado, aquele dirigente enumerou as várias reuniões havidas com a administração encarregue da segurança da urbe e ainda outras que estavam programadas proximamente.
No mesmo dia, o tal comerciante orador de improviso na Assembleia, contactou o presidente da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu, ao qual expôs o mesmo assunto. Deste, recebeu total apoio, bem como ainda alguns conselhos na melhor forma de fazer passar a mensagem.
Depois destas duas tomadas de posição tão diferentes entre si, nomeadamente a posição de um dirigente de uma organização ligada à defesa do comércio e do Presidente da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu, tentemos, por momentos analisar o procedimento de um e de outro. Ou seja, no caso do dirigente, deverão ser postos, imaginariamente, nos pratos de uma balança, os dois males – o prejuízo causado à Baixa pela divulgação das notícias, por um lado, e, por outro, os repetidos assaltos aos comerciantes. Assim sendo, qual destes males, não sendo nenhum deles de estimação, qual se deve optar? Qual é o menos gravoso? Penso que isso é evidente. Menos para o dirigente. Para ele e outros, deve-se enterrar a cabeça na areia, no buraco do politicamente correcto e fazer o jogo do “faz de conta” de que “no lo passa nada”. Afinal o que é que são umas dezenas de lojas assaltadas? Pouca coisa. O que interessa é que pareça que está tudo bem. Afinal sempre existiram mártires. E os comerciantes assaltados, em nome da nomenclatura deveriam estar calados. "Estafermos! A porem o interesse individual acima do bem comum. Por aqui se vê a crise do patriotismo e, neste caso, da cidadania". Na óptica deste dirigente, cidadania não é denunciar. Nada disso. É precisamente o contrário: calar. Mesmo que sacrifique a maioria em prol de uma minoria. Isto quer dizer que é preciso, com urgência rever o Direito Constitucional. Está tudo mal.
Para o Presidente da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu, uma salva de palmas. Esteve e está muito bem, sempre ao lado dos mais prejudicados.
ABAIXO O CHORADINHO
Quando eu morrer, qualquer dia,
não quero gente a chorar,
quero sentir alegria,
de ninguém se lamentar;
Quero uma grande festa,
com cantares que eu cantei,
quero partir desta,
da mesma forma que entrei;
Quero um bolo muito grande,
vinho tinto a jorrar,
quero ter gente feliz,
para me acompanhar;
Para tristeza já me basta,
a vida que eu levei,
agora que já estou livre,
quero dar o que não dei;
A vida é uma passagem,
entre o nascimento e a morte,
é um vento, é uma aragem,
um virar de página, um corte.
não quero gente a chorar,
quero sentir alegria,
de ninguém se lamentar;
Quero uma grande festa,
com cantares que eu cantei,
quero partir desta,
da mesma forma que entrei;
Quero um bolo muito grande,
vinho tinto a jorrar,
quero ter gente feliz,
para me acompanhar;
Para tristeza já me basta,
a vida que eu levei,
agora que já estou livre,
quero dar o que não dei;
A vida é uma passagem,
entre o nascimento e a morte,
é um vento, é uma aragem,
um virar de página, um corte.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
CARTA A UM ROSTO CONHECIDO
Esse teu sorriso encantador,
desconcerta-me, faz-me voar,
diz-me algo, fala-me, por favor,
uma frase tua e irei sonhar;
Esses teus olhos marotos,
são imensos como o mar,
sejam direitos ou canhotos,
gostaria de te amar;
Essa tua boca prometedora,
parece a entrada do paraíso,
tens uma alma eternecedora,
faz-me perder o juízo;
O teu rosto é belo demais,
para um qualquer jardim,
tão diferente entre os tais,
que me faz pensar assim;
Se é tão belo porque sem dono?
Eu sei, não abdicas da tua liberdade,
és generosa, trabalhas p'ro bono,
porquê esse olhar de saudade?
Aposto que muito amaste,
um ingrato, não te mereceu,
por ele tanto choraste,
afinal, uma pena, tudo morreu;
Eu sei que és especial,
basta-me olhar para ti,
és incapaz de fazer mal,
muito menos para mim;
Não percas a esperança lindinha,
o mundo é imenso e variado,
vai haver um qualquer perninha,
que ficará embeiçado;
Mas se estás só porque sorris?
è dos outros ou é de mim?
Não sei porque te ris,
se é para mim, se é de ti;
Eu sei que rir é tão bom,
viver uma felicidade,
é música num certo tom,
é reviver a saudade;
Todos vivemos "aquela" recordação,
tão esquecida pelo tempo gastador,
mesmo assim, não queres voltar atrás, não,
tu procuras um grande amor;
Sei que o vais encontrar,
mesmo não sendo eu presciente,
basta começares a olhar,
é ele estará presente.
desconcerta-me, faz-me voar,
diz-me algo, fala-me, por favor,
uma frase tua e irei sonhar;
Esses teus olhos marotos,
são imensos como o mar,
sejam direitos ou canhotos,
gostaria de te amar;
Essa tua boca prometedora,
parece a entrada do paraíso,
tens uma alma eternecedora,
faz-me perder o juízo;
O teu rosto é belo demais,
para um qualquer jardim,
tão diferente entre os tais,
que me faz pensar assim;
Se é tão belo porque sem dono?
Eu sei, não abdicas da tua liberdade,
és generosa, trabalhas p'ro bono,
porquê esse olhar de saudade?
Aposto que muito amaste,
um ingrato, não te mereceu,
por ele tanto choraste,
afinal, uma pena, tudo morreu;
Eu sei que és especial,
basta-me olhar para ti,
és incapaz de fazer mal,
muito menos para mim;
Não percas a esperança lindinha,
o mundo é imenso e variado,
vai haver um qualquer perninha,
que ficará embeiçado;
Mas se estás só porque sorris?
è dos outros ou é de mim?
Não sei porque te ris,
se é para mim, se é de ti;
Eu sei que rir é tão bom,
viver uma felicidade,
é música num certo tom,
é reviver a saudade;
Todos vivemos "aquela" recordação,
tão esquecida pelo tempo gastador,
mesmo assim, não queres voltar atrás, não,
tu procuras um grande amor;
Sei que o vais encontrar,
mesmo não sendo eu presciente,
basta começares a olhar,
é ele estará presente.
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