terça-feira, 3 de março de 2015

EDITORIAL: CAÇA AO INVESTIDOR LOUCO



Há cerca de uma semana que a Autoridade Tributária está a levar no país -e naturalmente também na Baixa- uma operação de fiscalização aos inventários declarados pelas empresas com movimentos de caixa anuais acima de 100 mil euros.
Não se pode contestar a legitimidade da acção. O que se questiona e custa a entender é o tempo e o modo em que são desencadeadas estas operações. Numa altura em que as pequenas e pequeníssimas empresas, sob a alçada de um feroz confisco fiscal desde há quatro anos, se debatem de uma forma heroica pela sobrevivência e onde as falências têm sido aos milhares, fará coerência este combate cerrado em jeito de purga? Fará sentido querer fazer-se tudo a correr o que não foi feito em quatro décadas? Faz porque, contrariamente ao que parece, não se trata de alcançar um objectivo económico de prevenção futura mas sim de um processo estritamente político. A escassos seis meses das eleições legislativas está de ver que vale tudo, mesmo até malhar em mortos. A ética e a moral, que devem majorar os princípios de uma Nação e contribuem para cidadãos cumpridores, desapareceram. Os símbolos, representativos de uma sociedade decadente, como valores emergentes de poder, são a lei, criada como instrumento repressivo, e o pau, como meio intimidatório. Um Estado assim, com governantes a agirem desta maneira, só pode redundar em algo trágico e o fim de um sistema desequilibrado e discriminatório onde o pequeno está sempre tramado e o grande passa sempre pelas entrelinhas. O que interessa é mostrar aos eleitores que todos os investidores, aqueles que ousaram arriscar dando emprego, são passíveis de burlar o Estado. E é simples por que a mensagem passa facilmente. Está de ver que pouco importa ao Primeiro-ministro, Ministra e Secretário de Estado das Finanças que várias empresas, já a funcionar na linha vermelha, vão para o charco e com elas milhares de empregos.
Será este modo de governar aceitável? Sobretudo, vindo de um Governo preocupado com a economia social de um país que se arrasta há uma década e à espera de uma retoma que tarda? Talvez Maquiavel explique!


VAMOS À MATINÉE?





No próximo Domingo, dia 8 e Dia da Mulher, a nova direcção do Rancho das Tricanas de Coimbra, que tomou posse há poucas semanas, pelas 16h00, vai realizar uma grande matinée no vetusto salão da Rua do Moreno, próximo do Terreiro da Erva, e animada pelo agrupamento musical “Casting”. Quanta saudade mora e exalam aquelas paredes carcomidas pelo tempo e trazem à memória, dos mais velhos como eu, os bons bocados que ali foram passados? Vigiados pela Tricana de Coimbra -pintada provavelmente por António Vitorino-, e sob o olhar austero e marcial das muitas mães perfiladas que, sentadas nas cadeiras ao longo do recinto, acautelavam os apertões das suas protegidas, rodopiámos naquele recinto sagrado abraçados a uma bela garota e ao som de vários conjuntos como, por exemplo, “Os Sombras”, “Os Walkers”. Vamos lá no próximo domingo reviver essa época?

O VITOR JÁ REGRESSOU DO "BRA'SIW"




Em Dezembro, último, contava aqui que o Vitor Costa, o mais famoso ardina de todos os tempos que passou pela Baixa, tinha trocado O Despertar, um jornal velhinho mas sempre em pé -comemorou no passado dia 2 de Março 98 anos- por uma brasileira boa, boa, mesmo muito boa pessoa. Então, como se imagina naturalmente triste, não foi de modas e abalou para o Brasil em busca do seu novo amor. Lá se manteve durante três meses –o mínimo que o passaporte de turista admite, creio- e agora, mais que certo, a carpir mágoas de saudade da sua baiana, regressou ao nosso meio. O mais provável é que daqui a tempos abale outra vez. Embora muito mais magro, amarelecido –o que se compreende, já que entre vários motivos, geográficos, a atravessar o Atlântico, pantagruélicos, a comer fruta fresquinha que não estava habituado, multi-culturais, com tanto material ambulante, semi-despido e sempre a bombar, são razões mais que naturais para que o Vitor mirrasse. Mas o que interessa mesmo é que o nosso carismático jornaleiro esta semana, embora com nova pronúncia sul-americana, já estará nas ruas a apregoar: “Leia O “Despertá”! Fala da minha ida e vinda do “Bra’siw”! Leia O “Despertá”!”





ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: O HOMEM DO CAIS




Pelo título, poderemos ser levados a pensar que o personagem de quem vou falar terá a sua barca serrana ancorada no cais da Estação Nova e, por momentos, entrou nas ruas da calçada. Claro que o leitor já viu que não é nada disso. Este homem, de nome Giuseppe, mais conhecido por “Pino” e que há cerca de 15 anos vende a Revista Cais entre as Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, é uma pessoa muito querida por todos nós. Pela sua educação, pela assertividade, é uma espécie de candeeiro de luz cuja luminosidade ilumina as nossas vidas diariamente. Podemos até nem dar por ele mas, se nos faltar nas artérias principais da urbe, notamos imediatamente a sua falta.
Pouquíssimos de nós, mesmo em dia de chuva como hoje, não “tropeçaram” no Giuseppe. Certamente, tal como eu, nunca lhe demos muita atenção. É mais um viandante que, no seu anonimato, vagueia pelas ruas da cidade, como se, com o seu olhar de súplica, procurasse nos nossos olhos um porto de abrigo. Em sentido metafórico, esta pessoa é mesmo o homem do cais. Aquelas ruas são o seu porto. Nós, transeuntes que passamos por ele, quase sempre sem o olhar de frente, olhos-nos-olhos, seremos o seu oceano de esperança. Mas este vendedor de sonhos não realizados tem uma história para contar. Afinal, todos temos uma narrativa. Não é assim? E se, vagamente em estereótipo, somos levados a pensar que este sujeito será azedo pela natureza da vida que, em princípio, teria sido pouco generosa com ele, ao trocarmos impressões ficamos estupefactos. O “Pino”, aparentemente vagabundo de nós, espalha amor de frase em frase como agricultor semeia trigo ao vento por cima da terra lavrada.
Giuseppe é italiano. Esteve numa instituição devido a problemas que afectam os humanos, segundo as suas palavras. Gostava que não fosse assim, mas foi. “Valerá a pena renegar a verdade?”. Interroga-me com pronúncia musicada de transalpino e os olhos doces a encimar o rosto coberto por barba hirsuta. “Temos que nos aceitar como somos. De que vale andarmos em guerra uns com os outros? A vida é amor e o amor alimenta-se da própria vida”.
Veio para Coimbra há muitos anos. O tempo corre depressa. Embora o veja por aqui diariamente, não imaginava ser há mais de uma década. Já largou a sua terra-madre, que um dia o viu nascer, há tantas primaveras que mal lembra. Hoje habita um andar arrendado na cidade. Vive com a mulher e um filho. “Minha “mulherr” “estarr” “muita” doente, física e psiquicamente”, enfatiza. Quando lhe pergunto se a venda da revista Cais dá para viver, diz-me: “Non! Esta crise veio “piorarr” tudo. Apenas dá para pagar “quarto” (renda da casa).
E acerca dos transeuntes, o que pensa deles? São bons, ignoram-no, ou maus para ele? Interrogo. “Muito bons! Eu também não faço mal a ninguém. A vida “serr” muito pequena. Porquê fazer mal? Vida é amor”, conclui.




