terça-feira, 31 de dezembro de 2019

BOAS FESTAS. BOM ANO NOVO

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Com o pretexto de aspirar tudo de bom, porque fica bem e é politicamente correcto nesta época apresentar cumprimentos, desejando umas boas entradas aos amigos, conhecidos e outros que nem tanto – que não sejam a pés-juntos, lagarto, lagarto -, aproveito para formular votos de muita saúde, algum dinheiro e já agora, se não for exigir muito da divina previdência, também uma boa dose, larga, larga, de amor.
Os seguidores deste blogue desde há muitos anos devem estar lembrados que, por esta altura, temos por hábito oferecer “vouchers” para viagens e outras passagens pelo mundo. Embora custe muito admitir, as nossas finanças estão pelas ruas da amargura. Ainda tentámos uma subvenção na Câmara Municipal de Coimbra, em cash, mas nada feito. Se calhar, digo eu, o pessoal de lá não vão à bola connosco. Mas se o meu colega administrador-mor não respondeu em carta timbrada, é verdade que não, também não é mentira que, em resposta oficiosa, como quem diz em recadito atrás de orelha, a frio de Dezembro natalício embrulhado em azeviche, foi dito assim: “Reconhecendo que o blogue Questões Nacionais é um importante posto público de lamentações do seu autor, e uma grande melga, o senhor presidente tem muita pena de não poder disponibilizar um contributo tangível. No entanto, por que as eleições autárquicas estão quase à porta (2021) e precisa do voto útil da maioria de conimbricenses para ser reeleito, vai conceder a cada leitor, amigos e família deste sítio da Internet uma entrada gratuita nos festejos de Fim-de-ano que se vão realizar dentro de poucas horas na Baixa da cidade. Se o encontrarem por aí, mais logo, façam o favor de não lhe agradecerem. Mas, no caso de se recandidatar - que ainda não sabe- aí está bem, não se esqueçam dele em 2021. Um abraço socialista.”
Em resumo, como vêem, não queremos que vos falte nada. Se não há pão, come-se broa. Homessa!
Façam o favor de arrumarem aqueles ressentimentos com o vizinho, que andam a remoer desde o ano passado, e, por volta da meia-noite, vão bater-lhe à porta e, entre uma fatia de bolo-rei e uma filhó, dêem-lhe um abraço de paz e concórdia.
Boas festas e feliz Ano Novo para todos.

sábado, 28 de dezembro de 2019

BAIXA: A FEIRA DE VELHARIAS EM AVENIDA PROVISÓRIA






Provisoriamente, hoje, quarto Sábado do mês de Dezembro, a Feira de Velharias realizou-se no Largo das Olarias, em frente a Loja do Cidadão. Relembra-se que desde o princípio da década de 1990, com cerca de oito dezenas de vendedores em permanência, funcionou na Praça do Comércio. Em Junho de 2018, alegadamente com intuito de revitalizar o Terreiro da Erva, que pouco antes sofrera obras profundas, foi deslocalizada para aquele espaço encravado entre as Ruas Direita e da Sofia. A mudança imposta, e que muita tinta já fez correr incluindo um abaixo-assinado, para além da defesa do presidente do município, Manuel Machado, não agradou nem a vendedores nem a compradores. Por isso mesmo, foi uma razia entre os frequentadores. De quase uma centena de expositores na antiga praça velha, drasticamente, o número passou para, em média por certame, 20 profissionais de compra e venda de adelos.
Neste Sábado de tempo aberto e com Sol a espreitar por tudo quanto é fresta, perto do mesmo número habitual, cerca de vinte e cinco vendedores estiveram presentes no espaço aberto para ser (não se sabe quando) uma avenida central.
Em conversa com alguns deles, em maioria, todos anuíram que este é mesmo o espaço indicado para manter o evento para o futuro – e o salvar, disseram outros. Um ou outro disse ainda que se continuar no Terreiro da Erva, um sítio escondido, sem sombras de protecção no Verão, sem passagem de transeuntes, onde só vai quem sabe, não voltará a expor os seus artigos.


