sábado, 2 de fevereiro de 2013

UM SÁBADO DE MANHÃ NA BAIXA



 Está um dia lindo para viver. Em metáfora, o Sol em rosto de mulher bela, alheia às tristezas passadas, parece sorrir de contentamento nas ruas estreitas e não se escusa a beijar as pedras da calçada. Ornamentado por imaginários cabelos louros, brilhantes, displicentes e libertinos, como sublimação da vida, inverso a castigo, parece lança-los à brisa suave e sobre quem passa com graça e sem ela.
No canto do Largo da Freiria e com frente para a Rua Eduardo Coelho, em contraste com o astro-rei, como sentinela morta de vida, a Sapataria Reis, que já foi baluarte de um comércio pujante e auspicioso, está agora transformada em sarcófago de cartazes publicitários e de riscos e rabiscos dos vadios que se outorgam livres mas condicionam a liberdade odiando a construção. O seu trabalho mental e físico é desconstruir a obra. Se pudessem impor a sua vontade controlariam a natureza, e tudo na superfície da Terra seria plano e horizontal. Não haveria montes e vales, desfiladeiros e fundos de nada, em que sem o ser, imaterial, significam o infinito.
Estranhamente, vá-se lá saber por quê, a velha Sapataria Reis, na expressão da sua placa publicitária retro de bonomia, indica sorrir de tudo o que a rodeia. Parece uma múmia a quem retiraram tudo nas suas entranhas mas não puderam roubar o sorriso. Mas de que rirá esta velha desgraçada que, num falso luto sem sentimento, continua a vestir de preto as suas montras? Para desafiar ainda mais quem passa, numa delas conserva uma imitação de rosa vermelha brava. Como se entre uma rosa vermelha, sangue e rápidos de rios que correm nos interstícios da vida, tivesse alguma coisa a ver com o negro da morte!?! Só pode ser mesmo provocação! Será que a extinta, com ar de galhofa dissimulada, sorri do rapaz e da rapariga novos, da senhora e do homem velhinhos que passam na calçada que já foi de sapateiros? E que, perante a lamúria repetida do ceguinho Eduardo, “tenham dó e caridade para auxiliar o ceguinho, senhor!, são tomados pela dor e, no seu passo compassado refreando o movimento, voltam atrás e colocam uma moeda no pratinho de plástico? É certo que a onda de generosidade monetária já não é o que era, mas, não importa, continua a dar e o Eduardo soube adaptar-se aos novos ventos. Até há uns anos atrás, quando a comparticipação era avultada, também havia muito mais concorrência. Agora, em resquício de uma época memorial, já só resta um cigano que se faz passar por aleijadinho. Nesse tempo de fartura complementava a ladainha com “Que Deus lhe pague, Senhor!” –sem o saber, certamente, fazendo analogia com a novela teatral de Juraci Camargo. Agora, que as moedas encolheram e a vontade se contraiu, os dadores levam metade da mensagem, e estão com sorte. Porque, eventualmente, se for obrigado a passar “factura simplificada” podem todos ficar a saber que apanham um obrigado, seco e sem arranjos introspectivos analíticos, e nada mais. “Isso é que era bom! Se querem receber muito a pouco dar, vão à Cova da Iria” –pensará para si mesmo o homem que almejava ver para crer.
Esta velha sapataria, que já calçou todas as classes durante quase um século e se foi, é demais! Se calhar até goza na forma sub-reptícia como o invisual, de vislumbrar o brilho do Sol mas vidente no comportamento humano, de quarto a quarto de hora, limpa o recipiente de moedas, algumas de euro e muito mais de vinte cêntimos. Provavelmente, a velha Reis, pensará que tudo assenta no medo que domina os humanos. O receio de ficar sem vista, sem luz, sem dinheiro, sem existência, porque o ser sem ter não é viver, é arrastar na lama da miséria. E ali, naquela esquina da Rua antiga de Sapateiros, o senhor Eduardo, como cilindro de combustão onde tudo e todos, ricos e remediados e até pobres, desaguam a fobia do inferno de nada vir a ter, simboliza o conflito emergente entre uma vida esperançada de bem-estar terreno e uma morte física perdida na escuridão dos dias. Se assim não fosse, como entender que um músico de rua, que prestando um serviço social, animando o meio envolvente com a sua melodia, no mesmo tempo do ceguinho, leve apenas 1,70 euros? Compreende-se porque este, o músico, é o modelo facilitista de se sobreviver a pouco fazer, enquanto o Eduardo, mestre da lengalenga angustiante, é o paradigma do mártir, o Cristo sentado na esquina que, na imagem e na voz, sofre por todos nós. É uma catedral apostólica individual que pede para todos e por todos e com muito menos recursos. A Igreja Universal do Reino de Deus, que hoje, durante a manhã, na Baixa, disponibilizou um exército de missionários a pregar a esperança, a fé e o jornal “Eu Era Assim”, deveria olhar mais para o Eduardo que, para espalhar a palavra “do dê a mim e fique aliviado e com um pé na esperança”, não precisa de adquirir nenhum edifício, nem vender a sua mensagem na rádio, na televisão e no jornal.
Um dia destes a velha calçadeira que já foi, quando os tribunais de homens injustos e sem respeito pelo passado derem por concluído o processo, a Sapataria Reis, com aquele sorriso sarcástico, que só alguns vêem e poucos sentem, vai desaparecer e vai dar lugar a uma fina loja de chocolates e sem tempo, para dar ao tempo mais tempo, para criticar quem passa na velha artéria de um passado comercial glorioso e hoje soletrado na cantilena do Eduardo: “tenham dó e caridade para auxiliar o ceguinho, senhor!”