UM MILAGRE DA VIDA




Para o casal Ferrer, constituído pelo António e pela Maria José, ele coronel na reserva, de 54 anos, ela procuradora do Ministério Público, de 53, o último domingo, primeiro de Março, foi um dos dias mais importantes e felizes das suas vidas. Após um processo de fecundação com acompanhamento médico de inseminação artificial, ao bater das 16 badaladas na Maternidade Bissaya Barreto, de parto natural, nasceram o Rafael Afonso e o Manuel Afonso.
Como se fosse uma compensação, este feito só possível graças ao desenvolvimento da ciência médica, parece um milagre divino. É que precisamente há um ano atrás, o seu único filho, com 21 anos de idade, sem nada a indicar, pôs termo à vida. Doze meses depois, como se Deus tentasse retribuir um desacerto da Natureza, ou o contrário, colocou nos seus braços não um mas dois belos rapazes. O facto da idade ligeiramente avançada da mãe não criou qualquer impedimento nem cuidados de maior na gravidez. Os quase cinco quilos no seu ventre, na última semana, não constituíram qualquer problema ou transtornos para Maria José Trindade e os catraios, lindos, lindos, estão ali, sob vigilância apertada do seu olhar materno, para testemunharem um hino à esperança e à força de viver.
Comecei por perguntar à Maria José se encarava este acontecimento como um prodígio. “É uma prenda divina, sim. Só pode ser! Estou muito enriquecida. Sou cristã, não praticante. Acredito em Deus. Esta experiência aproximou-me mais Dele. Fez-me perceber que somos ínfimas partículas no Universo. Somos seres imperfeitos. Às vezes não merecíamos a dádiva recebida –e os seus olhos claros inundam-se de pranto. Não sei onde falhei para acontecer a tragédia a que fui sujeita em Fevereiro do ano passado. Mas o que sei é que, com a vinda destes dois anjos, fui muito beneficiada. Peço a Deus que me perdoe os meus erros e fracassos.”
António Ferrer, que conheço há vários anos e habitualmente é uma pessoa calma e ponderada, pelo brilho dos seus olhos não consegue disfarçar a ansiedade e alegria mal contida. Repito a interrogação: o que significa a vinda de duas estrelas cintilantes na família? “É uma bênção. É uma renovação. Já vivi uma e agora estou a viver outra. Não é mensurável esta oferenda recebida. É uma segunda oportunidade. Agora a minha vida faz outro sentido. Depois da desgraça que se abateu no nosso lar, passei uma fase muito desnorteada. Tentava encobrir, mas muito mal. Durante o último ano, o choro sentido foi o meu companheiro de solidão. Em solilóquio, perguntando a mim mesmo, interrogava o porquê de tal adversidade. O que fizera eu de mal para merecer uma tal bofetada. Esta natalidade, este Natal dois meses depois de Dezembro, é o melhor que a vida me deu –e novamente as lágrimas balançam entre o cai e não cai. Prossegue, “até o facto de serem dois é algo de maravilhoso. Apesar de ter noção de que já seremos idosos quando eles entrarem na vida adulta, sei que, enquanto gémeos, vão amparar-se ao longo das suas existências. Embora pragmático, este milagre tocou-me profundamente. Meus adorados Filhos!”

segunda-feira, 2 de março de 2015

LEIA O DESPERTAR...

LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "ATÉ AO FIM DO MÊS, DALINE", deixo também as crónicas "O "INGINHEIRO" VENDEDOR DE CASTANHAS"; "FALECEU A SENHORA ALBERTINA"; "O CORTÊS JÁ TEM OUTRO "ORGON"; "A ÚLTIMA TREMOCEIRA PROCURA NOVO BANCO".


ATÉ AO FIM DO MÊS, DALINE!

A Daline, um pronto-a-vestir com fabrico próprio e demais conhecido na cidade, vai encerrar no fim deste mês, de fevereiro. A funcionar há 21 anos no Largo do Poço, no rés-do-chão do edifício do Jazz ao Centro e onde, durante décadas, funcionou o mítico Salão Brazil, este enorme estabelecimento, que em 1994 veio ocupar o antigo espaço da AGA, António Gomes António, vai mandar cinco funcionários para o desemprego. Pela enorme área de venda, é um dos últimos ícones como modelo de uma Baixa comercial desaparecida.
Segundo alguém que sabe do que fala mas que prefere não se identificar, “em princípio, pelo menos foi ventilado, será uma restruturação. Falou-se que a marca irá funcionar num espaço mais pequeno para conter os custos. Repare que numa altura em que não há negócio a renda são cerca de 1500,00 euros e ordenados para cinco funcionários. É a crise! Vai tudo para o desemprego! A fábrica é em Leiria e, como todas as unidades de produção, atravessa graves problemas. O culpado disto é o Governo que, em vez de ajudar, prefere que vá tudo para o charco. Com juros a 30 por cento para quem se atrasa no pagamento do IVA quem é que aguenta? É o Estado que nós temos!”

