Quando penso em ti,
Com o teu sorriso de graça,
A forma como parti,
Não me honra, morro na praça;
Quando penso em ti,
Sinto-me desfalecer,
Com as mãos erguidas no ar,
Perdendo as forças, quase a morrer,
Como se fosses andorinha a emigrar;
Quando penso em ti,
Imagino-te a chorar,
As lágrimas, como setas, tocam em mim,
Ferem-me a alma, fazem-na sangrar;
Quando penso em ti,
Imagino-te nos meus abraços,
Encolhida, enroscada toda em mim,
Como se fosses um embrulho e eu o laço;
Quando penso em ti,
Vejo duas pessoas a correr,
Uma para lá outra para aqui,
Em sentidos opostos, sem saber,
Que um dia se encontrarão… assim;
Quando penso em ti,
Imagino-te um rio sempre a correr,
À procura de um destino incerto, de per si,
mesmo sabendo que ao mar vai morrer.
sábado, 7 de julho de 2007
sexta-feira, 6 de julho de 2007
MAFALDA A CONTESTATÁRIA
Contrariamente ao que se possa pensar, não vou falar da menina de sete anos, nascida e, presumivelmente, vivente em Buenos Aires, na Argentina, no início da década de setenta. Esta personagem de ficção criada por Quino (Joaquín Salvador Lavado) é uma menina que, apesar da sua tenra idade, percepciona situações de injustiça e até de racismo e, de uma forma algo para o desconcertante, questiona os adultos com perguntas embaraçantes. Tão lógicas para ela mas dificeis de entender e compreender pelos adultos.
A Mafalda de que irei falar, tem oitenta anos e mora ali para os lados da Solum, em Coimbra. Cronologicamente, esta minha heroína, chamada aqui à colação, poderia ser, imaginariamente, a mãe da pequena insurrecta criação de Quino. Pelo menos no génio, no inconformismo. Quem diz que a idade torna as pessoas conformadas? Não conhecem esta minha amiga. Se a conhecessem alteravam o resultado das suas análises antropológicas e veriam, em contraposição, que a excepção não confirma a regra. Antes pelo contrário, demarca-se dela, dessa falsa regra e faz-nos acreditar que no meio da turba há sempre alguém que resiste e, sobretudo, que é diferente. Embora sendo da mesma massa humana, reage contrariamente ao esperado
A minha Mafalda, roída pelo tempo, marcadamente vincada no rosto por dezenas de rugas –poderiam ser oitenta, se cada uma corresponder a um ano de vida- é uma mulher esguia, muito magra, e muito ágil de corpo. Curiosamente, a sua mente é lesta no pensar como suporte do agir. Para além de ser saudavelmente contestatária –como gosta de o mostrar, como se esta forma de estar, este conflituoso ser, fizesse parte de um cartão de identidade e, quando é preciso, puxa dele quase com arrogância, como se, essa forma de reivindicação fosse um pulsar de vida. Como se no meio de uma imensa multidão levantasse os braços, juntamente com um grande cartaz e dissesse: “EU EXISTO... EU ESTOU AQUI E TENHO UMA PALAVRA A DIZER”.
No dia 4 de Janeiro, deste ano, Mafalda, como já fizera outras vezes, entrou no elevador dos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, subiu até à Fisioterapia e bateu na porta do seu “amigo” médico fisioterapeuta.
Há vinte anos que conhecia este mestre em tratamento de doenças por métodos naturais. Desde que fora seu vizinho lá próximo do Dolce Vita. De vez em quando ia visitá-lo aos HUC e da última vez até lhe dera uma pequena prenda.
Eram, então, cerca das nove horas da manhã, desse dia quatro de Janeiro, quando bateu na porta do consultório do seu conhecido. Como este não respondesse, tornou a bater e insistiu novamente. De repente, abre-se a porta e lá de dentro sai uma besta, com a cara do seu amigo médico, com a mesma velocidade dum PitBull Terrier, lança-lhe as mãos ao pescoço, aperta até Mafalda ficar sem ar e, esta, pensar que vai morrer, exactamente, onde pensava estar numa casa de sobrevivência e nunca de morte provocada. Como animal irracional, abandona a presa, depois de a considerar dominada e entra para o seu covil, batendo a porta com estrondo.
Atarantada, pergunta, ao primeiro que aparece, onde pode falar com o Director do serviço de Fisioterapia. “É no rés-do-chão”, dizem-lhe. Mafalda foi lá. Foi muito bem recebida por este chefe de serviço. Este, apercebendo-se dos ferimentos mais anímicos que físicos da senhora, ouviu, com atenção e prontificou-se imediatamente a ajudar. Afirmou que iria falar com aquele médico de ímpetos animalescos. Nem por um momento referiu a Mafalda que esta poderia utilizar o Livro Amarelo de Reclamações.