A QUE SE DEVE A TRANSFERÊNCIA?


Até ao passado dia 25 o Terreiro da Erva esteve ocupado com uma pista de gelo e um carrossel para crianças. Ontem, podiam ver-se vários operários a procederem ao seu desmantelamento. Segundo uma fonte da autarquia que pediu o anonimato, “já com casas-de-banho montadas num canto do terreiro, espera-se hoje, a todo o momento, a chegada de um camião com o palco que ali vai ser montado para os festejos de Passagem de Ano.”

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

BAIXA: POR UMAS PEDRINHAS CAÍDAS







Nesta última quarta-feira, dia de Natal, por volta das 14h30, uns fragmentos de massa e pedras de pequeníssima dimensão que envolvem a cercadura do beiral desprenderam-se da cércea do edifício onde funcionou até há cerca de um ano e meio as Modas Veiga, na Rua Eduardo Coelho.
Certamente por pensar que estaria perante algo de grave, alguém alertou a PSP e esta força de segurança, por sua vez, teria avisado a Protecção Civil. Alegadamente, vieram os técnicos responsáveis por esta entidade ligada à previdência e, com grades de protecção e fitas da PSP, interditaram totalmente a rua em toda a frente do prédio identificado. De tal modo foi a intervenção que não era possível atravessar a via, nem ingressar no imóvel confinante onde funciona a “Belíssima”, um estabelecimento de artigos de lingerie, nem na edificação em frente.
Segundo Joana Silva, proprietária da Belíssima, “ontem, Quinta-feira de manhã, quando a minha mãe, Rosa, se preparava para abrir a loja, deparou-se com o acesso cortado”.
Agora fala Rosa, “fui à polícia saber o que tinha acontecido e procurar uma solução que me permitisse trabalhar. A PSP aconselhou-me a ir à Câmara Municipal. Nos Paços do Concelho sugeriram-me que que me dirigisse para o ponto de venda e aguardasse a ida de técnicos camarários. Passados pouco mais de cinco minutos já lá estavam os engenheiros e o dono da propriedade” - que foi há pouco tempo transaccionada para um comerciante da nossa praça. Continua Rosa Silva, “os engenheiros foram muito simpáticos e, para além de me tranquilizarem, arredando as grades mais para o lado, permitiram a passagem de transeuntes. Gostava de ter visto o mesmo empenho por parte do proprietário, que nem para mim falou. Se não tivesse ido procurar explicações, estou convencida, não teria havido ninguém a dizer alguma coisa e a rua continuaria intransitável.


O COSTUME... DO (MAU) COSTUME


Sempre que há queda de detritos de um edifício, sobretudo na Baixa, seja de grande ou pequeno volume, é costume, como princípio de precaução, imediatamente a Proteccão Civil interditar o espaço adjacente. Nesta primeira fase - consideremos um tempo de avaliação -, podemos considerar que estaremos perante uma boa medida. O problema é que as grades e as fitas separadoras ficam para ali abandonadas ao Deus dirá como se não estivessem terceiros, sem culpa formada e a serem prejudicados, à espera de uma solução rápida de diagnóstico e não houvesse amanhã.
O princípio da prevenção, não sendo um dever (e direito) absoluto, é uma obrigação relativa. Ou seja, se, por um lado, se deve diligenciar no sentido de prevenir vítimas, por outro, a acção desencadeante não pode tergiversar em excesso de cautela, e com isto aglutinar e prejudicar pessoas alheias ao acaso. Quero dizer que, por parte das autoridades responsáveis, a análise, formas de actuação e consequente reparação da origem do fenómeno devem ser rápidas e eficazes. Ao deixarem perpectuarem no tempo as necessárias prerrogativas securitárias, sem atarem nem desatarem, dá impressão que, o que não fizeram antecipadamente, depois do desastre, querem mostrar trabalho a todo o custo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

FELIZ NATAL A TODOS OS NOSSOS CLIENTES, AMIGOS, INIMIGOS E OUTROS

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(Imagem da Web)