A SAGA CONTINUA

Nesta última segunda-feira encerraram duas lojas. Uma de roupas, na Rua das Padeiras, paredes-meias com a Peixaria Pinguim e outra de perfumes na Rua Adelino Veiga. Segundo uma vizinha desta perfumaria, “já há uns tempos que se falava no seu fecho. Já não tem artigos lá dentro para venda. Já viu isto? Onde vamos parar?”
Também no fim do mês, na Praça do Comércio, vai encerrar uma loja de artigos decorativos a funcionar no antigo espaço d’O Cordelinho.


O “INGINHEIRO” VENDEDOR DE CASTANHAS

Tem um ar magrote, esquálido, como quem se alimenta mal. A calça rota nas duas pernas e junto aos joelhos apresenta um ar cansado como objeto que já correu muito nesta vida. As suas mãos, com dedos compridos, são calejadas, mais que certo robustecidas pelas arestas de muitos tijolos que lhe tocaram em beijos de ganha-pão, parecem de operário pendurado num ilusório cabido e à espera de uma oportunidade. Senhoras e senhores, apresento-vos o “inginheiro” Paulo Dias. Aviso já que não tem canudo passado por qual faculdade, mas tem uma formação obrigatória para vender castanhas na Praça 8 de Maio. Façam o favor de não rir porque o caso é sério e o formado pode sentir-se incomodado. Vou ligar o gravador e transcrever a história do “inginheiro” Paulo:
“Até há quatro anos trabalhei na construção civil. O emprego começou a rarear e passei a fazer parte do universo de despedidos. Recebi subsídio de desemprego até há dois anos. A seguir foi-me atribuído o rendimento mínimo. Como não chegava para pagar a renda de casa, que é de 200,00 euros, tive de fazer pequenos biscates para ver se me aguentava com a minha companheira, a Sónia Margarida –que você conhece bem desde criança. Em Maio do ano passado foi-me cortado o RSI, Rendimento Social de Inserção, e a renda de casa começou a não acompanhar as minhas necessidades. Fui às Finanças coletar-me para vender bolas de Berlim na praia da Figueira da Foz. Fiz o mesmo para a minha Sónia, para poder vender bolos de Ançã junto à Loja do Cidadão. Mas a renda da casa, por falta de pagamento, teimava em crescer e a ameaçar o nosso bem-estar. Pedi uns dinheirinhos e comprei um carrinho de assar castanhas por 400,00 euros. Fui novamente às Finanças fazer um acrescento na coleta, agora como vendedor de castanhas. A seguir, fui à Câmara Municipal para tratar da licença. Era preciso um termo de responsabilidade e uma formação. Paguei 50,00 euros para o processo dar entrada. Fui então tratar da formação profissional para ser “inginheiro” e poder vender castanhas na Praça 8 de Maio. Encaminhei-me para a Palheira, uma localidade nos arrabaldes da cidade, para um técnico da especialidade. A troco de mais 25,00 euros para a formatura e mais 50,00 euros pelo termo de responsabilidade, e após umas escassas horas, passei a licenciado. Por ser obrigatório, adquiri um extintor por 31,00 euros, que tenho de manter no carro. Fui à autarquia e paguei mais 30,00 euros por ocupação de espaço público até Abril e mais 6,50 euros por mês.
Ser “inginheiro” custa muito! Nunca tinha imaginado quanto! Sabe o que lamento? É a falta de sensibilidade de tantas pessoas –incluindo pessoal da fiscalização que, volta e meia, vão ter com a minha Sónia, junto à Loja do Cidadão, e a fazem arrumar tudo por falta de licença de ocupação. Ninguém pensa no esforço que faço para aguentar e estar aqui. Ninguém se preocupa se ganho o suficiente para pagar as licenças. É um absurdo! Não consigo arranjar dinheiro para tanta imposição. Parece que querem obrigar-me a ir roubar. Repare, estou a pagar o quilo de castanhas a 4,00 euros. Num saco de vinte quilos, muitas delas vêm podres, vão à vida cerca de 15,00 euros. Diga-me? O que resta? Quase não dá para jantar uma sopa! Acho que a edilidade deveria ter outro tratamento para os vendedores como eu, que sou pobre e mal tenho sítio para cair morto. É só mesmo para nos comer dinheiro! É muito triste, sabe?”


