sábado, 29 de setembro de 2007

O QUE TENS NOBRE ANIMAL?



Porque olhas para mim cãozinho,
com esse olhar ternurento,
queres uma festa no focinho,
para não ficares macilento?
Porque estás tão esquálido,
pareces até magrito,
a verdade é que estás pálido,
apetece dar um grito;
Sofres de solidão?
Não. Isso compete ao humano,
mas tu também tens coração,
não és nenhum marciano;
Tens fomita se calhar,
ou alguém te abandonou,
poucos sabem o que é amar,
um ser que alguém desprezou;
Há gente má que nem consigo,
entender o porquê de maltratar
esquecem que és um amigo,
Que se deve estimar;
vai cãozinho leva esta festa,
é tudo o que posso dar,
vou dormir uma sesta,
nisso, não quero pensar.

POSSO LER A TUA SINA, ALBERTINA?

Dá-me a tua mão Albertina,
Para ver a linha da vida,
Deixa-me ler a tua sina,
Vou contar-te a tua lida;
Persegues uma paixão,
Se aparecer tu dás um berro,
Amarraste o coração,
Com grilhetas de anéis de ferro;
Mas é bom nunca mostrar,
quem muito gosta de ti,
se mostrar vais desprezar,
por ele pensar assim;
Se não te deram amor,
na tua marcante infância,
como podes dar valor,
e ligar-lhe importância?;
Construíste uma armadura,
que usas como semântica,
poucos sabem que não és dura,
tens uma alma romântica;
Quem entrar no teu olhar,
vai ver outra tão diferente,
até parecer adivinhar,
do que inferes ele sente;
Abre o coração Albertina,
escancara as tuas portadas,
mostra ao mundo a outra Tina,
que sonha e vive acanhada;
Fazes crer que és tão forte,
mas sofres de solidão,
basta atentar no teu porte,
para ler a tua mão.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

ASSALTOS NA BAIXA DE COIMBRA: O ESCÂNDALO

(FOTO DE BRAGA PINHEIRO)


 Dona Graça chora desalmadamente. Apoia o seu queixo redondo no braço esquerdo sobre o balcão do seu estabelecimento. As lágrimas correm copiosamente no seu rosto de menina que o tempo, pela força de 16 horas diárias de trabalho, ao longo de várias décadas, foi deixando marcas de impregnada e indisfarçável dureza. É um dó ver esta mulher, naquela expressão máxima de sofrimento, modelo de uma Madalena, a soluçar de dor, de olhar sofrido, vazio , procurando algo ou alguém a quem o possa amarrar e fazer dele, por momentos, um porto de abrigo, e nele poder, em catarse, despejar toda a revolta que lhe vai na alma.
Graça foi assaltada esta noite, de 27 para 28 de Setembro, pela quarta vez durante este mês. Nesta noite, de maiores consequências que as anteriores, o seu estabelecimento, com grades de ferro, foi arrombado e vandalizado. Foram roubados, além de várias centenas de euros em dinheiro, vários quilos de chouriços, vinhos finos, licores e várias cervejas. Ao seu lado, Lurdes, com sapataria ali ao lado, nesta mesma manhã, teve a pior surpresa da sua vida: do seu armazém foram roubados cerca de 50 pares de botas, de colecção de Inverno que recebera há menos de uma semana. Este montante, ainda não pago ao fornecedor, ascenderá a cerca de 4000 euros. De olhos húmidos, doridos e encovados, quando lhe pergunto como se sente, fixa-me e responde: “ódio, frustração e incapacidade de nada poder fazer. Como é que vou aguentar esta vida?”.
Há comerciantes a dormirem dentro das lojas de caçadeira engatilhada, há espera do primeiro que se aventure. Quando morrer gente, que, no limite, poderão ser inocentes, será nessa altura que as instituições vão reagir? E quando falo em instituições, falo no Governo Civil, na Câmara Municipal e no Comando da Polícia de Segurança Pública.
O senhor Governador Civil entende que o Presidente da Câmara deve abrir concurso para guardas nocturnos. Carlos Encarnação, o presidente da autarquia, rejeita responsabilidades na segurança da urbe e, peremptoriamente, afasta a hipótese desta solução e remete o problema para o Comando da PSP. Para o Comissário Rui Moura “a Baixa é policiada todos os dias e este corpo de polícia tenta rentabilizar ao máximo os recursos de que dispõe. Sobre meia dúzia de estabelecimentos no fim de semana, e de acordo com os dados de que dispunha, não havia referência de que tivessem alarmes”. (Sic) –in Diário de Coimbra de 12 de Setembro último.
Ou seja, se atentarmos, todos passam a bola ou para o parceiro do lado ou, no caso do Comissário, passa o ónus para os homens do comércio. Neste driblar de bola, os desgraçados dos comerciantes, sem ordenado, sem direito a aposentação, a sofrerem diariamente assaltos e a insensibilidade de quem deveria ter a responsabilidade pela sua segurança, são o mexilhão deste mar revolto de marinheiros sem “gana” para conduzirem a bom porto esta nau da Taprobana. Sofram comerciantes. Talvez para o ano, depois de milhentas reuniões e quando vocês não tiverem nada para roubar, então sim, irão ter mais policiamento. Não se enervem. Vamos com calma, sim? Não façam ondas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O OUTONO... E AS NOSSAS VIDAS