Aproveitando para desejar as habituais festas felizes, e aspirando saúde, paz e amor a todos os clientes do blogue, que está a entrar na adolescência - a caminhar a passos largos para 13 anos de existência -, com muita força, gostava de manifestar a maior esperança no 2020 que se aproxima.
Os que nos acompanham há muitos anos sabem que é costume nesta quadra darmos um bacalhau a cada “associado”. Infelizmente, este ano, o orçamento, por força das cativações do Ministro das Finanças, gorou as nossas nobres intenções. Ainda pensámos numa alternativa mais ligeira mas, à última hora, contivemo-nos. Não devemos contribuir para a peugada consumista, que está contaminar o planeta – nem o menino Jesus escapa.
Informando que vamos continuar abertos 24 sobre 24 horas para vos servir e não deixar que nada vos falte, assim sendo, com votos de boas Festas, com ternura e amizade, um xi coração do vosso amigo director, redactor, foto-jornalista, Luís Quintans, e oferta de um sentido poema:


UMA FOLHA CAÍDA NO NATAL


É Dezembro…
Uma folha cai… lentamente…
Ziguezagueia por entre a amálgama de gente,
gente apressada, escrava do tempo,
insatisfeita, faces duras sem contento,
pisam a folha, alinhados em parada, com tacões,
ecoam na calçada… como centuriões,
as pedras vibram, com tanta precisão,
uma pedrinha solta-se na multidão,
alguém a pontapeia, ao acaso, em estopada,
e ela rolando, por cá e lá, vai sendo chutada;
O vento sopra, cortante, e a folha voa,
e de cima, olha para baixo, vê à toa,
este exército mal ordenado,
como se estivesse condenado,
a andar, a andar, sem se render,
mesmo sabendo que vai desaparecer,
continua a querer mais, a ambicionar
mesmo que por um metro de terra tenha de matar
e o menino de olhos tristes, cara meiga, faça chorar,
o que importa nesta guerra é o feito, o vencer,
a infelicidade não conta, mesmo sabendo que se vai morrer;
E de novo a folha cai… lentamente…
Um louco ri sozinho… desalmadamente,
pega na folha, com carinho, o anormal,
afaga-a com a mão, como se fosse um pardal,
faz caretas, gesticula, dança ao vento com nobreza,
embala a folha, dá-lhe beijos, filha da natureza,
nem o frio, a refrear o ímpeto, lhe faz mal,
ele sabe que é festa, não sabe que é Natal,
não sente a solidão, não conhece abraços,
não compreende a razão de tantos laços,
E de tantos rostos fechados com ar formal;
Alguns presentes e sacos enfeitados,
tantas almas embrulhadas,
tanto amor materializado,
tanto calor humano… desperdiçado
entre o dever e o ser,
só é gente com… o ter,
e a folha… lentamente,
nos braços de um demente,
sorri… para a turba disforme,
e pensa a folha, se eu falasse… uma frase conforme,
mesmo com a voz do tonto rouco, gritaria em altos berros:
AFINAL QUEM É O LOUCO??!!



domingo, 22 de dezembro de 2019

EDITORIAL: BAIXA, ESTÁS BEM DE SAÚDE, AMIGA?






Por um lado, é da psicologia social, quem está fora
de muros tem tendência a sobrevalorizar pequenos
indícios e fazer deles um resultado final. Por outro, quem está
a viver as coisas com a frieza da prática tem inclinação
para avaliar em função da idade e experiência adquirida.”