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"Vagabundo de nós"
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CONTRIBUTO (2)

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)


CONTRIBUTOS (2)




Por José Xavier Nunes

 Já houve tempos na minha vida em que ia ao mercado pedir carapauzinhos para o gato. Outros em que ia à praça pedir para mim e uns amigos. Amigos daqueles que só temos na nossa infância e os caminhos da vida sempre nos desviam deles. Amigos que cozem caracóis numa lata ou assam carapaus numa fogueira alimentada por restos de móveis inúteis abandonados num canto qualquer das mesmas encruzilhadas da vida... sem requintes, exigências e etiquetas. São espontaneidades de almas nuas e crentes nas virtudes de uma flor, da lua, do sol, das estrelas e… dos caracóis. Tempos de crenças e inocências, em que as peixeiradas não têm outro significado além do que se passa à volta da fogueira e, em casos mais gravosos, se resolvem com uma medição de forças donde podem resultar um olho negro, dois arranhões e um chorrilho de palavrões... sem que disso sobre um resto de ressentimento. Ou, pelo contrário, sirva como reforço de um sentimento que direcciona numa amizade reforçada, e um ralhete da mãe, da avó ou do pai, por causa dos calções sujos ou os joelhos rasgados. Como nas regras da vida tudo cresce, também nós crescemos. E com esse crescimento o mundo alarga-se, os sentimentos expandem-se, os caracóis pagam-se a uns tantos euros por pires, as flores causam alergias, a lua traz a noite, o sol requer óculos escuros e protecções dérmicas, os amigos diluem-se na multidão e as peixeiradas trazem consequências. Isto foi uma breve e pouco clara descrição do que poderiam ter sido alguns episódios da minha infância, pré-adolescência... ou as aventuras de um irresponsável. Podem chamar-lhe o que mais lhes agradar. Agora que caminho para a velhice, mercados, praças e peixeiradas, nesta época de crise, assumem um aspecto aterrador... conforme veiculados por noticiários credíveis, pessoas importantes, números indesmentíveis ou mero divertimento politiqueiro. Acreditando em tudo o que me é dito através de todos os canais por onde só posso saber o que sei, estou metido em maus lençóis e tenho de apertar o cinto. Creio que um espartilho é mais eficiente para dissimular ventres inchados, mas não vou fazer uma peixeirada por causa disso. No que posso ter mais esperança é que não nos sugiram apertar o cinto à volta do pescoço. Com a velhice o cérebro humano vai acumulando dúvidas -pelos vistos, nestes tempos mais dívidas do que dúvidas- e aumenta o défice de clareza mental. Como não sou excepção, estou atulhado delas e como sou crente, por fraqueza, vou engolindo tantos sapos como micróbios... com a convicção própria de uma birra de que todos os mercados, praças e peixeiradas hão-de ter nomes e pessoas com rosto. A não ser que se dê o caso de que tal como eu com a força do tempo ter desvanecido nas minhas memórias os nomes das peixeiras, dos amigos das peixeiradas e o fogo onde assava os carapaus e cozia os caracóis. O que não é lógico, sendo esta crise recente... nem sequer os retratos ainda tiveram tempo para amarelecer. Portanto, há nomes, há caras e há sítios onde foi forjada -todos ainda em tempo útil de identificação. Então não há que comparar os meus "desvarios" da pré-racionalidade, com as névoas da presente realidade. Falar mais em nomes, mostrar mais rostos e sinalizar sítios, pode ajudar mais a resolver a crise do que alimentar peixeiradas. Au revoir...


