O telemóvel retiniu, eram oito horas da manhã. Do outro lado uma voz angustiada de mulher. Chorava e estava tão inquieta, quase em pânico, que impressionava: “tio, tem de me ajudar! Cá em casa tudo corre mal. O meu pai está muito mal. A minha mãe mal se pode mexer. A minha filha zangou-se com o namorado, tratou-a mal e ele saiu de casa. Ela tem andado intratável, hoje foi ter com ele. O meu marido anda a maltratar-me. Tem de ajudar-me, tio…tenho de “sair”…tenho de ir a “qualquer lado”-apelava com sofreguidão.
Depressa verifiquei que não era o tio daquela mulher. Por compreensão, e talvez alguma curiosidade mórbida à mistura, continuei a ouvi-la e interroguei-a onde queria ela ir, afinal? “A uma mulher, dessas que tiram o mau olhado, tio, cá em casa anda coisa”. Vamos com calma, tentei confortar, o teu pai o que tem? “Está muito doente, tem a barriga muito inchada”. Calculei que o homem já devia ter muita idade e atirei: “sabes a idade não perdoa, de qualquer modo porque não o levas ao hospital? Quanto ao teu marido, tenta suavizar as coisas, é evidente que ele anda enervado com a vida da tua filha. Quanto à tua filha, não ligues, deixa-os arranharem-se, eles depressa esquecem a dor e vão novamente um para junto do outro, como está a acontecer. Tu estás fragilizada. Não te deixes levar nessas mulheres que dizem expurgar o mal de inveja. Elas apenas querem dinheiro. Deixa correr as coisas a natureza encarregar-se-á de refazer o equilíbrio”.
“Acha tio? Não devo fazer nada?” –Nada mesmo, repliquei. “Obrigado tio, vou fazer isso!”. Durante mais de cinco minutos eu fora, sem a mulher saber, um tio omnipresente, moral, de apoio psicológico, criado à pressão, na justa medida da sua necessidade. Não sei se se apercebeu que eu não era o tal tio, irmão da mãe ou do pai dela, mas um outro tio qualquer. O que importou ali é que a mensagem passou, e ela, pelas minhas palavras sugestionáveis ou não, ficou melhor. Não precisou de ir “à tal mulher” e amanhã, certamente, tudo vai normalizar-se, ou não. As vidas de cada um seguirão o seu rumo. Os velhos melhorarão ou piorarão, é inevitável. O marido da mulher, acalmará a sua ira, ou não. Os namorados irão recompor-se ou separar-se-ão. Tudo isto, nas sua inevitabilidade, é a vida, é a lei da natureza na sua dinâmica natural.
Quem compreender esta fatalidade inexorável, pode facilmente passar por adivinho.
Não entrarei aqui num outro mundo ainda pouco conhecido e chamado à colação em meados do século XIX, por Allan Kardec, pseudónimo de Hippolyte Rivail, iniciador e fundador da doutrina espírita, assente nas ciências e na filosofia, e mais conhecida como parapsicologia. Esse mundo, ainda pouco conhecido, apenas será comum no que toca ao desconhecido e nunca terá nada a ver com quem, aproveitando-se da fragilidade e ignorância das pessoas, extorque umas centenas de euros aos incautos crédulos.
Os olhares são simplesmente, isso mesmo… olhares. Dentro de uma panóplia diversificada, podem ser melosos de amor, famélicos de atenção, furibundos de raiva, ou luxuriosos de desejo. Mas a sua acção nunca será pragmática. Do tipo do super-homem, com a sua visão de raios x. Um olhar venenoso apenas o será se o receptor o aceitar como tal, e, nesse caso, o mau olhado será eficaz.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
domingo, 29 de julho de 2007
A PRIMEIRA NOITE DA MINHA NOVA VIDA
Eu sabia ao que ia. Não esperava mantos de prantos nem gritos desesperados de “não me abandones”, como se estivesse a viver um filme de terceira série. A verdade é que o epílogo, ou o começo de um novo capítulo, já se começara a delinear há muito. Ambos, antecipadamente, começáramos a traçar planos há muitos meses atrás. Este final infeliz ou começo feliz –o tempo o dirá- fora pensado e cuidadosamente planeado com cenários hipotéticos, ensaiados mentalmente, como tentando prevenir fenómenos marginais. Esta peça teatral perdeu o seu prazo de validade. Estava obsoleta. Nada dizia aos mais novos. O público assistencial diário à representação resumia-se a quatro pessoas. Nós dois, actores, e dois filhos. Que, precisamente pela ligação platónica, assistiam na plateia, sem disfarçar enfado, entre um bocejo e um dormitar, a uma cada vez mais medíocre representação. Eram constantes as discussões. A culpa do insucesso da peça, ora era meu, ora era dela. Dependia dos dias.
