sábado, 7 de novembro de 2009

PESSOAS

(FOTO DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)


Há pessoas que eu conheço,
que por mais tentem fazer
passar, sem ser o que pareço,
acabam por me descrever
naquilo que me desconheço;
Podem até pintar a manta,
de cor viva, perfumada,
nunca serão uma planta,
uma rosa que eu beijava,
na memória de uma anta;
E se a intuição me atraiçoar,
e forem melhores que eu,
já que me estou a delinear,
quem não me convenceu,
como um espelho a projectar;
Quantas vezes já me enganei,
ao catalogar em contramão,
tantas vezes que nem sei,
se será defeito de fabricação,
erro de casting que reiterei;
Para filme em que os actores,
são personagens da vida,
honestos, outros impostores,
é uma peça muito sofrida,
final de alguns desamores;
Tudo gira em triunvirato,
amor, dinheiro e poder,
romance muito caricato,
na manipulação do ser,
Outono de existência pacato.




sexta-feira, 6 de novembro de 2009

EM NOME DO AMBIENTE




Neste mundo actual, dominado pela economia global, assistimos a dois movimentos. Um, é dominado por um “consumidorismo” louco, em que os entes (os consumidores) são uma massa abrutalhada abstracta buscando unicamente e apenas o preço mais baixo, sem ter em conta que esse interesse legítimo se tornou uma obsessão e está a encaminhar a economia global para o cano de esgoto da produção mundial. Esta procura do preço ínfimo está continuamente a destruir postos de trabalho em toda a Europa e a conduzir um “saber fazer” empírico para os anais do tempo, que não voltará mais e se perderá para sempre. Hoje, praticamente deixou de se apostar em artigos de qualidade porque deixou de haver mercado. Dizer que é a crise que empurra os consumidores para o baratinho é analisar mal este problema. É também, mas não é tudo –mas, quanto este assunto, por agora, fico por aqui.
Outro movimento da economia a que assistimos, e contrastando com o que acabei de escrever em cima, paradoxalmente, é imporem-nos um planeamento económico ditatorial em nome de uma questão transcendental. Há várias, mas, neste caso, referirei apenas uma: o ambiente.
Sabemos todos que as preocupações com a ecologia humana começaram muito antes dos movimentos dos anos de 1970 na antiga RFA, República Federal da Alemanha, antes da queda do muro de Berlim que dividia em duas a Alemanha que conhecemos hoje. Mas, verdadeiramente, com medidas obrigacionistas, no velho continente europeu começou neste século XXI. E por detrás destas preocupações ambientalistas está um nome: Al Gore e o seu documentário “Uma verdade inconveniente”, em 2006, sobre alterações climáticas.
Tudo estaria bem se, por detrás das directivas europeias, realmente a defesa do planeta fosse o escopo de toda a legislação emanada de Bruxelas. Mas não creio que seja esse o verdadeiro motivo. Em nome do CO2, dióxido de carbono, vou apenas cingir-me ao caso da substituição da velha lâmpada de filamentos de consumo pelas novas que nos querem impingir a todo o custo.
Segundo o alegado pela comissão estas novas luzes, para além de pouparem mais energia, provocam um dano menor ao ambiente e serão recicláveis. Porém, há tempos, lembro-me de ter lido no jornal “Público”, em que era referido que estas novas lâmpadas continham, salvo erro, chumbo, e que para a bioesfera eram muito mais prejudiciais do que as que empregámos até há pouco.
As de filamentos, que sempre utilizámos, tinham um custo, até há bem pouco tempo, de cerca de 50 cêntimos. Agora, se quisermos continuar a usá-las, custa 1 euro e com tendência para aumentar o preço. Segundo um vendedor deste material eléctrico, meu amigo, para além do valor inicial da lâmpada, 42 cêntimos e mais IVA vai para o Estado. Ou seja, esta “taxa eléctrica” é superior ao custo de produção.
Passemos às novas lâmpadas recomendadas ou impingidas (como quem diz, impostas pela Comunidade Europeia). Para além da luminosidade ser muito mais fraca que as anteriores, o preço destas novas, chamadas de “económicas”, é uma surpresa: custa só cerca de 4 euros para cima. Para além disso, como não poderia deixar de ser, pagam 23 cêntimos mais IVA, em nome de uma taxa apelidada de “ecovalor”. Segundo o meu amigo, esta taxa será para providenciar a sua reciclagem. O problema é que os centros que as recebem para transformação, ao que lhe parece, também querem cobrar para efectuar essa recolha.
Interroga-me ele: “se a intenção é diminuir as emissões de CO2 e poupar energia, porque não começar nos candeeiros de iluminação pública, que, pelo país fora, estão todos acesos entre as 24 e as 8 horas? Porque não, por exemplo, numa avenida, acender um sim, um não, em vez de estar tudo iluminado?
Não estaremos, em nome de uma intenção altruísta, e com o engodo da poupança energética, apenas a ser levados no carrinho do “paga e não bufes”?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

BAIXA: QUANTO VALE UM ESTACIONAMENTO?