Mafalda saiu meia vencida, mas não convencida. Do seu âmago saía um grito de revolta a clamar por justiça. Cá fora, perguntou a uma funcionária como poderia fazer para reclamar. Esta, respondendo, disse-lhe que fosse para casa e transferisse para uma folha de papel tudo o que acontecera. Também não lhe falou no livro de reclamações.
Mas se estas pessoas pensavam que, com aquele ar frágil de cana abanada pelo vento no canavial, Mafalda iria desistir, enganaram-se redondamente. No dia seguinte entregou a sua exposição escrita e foi falar, novamente, com o director de serviços. Quando este soube que Mafalda tinha prescrito o seu sentir de revolta para o papel, não conseguindo disfarçar algum incómodo, exclamou: “a senhora reclamou…?”.
Agora, em processo de inquérito, Mafalda aguarda. Com o seu ar de gozo antecipado e nariz arrebitado, remata para mim: “eles pensavam que eu era uma frágil mulher… esqueceram-se que me chamo Mafalda…a contestatária…”
Aquelas rugas no rosto estenderam-se num largo sorriso aberto, como se me dissesse, duma forma hábil e sibilina: “APRENDE COMIGO”.
A Mafalda de que irei falar, tem oitenta anos e mora ali para os lados da Solum, em Coimbra. Cronologicamente, esta minha heroína, chamada aqui à colação, poderia ser, imaginariamente, a mãe da pequena insurrecta criação de Quino. Pelo menos no génio, no inconformismo. Quem diz que a idade torna as pessoas conformadas? Não conhecem esta minha amiga. Se a conhecessem alteravam o resultado das suas análises antropológicas e veriam, em contraposição, que a excepção não confirma a regra. Antes pelo contrário, demarca-se dela, dessa falsa regra e faz-nos acreditar que no meio da turba há sempre alguém que resiste e, sobretudo, que é diferente. Embora sendo da mesma massa humana, reage contrariamente ao esperado
A minha Mafalda, roída pelo tempo, marcadamente vincada no rosto por dezenas de rugas –poderiam ser oitenta, se cada uma corresponder a um ano de vida- é uma mulher esguia, muito magra, e muito ágil de corpo. Curiosamente, a sua mente é lesta no pensar como suporte do agir. Para além de ser saudavelmente contestatária –como gosta de o mostrar, como se esta forma de estar, este conflituoso ser, fizesse parte de um cartão de identidade e, quando é preciso, puxa dele quase com arrogância, como se, essa forma de reivindicação fosse um pulsar de vida. Como se no meio de uma imensa multidão levantasse os braços, juntamente com um grande cartaz e dissesse: “EU EXISTO... EU ESTOU AQUI E TENHO UMA PALAVRA A DIZER”.
No dia 4 de Janeiro, deste ano, Mafalda, como já fizera outras vezes, entrou no elevador dos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, subiu até à Fisioterapia e bateu na porta do seu “amigo” médico fisioterapeuta.
Há vinte anos que conhecia este mestre em tratamento de doenças por métodos naturais. Desde que fora seu vizinho lá próximo do Dolce Vita. De vez em quando ia visitá-lo aos HUC e da última vez até lhe dera uma pequena prenda.
Eram, então, cerca das nove horas da manhã, desse dia quatro de Janeiro, quando bateu na porta do consultório do seu conhecido. Como este não respondesse, tornou a bater e insistiu novamente. De repente, abre-se a porta e lá de dentro sai uma besta, com a cara do seu amigo médico, com a mesma velocidade dum PitBull Terrier, lança-lhe as mãos ao pescoço, aperta até Mafalda ficar sem ar e, esta, pensar que vai morrer, exactamente, onde pensava estar numa casa de sobrevivência e nunca de morte provocada. Como animal irracional, abandona a presa, depois de a considerar dominada e entra para o seu covil, batendo a porta com estrondo.
Atarantada, pergunta, ao primeiro que aparece, onde pode falar com o Director do serviço de Fisioterapia. “É no rés-do-chão”, dizem-lhe. Mafalda foi lá. Foi muito bem recebida por este chefe de serviço. Este, apercebendo-se dos ferimentos mais anímicos que físicos da senhora, ouviu, com atenção e prontificou-se imediatamente a ajudar. Afirmou que iria falar com aquele médico de ímpetos animalescos. Nem por um momento referiu a Mafalda que esta poderia utilizar o Livro Amarelo de Reclamações.
Mafalda saiu meia vencida, mas não convencida. Do seu âmago saía um grito de revolta a clamar por justiça. Cá fora, perguntou a uma funcionária como poderia fazer para reclamar. Esta, respondendo, disse-lhe que fosse para casa e transferisse para uma folha de papel tudo o que acontecera. Também não lhe falou no livro de reclamações.