Estávamos a encarnar, nesta trama, os papéis principais de actores pouco reconhecidos publicamente. Afinal este fora o nosso único papel em que entrámos juntos e saímos separados. Nunca teve muito público. Quando começou, há 30 anos anos, a ser exibida, foi um sucesso de bilheteira. Não que a história da peça fosse muito original ou diferente do que qualquer outra. Dois jovens que casam cedo, quase na puberdade, sem qualquer experiência de vida, fugindo ao controlo cerrado dos pais dela. Ambos sem nada, nem dinheiro para comprar fosse o que fosse. Ele, pé descalço assumido, querendo construir algo material, que lhe permitisse um dia a ele e a toda a sua família levarem uma vida melhor do que ele levara até aí. Para que os seu filhos não tivessem de sentir vergonha de um qualquer grupo e se sentissem integrados, não tendo que se autoexcluir pelos seus imensos complexos de inferioridade por serem muito pobres. Como se depreende uma “estória” corriqueira, tão própria daquela geração, sonhadora, fatalista e construtora, dos nascidos na década de 1950.
Lembro-me, do dia da estreia, toda a família assistiu. Vieram imensos amigos e até aqueles que depois desse dia nunca mais voltámos a ver. Uns morreram na nossa memória, outros procuraram naturalmente, sem que déssemos por isso, outras vidas, ou outro mundo periférico. Hoje o que resta deles é pouco mais do que um laivo de recordação nas nossas mentes. A mim batiam-me nas costas e entre o “dá cá um abraço pá”, um aperto de mãos de “parabéns e que sejam muito felizes” e a entrega, quase envergonhada, de um envelope com uma nota de mil escudos, ou então o apontar de mais uma peça de louça repetida até à exaustão. À minha comparte ofereciam rosas brancas, camélias amarelas e um beijinho de felicidade, sempre acompanhado de uma recomendação: “que a alegria deste dia se repita por muitos e longos anos”.
Era compreensível, por falta de público, carência de entendimento, ou talvez falta de entrosamento entre os actores, este final. Ontem encerrámos o teatro de produção independente. Aquela peça “finish”, “ce fini”, acabou. Acabou mesmo? Ou encerrou-se temporariamente com carácter definitivo? Não sei. Será que fizemos tudo para manter a peça em cena? Não deveríamos mudar os cenários? O problema é que entre um conservadorismo inamovível, mexilhão de posições agarradas à pedra filosofal e entre um pensamento liberal, levitante, prosador das rimas poéticas do sonho libidinoso, o resultado é o encerramento do Teatro. Aqueles cenários vão manter-se na nossa memória e mesmo quando partirmos para outras representações, aquelas cadeiras de madeira, os velhos lustres, os reposteiros que custaram tanto a adquirir –foram pagos a prestações- e até aquele sorriso desbragado, no meio daquela cena patética, onde era suposto haver rios de lágrimas tumultuosas, mas que não fora possível conter, tudo isso vai manter-se no futuro das nossas vidas, como um velho cicerone que à frente leva a candeia acesa ao vento, a balouçar, pelo meio de um caminho comparativo, “entre o que sou”, “o que fui”, “como eras” “e o que tenho agora”. Um balanço existencial que nos acompanhará para o resto da nossa vida.
A mala estava feita. As mulheres nunca perdem a simbologia de um momento. Mesmo que estejam a desfazer-se em lágrimas, a imagem será sempre a de uma guerrilheira de face dura, insensível, como a mostrar que a fragilidade e a diferença de género já foi. Hoje, tal como o velho aforismo de que um homem nunca chora, a mulher, como princípio de afirmação, segue-lhe as pisadas e, sabendo nós que depois do ribombar do bater da porta, os olhos vão liquefazer-se em mil prantos, à frente do homem... nunca chora.