CONTRIBUTO (1)

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)

CONTRIBUTO (1)


 Por José Xavier Nunes

 A Internet é a esquina onde se encontram todos os idiotas para dizerem o que noutros tempos exigia muito esforço para ser dito e uma sorte titânica se alguma vez fosse ouvido.
Mas é uma delícia saber que este mundo afinal também é povoado por idiotas que gostam de botar faladura sem terem de carregar com o peso de um canudo às costas. Deve ser muito chato ter de andar uns anitos a queimar pestanas para no fim conseguir articular umas ideias e com mais um pouco de sorte conseguir passá-las ao papel. Sem pôr em causa o valor de um canudo e com o devido respeito por quem arvora um título, a Internet democratizou a idiotice e banalizou a exclusividade do saber de certas coisas tornadas ocultas para fazer rodar as máquinas corporativas. Elas existem e estarão mais reforçadas, mas o saber dessas certas coisas já não é apanágio de iniciados. E comodamente no sossego do nosso lar pesquisamos, investigamos, avacalhamos e botamos faladura sobre tudo o que mexe. Isto é muito bom... e incomoda! Não a mim, certamente. Tanto por não ser possuidor de mistérios, como detentor de verdades ou senhor de razões... As tais coisas que em tempos nos quiseram fazer acreditarem como sagradas e iluminadas por entidades celestiais. À luz de um monitor ligado à Internet aparecem-nos os diplomatas, por exemplo, como meros seres humanos debochados e desbocados; os políticos como meros seres humanos mentirosos, contraditórios, coscuvilheiros; os banqueiros como meros seres humanos ávidos, egoístas, maldizentes... e por aí fora!! A Internet tornou-nos assim, a todos, meros seres humanos... cada um no seu galho, é certo, mas todos um pouco ainda macacos !!
Eu pessoalmente estou muito grato a estas novas tecnologias, como sói dizer-se, porque me evitam demasiadas vénias a seres superiorizados e  me poupam as cruzes a um sem fim de exercícios desnecessários de subserviência, idolatria, risinhos amarelos e esgares e trejeitos de queixo boquiaberto. Porque não basta ser bem-falante e estar bem vestido para que eu fique convencido da presença de um ser iluminado, quando depois ao investigar através das tais novas tecnologias concluir que tal não passa de um mero candeeiro de salão... Certamente, e como não poderia deixar de ser óbvio, igualmente se encontra o contrário. Felizmente em maior quantidade!!! Os tais idiotas que gostam de botar faladura... e acabam por acertar, apesar de todos os esforços dos instalados para que lhes passem ao lado os tiros certeiros. Ou se habituam a ouvir o que não gostam e não querem, ou estão condenados à extinção... porque a Internet é a esquina onde se juntam todos os idiotas para botar faladura. Aleluia !!!