Mas se estas pessoas pensavam que, com aquele ar frágil de cana abanada pelo vento no canavial, Mafalda iria desistir, enganaram-se redondamente. No dia seguinte entregou a sua exposição escrita e foi falar, novamente, com o director de serviços. Quando este soube que Mafalda tinha prescrito o seu sentir de revolta para o papel, não conseguindo disfarçar algum incómodo, exclamou: “a senhora reclamou…?”.
Agora, em processo de inquérito, Mafalda aguarda. Com o seu ar de gozo antecipado e nariz arrebitado, remata para mim: “eles pensavam que eu era uma frágil mulher… esqueceram-se que me chamo Mafalda…a contestatária…”
Aquelas rugas no rosto estenderam-se num largo sorriso aberto, como se me dissesse, duma forma hábil e sibilina: “APRENDE COMIGO”.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
A CAIXA DOS SONHOS VIRTUAIS
Amélia é uma mulher endiabrada. Para os colegas, com quem convive diariamente, esta mulher é um ícone. Quando se apercebe de um sombrio rosto, espectado nalgum ou alguma camarada sua, Amélia, com a sua vivacidade e graça natural, consegue espantar, ainda que por tempo escasso, essas terríveis nuvens negras da tristeza que, pelo cinzento palpável, anunciam turbulentas tempestades. Tem sempre uma palavra amiga, uma anedota ou até uma “estória” inventada”. No serviço público onde presta trabalho como telefonista, esta mulher, quarentona, de beleza marcante no seu rosto de olhos negros, é mais conhecida do que o presidente dessa instituição. Quase se poderia dizer, por representação simbólica, que as bases daquele edifício público não assentam no enrocamento submergidos no interior da terra. Amélia é a alma, os alicerces daquele prédio, o sustentáculo espiritual de várias dezenas de pessoas. Qualquer assunto menos ortodoxo, que se imagina mas ninguém sabe, é comum ouvir-se: “perguntem à Amélia!”. Como o seu trabalho é na entrada do edifício se, eventualmente, ela faltou umas horas para ir ao médico, a sua falta é notada naquele concentrado de pessoas, como onda de calor absorvente, de baixo para cima, e, de passa-a-palavra, é normal ouvir entre os trabalhadores: “viste a Amélia?...Hoje não veio?...Que lhe terá acontecido?”. Aquela mulher, sem o saber, tornou-se para os seus companheiros, um dicionário, uma lista telefónica, um detective, um muro das lamentações, uma super mulher que nunca se abate, que nunca cai, feita de uma matéria desconhecida, provavelmente vinda de um planeta distante. Aos olhos deles, esta mulher nunca será afectada por essa terrível doença, deste promissor século epicurista, que, como cancro social, se vai apoderando um pouco de todos nós: a solidão.
Amélia, vista pelos olhos dos seus amigos, é muito mais do que pessoa física, é um espírito de alegria imanente. Nesta percepção ilusória, fruto amadurecido de muitos anos, todos esqueceram que ela é simplesmente humana e, nessa enganosa ambiguidade, sofre de fragilidades como todos os outros. Não é difícil de adivinhar que ninguém se apercebeu da tristeza latente e continuada daquela mulher, símbolo da fortaleza existencial que todos ambicionamos ter. Mas Amélia sofre, a bom sofrer. Só um bom observador, talvez deslocado daquele universo, olhando na profundidade dos olhos negros e tristes de Amélia, pensaria estar na presença da musa inspiradora da canção de Carlos Mendes, na década de oitenta.
Mas que razão terá esta mulher para, contra todas as previsões, andar continuadamente triste? Casada há um quarto de século com um homem que a ama. Dois filhos excelentes, já arrumados na vida, isto é, casados, e um deles até já tem encomendado um netinho que já está em gestação. Profissionalmente, tudo corre sobre rodas. Cada um a viver independente na sua casa adquirida havia poucos anos.
Então não dá para perceber. Será que são problemas entre ela e o Albino, o seu marido? Mas ele gosta tanto dela. È certo que ele, resultado da atmosfera de fábrica, onde trabalha, já andou amantizado com o álcool e proporcionou muito mau ambiente em casa. Mas há três anos que não bebe. Amélia encostou-o à parede e, em forma de ultimato, sentenciou que ele só podia viver com um amor: ou a escolhia a ela ou ao álcool. E albino, ponderada e acertadamente optou por Amélia. Mais uma razão para não se entender a solidão dela. Será que é pela ignorância displicente e objectivada de Albino? Pode ser. Enquanto Amélia sempre leu a revista Maria e pelo menos um jornal diário da cidade e sempre viu muita televisão, sobretudo telenovelas, Albino canalizou toda a sua literacia para o jornal desportivo Record e nada mais. Televisão nem pensar. Mal se senta no sofá e já se ouvem uns roncos misturados com assobios e grunhidos espaçados com tremores demolidores que abanam todo o sofá. Cinema, nem pensar. A última vez que Amélia se lembra de ter ido ver um filme foi o clássico “música no coração”, com Julie Andrews, em que guarda na sua memória o extraordinário desempenho daquela belíssima artista a dançar pelas colinas de sonho com duas malas e um guarda-chuva. Lá em casa, ao fim de semana, o único a ter licença de dispensa é Albino para ir ao futebol. E a Amélia?! Imaginemos alguém a interrogá-lo. “A Amélia?!...Essa é boa…as mulheres querem-se em casa…há sempre coisas para fazer: limpezas, lavar roupas, passar a ferro, regar as plantas”, responderia, pela certa, o aficcionado do futebol.