Peguei na mala e, naqueles poucos metros, entre a porta e o carro, olhei para tudo à volta, como um pouco da minha alma que ali fica. Aquele foi o meu teatro durante 30 anos. Ali amei, ali consertei, ali planeei, ali escrevi, ali idealizei. Uma lágrima teimosa mostrou que afinal os homens também choram.
sexta-feira, 27 de julho de 2007
O FRATICIDA
Vasco tem 17 anos. Desferindo várias facadas, acabou de tirar a vida a seu irmão de 12 anos. Preso em prisão preventiva, no Estabelecimento Prisional de Leiria, na sua cela, sentado no pequeno catre, como um pensador, que Rodin tão bem soube personalizar através duma imagem apologética, o rapaz, de rosto fechado, hermético de sensações, de cabeça inclinada, braço direito cruzado sobre o estômago e braço esquerdo a apoiar o queixo, faz a retrospectiva do que o levou a cometer tão hediondo crime.
Tudo começou quando nasceu o seu irmão mais novo, tinha então cinco anos. Lembra-se que até aí era o centro de atenções dos seus pais. A vinda do seu germano mais novo veio invadir um espaço que, até aí, era só seu. Não sabe se por descuido dos seus pais ou por egoísmo exacerbado, a verdade é que a vinda do rebento veio fazê-lo sentir-se menos amado do que até aí. Ressentido e sentindo-se excluído na envolvência familiar, nunca mais recuperou e nem o tempo, que deveria ter feito a harmonização de interesses, veio curar essa mágoa, como ferida dilacerante que nunca cicatrizara. Cada brinquedo que era dado ao seu irmão mais novo, Vasco, sentia no corpo o mesmo efeito agressivo da picada de uma seta enviada de local desconhecido, mas prenha de azedume, violência e ódio. Aos poucos, sem o demonstrar foi desenvolvendo um sentimento de inveja, ciúme e complexos de inferioridade. A rivalidade era uma constante e nunca se estabelecera uma verdadeira relação de afectividade entre ambos.
Por ser o benjamim ou não, a verdade é que, aos olhos de Vasco, os progenitores mimavam e valorizavam sempre mais qualquer média atitude ao miúdo, do que uma boa nota, dele, tirada a ferros naquele ponto de francês. Para ele, era sempre a mesma expressão de descontentamento dos seus pais: “só 3?...estudas muito pouco!”
Com a entrada na adolescência, Vasco, foi-se tornando cada vez mais reservado. Aos poucos, sem o sentir, foi canalizando na figura da mãe todo o ressabiamento que sentia em relação ao seu irmão mais novo. Era como se ela, hipoteticamente, fosse a causadora do corte umbilical que os deveria unir. A sua mãe era assim a projecção de um ódio recalcado, como se de um espelho se tratasse. O ressentimento, ao ser para si dirigido, era ampliado pela imagem de uma matriarca que se pretendendo equitativa se tornava duplamente injusta ao parecer gostar mais do seu filho mais novo.
Com o tempo este amor indisciplinado desta mãe-galinha pelo herdeiro mais novo veio a ser um pomo diário de conflito entre marido e mulher. Apercebendo-se do exagerado mimo e do facilitismo com que a esposa dava tudo ao filho, o chefe de família cedo intuiu que a educação do benjamim iria descambar. As discussões sucediam-se. Ele dizia que se o filho mais novo pretendia determinada consola teria de a conquistar e não dava. A mulher ia por trás, à sorrelfa, e na primeira oportunidade, ou imediatamente a seguir, como que a hostilizar o marido, e dava de presente ao seu menino, coitadinho, que ninguém compreendia…só ela...porque o pariu e era mãe –atirava de chofre ao marido, na presença dos dois filhos.
Como mós de um moinho, gastas pela erosão do tempo, as relações dos cônjuges assim se foram desgastando até ficarem lisas e já não provocarem qualquer sensação de amor ou desamor. Inevitavelmente, em Dezembro último, deu-se o desenlace previsto e separaram-se. Como seria de calcular o mais novo ficou com a mãe e, Vasco, o mais velho, com o pai.
O pai de Vasco praticava motocross. Há pouco tempo, aquando de uma férias do Benjamin em sua casa, reparou na extrema habilidade do puto em conduzir motos. Ficou tão babado e contente, vendo ali o seu seguidor das lides desportivas, que foi o mais depressa possível comprar uma mota ao miúdo. Esqueceu que a dádiva de presentes gratuitos fora o motivo da sua separação. A mãe, para não ficar atrás do ex-marido, ofereceu-lhe um telemóvel “ultima geração”.