Depois de dias longos, plenos de luz e cor, prenhes de temperaturas quentes, vitalidade de mais um verão, que, pelo bem ou pelo mal, por uma recordação qualquer, ficou preso na nossa memória, pé-ante–pé, com sapatinhos de algodão, eis que, devagarinho, vai conquistando o seu território. Começa por cortar no “espaço” dos dias, tornando-os mais pequenos, mostrando-nos que tudo o que é longo, inevitavelmente, tornar-se-á pequeno. Depois, vai impondo um progressivo calor tépido e mais frio, como a sensibilizar-nos para a necessidade de tomar atenção de que os calores não são eternos, e a seguir a um período “caliente”, inexoravelmente, virá um frio de rachar.
Aí está o Outono. Depois de um revestimento de verde, como plumas a cobrir uma ave exótica, as árvores do nosso encantamento vão ficar despidas. Iremos, quase sem querer, numa qualquer avenida, chocar com uma folha amarelecida, que, antes de outras que se lhes irão seguir, tendo-se desprendido dum qualquer ramo, de um qualquer plátano, esvoaça ao vento, ziguezagueando, por entre transeuntes, uns mais apressados, que irão pontapeá-la ou pura e simplesmente ignorá-la, e nós, feitos poetas de ocasião, segui-la-emos, e nela, prendendo o nosso olhar, gostávamos de se deixar ir, ao sabor do vento e de um tempo impreciso e ocasional. As andorinhas, feitas viajantes pela força da natureza, começarão a fazer as “malas” e, sem desgostos ou frustrados desenganos, abandonarão os seus beirais, que durante escassos meses, foram os seus lares e ali assistiram ao nascimento dos seus filhos. Nestes ninhos deixarão mil recordações, mas mesmo assim, com o mesmo chilrear, com a mesma alegria, aceitando esta partida como natural, como uma partilha que irão levar aos povos do norte de África. Para a próxima primavera, sem lamentos, aí estarão elas, novamente, pujantes de força, e refarão os berços dos seus novos filhos e comporão as suas vidas.
Assim é a nossa vida. Tão cheia de calor como um verão, teremos, inevitavelmente, períodos frios, mas, como na natureza, as temperaturas quentes retornarão. E, se por motivos imponderáveis, nos tornámos andorinhas, aceitemo-lo, com a mesma naturalidade com que estas acolhem o seu destino fatalista. Não tenhamos medo de voar em frente. Quem sabe se no norte não estará um outro futuro sorridente. Porque haveremos, acomodados, de ter medo do desconhecido e de abandonar o nosso beiral? Serão apenas as recordações que nos prendem? Valerá a pena continuarmos no aconchego cómodo do ninho, mesmo não nos sentindo amados e pouco reconhecidos, só porque tememos os ventos desconhecidos do incerto? Porque não voarmos até ao norte? Se não nos dermos bem, com a mesma certeza de que amanhã será outro dia, no próximo ano haverá outra primavera e, certamente, como as andorinhas, começaremos de palha em palha a construir um outro ninho.
A natureza é tão pródiga nos ensinamentos e nós, como folha que esvoaça ao vento, sem se preocupar onde vai cair e sem olhar em redor, como invisual que vê mas não quer ver…não vemos.