FALECEU A SENHORA ALBERTINA

Quem passou este fim-de-semana na Praça 8 de Maio estranhou o Quiosque Espirito Santo estar fechado. Um estabelecimento que está diariamente aberto e só encerra nos dias de Natal e Páscoa, onde a Lena é sentinela, para acontecer o contrário algo grave ocorreu. E foi mesmo! A mãe do Jorge, Albertina de Jesus Martins, de 87 anos, pessoa muito estimada e que durante décadas trabalhou na Rua do Corvo, deixou-nos.
Quem nos vai falar da falecida é o comerciante Henrique Ramalhete que a conheceu bem. “A senhora Albertina era empregada doméstica de Berta dos Santos Silva –pessoa muito ativa e ligada ao Movimento Nacional Feminino, organização de apoio à Guerra Colonial, com o suporte do Estado Novo entre 1961 e 1974. Era esta senhora que, neste período e na Baixa, recebia e distribuía os aerogramas provindos e destinados aos militares no ex-Ultramar Português. Então, fosse pela filosofia da casa ou não, a verdade é que a dona Albertina, mesmo sendo empregada, chamava os marçanos do comércio, como eu a trabalhar na Rua do Corvo e originário de gente muito humilde, e presenteava-os com um suculento lanche. Um gesto de bondade que nunca esquecerei. Onde ela estiver, o meu agradecimento e que descanse em paz.”
Em nome da Baixa, para o Jorge Martins e esposa Lena e para toda a família, uma mensagem de condolências e um grande abraço nestes dias de tristeza.


O CORTÊS JÁ TEM OUTRO “ORGON”

Depois de, há cerca de duas semanas, Jorge Santos, um benemérito de Miranda do Corvo, ter oferecido um órgão ao músico de rua Luís Cortês, na quarta-feira, da semana passada, um energúmeno deu-lhe a “palmada” na Praça 8 de Maio. Em princípio, segundo testemunhas que o viram carregar o instrumento, o gatuno estará identificado pela PSP. O problema, como se compreende, é a prova. E sem aparecer o instrumento, parece-me, é complicado.
Por que no meio de bandalhos como o ladrão que surripiou o ganha-pão do Luís há sempre gente boa que emerge e que nos dá esperança num mundo melhor, na segunda-feira à tarde, uma senhora, acompanhada do neto, entregou um órgão novo ao Cortês. Disse quem viu que, perante a surpresa, o músico de pobreza reconhecida deu em chorar desalmadamente. Um gesto deste altruísmo é bonito de mais! Salienta-se. Em nome de todas as pessoas de boa vontade, muito obrigada. Mesmo no desleixo do músico invisual, que ao não cuidar bem do que lhe oferecem com tanto amor causa alguma irritação por parecer não dar valor ao esforço dos outros, temos de ter uma compreensão maior e o que deve prevalecer é o sentimento de generosidade. Uma boa lição que esta nobre benfeitora e o neto deram. Bem-haja!


A ÚLTIMA TREMOCEIRA PROCURA NOVO BANCO

Na última quinta-feira, da semana passada, a dona Adelaide, a última tremoceira como lhe chamei, tendo por fundo os manifestantes a exigirem o seu dinheiro anteriormente depositado no BES –que Deus tem em má guarda pelo Novo Banco- sentada num assento de pedra, pelos traços do rosto e ainda que silenciosamente, manifestava algum descontentamento com o seu velho banco. “Fosca-se! No próximo dia 12 de Março comemoro 91 anos. Apesar do meu falecido marido ter sido sacristão, nunca tive informações privilegiadas divinas e, apesar de ter trabalhado toda a vida, continuo pobre. Coloquei todas as minhas ações neste merdoso tamborete de pedra e nunca cresceram. Investi aqui todo o meu dinheirinho e estou cada vez mais lisa! Seria contágio? Porra! Já há muito tempo que deveria ter mudado de banco! Agora, se calhar, já não vale a pena! Se ao menos me fizessem uma festa de aniversário no próximo dia 12, ainda vá que não vá! Caso contrário, sou obrigada a mandar umas “carvalhadas” que abana tudo! Homessa! Isto irrita! Carago!”