Nem um nem outro se lembrou que o Vasco existia e remoía no seu interior toda esta plêiade de agressões psicológicas à sua autoestima, há muito perdida pelos interstícios da vida conflituosa de um adolescente. Esta era a gota de ódio que precisava para fazer transbordar o copo mais que cheio de desgosto e reserva em relação a um mundo que detestava.
Três facadas, no pescoço, no peito e no abdómen, foi o epílogo duma história de final anunciado que Vasco desferiu no seu irmão mais novo. Como que, com esse acto, quisesse demonstrar o simbolismo da exterminação dos pais, sobretudo a sua mãe, e também um mundo em que se sentia deslocado e desenraizado.
Quando foi preso, fez um telefonema para a mãe que não pôde atender. À pessoa com quem falou mandou o recado: “DÍGA-LHE QUE MATEI O SEU FILHO QUERIDO”.
Quando lhe perguntaram o porquê de tal atitude primária, respondeu: "POR MUITAS RAZÕES".
(HISTÓRIA FICCIONADA PELO AUTOR. BASEADA EM NOTÍCIA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS DE 27 DE JULHO DE 2007)
Tudo começou quando nasceu o seu irmão mais novo, tinha então cinco anos. Lembra-se que até aí era o centro de atenções dos seus pais. A vinda do seu germano mais novo veio invadir um espaço que, até aí, era só seu. Não sabe se por descuido dos seus pais ou por egoísmo exacerbado, a verdade é que a vinda do rebento veio fazê-lo sentir-se menos amado do que até aí. Ressentido e sentindo-se excluído na envolvência familiar, nunca mais recuperou e nem o tempo, que deveria ter feito a harmonização de interesses, veio curar essa mágoa, como ferida dilacerante que nunca cicatrizara. Cada brinquedo que era dado ao seu irmão mais novo, Vasco, sentia no corpo o mesmo efeito agressivo da picada de uma seta enviada de local desconhecido, mas prenha de azedume, violência e ódio. Aos poucos, sem o demonstrar foi desenvolvendo um sentimento de inveja, ciúme e complexos de inferioridade. A rivalidade era uma constante e nunca se estabelecera uma verdadeira relação de afectividade entre ambos.
Por ser o benjamim ou não, a verdade é que, aos olhos de Vasco, os progenitores mimavam e valorizavam sempre mais qualquer média atitude ao miúdo, do que uma boa nota, dele, tirada a ferros naquele ponto de francês. Para ele, era sempre a mesma expressão de descontentamento dos seus pais: “só 3?...estudas muito pouco!”
Com a entrada na adolescência, Vasco, foi-se tornando cada vez mais reservado. Aos poucos, sem o sentir, foi canalizando na figura da mãe todo o ressabiamento que sentia em relação ao seu irmão mais novo. Era como se ela, hipoteticamente, fosse a causadora do corte umbilical que os deveria unir. A sua mãe era assim a projecção de um ódio recalcado, como se de um espelho se tratasse. O ressentimento, ao ser para si dirigido, era ampliado pela imagem de uma matriarca que se pretendendo equitativa se tornava duplamente injusta ao parecer gostar mais do seu filho mais novo.
Com o tempo este amor indisciplinado desta mãe-galinha pelo herdeiro mais novo veio a ser um pomo diário de conflito entre marido e mulher. Apercebendo-se do exagerado mimo e do facilitismo com que a esposa dava tudo ao filho, o chefe de família cedo intuiu que a educação do benjamim iria descambar. As discussões sucediam-se. Ele dizia que se o filho mais novo pretendia determinada consola teria de a conquistar e não dava. A mulher ia por trás, à sorrelfa, e na primeira oportunidade, ou imediatamente a seguir, como que a hostilizar o marido, e dava de presente ao seu menino, coitadinho, que ninguém compreendia…só ela...porque o pariu e era mãe –atirava de chofre ao marido, na presença dos dois filhos.
Como mós de um moinho, gastas pela erosão do tempo, as relações dos cônjuges assim se foram desgastando até ficarem lisas e já não provocarem qualquer sensação de amor ou desamor. Inevitavelmente, em Dezembro último, deu-se o desenlace previsto e separaram-se. Como seria de calcular o mais novo ficou com a mãe e, Vasco, o mais velho, com o pai.