VÁ LÁ, SENHORA...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O MISTÉRIO DO LEVITADOR


 A meu ver, comparativamente, as artes de rua são a manifestação mais pura da cultura popular. Sem apoios governamentais ou autárquicos, estes artistas que pululam pelas cidades do país a darem animação a troco de uma simples moeda mereciam ter outro respeito e outra sorte. Se é certo que ninguém os desrespeita, também é verdade que, na maioria das vezes, não se olha duas vezes para quem presta um excelente serviço comunitário. Habitualmente vislumbra-se para o todo sem levar em conta as especificidades individuais. E há tanto para apreciar nestes saracoteantes da arte sem eira nem beira.
Nas suas idas e voltas de um destino programado ou pré-concebido, para fazer parar mesmo os transeuntes, estes criadores terão mesmo de ser muito bons, ou, pelo menos, chamar a atenção pela sua destreza e provocação associada. Foi o caso de hoje, na Praça 8 de Maio, em que, durante várias horas, um homem-estátua, aparentemente, a levitar provocava celeuma e admiração.
Entre a assistência, a tirar fotografias, o Américo Mascarenhas, um jornalista do Jornal de Notícias –não sei se ainda no activo-, atirou-me de supetão: “ó pá… ó pá! Já viste isto? É o Toino. Lembras-te dele, na Se Velha?”


UMA TERTÚLIA NO "BE POETRY"



 Conforme amplamente anunciado nos jornais diários da cidade e outros meios de informação, no seguimento de outras já produzidas, com início por volta das 20h30, realizou-se ontem uma tertúlia sobre o lema “Memória & Literatura” no “Be Poetry”, na Rua do Corvo, 33, onde há uns anos funcionou o “Centrum Corvo”, do saudoso meu amigo Melic Cerveira. Sobre a égide de Madalena Caixeiro, escritora coimbrã amplamente galardoada em vários concursos literários, e com cinco livros editados –apenas um não foi premiado-, partiu-se para um serão muito agradável e espectacular.
Com uma assistência de cerca de uma vintena de atentos, onde se poderiam ver outros amigos e escritores como António Vilhena, poeta e vereador do Partido Socialista na Câmara Municipal de Coimbra, e que fez uma excelente apresentação da “semeadora de palavras” e também professora universitária aposentada.
Com prólogo e epílogo musical a cargo de um dueto extraordinário composto pela Inês e pelo Nelson, estou convencido que, onde quer que esteja, o velho Cerveira sorria de contentamento ao ouvir a glamorosa voz da Inês –um dia destes falarei deles aqui. Sei que habitualmente actuam em trio, mas ontem o violinista esteve doente.
Quem não esteve presente perdeu uma boa oportunidade de presenciar e participar numa conversa viva com uma pessoa muito interessante, que de uma forma humilde, quase infantil, tal foi a simplicidade como se apresentou naquela pequena sala do “Be Poetry”. Versou vários temas, desde “Conversas com Deus”, em toda a sua amplitude metafísica e tão importante na complementaridade da vida humana, até às personagens apresentadas nos livros publicados –ficámos a saber que, para quem escreve, são projecções materiais de gente de carne e osso que deambula próximo, ou, no mínimo, são heterónimos do próprio escritor.
O amor, sempre presente numa obra ficcional, também não poderia ser olvidado. Segundo Madalena Caixeiro, “o maior amor que pode ligar duas pessoas é o que alia um homem e uma mulher”. É uma ligação sublime, pura, porque não é imposta, como, por exemplo, o amor de mãe que é da natureza e existencial. Contrariamente ao que se pensa, é um amor refém da paixão que uma mulher, sem se poder libertar, nutre pelo filho que se gera dentro do seu ventre.
E a cidade? O que pensa Madalena da urbe que, nos seus contos, tanto se avalia ser amada? Sem pensar duas vezes retorquiu: “Coimbra é uma cidade madrasta para com os seus!”. Curioso, porque, há cerca de 5 anos, André Sardet disse o mesmo. “Reparem que anualmente há uma feira do livro na cidade. Já viram lá algum autor local? Pois, estranhamente, convidam outros escritores nacionais, mas, vá-se lá entender por quê, nunca me convidaram para dar autógrafos num destes certames.”
Naturalmente que a Baixa não ficou esquecida. A uma pergunta de Vilhena, respondeu a prosadora: “gosto muito da Baixa! Os centros comerciais deram cabo desta zona monumental. A Baixa perdeu importância” –no seu comércio de excelência. Esta grande área precisa de concertos ao vivo. Eventos que lhe façam ressuscitar a sua vida e movida de outrora e que tanto guardamos na memória.
Com espectadores empenhados, a conversa, em completa informalidade, decorreu até às 22h00.