(VEJA-SE, NESTA FOTO, COMO OS CARROS INVADIRAM UMA FAIXA QUE NÃO ERA SUA)




A Rua da Sota, talvez pelo seu étimo do latim que significa “de baixo”, foi sempre uma artéria desprezada. Quando se pretende indicá-la a um qualquer turista que procura o “Zé Manel dos Ossos”, é sempre aquela via que está nas traseiras do hotel Astória. Isto é, a sua valência de afirmação reside na sombra projectada de algo, que neste caso, será o centenário hotel.
Ou pela condenação popular de “subartéria” ou não, a verdade é que o seu piso actual de irregular cascalho rolante não foi contemplado nas obras de 1998 do “Procom” –Programa de Apoio à Modernização do Comércio-, em que, inserido neste projecto, praticamente todo o chão da Baixa foi substituído por calçada à portuguesa. Embora do lado da Igreja do Reino de Deus foi feito o arranjo urbanístico com lajeamento e uns bancos de pedra. Para delimitar o parqueamento automóvel, entre a igreja e o Banco de Portugal, foram colocados também uns pinos em inox. Só era possível estacionar do lado do Hotel Astória.
Misteriosamente, ao longo da última década, os pinos foram sendo derrubados, um a um, e um espaço de rara beleza, que convidava à paragem naqueles bancos de descanso, ia sendo invadido pelas viaturas. Então, já há muito tempo, acontece o inimaginável: do lado do hotel o parqueamento é pago, no outro, em que as “latas” invadiram abusivamente uma área planeada para ser pedonal, não é (veja-se a primeira foto).
Mas ainda não fica por aqui: a Junta de São Bartolomeu, entendendo que o piso da Rua da Sota estava intransitável para andar a pé, e inserido no protocolo de delegação de competências atribuídas às juntas de freguesia, propôs o arranjo da artéria à Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Ora, a ser assim, e aproveitando as obras de melhoramento, é evidente que seria necessário repor a legalidade, ou seja, expurgar os automóveis da faixa abusivamente invadida.
Segundo o presidente Carlos Clemente, “falei com uma engenheira da CMC e chamei-lhe a atenção para aquele facto anómalo. Propus-lhe também que, até serem repostas umas bolas de ferro ao longo do passadiço, a junta de freguesia se comprometia, a expensas suas, a colocar umas floreiras que, para além de dar uma outra graça à rua, evitariam o contínuo aviltamento do espaço. Esta técnica de engenharia contactou o Gabinete para o Centro Histórico e foi-me comunicado que a minha assembleia poderia adquirir as floreiras para o efeito. Comprámo-las e, agora, qual não é o nosso espanto, recebemos informação do director daquele departamento da câmara municipal, de que afinal as floreiras não podem ser colocadas onde anteriormente fora planeado. Só terão lugar entre os bancos de pedra.
Ali vai ser mesmo feito um corrimão para menos de uma dúzia de automóveis e instalada uma máquina de emissão de bilhetes de estacionamento. Então isto não é um absurdo? Então, se levarem esta estupidez avante, as pessoas sentam-se nos bancos de pedra e ficam encostados aos carros?”, interroga Carlos Clemente. “Estou profundamente indignado. Isto admite-se? Por causa de pouco mais de meia dúzia de lugares, vai sacrificar-se uma zona paisagística de excelência e bem conseguida na Baixa?”. Isto é o quê? É ratificar a ilegalidade?”.
Agora sou eu a opinar: talvez o senhor director para o Centro Histórico possa explicar o que quer fazer da Baixa. Até se admitia este disparate se esta zona velha tivesse necessidade de lugares para estacionamento. Acontece que a oferta é superior à procura, infelizmente.
Não sei se o senhor director para o centro histórico será crente –não tenho nada com isso, é óbvio-, mas, a ser assim, talvez se entenda que aqui anda a mão de Deus. Só na sua excelsa superior vontade se pode entender este disparate. É que às vezes Ele é mais teimoso que um jerico. Sobretudo quando há uma igreja por perto, e, neste caso, é do filho. Que deveria ser mais equidistante, a gente sabe, e ás vezes até lhe perdoa algumas injustiças, mas aqui, tenha lá santa paciência. Que diabo…(salvo seja!).
Não sei se Deus lerá este blogue –se calhar não, às vezes tenho cada uma!-, mas se cá vier, olhe lá, isso não está certo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

OPINIÃO DE MÁRIO CRESPO NO JN



03 Novembro 2009

Os intocáveis

"O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O PAÍS DO VALETUDO


(Fotos tomadas de empréstimo, com a devida vénia, ao blogue "O Sexo e a Cidade")


No Sábado fui à Lousã,
assistir a um lançamento,
vi um jumento num afã,
procurando conhecimento;
“Com as botas do meu pai”,
é livro de Casimiro Simões,
li-o praticamente num ai,
sem lograr os aldrabões;
Mas deu para perceber,
que o lugar satirizado,
é uma amostra de se ver,
neste país ridicularizado;
Uma minoria chupa na teta,
sem deixar cair pinguinhos,
a maioria assiste asceta,
à espera de uns miminhos;
Todos têm a solução,
diz o Henriques Louzã,
talvez seja predestinação,
pelo o pecado da maçã;
Mas para que serve a nação,
a não ser para os vigaristas,
se os restantes também são,
aprendizes, seminaristas?;
O que faz falta é um sorteio,
para todos pudermos roubar,
assim já não haveria meio,
de haver tantos a se queixar;
Esta é a verdadeira questão,
é a forma, não a substância,
não é por haver tanto ladrão,
fere, é a divisão, a equidistância.