O pai de Vasco praticava motocross. Há pouco tempo, aquando de uma férias do Benjamin em sua casa, reparou na extrema habilidade do puto em conduzir motos. Ficou tão babado e contente, vendo ali o seu seguidor das lides desportivas, que foi o mais depressa possível comprar uma mota ao miúdo. Esqueceu que a dádiva de presentes gratuitos fora o motivo da sua separação. A mãe, para não ficar atrás do ex-marido, ofereceu-lhe um telemóvel “ultima geração”.
Nem um nem outro se lembrou que o Vasco existia e remoía no seu interior toda esta plêiade de agressões psicológicas à sua autoestima, há muito perdida pelos interstícios da vida conflituosa de um adolescente. Esta era a gota de ódio que precisava para fazer transbordar o copo mais que cheio de desgosto e reserva em relação a um mundo que detestava.
Três facadas, no pescoço, no peito e no abdómen, foi o epílogo duma história de final anunciado que Vasco desferiu no seu irmão mais novo. Como que, com esse acto, quisesse demonstrar o simbolismo da exterminação dos pais, sobretudo a sua mãe, e também um mundo em que se sentia deslocado e desenraizado.
Quando foi preso, fez um telefonema para a mãe que não pôde atender. À pessoa com quem falou mandou o recado: “DÍGA-LHE QUE MATEI O SEU FILHO QUERIDO”.
Quando lhe perguntaram o porquê de tal atitude primária, respondeu: "POR MUITAS RAZÕES".
(HISTÓRIA FICCIONADA PELO AUTOR. BASEADA EM NOTÍCIA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS DE 27 DE JULHO DE 2007)
ELEGIA A UMA CORREDORA DE FUNDO
Sempre a correr,
como água, dum rio, em direcção ao mar,
corres sem entender,
porque corres? Se ninguém te quer amar;
Há quem queira, mas tu recusas,
queres aquele modelo idealizado,
mesmo inferindo dessa tua dificuldade,
sabendo que já não é fabricado,
não abdicas dessa tua bondade,
pouco te importa que esteja desactualizado;
Não alinhas nos novos modelos,
“são vazios”, dizes, “não têm valor”,
preferes os antigos, ainda que adelos,
são mais quentes, têm mais ardor,
são cartas manuscritas com o velho selo,
são mensagens do carteiro com muito amor;
Detestas a superficialidade,
o manto diáfano e a aparência da mentira,
procuras a transparência como causalidade,
como notas musicais, vibrantes, de uma Lira,
entregas-te toda, apaixonadamente, à sinceridade.
como água, dum rio, em direcção ao mar,
corres sem entender,
porque corres? Se ninguém te quer amar;
Há quem queira, mas tu recusas,
queres aquele modelo idealizado,
mesmo inferindo dessa tua dificuldade,
sabendo que já não é fabricado,
não abdicas dessa tua bondade,
pouco te importa que esteja desactualizado;
Não alinhas nos novos modelos,
“são vazios”, dizes, “não têm valor”,
preferes os antigos, ainda que adelos,
são mais quentes, têm mais ardor,
são cartas manuscritas com o velho selo,
são mensagens do carteiro com muito amor;
Detestas a superficialidade,
o manto diáfano e a aparência da mentira,
procuras a transparência como causalidade,
como notas musicais, vibrantes, de uma Lira,
entregas-te toda, apaixonadamente, à sinceridade.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
HÉLDER, O PÁRIA MAL-AMADO
(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)
Ele está à minha frente. Bom aspecto, cabelo bem penteado para trás, calça de ganga, limpa e t-shirt vermelha, com a mensagem quase irónica: O FUTURO COMEÇA HOJE. Não fosse o extremo esforço que ele faz para se manter na vertical, como eucalipto esguio em dia de forte ventania, e dir-se-ia um homem de trinta e três anos igual a tantos de muitos que qualquer de nós conhece.
Mas o Hélder não é igual à maioria. Infelizmente para ele. Conheço muito bem o seu mal-amanhado percurso de vida. Desde criança. O pai, falecido há cerca de dezoito anos, era arrumador de carros ali para os lados da Sé velha, em Coimbra. Conheci muito bem o senhor António. Homem de cerca de quarenta anos, cordato, de confiança e profundamente respeitador. Nessa altura, em que ainda não se falava em parquímetros ou parcómetros, o senhor António era o depositário das chaves dos muitos carros deixados estacionados no Largo da Sé. Ele se encarregava de arrumar, ou desarrumar, se tal fosse necessário. Toda a gente gostava dele. Um dia disse-me: “durante uns tempos -curtos, espero- vou faltar aqui. Vou ser operado ao apêndice no Hospital dos Covões”.