VALE A PENA SER ESCRITOR EM PORTUGAL?

 António Vilhena trouxe à colação um facto que, dando deveras que pensar, devemos trazê-lo para a discussão pública. Madalena Caixeiro ganhou várias vezes o “Prémio Miguel Torga”, instituído pela autarquia de Coimbra, e o de “Vitorino Nemésio” –este escritor açoriano está sepultado em campa rasa, no cemitério dos Olivais, em Coimbra. Para além dos prémios referenciados arrebatou também o de “Trindade Coelho”. O curioso é que, por um lado, em livrarias de títulos novos, não há obras à venda desta autora consagrada; por outro ainda, e a pedir reflexão, só um dos livros mereceu uma segunda edição. E porquê? Interrogou Vilhena. Porque estes prémios foram todos publicados por editoras já desaparecidas.
Agora uma questão minha, quem gere estes prémios literários não deveria garantir aos premiados uma continuação da sua obra em futuras edições e em caso de esgotamento da edição preliminar? Por que não o está a fazer? Por que razão só vê na cultura uma lógica de “deve” e “haver”? Ou seja, continuo a especular, será que basta entregarem o prémio pecuniário ao distinguido e, a partir de aí, abandonando-o, nunca mais se preocupam com a obra e do destino de quem a criou? Onde fica a responsabilidade social –sim, porque estes galardões são pagos com dinheiro público- e a génese que conduz à motivação para futuros escritores? Penso que todos devem saber que um livro ou mesmo um pequeno texto tem sempre um “religare” existencial para o seu criador. Por outras palavras, é uma extensão do seu feitor. Ora, está visto, estamos perante um profundo desrespeito por um autor.

O QUE É QUE SE PAGA AQUI?

  Quem esteve ontem no “Be Poetry” a assistir à explanação de Madalena Caixeiro e subsequente troca de impressões, certamente como eu, ficou com a impressão de que não se pagava o consumo. Levemos em nota a publicidade inserida no Diário de Coimbra:

“Tertúlia
Memória & Literatura
Entrada Livre
Com a escritora Madalena Caixeiro
BE POETRY
Rua do Corvo, nº33 COIMBRA
O BE POETRY antecede um BE Tasty, com uma degustação de presunto de atum, muxama, regado com vinho ou espumante Alvarinho
31 de Janeiro, quinta-feira, às 19h30
Apoios: “Estúdio m” / designkine