LEIA O CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS...



Leia aqui o CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS desta semana.

Na página "OLHARES... POR COIMBRA E PELO PAÍS", na rubrica "NÓS POR CÁ..."  leia  o texto "NESTE CARNAVAL, OS CARETOS DO COSTUME" e na rubrica "OLHAR PARA SUL..."  "CARTA À PROCURADORA GERAL DA REPÚBLICA"


NESTE CARNAVAL, OS CARETOS DO COSTUME

Passou o Dia de Carnaval. Foi o fim de um período de folia que começou no domingo anterior. Por isto mesmo diz o povo que “a vida são dois dias e o carnaval três”. Aquela terça-feira foi um dia solarengo, repleto de luz e cor, em que o Governo não tornou feriado nem abonou tolerância de ponto à função pública mas que muitas autarquias –incluindo a de Coimbra- deram. Na Baixa, só cerca de dez por cento das lojas de comércio tradicional estiveram abertas. Com esta introdução já posso escrever sobre onde quero chegar:
Primeiro, fará algum sentido o Governo da República não dar tolerância de ponto quando, a seguir, pela independência e competência do poder local, é ultrapassado e desvalorizado por muitas câmaras municipais do país? Será que este Governo é sadomasoquista? Gosta de bater e ser chicoteado? Ou será autista (sem ofensa para os familiares dos próprios) e, em predestinação, prefere caminhar alheio ao que se passa à sua volta?
Segundo, estando toda a função pública a trabalhar, como a Loja do Cidadão por exemplo, e não tendo Coimbra tradição carnavalesca, em que fundamento assentou a decisão de encerrar os serviços camarários? Até se entendia, se tivesse grandes festividades em curso, como é o caso de outras cidades como Mealhada, Torres Vedras e outras. Ora, como escrevi atrás, a cidade dos estudantes não tem. Como entender esta decisão num tempo de crise, em que se deveria apelar ao trabalho dando o exemplo e mostrar entrega pessoal e coletiva para sairmos deste estado letárgico que nos tem mandado para o charco? Nesta decisão do executivo da Câmara Municipal de Coimbra, só se podem extrair estas razões: política partidária no pior, utilizada como afronta e arma de arremesso ao Governo, falta de bom senso na governação local e necessidade de agradar a todo o custo aos funcionários da autarquia.
Terceiro, estando o comércio de rua no estado caquético em que se adivinha, pelo estagnado poder de compra, como entender que só uma ínfima parte deste universo comercial estivesse aberto? Por que há crise, não há? Não é invenção minha! Se bem que, às vezes, comece a pensar que é! E que só eu mesmo tenho dificuldades! Argumentar que a urbe fica vazia neste dia e não haverá negócio só em parte pode aceitar-se como justificação. Todos os dias são imprevisíveis, por isso mesmo o Dia de Carnaval não é diferente dos demais. Acho que os comerciantes ainda não entenderam que deveriam ser menos egoístas e darem um pouco de si à cidade. Esta pobreza que alastra no sector, no mínimo, já deveria ter despertado uma consciência social. Abrir o estabelecimento não pode assentar apenas no deve e haver. Tem de restar um sentimento de alteridade. Fazemos parte de um todo. Não estamos isolados. Somos fios que se entrelaçam e formam uma teia. Perante este comportamento maioritário, como é que se argumenta contra o pensamento geral de que o comércio está muito bem e a ganhar muito dinheiro? Não tenho dúvida de que estamos em face de uma adversidade maior do que a crise financeira: o desalento endémico, o baixar os braços, o enfiar o chapéu de vencidos da vida.
Não seria melhor, o Governo, as autarquias, os comerciantes, todos desafivelarem a máscara e mostrarem a cara tal como ela é? Sem jogos faciais, sem contorcionismos, sem falsidade? É que assim, se continuamos a fingir com a mesma careta, o Dia de Carnaval não faz qualquer sentido.