Foi operado, fui vê-lo a sua casa, pareceu-me muito bem. Conversámos e disse-me que estaria só uns dias de convalescença e rapidamente voltaria à Sé Velha. Saí de junto dele com a certeza de que iria ser mesmo assim. Mas o senhor António não voltou. Passados dois dias, como flecha rasante e célere em direcção ao alvo, a notícia correu rápida e caiu na minha cara: "o senhor António morreu!". Morreu…como?! Interroguei na altura. Seria possível morrer de uma operação ao apêndice? Mas, por essa causa ou outra, ele finou-se mesmo.
O senhor António era muito poupado. Os seus únicos vícios conhecidos era o cigarrito e o café. Ele ganhava muito bem a arrumar carros. Era muito mais do que o arrumador que conhecemos hoje. Este homem afeiçoado e respeitado, tinha licença para arrumar carros e usava boné que legitimava o seu "metier". Era portanto um profissional reconhecido e uma pessoa muito querida por todos. Estava separado da esposa, que me dizia, em segredo, "não ser grande espingarda, como quem diz, nem para matar presta".
Quando o fui visitar a sua casa, para minha surpresa, estava acompanhado da mulher. Ela cuidava dele. Aceitara-a com todos os seus defeitos, pois não estava em condições de negar tão providencial ajuda, disse-me deitado na sua cama, quando ela se ausentara para ir à cozinha.
Passados dois dias o senhor António morreu. O que aconteceu? Ninguém saberá jamais. Ainda fui ao hospital falar com o médico que o tinha operado e perguntei-lhe se era plausível ele ter morrido de complicações pós-operatórias a uma intervenção tão simples. Respondeu-me o operador que para morrer…bastaria estar vivo. E nessa dúvida me fiquei. Dividido em vários cenários. Não foi autopsiado. Lembro-me de na altura me sentir fortemente inclinado a ir à Judiciária e denunciar as suspeitas que sentia e pedir a autópsia. Mas e se eu estivesse enganado? Eu nem sequer era familiar. Era simplesmente um amigo que gostava muito dele. Acabei por me ficar nas dúvidas que ainda hoje me acompanham e morrerão comigo.
O Hélder , então adolescente, sofreu forte com a perda do pai que idolatrava e começou a entrar pelo cano e foi deslizando, deslizando, sem nunca mais parar. Começou a namorar o haxixe, passou à branquinha heroína e acabou como amante confesso da cocaína. Do pequeno gamanço de pouca monta passa ao grande e assalta, em 2000, um Stand de automóveis. Foi preso e apanhou dois anos.
Da mãe, sabe que depois da morte do pai já lhe passaram pelo regaço vários homens. E pouco sabe mais. Há muitos anos que não se vêem. “Ela pensa que eu sou um bandido…senhor Luís, e você sabe que eu sou boa pessoa…sinto tanto a falta dela” –diz-me de pranto a correr pela cara avermelhada, fruto de um álcool delirante, talvez anestesiante para uma alma carecente de amor.
O Hélder visita-me quase todos os dias. Ele lá saberá porquê. Dorme num prédio abandonado ali para o Penedo da Saudade, juntamente com mais outras cinco almas perdidas como a dele, que vagueiam errantes pela cidade terrena que é a nossa.
Todos os dias, como religioso pagão, sobe a Celas e vai à Associação “Sol Nascente”, onde vai tomar os retrovirais necessários para se manter de pé. A sua amante, a cocaína, ferrou-lhe uma dentada para o resto da sua vida, num dia de chuva e pouca luz, quando apanhou a primeira seringa que encontrou mais à mão.