Albino parou no tempo. É um modelo antigo de comboio a vapor. Ao mesmo lado, na mesma casa, onde predomina uma Amélia que poderia ser, homologicamente, comparada a um TGV, um comboio de alta velocidade. O problema maior é que Albino sente que, por comodismo, não consegue acompanhar a sua esposa e, então em vez de se esforçar e redobrar o vapor da sua máquina, pelo contrário tenta refrear o ímpeto do TGV-Amélia. Resultado: naquela casa vivem duas pessoas juntas, mas separadas, anacronicamente, no tempo, por mais de um século.
Para piorar as coisas, para os lados do Albino, a administração da instituição patronal de Amélia, tendo em conta os seus serviços relevantes e vendo a sua vontade de evolução, no ano passado proporcionou-lhe um curso intensivo de informática e colocou, junto à central telefónica, no seu pequeno habitáculo, um computador para que este modelo de funcionária pudesse, mais eficazmente, responder às solicitações várias, quer de utentes, quer de restantes funcionários daquele serviço público.
Amélia, com a televisão, a pequena caixa que revolucionou o mundo, já tinha passado a sua primeira insurreição dos seus horizontes, agora, com a Internet, está a viver intensamente o seu segundo movimento de transformação cultural, educacional e social.
Ao manusear, como quem diz teclar, esta pequena caixa, esta mulher voa no tempo, levita no espaço e sonha acordada. Se assim é, porque não está Amélia mais feliz? Realmente não faz sentido. Deveria estar.
Imaginariamente, se fizéssemos esta pergunta em abstracto, certamente, como fantasma materializado, alguém responderia que o conhecimento das coisas, conduz a uma obsessão em cadeia, na procura de respostas para perguntas nunca até aí imaginadas e, agora, cada vez mais prementes, onde ressalta o “porquê disto, o porquê daquilo”. Esta interrogação leva, inevitavelmente, a uma dúvida existencial que se alimenta de mais respostas e estas, por sua vez, de mais dúvidas que vão conduzir a uma insatisfação entre o que se pensa ser e o que realmente é. Para concluir, afirmaria alguém, em trejeito meio sarcástico: “felizes só os ignorantes”.
E, comparando com o mundo de Amélia, a verdade é que esta caixa de múltiplas respostas, não lhe trouxe mais felicidade ao seu universo. Antes pelo contrário. Até entrar neste reino virtual, Amélia era feliz com o seu Albino. Nunca se questionara, por exemplo, da razão de ele, quando faziam sexo, se servir dela. Sim, hoje Amélia sabe, graças à caixinha de realidades virtuais, que ele ao longo de mais de vinte anos, sempre se serviu dela. Ela nunca provara o gosto do seu gozo sexual. Nunca soubera o que era um clímax e, também, a verdade se diga, nunca ouvira falar em tal palavrão. Ele punha-se em cima dela, como se estivesse a montar para cima da burra do Zé Pileca, dava dois trotes na criatura, e, quando esta começava a ganhar gosto na corrida, mandava um grito, entre um Tarzan e um sofrido choro, acabando ali o que, nesta metáfora, nem chegara a começar para a Amélia. Na Net, ela viu que havia muito mais mundo do que aquele que imaginava, olhando, de olhar perdido, as manchas da pintura do seu quarto, enquanto fazia o frete ao seu marido, e a cama, como compincha dum ser egoísta, apenas rangia para ele, nunca para satisfação dela.
Nos primeiros dias, após tomar contacto com esta realidade, ainda tentou, com bastante tacto, alertar o seu marido para as insuficiências carnais de que sofria há mais de vinte anos. Mas este, como ameaçado, reagiu com brusquidão e Amélia nunca mais lhe pode falar em nada. Para descompensar ele cada vez mais se torna controleiro do seu espaço e mais restritivo e fechado à luz do seu conhecimento.
Hoje, nos chats, Amélia, dos olhos negros, tristes e embaciados, procura o seu príncipe que lhe proporcione o seu almejado desejo de ser feliz e, como religião pagã, possa ter o seu Carpe Diem, o gozar o dia, indo ao encontro das suas necessidades carnais e ideal de felicidade. Mas Amélia não tem tido sorte, até agora só lhe apareceram montadores iguais ao que tem em casa, habituados a montar a burra do Zé Pileca. Ela quer muito mais, quer romance e propostas de um futuro certo e menos virtual do que lhe propõem.