CARTA À PROCURADORA GERAL DA REPÚBLICA

Cara Joana Marques Vidal, Procuradora Geral da República, espero que esta minha carta vá encontrar Vossa Excelência de boa saúde na companhia de todos os seus e em paz com o fantasma do segredo de justiça, esse desterrado e desalmado espectro invisível que se torna materializado num estalar de dedos, e que, apesar da sua luta, teima em atentar o seu magistério.
Porque não nos conhecemos, apresento-me: Luís Fernandes, um pacato cidadão já com algumas rugas e muitos cabelos brancos que, sem ímpeto legalista ou de justiceiro, faz da escrita uma espada a desbravar o denso manto da ignorância das coisas simples e banais. Uma espécie de vento rasteiro a mostrar que depois da passagem dos grandes eventos anunciados fica sempre uma sedimentação calcada e sem história, uma injustiça latente nos macerados mas sem voz para se defenderem das atrocidades tantas vezes disfarçadas de legitimidade.
Enquanto garante da promoção da defesa da legalidade democrática, escrevo-lhe esta missiva por dois motivos: o primeiro, para levar ao seu conhecimento o teor de um acontecimento. O segundo, para a interrogar como pode esta (in)justiça continuar aos seus e nossos olhos?
Embora já tivesse escrito a primeira parte desta história, ou nefasto acontecimento, no mais antigo semanário de Coimbra O Despertar (edição de 23 de janeiro último), naturalmente sem identificar as partes e sem entrar no caso concreto, principio por lhe contar que se trata de um processo de violência doméstica. Tudo teria começado numa cidade do litoral, há cerca de uma dúzia de anos, quando Maria, na altura com 25 anos, funcionária pública e moçoila bonita, depois de um casamento falhado, se enamora de um novo companheiro. Desta nova ligação apaixonada nascem dois filhos, atualmente um com 12 e outro com meia-dúzia de anos. Ao que parece, com o passar do tempo, a mulher foi-se apercebendo de algumas escapadelas e facadas no matrimónio e pouca vontade de contribuir para a despesa caseira e começou a reclamar. Alegadamente, a resposta por parte do parceiro ao longo dos anos foi umas contundentes bofetadas embrulhadas em vapores etílicos, de vez em quando. Fosse por vergonha ou medo, Maria foi calando e nunca apresentou queixa nas instituições para o efeito. Até que, presumivelmente, há cerca de um ano começou a pensar em, conjuntamente com os filhos, abandonar aquela vida de sofrimento. A opressão física e mental aumentou e agora acompanhada com chantagem de lhe serem retirados os rebentos. E Maria, na casa e sua propriedade do anterior enlace, continuou a calar. Até que há cerca de três meses mudou para outro quarto e passou a dormir com o rebento mais novo. Estava aceso o rastilho de mais violência já por ela sobejamente conhecida. Pouco depois do Natal, a meio de uma noite e presumivelmente tomado pelo álcool, o companheiro irrompeu e à frente da criança de seis anos violou e obrigou-a manter relações sexuais. E Maria foi apresentar participação na PSP local. O denunciado foi sinalizado e contactado pela polícia. Em resposta aumentou a pressão sobre a sua comparte, retirando-lhe os cartões de crédito e o telemóvel.
Entretanto, por estes dias, sob ameaça de morte, submeteu a mulher, e os filhos, a entrar no automóvel e obrigou-a a consultar uma vidente numa localidade com praia ali próximo. A visionária, perante os dois, sentenciou o fim daquela união e o agressor, ficando fora de si, ameaçou matá-la juntamente com os filhos. Em desespero de causa, a sequestrada, por telefone, conseguiu contar a mãe e descrever-lhe o cenário de horror e violência que, juntamente com os seus rebentos, estava a decorrer. A progenitora contactou a PSP e foi montada uma operação de resgate. Aberto o processo de inquérito, foi aconselhada a sair imediatamente com os filhos da habitação familiar –recorda-se que o locado está em seu nome. O tirano, como se nada se passasse, manteve-se onde sempre esteve e a vítima foi viver para casa de uma amiga. Durante duas semanas esta prole desfeita e em frangalhos viveu um calvário sem precedentes, sobretudo pela impunidade e liberdade de movimentos do déspota que, apesar da medida de coação imposta de não poder aproximar-se da ex-companheira, para além de tentar resgatar os filhos na escola, continuou a intervalar com a mulher juras de amor e intimações de morte.