São 15h00 deste Domingo, 22 de Dezembro de 2019. Uma chuva incómoda e teimosa persiste em fustigar quem se aventura a percorrer a calçada. Por que é preciso escrever qualquer coisa, podemos perguntar: nesta altura de Natal e final de ano, a nível económico, como vai a nossa amiga Baixa?
Obviamente, como coisa, não pode responder, pelo que vemos, porque vivemos e trabalhamos no seu ventre, aventamos cenários. Começando pelo que lemos nos jornais locais, a Baixa, com mais estabelecimentos abertos, sobretudo de hotelaria, está em franca recuperação - escrevem eles. Claro que, como se trata da célebre teoria do copo meio-cheio/meio-vazio, vale o que vale. Os jornalistas opinarem sobre a Baixa tem o mesmo peso que eu ou outro qualquer leitor afirmar que a imprensa regional está em notada recuperação. Quero dizer com isto que “quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro”.
Por um lado, é da psicologia social, quem está fora de muros tem tendência a sobrevalorizar pequenos indícios e fazer deles um resultado final. Por outro, quem está a viver as coisas com a frieza da prática tem inclinação para avaliar em função da idade e experiência adquirida. Sendo pessoa nova, naturalmente por força do ânimo e sangue na guelra, sem termos comparativos, terá tendência em ver cenários cor-de-rosa. Já sendo pessoas de meia-idade, com memória de referência de outros tempos, fatalmente cai no discurso negativo.
Com esta explanação, quero dizer que, sendo a verdade uma mera convicção, será difícil atingir a realidade. Em acrescento, diremos que, mais que certo, o melhor é adicionar todas as premissas e depois obter o resultado em média. Isso não obsta que não se valorize, por si só, qualquer opinião -já que, à luz de uma leitura individual, todas terão o mesmo peso.
E, então, podemos interrogar: e qual é a minha? Antes de responder, ensaio com uma ressalva e uma introdução. Na ressalva, já sou velhote. Logo, por isso mesmo, como disse em cima, o meu depoimento, irremediavelmente tenderá (embora não obrigatoriamente) em cair para o pessimismo.
Na introdução, começo por dizer que, depois de falar com vários comerciantes, este terá sido, porventura, a pior quadra natalícia dos últimos vinte anos. Para além da falta geral de dinheiro da maioria dos consumidores, para além da concorrência agressiva dos centros comerciais, para além do comércio online, este ano o mau tempo manifestado com inundações no Baixo-mondego e previsão de alagamento de algumas partes baixas no Centro Histórico -que felizmente, salvo um ou outro caso pontual não se verificou -, acabou por reduzir a procura nesta época para níveis mínimos e preocupantes.
Mas há questões que me deixam a interrogar os astros: sendo hoje Domingo, à distância de três dias do Natal, porque é que tão poucas lojas abriram portas? Se na Calçada a maioria está pronta a receber clientes, nas ruas estreitas contam-se pelos dedos de duas mão os comerciantes que estiveram de atalaia. Salienta-se que, sendo poucos ou muitos os que aderiram à causa, os clientes também não marcaram presença. E é aqui, com este resultado igual, que ficamos com as voltas trocadas. Antigamente dizia-se que se tratava de uma pescadinha de rabo na boca. Ou seja, os compradores não vinham porque todo o comércio estava encerrado. Agora, mesmo nas vésperas da Festa do Deus-menino, em que era normal haver um índice de procura acima da média, nem os comerciantes vieram nem os consumidores deram sinal. Como avaliar o comportamento de um e outro grupo?
Por parte dos comerciantes, adivinha-se que terão perdido a esperança. Pensarão, se não vendi nos dias antecedentes, o que venho fazer para aqui ao Domingo?
Já no que toca à parte da procura, mais que certo, teriam pensado: o tempo para além de não estar convidativo, a maioria das lojas estão encerradas. Então, o melhor é ir ao centro comercial.




E NA HOTELARIA?


Quando se fala na mudança para melhor da Baixa, infalivelmente, aponta-se o acréscimo da hotelaria na zona como a amostra de um desenvolvimento que parece tangível sem óculos de aumento. Mas será mesmo assim?
É verdade que este ano, como multiplicação dos pães, os estabelecimentos de café e restaurante cresceram exponencialmente, mas, tomemos nota, já encerraram três. Pode servir de paradigma este claudicar? Não sei. O que sei é que nem tudo são flores. Posso afirmar também que, com a concorrência desenfreada que se adivinha, a vida não está fácil para muitos. Alguns já baixaram preços. É preciso não esquecer que a Baixa trabalha bem, por força do turismo, durante seis meses, de Abril a Setembro. Mas o ano tem doze meses, este é que é o verdadeiro problema.

sábado, 21 de dezembro de 2019

UMA FOLHA CAÍDA NO NATAL (REPUBLICANDO)