Hoje, mais triste do que nunca, acompanhada de amigos virtuais, mas muito mais só, em balanço de aferição, interroga-se: esta caixa extraordinária, viajante supersónica por entre continentes, contribuiu alguma coisa para a sua felicidade? Duvida.
Amélia, vista pelos olhos dos seus amigos, é muito mais do que pessoa física, é um espírito de alegria imanente. Nesta percepção ilusória, fruto amadurecido de muitos anos, todos esqueceram que ela é simplesmente humana e, nessa enganosa ambiguidade, sofre de fragilidades como todos os outros. Não é difícil de adivinhar que ninguém se apercebeu da tristeza latente e continuada daquela mulher, símbolo da fortaleza existencial que todos ambicionamos ter. Mas Amélia sofre, a bom sofrer. Só um bom observador, talvez deslocado daquele universo, olhando na profundidade dos olhos negros e tristes de Amélia, pensaria estar na presença da musa inspiradora da canção de Carlos Mendes, na década de oitenta.
Mas que razão terá esta mulher para, contra todas as previsões, andar continuadamente triste? Casada há um quarto de século com um homem que a ama. Dois filhos excelentes, já arrumados na vida, isto é, casados, e um deles até já tem encomendado um netinho que já está em gestação. Profissionalmente, tudo corre sobre rodas. Cada um a viver independente na sua casa adquirida havia poucos anos.
Então não dá para perceber. Será que são problemas entre ela e o Albino, o seu marido? Mas ele gosta tanto dela. È certo que ele, resultado da atmosfera de fábrica, onde trabalha, já andou amantizado com o álcool e proporcionou muito mau ambiente em casa. Mas há três anos que não bebe. Amélia encostou-o à parede e, em forma de ultimato, sentenciou que ele só podia viver com um amor: ou a escolhia a ela ou ao álcool. E albino, ponderada e acertadamente optou por Amélia. Mais uma razão para não se entender a solidão dela. Será que é pela ignorância displicente e objectivada de Albino? Pode ser. Enquanto Amélia sempre leu a revista Maria e pelo menos um jornal diário da cidade e sempre viu muita televisão, sobretudo telenovelas, Albino canalizou toda a sua literacia para o jornal desportivo Record e nada mais. Televisão nem pensar. Mal se senta no sofá e já se ouvem uns roncos misturados com assobios e grunhidos espaçados com tremores demolidores que abanam todo o sofá. Cinema, nem pensar. A última vez que Amélia se lembra de ter ido ver um filme foi o clássico “música no coração”, com Julie Andrews, em que guarda na sua memória o extraordinário desempenho daquela belíssima artista a dançar pelas colinas de sonho com duas malas e um guarda-chuva. Lá em casa, ao fim de semana, o único a ter licença de dispensa é Albino para ir ao futebol. E a Amélia?! Imaginemos alguém a interrogá-lo. “A Amélia?!...Essa é boa…as mulheres querem-se em casa…há sempre coisas para fazer: limpezas, lavar roupas, passar a ferro, regar as plantas”, responderia, pela certa, o aficcionado do futebol.
Albino parou no tempo. É um modelo antigo de comboio a vapor. Ao mesmo lado, na mesma casa, onde predomina uma Amélia que poderia ser, homologicamente, comparada a um TGV, um comboio de alta velocidade. O problema maior é que Albino sente que, por comodismo, não consegue acompanhar a sua esposa e, então em vez de se esforçar e redobrar o vapor da sua máquina, pelo contrário tenta refrear o ímpeto do TGV-Amélia. Resultado: naquela casa vivem duas pessoas juntas, mas separadas, anacronicamente, no tempo, por mais de um século.
Para piorar as coisas, para os lados do Albino, a administração da instituição patronal de Amélia, tendo em conta os seus serviços relevantes e vendo a sua vontade de evolução, no ano passado proporcionou-lhe um curso intensivo de informática e colocou, junto à central telefónica, no seu pequeno habitáculo, um computador para que este modelo de funcionária pudesse, mais eficazmente, responder às solicitações várias, quer de utentes, quer de restantes funcionários daquele serviço público.
Amélia, com a televisão, a pequena caixa que revolucionou o mundo, já tinha passado a sua primeira insurreição dos seus horizontes, agora, com a Internet, está a viver intensamente o seu segundo movimento de transformação cultural, educacional e social.
Ao manusear, como quem diz teclar, esta pequena caixa, esta mulher voa no tempo, levita no espaço e sonha acordada. Se assim é, porque não está Amélia mais feliz? Realmente não faz sentido. Deveria estar.