FALA COMIGO DORA!

Boa tarde menina Dora,
tenho prazer em falar,
sei que não vai ser agora,
que se vai pronunciar;
Esse seu medo fatal,
deste ciber desconhecido,
pode crer, não faz bem, nem faz mal,
tem um valor acrescido;
Não fala porque sou feio?
serei casado, talvez?
realmente isto é um meio,
que tanto faz como fez;
Mas eu só quero conversar,
até porque você é casada,
não a quero molestar,
de si, não pretendo nada;
Você é linda, bem sei,
e não liga a qualquer um,
mas eu até sei que serei,
mais igual do que nenhum;
Gosto desse seu ar terno,
olhos de sofredora,
posso ser um sepiterno,
mas na alegria você é amadora;
Era capaz de a descrever,
contar tudo em pormenor,
pois ficaria a saber,
de tudo ao seu redor;
Essa tristeza a vai matar,
se não encontrar um ombro amigo,
o melhor é partilhar,
essa dor que tem consigo;
O que a fará desconfiar,
será que sou um malfeitor?
Ou querei ajudar,
a dirimir essa dor?;
Quem serei eu? Interroga surdamente,
Sou um viajante virtual,
que lhe quero bem, evidentemente,
nada me move de mal;
Essa sua tristeza me atrai,
como se eu fosse presciente doutor,
acredite, um dia cai,
você vai ter um grande amor.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

"MAMÃ...ESTES HOMENS SÃO UNS PARVOS!"