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)



(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS
ESCRITAS EM 2008)


UMA FOLHA CAÍDA NO NATAL


É Dezembro…
Uma folha cai… lentamente…
Ziguezagueia por entre a amálgama de gente,
gente apressada, escrava do tempo,
insatisfeita, faces duras sem contento,
pisam a folha, alinhados em parada, com tacões,
ecoam na calçada… como centuriões,
as pedras vibram, com tanta precisão,
uma pedrinha solta-se na multidão,
alguém a pontapeia, ao acaso, em estopada,
e ela rolando, por cá e lá, vai sendo chutada;
O vento sopra, cortante, e a folha voa,
e de cima, olha para baixo, vê à toa,
este exército mal ordenado,
como se estivesse condenado,
a andar, a andar, sem se render,
mesmo sabendo que vai desaparecer,
continua a querer mais, a ambicionar
mesmo que por um metro de terra tenha de matar
e o menino de olhos tristes, cara meiga, faça chorar,
o que importa nesta guerra é o feito, o vencer,
a infelicidade não conta, mesmo sabendo que se vai morrer;
E de novo a folha cai… lentamente…
Um louco ri sozinho… desalmadamente,
pega na folha, com carinho, o anormal,
afaga-a com a mão, como se fosse um pardal,
faz caretas, gesticula, dança ao vento com nobreza,
embala a folha, dá-lhe beijos, filha da natureza,
nem o frio, a refrear o ímpeto, lhe faz mal,
ele sabe que é festa, não sabe que é Natal,
não sente a solidão, não conhece abraços,
não compreende a razão de tantos laços,
E de tantos rostos fechados com ar formal;
Alguns presentes e sacos enfeitados,
tantas almas embrulhadas,
tanto amor materializado,
tanto calor humano… desperdiçado
entre o dever e o ser,
só é gente com… o ter,
e a folha… lentamente,
nos braços de um demente,
sorri… para a turba disforme,
e pensa a folha, se eu falasse… uma frase conforme,
mesmo com a voz do tonto rouco, gritaria em altos berros:
AFINAL QUEM É O LOUCO??!!

BAIXA: UMA NARRATIVA QUE PARECE IMPOSSÍVEL MAS... (REPUBLICANDO)




(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS
ESCRITAS EM 2018)



Apesar de ser Domingo, a dois dias do Natal seria de supor, por um lado, que todas as lojas comerciais estivessem abertas, por outro, que toda a cidade, em massa e em nome dos velhos tempos, acorresse a fazer compras no coração da tradição. Ora, nem em um nem noutro casos aconteceu assim. Ou seja, nem os estabelecimentos abriram em bloco - só cerca de dez por cento compareceu à chamada laboral –, nem a esperada clientela pôs os pés na zona histórica.
Quer por uns quer por outros, é de admirar este procedimento? Ou não? A ver vamos! Pelos primeiros, os comerciantes, por alguma lamúria avulsa que graça por entre becos e ruelas, seria de supor que abririam portas nesta véspera que já foi tão importante nas vendas anuais. Pelos segundos, os citadinos, sempre tão críticos com a classe política, afoitos e generosos com discursos pungentes sobre o estado da Baixa, também custa a entender. A menos que, nos dois estratos, ocorresse qualquer acaso que forçasse a não comparência. Por conseguinte, se todos temos curiosidade em saber, nada melhor do que perguntar, é ou não é verdade?
A passear calmamente numa das ruas largas como se aferisse o movimento de passantes, de sobretudo comprido com golas coçadas, que já viu melhores dias e mãos nos bolsos, encontrámos um nosso amigo e colega estabelecido -que não identifico por questões de reserva. Depois do cumprimento da praxe, atirei-lhe de supetão: Então não abriste hoje? Anda pouca gente a circular, não é? Tentei contemporizar.
- Não é por isso, pá! – respondeu-me irritado, como se tivesse entendido a minha observação à laia de provocação.
Eu não abri a minha loja em solidariedade com os nossos Coletes Amarelos, que se manifestaram há três dias no nosso país. Por culpa do Governo, do Presidente da República, dos partidos políticos e do nosso presidente da Câmara a nossa cidade está de rastos! Eu nunca vi isto assim! No negócio, o pior Natal dos últimos vinte anos! O mal de tudo é a apatia das pessoas! Ninguém quer saber! Fossem todos como eu e Portugal estaria virado do avesso!