Antes de prosseguir, saliento que o serviço foi excelente, tanto na prestação simpática como na confecção pantagruélica e prova de vinhos. Com toda a honestidade, aconselho uma visita a este magnífico espaço de restauração.
O vinho foi servido a quem quis e foram sendo colocadas na mesa mais travessas com “Be Toasty”, pequenas tostas com atum e “muxama”, que eu desconhecia mas fiquei a conhecer e a guardar o seu paladar na boca. É certo que a meio do percurso vi colocarem um pequeno papel colorido na mesa. Sem o analisar bem, pensei, cá com os meus botões, que serviria de base para os copos e nem liguei. No fim da dissertação, vieram os beijinhos e abraços e o pessoal começou a sair. De repente tive um flash: será que não se paga nada? Mas, a ser assim, como é que a casa ganha dinheiro? Serão as marcas apoiantes que suportam a despesa? Bom, como estou habituado, para onde quer que vá, a pagar, fui interrogar o gerente: diga-me lá, não se paga nada? Devo alguma coisa?
Respondeu o gerente: “claro que deve. Não viu os papéis que colocámos nas mesas? Você esteve a beber “Alvarinho”… E lá paguei a minha conta. Lá lhe referi que o clima que estava criado era de que não se pagava. Certamente os outros convivas, que não pediram contas, partiram do mesmo princípio erróneo. Por isso mesmo foram embora.
Pode até parecer que estou a contar isto porque paguei. Nada disso. Estou completamente de acordo de que eventos como estes devem continuar. São importantes para a Baixa, porque, apesar de pouco, trazem novos públicos. São essenciais para estas casas hoteleiras porque, com estes debates temáticos, tentam animar os seus estabelecimentos. Porém, a meu ver, é imperioso que se cobre o que se consome. Que possam ter pequenos gestos de simpatia admite-se, mas jamais sem perder o sentido do lucro.
Em suma, para não se repetir o mesmo de ontem, é necessário que as regras sejam anunciadas para evitar confusão. Tenho a certeza de que quem lá esteve ao ler este meu texto vai bater com a mão na testa e exclamar: “ai! Eu pensava que não se pagava nada!?!”

LEIA O DESPERTAR...


LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "BAIXA: INCÚRIA E DEIXA CORRER", deixo também as crónicas "UM POUCO DE NÓS QUE SE VAI"; "UMA PRAÇA SEM CARROS" e "REFLEXÃO: UM DEBATE PELA BAIXA"



BAIXA: INCÚRIA E DEIXA CORRER

 Há candeeiros de rua que nascem com sorte macaca. Não sei se estarei a ser claro, mas quero dizer que nascem em dia aziago, sem sorte nenhuma. Ora vejam lá se não estamos em presença de uma destas manifestações azarentas?!
No Sábado de há duas semanas, o temporal, que não tem respeito pela velhice e deveria ter –porque o lampião de que irei falar é dos mais antigos da cidade e faz parte de um acervo que foi desaparecendo e sendo substituído por uns harmonizados e muito feiinhos graças a Deus-, dizia eu, para que você não perca o fim à meada, que o tempo, na sua imprevisível má-disposição, deu para marrar no pobre lampadário, que por acaso até é católico e está ao lado de quem vai frequentar a Igreja de São Tiago todos os dias à noite por vontade do senhor Bispo, D. Virgílio Antunes, e que finalmente, depois de tanto o aborrecerem por aquele templo estar encerrado na Baixa, numa atitude louvável, abriu portas a quem lá for por bem. Continuando, depois do aperto pelo vento, a luminária ficou com uma asa caída, como quem diz a porta aberta, e com uns vidros laterais partidos. Era coisa de monta? Não senhor. Se o seu proprietário fosse privado uma hora depois, no mais tardar, o assunto estaria resolvido. Encostava-se lá uma escada, retiravam-se os “fanicos”, media-se, ia-se mandar cortar os vidros necessários e pronto. Estava a coisa feita. Acontece que o gestor da iluminação pública é a Câmara Municipal. Ora, por aqui, já se vê que a coisa chia mais fino. Esta coisa de mudar um vidro não é assim tão simples como parece. Só ignorantes “casca dura e cérebro tipo quartzo”, como eu, não percebem a complexidade de uma obra desta envergadura.
Continuando, como se estava perante uma enormíssima dificuldade, o que fizeram dois funcionários camarários na segunda-feira? Eu explico, porque estou a escrever para isso. Olharam para o exemplar de ferro forjado, lá para o alto, e, especulando, deveriam ter desabafado um para o outro: “é pá, isto está muito alto!”. E, em face do contratempo circunstancial, foram para o desfecho que se escolhe sempre quando em presença de um problema cuja resolução implica esforço mental e físico de alguém que trata da coisa pública: isolar a área envolvente. E assim, por causa de uma portinhola aberta e dois vidritos quebrados, apartou-se uma parte das Escadas de São Tiago. Quer saber quanto tempo? Calma. Eu conto tudo, mas nada de me pressionar. Eu respondo: até sexta-feira seguinte. Quer dizer, foi até esse dia, por circunstancialismo feliz, por que poderia ser durante semanas. Quer que lhe conte? Quer? Então faça favor de não mostrar ansiedade. Seja calmo como os funcionários da autarquia, caso contrário, lá vamos nós aumentar os fármacos antidepressivos –ainda há dias a imprensa falou disso. Continuando, quer você saber porque retiraram as tarjas vermelhas passados quatro dias? Eu conto –embora preferisse não ter de o fazer, mas já que você insiste assim seja. Então é assim, na sexta-feira de manhã, no prédio da Caixa Geral de Depósitos e coladinho ao candeeiro azarado, uma grua, de uma empresa de limpezas privada que, parece-me, trabalha também para a Câmara, servia de sustentáculo elevatório para dois homens limparem os vidros do imóvel confinante. 

