quinta-feira, 26 de março de 2015

UMA IMAGEM, POR ACASO...




Olhemos esta imagem. Há qualquer coisa nela que nos remete para a angústia. Se atentarmos,  o aperto vai crescendo tanto quanto mais insistirmos na revisão da fotografia e o seu enquadramento. Talvez seja o facto de o homem que se resguarda atrás da banca ter 76 anos e, resultado de um Estado Social que é profundamente assimétrico, ser obrigado a trabalhar para conseguir comer.
Já escrevi sobe o Raul Simões Cacho, com banca assente na Rua da Sofia. Chamei-lhe o “plastificador” e contei um pouco da sua história de vida. Leia aqui.

UMA MONTRA NA ESCURIDÃO




A fazer lembrar outros tempos, ontem à noite, chamou-me a atenção esta belíssima montra de luz e cor. Agora viradas para o silêncio de uma rua deserta. No caso, “Catarina Pires, Fardas, uniformes e pijamas”, na Rua do Corvo.

A APBC MUITO BEM REPRESENTADA



Início da "Caça ao Tesouro", iniciativa da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, no passado Sábado, junto ao Café Santa Cruz.

BOM DIA, PESSOAL...

LEIA O CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS...




Leia aqui o CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS desta semana.

Na página "OLHARES... POR COIMBRA E PELO PAÍS", na rubrica "NÓS POR CÁ..."  leia  o texto "A BAIXA RECUSA MORRER" e "CAFÉ SANTA CRUZ, A NOSSA JÓIA RELUZENTE".




A BAIXA RECUSA MORRER

Durante os três meses deste ano, e até ao final deste corrente março, na Baixa, entre as lojas comerciais que já encerraram e as que vão seguir o mesmo exemplo perfaz cinco estabelecimentos –para análise, duas de roupas; uma perfumaria; uma de artigos decorativos e outra de fotografia.
Entre as que já estão abertas ao público, desde o início do ano, e as que até ao dia 31 vão dar à luz serão 11 –também para estudo, duas de estética e manicura; uma de arte e restauros; uma de produtos alimentares endógenos; três lojas de roupas; um restaurante; uma taberna; uma de artigos alimentares gourmet e um bar. Em abril dará à luz uma galeria de arte e artigos antigos.
Por aqui, pela grande diferença entre as empresas que claudicam e as que nascem, com número positivo elevado para estas últimas, dá para ver que a zona histórica, apesar da grande crise económica, continua em atividade frenética e, num processo de regeneração contínuo, parece um gigante a estrebuchar que, mesmo sendo polvilhado por venenos, se nega a morrer.
Como já escrevi aqui e sujeito à discussão, tento mostrar que tem de haver uma explicação para os deuses terem ensandecido e colocarem os princípios económicos em causa. Começamos pela constatação: por um lado, a procura de bens duradouros e perecíveis continua rarefeita. Por outro, a oferta é cada vez mais desmedida e naturalmente leva ao embaratecimento e provoca a estagnação, conducente à deflação, da economia nacional.
Sendo assim, estamos, portanto, em contraciclo económico. Pela lógica, mandaria o bom senso que não se continuasse a bater na oferta de produtos, sobretudo em áreas já esgotadas, e na abertura de mais negócios iguais aos existentes e já em número excedentário.
Ora o que se comprova? Que continuam a abrir estabelecimentos, mais do mesmo e maioritariamente feito por pessoas sem experiência, que, para além de entupir a oferta e afetar a diversidade, provocam a sua própria desgraça e o empobrecimento de quem está implantado –pode até parecer que sou a favor de “numeros clausus”, limitar o acesso. Nada disso. Acho que todos têm o direito de escolherem livremente o ingresso num qualquer curso ou profissão desde que preencham os requisitos mínimos. Se assim não fosse a concorrência –e a evolução humana- estaria ferida de morte. Quero dizer, por conseguinte, que alguma coisa terá de se fazer para alertar estes novos investidores, tantos destes recorrendo a empréstimos familiares. O que se fez até agora é sempre através da recomendação de amigos, porém, como tenho apreendido, quem vem de novo chega cego e não ouve ninguém. Para eles, com todo o respeito que merecem e lhes assiste, a nossa mais profunda reverência e admiração pela sua coragem.
Antes de especular sobre o que se poderá fazer, embora já tivesse escrito sobre este assunto na semana passada, vamos questionar: por que razão, mesmo com resultados negativos, continua o comércio a gerar desmesurados apetites? Pela necessidade de trabalhar honradamente e para ganhar a vida, já que os outros sectores económicos, primário e secundário, não respondem aos anseios de quem precisa de meios para sobreviver.
Sobre soluções milagrosas, pelo menos na atual conjuntura, é evidente que não as há. Contudo, se o acesso ao trabalho é um direito legítimo e constitucional, e se os que o procuram merecem o reconhecimento social porque se negam a viver à sombra dos subsídios do Estado, temos todos, os que estão e os que vem de novo, obrigação de pugnar por condições mínimas de continuidade para estes novos negócios. Por que a razão neste cair um agora, levanta-se outro amanhã reside essencialmente no esbulho de impostos em que as famílias e as empresas estão sujeitas.
E a Câmara Municipal de Coimbra, o poder local, não pode fazer mais? Tem de ser capaz de fazer melhor. Apesar de ter um Gabinete de Apoio ao Investidor e as regras plasmadas serem objetivas, para além da promoção e da dinamização que se adivinha, o trabalho de sapa, oculto em gabinete, não se vê. É preciso pôr as mãos na massa, vir para a rua, e, sem ter que ser a solução, mostrar que está no mesmo lado do problema, apoiando, desonerando posturas, e dar a cara. É preciso não esquecer que, pelo seu esforço heróico, são estes investidores a força centrifugadora que está a contribuir para revitalizar a Baixa.