Diariamente, almoça na Cozinha Económica, por cerca de um Euro. “Ainda bem que existem estas Instituições, a não ser assim o que seria de mim? Mas eu sinto-me muito triste, sinto-me lixo…um dia destes (passa o indicador no pescoço, como se fosse uma faca)…o que é que faço aqui?...”-a frase foi entrecortada, à força de tanto lutar contra a lei da gravidade, em manter-se de pé, acabou por estatelar-se e arrastar consigo alguns objectos…
(Escrevi este texto em 2007. Hoje, dia 30 de Maio de 2011, passei novamente por esta história e relembrei o Hélder, que deixei de ver há mais de dois anos. Provavelmente morreu numa qualquer casa abandonada vítima de overdose. Deixo o texto como uma pequena homenagem a alguém, ao Hélder, que, pela vida, se arrastou como ninguém)
segunda-feira, 23 de julho de 2007
REQUIEM POR UM AMIGO
Tu eras meu amigo e eu teu, António,
ouvíamo-nos no teu sonhar de utopia,
nessa tua consumissão e expurgar de demónio,
a rotina era um bicho parasita, eu sabia,
a linha da megalomania era o teu plutónio;
Porque partiste sem avisar?
podias, ao menos, prevenir,
que a tua saúde estava a periclitar,
que te sentias, sem forças, a ir,
porque não telefonaste para eu contar?;
Quiseste guardar segredo dessa viagem,
talvez para eu não a contestar,
porque me fizeste essa sacanagem,
sabias que não iria gostar;
Discutias tudo comigo, pedias opinião,
ouvias, pouco falavas, fazias-me importante,
aprontaste tudo, nem um pio ou palavrão,
não me mostraste a rota, ter-te-ia dado um sextante,
planeaste o fim e partiste sem direcção;
Onde quer que estejas, estarás resguardado,
já te estou a ver a observar e a pedir opinião,
mesmo que não queiras tu serás notado,
por essa irrequietude, essa insatisfação,
sinto que vais mexer e alterar esse mundo acabado.
ouvíamo-nos no teu sonhar de utopia,
nessa tua consumissão e expurgar de demónio,
a rotina era um bicho parasita, eu sabia,
a linha da megalomania era o teu plutónio;
Porque partiste sem avisar?
podias, ao menos, prevenir,
que a tua saúde estava a periclitar,
que te sentias, sem forças, a ir,
porque não telefonaste para eu contar?;
Quiseste guardar segredo dessa viagem,
talvez para eu não a contestar,
porque me fizeste essa sacanagem,
sabias que não iria gostar;
Discutias tudo comigo, pedias opinião,
ouvias, pouco falavas, fazias-me importante,
aprontaste tudo, nem um pio ou palavrão,
não me mostraste a rota, ter-te-ia dado um sextante,
planeaste o fim e partiste sem direcção;
Onde quer que estejas, estarás resguardado,
já te estou a ver a observar e a pedir opinião,
mesmo que não queiras tu serás notado,
por essa irrequietude, essa insatisfação,
sinto que vais mexer e alterar esse mundo acabado.
ATÉ AMANHÃ...MEU AMIGO CERVEIRA
Tomava o café, e ia desfolhando o jornal, quando me deparei com a notícia do teu desaparecimento. Aquele pequeno rectângulo de 6x9, tão igual a tantos outros, caiu-me no estômago como um murro desferido, sem contar, pelo destino.
Habituei-me a olhar para ti como uma árvore cansada, pelo peso das tuas quase oito décadas, mas sempre, sempre com a força anímica e sonhadora de um adolescente traquina. Tu eras duas pessoas numa só. Uma, o António, apaziguador, assertivo, calmo como uma enseada sem ondas. Sempre a ouvir e a pouco falar. E quando falavas, com aquela tua voz mansa, era sempre a voz do sábio, experiente, que se exprimia. Tu eras um especulador observativo, sempre moral, equidistante, e cumpridor. Quase irritavas pelo teu sussurrar. Era preciso estar atento para te ouvir. Mas era um gosto falar contigo António.
O outro personagem que convivia contigo, e que tu, como psiquiatra, certamente entendias, como se fosse o teu alter-ego, heterónimo, doublepersonalis, ou outro nome qualquer, era o José. Este, a metade do teu todo, era o oceano tumultuoso, o conflito entre o dever e o devir. O sonho personificado, aquele que nunca se abate, o nefelibata que vivia nas nuvens, olhando para baixo, sempre com ideias utópicas e megalómanas. Viajar contigo no carrossel da tua montanha russa da utopia era um gosto. E quantas vezes eu viajei contigo…meu amigo. O ênfase que punhas na explanação das tuas ideias, sem nada te demover. As dificuldades não te metiam medo. Contrariamente ao António, chegavas a ser amoral e revoltado contra a inépcia de quem governa esta cidade. Chegava a irritar-te a burocracia existencial de certos personagens que, como moscas em volta de um torrão de açúcar, parecem lamber o exterior sem lhes importar o âmago e a profundidade das coisas.