Ao manobrador, alguém colocou a possibilidade de o elevador, ao mesmo tempo, poder servir o interesse público. Ou seja, avisava-se os serviços de iluminação pública da autarquia e, como a grua estaria ali toda a manhã, iria lá um funcionário e trocava os vidros e retirava as fitas das escadas. Falou-se com o empregado, que pelos vistos era uma boa alma prática, e ele disse imediatamente que sim. Contactou-se os serviços camarários e, passados cerca de trinta minutos, vieram dois funcionários. Quer saber o que fizeram? Retiraram os vidros partidos, fecharam a portinhola, libertaram as fitas e foram à sua vida. Volto outra a vez a questionar: se o candeeiro fosse de um particular o procedimento seria igual? É evidente que estamos perante uma amostra, mas o problema é que procedimentos como estes são demasiado recorrentes. É necessário sensibilizar estes servidores públicos e também os particulares que aqui vivem e trabalham para uma nova filosofia de utilização de recursos.
Creio não ser preciso escrever mais nada para mostrar a razão de a Baixa, que é candidata a Património da Humanidade a ser reconhecida pela Unesco, se encontrar no estado em que está, pois não?


UM POUCO DE NÓS QUE SE VAI

 Esta semana encerrou a livraria do grupo Leya, na Rua Ferreira Borges. Depois de, em novembro de 2011, ter ocupado as antigas instalações da Coimbra Editora, junto ao Arco da Traição, eis que num prenúncio anunciado encerrou de vez. Já nesta altura, aquando desta mudança de gerência, um meu amigo enfatizava assim: “olhe, é um golpe duro que recebo no peito. Este prédio da Coimbra Editora não é apenas uma marca, é muito mais, é património da cidade. Mas, pode crer, esta loja nas mãos deste grande grupo económico, vai durar pouco”. Esta semana, como a dar razão ao presságio, claudicou. Esperamos, todos, que reabra por conta da antiga editora.
Embora há duas semanas tivesse anunciado aqui que havia 115 lojas fechadas na Baixa, infelizmente, sou obrigado a retificar este número para 127. Nessa edição d’O Despertar escrevia que este ano já encerraram 4. Novamente, pedindo desculpa pela correção, declaro que o número de encerramentos já vai em 13. Este aumento deveria dar que pensar. Não deveria?