CAFÉ SANTA CRUZ, A NOSSA JÓIA RELUZENTE

As vinte e duas badaladas na torre da Igreja de Santa Cruz imaginavam-se. Já há muito que o seu badalejar desapareceu da rotina de uma cidade antiga que também vive dos ruídos e deixou de contribuir para um acompanhamento sonoro de nostalgia.
A sala do velho café, que já foi muita coisa desde armazém até capela, com o mesmo nome da igreja ao lado onde repousam os primeiros Reis de Portugal, estava parcialmente cheia e o público presente, constituído por turistas nacionais e estrangeiros, esperava para ver o que iria acontecer. Ao fundo, onde há mais de um século teria sido a zona do altar, uma mesa com microfones prontos e um projetor espetava na parede a imagem de um mosaico, onde estava escrito “50 cafés históricos de España y Portugal”, respirava-se espectativa.
Vitor Marques, um dos jovens sócios do mítico espaço de recordação e de encantamento da Baixa, abriu a cerimónia. “Estamos aqui para apresentar em Coimbra o livro sobre os cinquenta cafés mais importantes de Portugal e Espanha. Foi uma ideia engraçada. O livro foi apresentado em Santiago de Compostela, em Dezembro. Estive lá no lançamento e convidei os nossos amigos espanhóis para fazer o mesmo em Coimbra, já que o Café Santa Cruz faz parte deste roteiro de cafés com memória. Estivemos hoje na Escola de Hotelaria onde foi realizado um “workshop” sobre o café de saco e depois, durante a tarde, mostrei-lhes espaços emblemáticos da cidade como, por exemplo, na Alta, o Museu Machado de Castro, a Biblioteca Joanina e a Universidade. Na Baixa, visitámos também a Torre de Almedina, a Rua da Sofia e outras desta zona. Tivemos o apoio da Câmara Municipal de Coimbra, da Universidade de Coimbra, do Museu Machado de Castro e Escola de Hotelaria. Estou muito agradecido a todas estas entidades pelo apoio manifestado.
Ao lado do anfitrião e mandatário do vetusto estabelecimento hoteleiro estava sentado o autor do livro, Fernando Franjo, que tomou a palavra. Começou por referir o gosto que sentia por estar em Coimbra e, sobretudo, na magnífica catedral de cafetaria e de uma riqueza patrimonial incomensurável e a seguir tratou de mostrar como produzir um café de saco de qualidade ímpar. “O café de saco é como a máquina do tempo. Hoje, sem lhe tomar o gosto, vivemos tudo muito rápido na vida e deixamos passar as coisas boas. Os cafés históricos são marcas de um tempo de bonomia, de conversa e de acalmia interior”, referiu. Depois das devidas explicações como fazer um bom café, passo-a-passo, –a lembrar o tempo da nossa avó- foi dado a provar  o Arábica Robusta e sendo servido a todos os presentes.
Mais uma vez Vitor Marques tomou a palavra e chamou à colação George Steiner –poeta e filósofo da cultura ocidental. Citando o escritor europeu e lendo passagens da sua literatura a defender que a “Europa é feita de cafetaria, dos cafés” que marcaram gerações. É preciso preservar estes lugares para o futuro, como o Café Santa Cruz, enquanto recintos de uma riqueza patrimonial ímpar. “É um património que é de todos, e todos devem participar”. Anunciou ainda Marques que tinha sido apresentado um projeto à Fundação EDP e à Revista Visão sob o mote “Que ideias podemos ter para melhorar o nosso Bairro?” e com a Rota dos Cafés a ideia foi aprovada. Por isso mesmo, “consultem comunidade.edp.pt e votem na nossa iniciativa”, apelou ao público presente.

O QUE TRATA O LIVRO?