Imaginariamente, se fizéssemos esta pergunta em abstracto, certamente, como fantasma materializado, alguém responderia que o conhecimento das coisas, conduz a uma obsessão em cadeia, na procura de respostas para perguntas nunca até aí imaginadas e, agora, cada vez mais prementes, onde ressalta o “porquê disto, o porquê daquilo”. Esta interrogação leva, inevitavelmente, a uma dúvida existencial que se alimenta de mais respostas e estas, por sua vez, de mais dúvidas que vão conduzir a uma insatisfação entre o que se pensa ser e o que realmente é. Para concluir, afirmaria alguém, em trejeito meio sarcástico: “felizes só os ignorantes”.
E, comparando com o mundo de Amélia, a verdade é que esta caixa de múltiplas respostas, não lhe trouxe mais felicidade ao seu universo. Antes pelo contrário. Até entrar neste reino virtual, Amélia era feliz com o seu Albino. Nunca se questionara, por exemplo, da razão de ele, quando faziam sexo, se servir dela. Sim, hoje Amélia sabe, graças à caixinha de realidades virtuais, que ele ao longo de mais de vinte anos, sempre se serviu dela. Ela nunca provara o gosto do seu gozo sexual. Nunca soubera o que era um clímax e, também, a verdade se diga, nunca ouvira falar em tal palavrão. Ele punha-se em cima dela, como se estivesse a montar para cima da burra do Zé Pileca, dava dois trotes na criatura, e, quando esta começava a ganhar gosto na corrida, mandava um grito, entre um Tarzan e um sofrido choro, acabando ali o que, nesta metáfora, nem chegara a começar para a Amélia. Na Net, ela viu que havia muito mais mundo do que aquele que imaginava, olhando, de olhar perdido, as manchas da pintura do seu quarto, enquanto fazia o frete ao seu marido, e a cama, como compincha dum ser egoísta, apenas rangia para ele, nunca para satisfação dela.
Nos primeiros dias, após tomar contacto com esta realidade, ainda tentou, com bastante tacto, alertar o seu marido para as insuficiências carnais de que sofria há mais de vinte anos. Mas este, como ameaçado, reagiu com brusquidão e Amélia nunca mais lhe pode falar em nada. Para descompensar ele cada vez mais se torna controleiro do seu espaço e mais restritivo e fechado à luz do seu conhecimento.
Hoje, nos chats, Amélia, dos olhos negros, tristes e embaciados, procura o seu príncipe que lhe proporcione o seu almejado desejo de ser feliz e, como religião pagã, possa ter o seu Carpe Diem, o gozar o dia, indo ao encontro das suas necessidades carnais e ideal de felicidade. Mas Amélia não tem tido sorte, até agora só lhe apareceram montadores iguais ao que tem em casa, habituados a montar a burra do Zé Pileca. Ela quer muito mais, quer romance e propostas de um futuro certo e menos virtual do que lhe propõem.
Hoje, mais triste do que nunca, acompanhada de amigos virtuais, mas muito mais só, em balanço de aferição, interroga-se: esta caixa extraordinária, viajante supersónica por entre continentes, contribuiu alguma coisa para a sua felicidade? Duvida.
segunda-feira, 2 de julho de 2007
O VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS
O rapaz, de cerca de vinte anos, com umas fotocópias na mão, corria como um corisco, por entre os carros. De olhos esverdeados e face alongada, deveria ser da Europa de leste. Mal caiu o sinal vermelho, sabendo que o tempo escasseava e estava cronometrado, saltou do passeio, como foguete em direcção ao céu. Por debaixo do braço esquerdo, na junção com o tronco, uma canadiana a fazer de conta de que se apoiava nela, por impossibilidade física. Mas pela desenvoltura -quem se apoiava em quem?- estou certo, era a canadiana que se apoiava nele. O rapaz, estranhamente, nem disfarçava, como se não tivesse necessidade de se esforçar nada. E, pelo que vou contar a seguir, realmente não tinha mesmo. E sendo assim, terá pensado para si mesmo: “para quê esforçar-me, se esta cambada de estúpidos me paga o mesmo? Não estarão minimamente interessados no meu trabalho cénico, mas sim em descarregar as suas consciências pesadas e olham, apenas, para o que julgam que eu seja e jamais para aquilo que eu sou. Até seria uma afronta eu estar a esforçar-me” –terá pensado o rapaz.
E, como se este pensamento fosse real, nos dois carros à minha frente, curiosamente senhoras, uma deu uma moeda, presumo que terá sido um euro. No imediatamente a seguir a mim, um Opel vermelho, talvez com mais de vinte anos, a pedir uma urgente troca por um mais jovem, a condutora, certamente nos “intas e muitos”, deu ao falso pedinte uma nota de cinco euros. Este, embora não surpreendido, como era acima da média, terá pensado que aquele “cliente” mereceria um tratamento extra e, pendurado na janela da senhora com o braço solto, vendendo uma cantilena já gasta pelo tempo, nem sequer me deu atenção e nos minutos de paragem, enquanto durou o sinal vermelho, como prémio pela generosidade da senhora, ele não distribuiu lamúrias a mais ninguém. Durante aquele curto tempo a senhora foi a sua rainha, a destinatária de uma história inventada e muito bem contada, presumo. Até consigo imaginar o rosto da senhora, tenso e pesaroso e, sem o evitar, uma lágrima a soltar-se. Logo a seguir à passagem do sinal verde, arrancámos e a senhora, certamente, já a bom chorar, deu largas à sua dor e, com um pensamento a martelar-lhe a mente:”coitadinho…este mundo é muito cruel e injusto!”