Habituei-me a olhar para ti como se olha para água corrente de uma fonte, que pensamos nunca secar. Pensava que eras eterno. Que essa força imanente que brotava do teu interior jamais te pregaria uma rasteira. Jamais apagaria essa chama de vida, que te consumia, como uma insatisfação crónica, uma fome que só um caminheiro sente quando percorre veredas e sendas plenas de escolhos, mas, mesmo assim, inexplicavelmente, continua a caminhar.
A Baixa está de luto, perdeu um grande amigo. Com a tua partida, sem aviso-prévio, levas contigo um pouco da sua alma que tanto amavas. Muitos de poucos te conheciam como eu. Para os muitos tu eras mais um. Para mim tu eras o paradigma do inconformismo, o lutador, o Centurião Romano, aquele que deixa um rasto por onde passa, mas só poucos se apercebem do sulco. Ainda só agora inicias a viagem e já sinto a tua falta. Tu eras especial. A Rua do Corvo já não será a mesma sem ti. O Corvo que, com tanto gosto, puseste na frontaria do Centrum Corvo deve estar triste. Perdeu um amigo. Todos perdemos um amigo. Até amanhã Cerveira. Onde estiveres descansa em paz.
Habituei-me a olhar para ti como uma árvore cansada, pelo peso das tuas quase oito décadas, mas sempre, sempre com a força anímica e sonhadora de um adolescente traquina. Tu eras duas pessoas numa só. Uma, o António, apaziguador, assertivo, calmo como uma enseada sem ondas. Sempre a ouvir e a pouco falar. E quando falavas, com aquela tua voz mansa, era sempre a voz do sábio, experiente, que se exprimia. Tu eras um especulador observativo, sempre moral, equidistante, e cumpridor. Quase irritavas pelo teu sussurrar. Era preciso estar atento para te ouvir. Mas era um gosto falar contigo António.
O outro personagem que convivia contigo, e que tu, como psiquiatra, certamente entendias, como se fosse o teu alter-ego, heterónimo, doublepersonalis, ou outro nome qualquer, era o José. Este, a metade do teu todo, era o oceano tumultuoso, o conflito entre o dever e o devir. O sonho personificado, aquele que nunca se abate, o nefelibata que vivia nas nuvens, olhando para baixo, sempre com ideias utópicas e megalómanas. Viajar contigo no carrossel da tua montanha russa da utopia era um gosto. E quantas vezes eu viajei contigo…meu amigo. O ênfase que punhas na explanação das tuas ideias, sem nada te demover. As dificuldades não te metiam medo. Contrariamente ao António, chegavas a ser amoral e revoltado contra a inépcia de quem governa esta cidade. Chegava a irritar-te a burocracia existencial de certos personagens que, como moscas em volta de um torrão de açúcar, parecem lamber o exterior sem lhes importar o âmago e a profundidade das coisas.
Habituei-me a olhar para ti como se olha para água corrente de uma fonte, que pensamos nunca secar. Pensava que eras eterno. Que essa força imanente que brotava do teu interior jamais te pregaria uma rasteira. Jamais apagaria essa chama de vida, que te consumia, como uma insatisfação crónica, uma fome que só um caminheiro sente quando percorre veredas e sendas plenas de escolhos, mas, mesmo assim, inexplicavelmente, continua a caminhar.
A Baixa está de luto, perdeu um grande amigo. Com a tua partida, sem aviso-prévio, levas contigo um pouco da sua alma que tanto amavas. Muitos de poucos te conheciam como eu. Para os muitos tu eras mais um. Para mim tu eras o paradigma do inconformismo, o lutador, o Centurião Romano, aquele que deixa um rasto por onde passa, mas só poucos se apercebem do sulco. Ainda só agora inicias a viagem e já sinto a tua falta. Tu eras especial. A Rua do Corvo já não será a mesma sem ti. O Corvo que, com tanto gosto, puseste na frontaria do Centrum Corvo deve estar triste. Perdeu um amigo. Todos perdemos um amigo. Até amanhã Cerveira. Onde estiveres descansa em paz.
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