UMA PRAÇA SEM CARROS

 A Praça do Comércio, pela sua beleza monumental e posição geográfica mesmo no coração da Baixa, é, sem dúvida nenhuma, uma espécie de oásis no meio do deserto. Levando à letra esta metáfora, seria de supor que a sua estima coletiva deveria estar acima dos interesses egoístas de cada um. Acontece que não é assim e volta e meia vamos encontrar esta joia arquitetónica pejada de automóveis estacionados no seu ventre. O que pensarão alguns intervenientes deste encantador largo histórico?
Victor Silva, empregado no restaurante Praça Velha, disse o seguinte: “é uma pena, um dó! Faz-me doer o coração. Há dias em que fazem deste terreiro um parque de estacionamento. Se acaso houver necessidade de passar uma ambulância ou bombeiros está de tal forma preenchido que torna impossível a sua circulação. A Polícia Municipal, perante estes reiterados abusos, é ineficaz. Quando são chamados não são coerentes na sua atuação. Multam uns e outros não. Tenho verificado várias vezes que, após a sua passagem, não deixam notificações em todas as viaturas. Não consigo entender este injusto procedimento. Os comerciantes desta praça também deveriam dar o exemplo e não dão. Um largo destes é uma beleza, deveria estar sempre sem carros. Não pode continuar a ser um parque de estacionamento. É visitado por todo o turista que chega a Coimbra e não deve haver nenhum que não o fotografe. É uma vergonha! Um desrespeito por esta pública monumentalidade. Na última “Noite Branca”, em dezembro, os grupos contratados para atuarem aqui não o puderam fazer por não haver espaço disponível. Uma lástima! Digo-lhe, sinceramente.”

Armando Campos, gerente do Restaurante A Taberninha, enfatizou: “embora considere que, diretamente, não afeta o meu negócio, no entanto, enquanto cidadão, não tenho dúvida de que esta praça deveria estar vazia de automóveis. Preferia vê-la ampla e sem carros. Esta zona é pedonal e com horários para carga e descarga, simplesmente ninguém cumpre. Para que servem os pinos junto ao Banco de Portugal? Deveriam levantar às 10h00 e baixar às 20h00. Se assim fosse, tudo estaria bem.”
E o que acha o presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu? Carlos Clemente explanou assim: “já é tempo mais que suficiente do município de Coimbra, através da Polícia Municipal (PM), resolver o estacionamento ilegal da Praça do Comércio. Tenho verificado amiúde vezes que alguns agentes da PM e da PSP não atuam em conformidade com a lei. Portanto, não posso estar mais de acordo com o facto de alguns comerciantes e moradores estarem contra esta situação. O mais grave é quando o presidente da junta pede a intervenção da PM. Violando o dever de sigilo a que estão obrigados, alguns agentes, ao multarem os automobilistas, informam que estão a proceder assim porque foram chamados pelo edil de São Bartolomeu. É certo que, embora não o devessem fazer, também não me preocupa muito porque é para o bem da freguesia. Já agora, aproveitando esta oportunidade, escreva lá também que a “venda ambulante”, contrariamente ao prometido, ainda não está resolvida pela Câmara Municipal. É uma vergonha para a Baixa e para a cidade.”


REFLEXÃO: UM DEBATE PELA BAIXA

 Como se sabe, estamos a escassos meses das eleições autárquicas, o que, em consequência, quer dizer que os partidos e mais propriamente os candidatos já estão todos a afiar o gume das espadas para o pleito eleitoral. Antes de prosseguir, como ressalva, ficarão os leitores a saber que nesta página não se aconselhará o voto em quem quer que seja dos candidatos já anunciados ou que venham a ser. No entanto, não quer dizer que, do ponto de vista da objetividade, não se critique as suas medidas prenunciadas e que venham a fazer parte das suas promessas sobre a revitalização da Baixa. Estamos ainda numa fase embrionária e sabemos pouco sobre o que tencionam fazer para retirar esta parte histórica da sua decrepitude e letargia. Um dado se conhece: os três candidatos anunciados pelo CDS-PP, pelo PSD e pelo PS, respetivamente Luís Providência, Barbosa de Melo e Manuel Machado, estão fortemente imbricados e com responsabilidade no passado de decadência desta zona de antanho. Num momento em que o desânimo grassa pelas ruas da amargura, de comerciantes e residentes, tendo em conta o recessivo momento histórico que atravessamos, é preciso colocar estes representantes partidários entre a espada e a parede. Recuar mais não é possível. Então, nesta fase, queremos ver homens de barba rija a comprometer-se sobre a sua honra e dignidade sobre o que vão fazer e, sobretudo, de que vão empenhar-se na reconstrução deste perímetro tão carregado de memória. Vamos debater a Baixa?