“Somos três mulheres quarentonas, uma casada, uma divorciada e outra ainda solteira. Trabalhamos num serviço público, ali na zona centro, do país. Por brincadeira, resolvemos inscrevermo-nos, cada uma com seu nique, num chat de encontros amorosos. Desde cedo, começámos a notar uma grande afluência de homens, pedindo para falarem connosco. Quando atendíamos, talvez em mais de 90% destes homo sapiens, era sempre: “olá…queres ir para a cama comigo?”. No princípio ficámos sem reacção. Como era possível que uma tão grande maioria do género masculino fosse tão abstruso? Que diabo, se ao menos começassem por ter uma conversa decente, como gente normal e, depois, no seguimento da conversa, pudessem descambar para o sexo, nem nos escandalizaria tanto. Afinal nós sabemos como são os homens; parecem ter uma vagina na cabeça de cima e um pénis na de baixo, que sem “cabeça”, atira em todas as direcções, desde que seja mulher . Mas sempre acreditámos que haveria, por parte destes alguma sensibilidade. Que diabo, quem pensam eles que somos? Algumas prostitutas de esquina? Claro que lhes poderíamos dizer que enganar uma mulher é a coisa mais fácil do mundo, desde que nos conquistem. Se derrubarem a porta do coração, se conquistarem a nossa alma, recebem um prémio suplementar, ou seja, dois em um: tomam a nossa alma, e como prémio, recebem o nosso corpo. Mas eles não sabem. Escravos da sua líbido, fazem o contrário primeiro querem o corpo e só depois vão à alma. Mas, porque estou eu aqui a lamentar-me? Nem vale a pena. É perda de tempo. Vamos mas é à história.
Como a lenga-lenga era sempre a mesma começámos a idealizar a melhor forma de retirarmos gozo disto. Afinal o que nos movia, às três, era apenas a brincadeira pura e simples. Uma estava bem casada, outra muito bem divorciada e outra ainda, voluntariamente, solteira por opção. Vai daí, combinámos as três, sempre que nos caísse um engatatão destes, e que entrasse a matar, responderíamos na mesma forma.
Começámos por comprar um número de telemóvel apenas para aquele efeito. Sempre que nos calhasse em sorte um destes malacuecos, haveríamos de os fazer pagar bem caro a ousadia de nos considerarem de “fáceis”. Sim pagar, mas a dinheiro, em chamadas de telemóveis. Em brincadeira, inventámos um novo serviço de chamada, não de valor acrescentado, mas a custo normal. Estes homens que não se preocupassem que cada gemido fingido nosso seria bem pago à operadora do telefone móvel. Então era só pedir-lhes para eles ligarem para o número indicado. E, naturalmente, como sedento vai ao pote da água, eles ligavam.
Os diálogos seriam sempre partilhadas pelas três. Ou seja, tornámos isto num quadriálogo. Durante a mesma conversa íamos trocando. Para nossa surpresa os mastronsos nunca notaram que estavam a falar, durante a mesma conversa, com três mulheres diferentes e com vozes de timbre completamente desigual.
A história repete-se imensas vezes. O recalcado sexual liga para o chat, lá vem o convite, e nós pimba: ele diz “mata”, a gente “esfola”. É só pedir-lhe para ele ligar para o número tal, e aí temos nós divertimento à fartazana, como quem diz, riso a cair para o lado. Já tem acontecido a impossibilidade de conter o nosso gozo hilariante e os risos serem audíveis e nem assim eles se apercebem.
Às vezes chegam a estar uma hora a falar. E nós, como perdidas, partimo-nos todas a rir. Por exemplo, temos um “cliente” do norte que, há cerca de um ano, nos liga todos os dias, quatro e cinco vezes . De vez em quando fala de nos encontrarmos, mas, evidentemente que para nós ainda não é possível. Arranjamos sempre uma desculpa. Depois, se ele é do norte nós somos do Algarve, se ele é do sul, nós somos do norte.
Como nós temos três niques diferentes, já aconteceu marcarmos encontro com o mesmo homem, no mesmo dia, em horas diferenciadas. E no mesmo local. Para o gozo ser completo, ele terá de vir de muito longe, quanto mais longe melhor. Algumas vezes, sem que ele saiba , estamos as três a observá-lo. A medir a sua ansiedade. Vamos intervalando com umas mensagens e o desgraçado espera...e desespera.
Já aconteceu aparecermos as três juntas ao encontro . Os apaniguados nem sabem onde se meter. Deveriam ficar agradecidos pela grande lição, mas nós sabemos que continuarão a fazer igual. É pena não é? E às vezes até nem são maus de todo. Mas que mulher pode aproveitar um mostrengo destes?
Ai mamã…bem tinhas razão quando, em criança, me avisavas que os homens não são confiáveis e prestam para muito pouco…”

(HISTÓRIA VERÍDICA)

UM ANJO DE OLHOS VERDES

(IMAGEM DA WEB)




Olhos verdes são traição,
diz o povo sempre assim,
mas, se eu fizer uma oração,
talvez Deus te cole a mim;
Se eu pudesse te prender,
amarraria o teu olhar,
enrolava-me nos teus olhos,
para nunca mais me soltar;
Bem sei que me tentas evitar,
escondes-te numa tina,
podes te esfumar ou levitar,
não podes fugir à tua sina;
Recebe estas flores,
são rosas do meu jardim,
por mais longe que tu corras,
jamais te esquecerás de mim;
A primeira vez que te vi,
prendeste-me o coração,
tanto lá como aqui,
num amor de perdição;
Podes achar que sou louco,
só um louco procede assim,
pode até te parecer pouco,
querer-te bem e junto a mim.