PARTIDA PARA LOCAL DESCONHECIDO MAS NEM TANTO

Depois de duas semanas em casa de amigos, sem meios necessários ao bem-estar como roupas para os miúdos e largando o seu trabalho, no âmbito da APAV, Associação de Apoio à Vítima, foi remetida para local totalmente desconhecido até para a sua própria mãe –que se imagina como estaria nessa altura a viver a odisseia de terror da sua única filha. Depois de uma semana numa localidade de articulação, a ofendida, acompanhada dos seus dois filhos, foi transferida para uma casa comunitária de apoio à vítima numa cidade a cerca de 250 quilómetros, a sul.
Há mais ou menos duas semanas, numa noite aparentemente igual a outras onde o silêncio e a angústia imperavam e só quebrados no ranger das tábuas centenárias, por volta das quatro da manhã, foi acordada pelo barulho e gritos da responsável pela casa. A tocar à campainha do edifício estava o miúdo de 12 anos acompanhado com o pai e este com mais duas pessoas. O que teria acontecido? Maria, presumivelmente, a tomar soporíferos para dormir e tentar aguentar tanta sorte indigesta de mau fado, não deu conta da saída do seu filho mais velho a meio da noite. Apesar de não ter telemóvel o adolescente ausentou-se e, através de uma cabina pública, telefonou ao pai e deu-lhe conta da localização. Ou seja, a mulher estava à mercê do agressor. Não aconteceu uma tragédia porque, é de antever, não era a intenção do algoz desencadeá-la por hora. Está de ver que, levando duas testemunhas consigo, perante as frágeis provas de agressão física, pretendia provar a negligência grosseira maternal da ainda esposa.
Pergunta-se: estando o ofensor proibido de se aproximar da vítima, não seria suposto ter uma pulseira eletrónica e controlado à distância? Interroga-se ainda, havendo filhos não será normal acontecer um desfecho assim, de contacto entre as crianças e o progenitor? Para os serviços habituados a lidar com situações análogas, não deveria ser evidente e assegurar o princípio da precaução? Que segurança é transmitida a quem é obrigada a abalar de trouxa às costas do seu habitat e com os filhos a tiracolo? Ainda outra interrogação: ao fazer deslocar a vítima e mantendo o agressor no seu meio, como nada se passasse, não estaremos perante uma escandalosa beneficiação do infrator? Estão erradas ou não as regras judiciais? Se estão certas, parece-me, alguém foi negligente e não cumpriu com o que estava obrigado. Refiro, obviamente, a investigação e o juiz de instrução, este, que é o garante dos direitos, liberdades e garantias de todos os sujeitos processuais, sejam arguidos, assistentes ou ofendidos.
Mas ainda não acabou o calvário desta sentenciada e a penar antes do julgamento, senhora Procuradora Geral da República. Há uma semana, em face do desgaste psíquico que tudo isto deve estar a causar e se adivinha no adolescente, o rapaz “passou-se”. Depois de agredir verbalmente a mãe, empurrando a psicóloga e a assistente social e destruindo os objetos à sua mão, em descompensação, acabou internado, em psiquiatria, num hospital de Lisboa. Sem qualquer estratégia e harmonização de cuidados de segurança dos serviços envolvidos na salvaguarda da integridade física de Maria, esta deu de chofre com o seu ex-companheiro na mesma sala do hospital.
Para finalizar, senhora Procuradora Geral da República, interrogo: estes procedimentos, tendo em conta que há vidas humanas em jogo, não são uma espécie de roleta russa, pois não? É quer se forem –e esperamos que não e este caso fosse pontual-, não é de admirar que, segundo a UMAR, União Mulheres Alternativa e Resposta, tenham ocorrido mais de quatro centenas de mortes na última década!