Com excelentes fotografias em papel especial é contada a história de cada um dos 50 cafés escolhidos pelo autor. De Espanha, através de imagens, são mostrados 39 estabelecimentos e de Portugal 11. De Lisboa são cinco, respetivamente, Café A Brasileira, Café Nicola, Café Martinho da Arcada, Confeitaria A Nacional e Pastéis de Belém. Do Porto são três os eleitos: Café Magestic, Café Guarany e Café Ancora d’Ouro. De Braga mereceram fazer parte do livro dois: Café A Brasileira e Café Vianna. Coimbra apenas tem um espaço representado: o Café Santa Cruz. Como apontamento de somenos lamenta-se o facto de todo o livro, incluindo os referentes portugueses, estar escrito na língua de Cervantes.

E DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA É IGUAL?

Na fase de perguntas à mesa por parte da assistência, alguém interrogou Fernando Franjo, espanhol e autor da brochura, para saber se em Espanha, tal como em Portugal, os poderes públicos se mantinham alheados desta enorme riqueza patrimonial e turística, mormente, tendo um instrumento de preservação como a classificação de imóveis e bens culturais de relevante Interesse Municipal? Respondeu Franjo que lá, tal como cá, o poder local não tem sensibilidade para a importância histórica destes espaços.

E ONDE ESTAVAM OS APOIANTES?

Quem faz o favor de me ler já deveria ter visto que tento ser os olhos do leitor, uma espécie de consciência crítica. Sem cair num negativismo endémico e viciado, com honestidade e na minha subjetividade, tento exaltar o que entendo por bom para todos e criticar o que entendo menos positivo para a coletividade. Apreendo que nesta cerimónia de apresentação e declaração de um lugar que faz parte de nós e nos honra a sua continuidade, pelo menos, deveria ter marcado presença um vereador da Câmara Municipal de Coimbra. Pelo mais, cada um dos apoiantes do projeto, nomeadamente da Universidade, da Escola de Hotelaria e do Museu Machado de Castro, poderia muito bem ter mandado um representante para assistir ao lançamento. Ou não? Bom, convenhamos, às tantas poderiam não terem sido convidados para o efeito. É verdade mas, pelo conhecimento prévio e tendo em conta que se tratava de um ato político, estas entidades, enquanto pólos dinamizadores da cidade, e do seu turismo, deveriam aparecer para mostrar que estão atentas –e quiçá preocupadas- e, no mínimo, para demonstrar aos munícipes e empresários que querem mais o cara-a-cara, na envolvência direta, e menos o despachar de secretaria.
Se calhar, com o veneno que, para alguns, me caracteriza, não faz sentido esta minha reportação. Ou fará?






quarta-feira, 25 de março de 2015

BOM DIA, PESSOAL....

O "POPEYE" FOI "ENCARCERADO"



O António Simões da Silva, conhecido por “Tónio Bombeiro” e apelidado de “Popeye” foi internado num lar ali para os lados do Areeiro, segundo dois seus grandes amigos, o Jorge Martins, do Quiosque Espírito Santo, na Praça 8 de Maio, e Olímpio Ribeiro, proprietário da barbearia Santa Isabel, na Rua Direita, e cognominado de “Engenheiro”.
O “Tónio” é um daqueles figurantes carismáticos que pululam na Baixa. Pessoas como ele são uma espécie de flores silvestres que nascem e vivem numa área habitacional. Pela forma desligada, na diferença, em consequência da sua leve demência imprimem uma marca inconfundível e, talvez sem o notarem, são amados pela colectividade. Contudo, e aqui reside a ambiguidade, enquanto deambulam pelos becos e ruelas das cidades parecem ser ignorados. Quando se ausentam do meio habitacional, ou por velhice, doença ou morte, todos parecem sentir a sua falta e mostram espasmos de dor pelo seu desaparecimento. Já constatei este procedimento social várias vezes aquando do sumiço de outros “cromos” que nos deixaram na última década.
Por conseguinte já se entende a preocupação do Jorge Martins ao pedir-me que escrevesse sobre o “encarceramento” do “Tónio Bombeiro”. “Tens de escrever sobre isto. A administração do lar onde está internado o “Popeye” tem de ser sensibilizada para o deixar vir à Baixa de vez em quando. Se assim não acontecer, ele vai morrer rapidamente. Sempre aqui viveu. Aqui é o seu mundo.”
Olímpio Ribeiro, o “engenheiro, vai mais longe, “Até entendo a decisão tomada pelo primo –pessoa responsável pela sua administração, creio. Ele fez bem em retirá-lo para uma instituição onde cuidem dele. Ele sozinho não estava bem e, além disso, às vezes, bebia de mais. Mas o “Tónio” faz falta à malta! É uma figura típica e carismática. Ele fazia recados para toda a gente desta rua. O “Tónio” é super-sério. Espero bem que o deixem vir de vez em quando à Baixa. Ainda só foi há dias e já sentimos a sua falta.”


TEXTOS RELACIONADOS

“O Onzeiro”