Nem por instantes se terá lembrado que acabara de ser burlada e que o seu generoso gesto, mais não era do que a expressão da sua tristeza, o retrato da sua vulnerabilidade, talvez aquela fraqueza de espírito, ainda que fruto de um episódio recente, ou a piedade de que falava Nietzch.
Porque, sem me querer armar em sociólogo, o acto de dar, não reside apenas nesta fraqueza de espírito, momentânea ou não, onde a moeda é doada com uma (in)consciência perfeita de que se está a praticar o bem, mas, também, no calculismo rasteiro, onde o exercício de dar esmola é uma espécie de expiação dos pecados terrenos, um acto de contrição, e, ao mesmo tempo, ser uma garantia de um bom lugar no céu, aliás também referida pelo filósofo alemão. Existe uma outra faceta, talvez menos estudada, nalguns “praticantes do bem”, esta menos representativa mas não menos referenciável. Dentro de cada um de nós, existe uma ponta de sadismo implícito, onde a moeda doada simboliza e fere com a mesma atrocidade dum chicote, como se com esse gesto se castigasse os inadaptados da sociedade. Mesmo sabendo, à partida, serem falsos-cromos. Como se, perante aqueles, nos estivéssemos, psicologicamente, a autoelevarmo-nos. Como a dizer: “eu sou superior a ti…não pertenço à tua classe… indigente”.
Como todos sabemos a mendicidade não é proibida. Seria bom que quem ler este texto pensasse que há casos e casos e, antes de dar, reflectisse e pensasse que o acto de dar esmola não pode ser encarado de ânimo leve, pelo menos olhe-se os olhos de quem pede e repare-se em pormenores indiciadores que podem dizer muito. A darmos a moeda como se, no fundo quiséssemos dizer:”toma, desampara-me a loja e não me chateies”. Assim a continuar, estamos a ajudar a multiplicar uma prática demasiadamente lucrativa, incomodativa e de censura social. Ao direito legítimo de, em liberdade, dar, deve contrapor-se o direito intrínseco de não dar.
E, como se este pensamento fosse real, nos dois carros à minha frente, curiosamente senhoras, uma deu uma moeda, presumo que terá sido um euro. No imediatamente a seguir a mim, um Opel vermelho, talvez com mais de vinte anos, a pedir uma urgente troca por um mais jovem, a condutora, certamente nos “intas e muitos”, deu ao falso pedinte uma nota de cinco euros. Este, embora não surpreendido, como era acima da média, terá pensado que aquele “cliente” mereceria um tratamento extra e, pendurado na janela da senhora com o braço solto, vendendo uma cantilena já gasta pelo tempo, nem sequer me deu atenção e nos minutos de paragem, enquanto durou o sinal vermelho, como prémio pela generosidade da senhora, ele não distribuiu lamúrias a mais ninguém. Durante aquele curto tempo a senhora foi a sua rainha, a destinatária de uma história inventada e muito bem contada, presumo. Até consigo imaginar o rosto da senhora, tenso e pesaroso e, sem o evitar, uma lágrima a soltar-se. Logo a seguir à passagem do sinal verde, arrancámos e a senhora, certamente, já a bom chorar, deu largas à sua dor e, com um pensamento a martelar-lhe a mente:”coitadinho…este mundo é muito cruel e injusto!”
Nem por instantes se terá lembrado que acabara de ser burlada e que o seu generoso gesto, mais não era do que a expressão da sua tristeza, o retrato da sua vulnerabilidade, talvez aquela fraqueza de espírito, ainda que fruto de um episódio recente, ou a piedade de que falava Nietzch.
Porque, sem me querer armar em sociólogo, o acto de dar, não reside apenas nesta fraqueza de espírito, momentânea ou não, onde a moeda é doada com uma (in)consciência perfeita de que se está a praticar o bem, mas, também, no calculismo rasteiro, onde o exercício de dar esmola é uma espécie de expiação dos pecados terrenos, um acto de contrição, e, ao mesmo tempo, ser uma garantia de um bom lugar no céu, aliás também referida pelo filósofo alemão. Existe uma outra faceta, talvez menos estudada, nalguns “praticantes do bem”, esta menos representativa mas não menos referenciável. Dentro de cada um de nós, existe uma ponta de sadismo implícito, onde a moeda doada simboliza e fere com a mesma atrocidade dum chicote, como se com esse gesto se castigasse os inadaptados da sociedade. Mesmo sabendo, à partida, serem falsos-cromos. Como se, perante aqueles, nos estivéssemos, psicologicamente, a autoelevarmo-nos. Como a dizer: “eu sou superior a ti…não pertenço à tua classe… indigente”.