MEU AMIGO ESTÁ INFELIZ




O meu amigo tem tristeza,
carrega-a no semblante,
está sem força, com certeza,
não tem brilho o diamante,
os seus olhos são a leveza,
entre o precipício e o mirante;
Trabalhou a vida inteira,
mal começou a respirar,
foi malhar erva na eira,
com uma côdea a cheirar,
depois de regar a jeira,
ia o estômago enganar;
Veio para o comércio labutar,
nem chegava ao balcão,
era marçano a rebuscar,
a esperança em contramão,
sonho longo a magicar,
invejando o seu patrão;
Um dia montou o pensamento,
conseguiu abrir sua tendinha,
ora era criado, ora jumento,
transpirando a estopinha,
tudo dependia do momento,
patrono, se era, não sabia;
Foi juntando um pé-de-meia,
para um dia se reformar,
veio a crise e a maré-cheia,
levou-lhe tudo sem avisar,
o sonho, o terreno na aldeia,
até a confiança no acordar;
Hoje é uma sombra de outrora,
dos tempos de antigamente,
pouco lhe importa viver agora,
com o peso do presente,
diz que quer ir-se embora,
sair deste inferno de gente;
Pergunta-me, quase a chorar,
se está certo ser infeliz,
o que o prende aqui é lembrar,
a família que sempre quis,
a sua vida é um penar,
um S. Francisco de Assis.



E PARA COIMBRA NÃO VAI NADA?

(MAL POR MAL, AINDA O QUE NOS VALE SÃO OS GRITOS DO LUIS "ASPIRANTE", CASO CONTRÁRIO, ISTO SERIA MESMO UMA PASMACEIRA)


Não sei se já repararam, mas tirando a “Operação Face Oculta”, que rebentou a semana passada, parece que nada se passa no país. Nuns arremedos de notícia, ainda se tenta chamar à colação a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à presidência do PSD, mas, ao que parece, o professor de direito Constitucional é “esperto” e não quer ser triturado pelos barões laranjas, e, logo, em consequência da sua não inscrição, não é mesmo notícia.
Parece que o país meteu férias na criminalidade. Tirando uns assaltozitos a umas bombas de gasolina, ninguém arrisca nada. Se calhar, a coisa está tão preta, isto é a economia está tão pobrezinha, que os fins não compensam os meios. Não há um homicidiozito nem nada. Daqueles de faca e alguidar. Por exemplo, em que, por paixão assolapada, sentindo-se traído, o amante mata o amor da sua vida.
Se eu fosse director de um jornal andava preocupado com a falta de temas.
Basta desfolhar o Diário de Coimbra de hoje, em que se vê “obrigado” a titular em primeira página “Jaime Soares “excomunga” padre de Poiares e condena Diocese de Coimbra”, para vermos a falta de notícias que assola a cidade.
E desfolhando o Diário as Beiras a mesma coisa: “Dezenas de cães morrem envenenados em Cantanhede”. E pouco mais. Nem um assalto a um banco, ou, no mínimo, a uma loja, nada. Os gatunos, às tantas, aproveitando os preços mornos da época turística baixa, meteram férias. Ou, provavelmente, estarão em greve silenciosa, contra as condições de trabalho. Embora não saibamos as suas razões, presumimos que por aqui já não há nada para roubar de jeito.
É claro que, se é assim, entendemos perfeitamente, mas é chato. Pelo menos, a ser verdade, deveriam assegurar os serviços mínimos. Vá lá um roubito de esticão numa qualquer ruela da Baixa. Nada, não se passa nada. As ruas parecem de luto. Se não fosse os gritos do “aspirante”, quando anda bêbado, nada se passaria por aqui. Até os romenos a pedinchar parece que já se socializaram. Já não andam com aquelas listas a pedirem assinaturas. Agora já só pedem uma moeda como um vulgar “portuga” pedinte de rua.
Será que, fazendo analogia com as condições atmosféricas, como está um tempo demasiadamente ameno, virá aí um terramoto, assim do tipo daquele que varreu a Ásia, um tsunami?
Isto está mesmo mau! Fogo! Ao que isto chegou! Se continua assim sobre o que vou escrever aqui no blogue? Isto está mesmo difícil. Como diria o Camilo: “isto é que vai uma crise, hem?”.