E OS CITADINOS? POR QUE NÃO VIERAM À BAIXA?


Sempre que preciso de escrever sobre questões de cidade, acima de tudo com grande imparcialidade, socorro-me da menina Pulquéria, solteira, boa rapariga e virgem prendada, uma munícipe muito interventiva mormemente nas redes sociais. No Facebook fazem história para a posteridade os seus lamentos memoriáveis: “Quem viu esta Baixa e quem a vê! Meu Deus, os culpados são os políticos da autarquia! Atenção, todos, incluindo a oposição! Ao que chegou a cidade! Ainda sou do tempo em que não se podia romper nas ruas estreitas! São só lojas e mais lojas fechadas! Abandonaram esta parte da cidade à sua sorte, é o que é!”
Cerca das 14h30 cliquei nos números para contactar e ouvir a menina Pulquéria. Como pescador a lançar a rede, atirei: Então a menina nem hoje veio à Baixa? Sigo os seus escritos com atenção no Facebook. Desculpe a franqueza mas a gota não bate com a perdigota! Nem a véspera de Natal mereceu uma visita sua?
- Ai senhor Luís, não me fale nesse tom, por favor! - retorquiu muito irritada. Tenho muita consideração por si, mas primeiro escute as minhas razões e só depois tira conclusões!
- Sou todo ouvidos, menina -enfatizei como a tentar colocar água na fervura extemporânea.
- Já não vou à Baixa desde Quinta-feira, dia da manifestação dos Coletes Amarelos. Em solidariedade com os protestantes, estou de greve. Este país, esta cidade, ambos estão um caos e ninguém quer saber. Haviam de ser todos como eu. Ai se deviam! Então é que isto mudava!
- Mas, então, presumo que esteve na Casa do Sal com os (poucos) manifestadores. Esteve lá, não esteve? Interroguei.
- Infelizmente não pude estar. Deus não quis! Estive de cama todo o dia com uma pancreatite aguda. Valha-me Deus! Nem quero recordar! Quem havia de dizer que seria forçada a faltar?!?


UMA BAIXA SILENCIOSA


Por coincidência com esta quadra natalícia, ou não, a Baixa está muito mais silenciosa. Até parece que o remanso dos cemitérios se instalou nesta parte da cidade. Já não se houve uma cantoria como no tempo da minha ex-vizinha Imaculada, que migrou para norte da cidade, quando, com as suas cantorias, invadia tudo em redor e até os pombos se punham em sentido para a escutar. Nem uma discussão na viela, nem uma desavença no beco, que resultava em trolitada de nariz partido. A minha esperança residia na “Rádio Baixa”, um recente projecto de emissões de música durante o dia. Foi prometido que, pelo menos nos primeiros tempos, a alegria musical seria difundida ao fim-de-semana na Rua Eduardo Coelho e área envolvente e através de meios digitais em streaming -“tecnologia que envia informações multimédia, através da transferência de dados, utilizando redes de computadores, especialmente a Internet.
Subitamente a “Rádio Baixa” deixou de emitir sons que contribuíam para quebrar a rotina de uma urbe envelhecida. O que aconteceu?
À questão formulada, respondeu uma das fundadoras: “Fomos silenciados por um vizinho. Um destes domingos passados, estava eu a emitir música acompanhada com uma colega quando, de repente, vimos entrar intempestivamente um homem de mão em riste para me bater. Quando viu que eu estava acompanhada com uma testemunha refreou o ímpeto, mas, mesmo assim, ainda me retirou os auscultadores dos ouvidos com violência. Chamámos a PSP para identificar o agressor. Depois da tramitação processual o agente aconselhou-nos a não colocar a coluna difusora de som à nossa porta. É por isto que estamos nesta quietude!”