Como todos sabemos a mendicidade não é proibida. Seria bom que quem ler este texto pensasse que há casos e casos e, antes de dar, reflectisse e pensasse que o acto de dar esmola não pode ser encarado de ânimo leve, pelo menos olhe-se os olhos de quem pede e repare-se em pormenores indiciadores que podem dizer muito. A darmos a moeda como se, no fundo quiséssemos dizer:”toma, desampara-me a loja e não me chateies”. Assim a continuar, estamos a ajudar a multiplicar uma prática demasiadamente lucrativa, incomodativa e de censura social. Ao direito legítimo de, em liberdade, dar, deve contrapor-se o direito intrínseco de não dar.
domingo, 1 de julho de 2007
UM SONHO
Quando eu te vi,
Naquela primeira vez,
Tinhas a luz,
De uma estrela que Deus fez;
No teu sorriso,
senti-me preso a ti,
Estava amarrado,
nunca me senti assim;
Quando nos teus olhos,
bem no fundo, eu olhei,
vi quem tu eras; um anjo,
sem dúvida, agora eu sei;
Quando peguei na tua mão,
nem calculava, nem tinha
lucidez e muito menos a razão,
que um dia serias minha;
Quando te amei, ao luar,
estavas insegura,
como psicanalista a avaliar,
senti a tua alma doce e pura;
Os teus beijos de paixão
eram a chama viva do calor,
como tição ardente apelavas,
abraça-me meu amor;
Tu pedias eu abraçava,
cada vez com mais ardor,
ora beijava, ora rogava;
abraça-me e beija-me…amor!
Naquela primeira vez,
Tinhas a luz,
De uma estrela que Deus fez;
No teu sorriso,
senti-me preso a ti,
Estava amarrado,
nunca me senti assim;
Quando nos teus olhos,
bem no fundo, eu olhei,
vi quem tu eras; um anjo,
sem dúvida, agora eu sei;
Quando peguei na tua mão,
nem calculava, nem tinha
lucidez e muito menos a razão,
que um dia serias minha;
Quando te amei, ao luar,
estavas insegura,
como psicanalista a avaliar,
senti a tua alma doce e pura;
Os teus beijos de paixão
eram a chama viva do calor,
como tição ardente apelavas,
abraça-me meu amor;
Tu pedias eu abraçava,
cada vez com mais ardor,
ora beijava, ora rogava;
abraça-me e beija-me…amor!
ABSTRACÇÃO
Ao partir,
eu olhei para essa estrada,
e senti,
que tudo não valeu nada;
Olho à volta,
uma rosa no cantinho,
que eu plantei,
com tanto amor e carinho;
Vou deixá-la,
como deixo tudo aqui,
deixo a alma,
e mais metade de mim;
Deixo sonhos,
até noites sem dormir,
olho à volta,
nem me apetece partir;
De olhos tristes,
o meu cão olha para mim,
adivinha…
a mágoa que sinto assim;
Encosta-se a mim,
como a querer partilhar,
não evito…
e uma lágrima vem rolar;
Mentalmente,
faço o balanço das vidas,
o passivo,
constitui as nossas feridas;
Os filhos e tantas recordações,
é o activo,
que pesa em nossos corações;
O silêncio, esse invasor entre nós,
é um vidro,
separador, implica estarmos sós;
Em verdade, não sei se quero estar contigo,
quero estar só, pensar com serenidade,
abstrair-me, quero ver se o consigo,
e decidir, em plena liberdade.
eu olhei para essa estrada,
e senti,
que tudo não valeu nada;
Olho à volta,
uma rosa no cantinho,
que eu plantei,
com tanto amor e carinho;
Vou deixá-la,
como deixo tudo aqui,
deixo a alma,
e mais metade de mim;
Deixo sonhos,
até noites sem dormir,
olho à volta,
nem me apetece partir;
De olhos tristes,
o meu cão olha para mim,
adivinha…
a mágoa que sinto assim;
Encosta-se a mim,
como a querer partilhar,
não evito…
e uma lágrima vem rolar;
Mentalmente,
faço o balanço das vidas,
o passivo,
constitui as nossas feridas;
Os filhos e tantas recordações,
é o activo,
que pesa em nossos corações;
O silêncio, esse invasor entre nós,
é um vidro,
separador, implica estarmos sós;
Em verdade, não sei se quero estar contigo,
quero estar só, pensar com serenidade,
abstrair-me, quero ver se o consigo,
e decidir, em plena liberdade.
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