sábado, 31 de outubro de 2020

BARRÔ, O HALLOWEEN E A LIÇÃO DOS MAIS NOVOS



Provavelmente como todos os lugares pequenos, Barrô, uma aldeia encravada entre a Mealhada e o Luso, estendida na encosta e banhada pelo Sol envolvente, para o bem e para o mal, como todas, é uma povoação com as suas características próprias. Para o bem, é gente humilde e solidária, quando solicitada para ajudar o próximo em dificuldades. Para o mal, os seus habitantes são pessoas algo introspectas, metidas consigo mesmas, onde a simpatia só sobressai depois de provocada pelo outro. É como se os moradores estivessem sempre à defesa perante quem mal-conhecem ou desconhecem de facto. Onde a desconfiança impera como preconceito e princípio de vida em comunidade.

Ora, o que me levou a escrever esta crónica foi a “dádiva” recebida por estes dias na nossa rua principal. Junto à capela do padroeiro São Sebastião, como a provocar a paisagem, rotineira e sempre igual, num costume pagão avistado por outras bandas, sentadas no muro com displicência, pode ver-se e admirar duas bruxinhas feitas de abóboras e vestidas a preceito. O lado engraçado da coisa, chamemos-lhe assim, é que estas duas obras dignas de respeito foram feitas pelas gémeas Leonor e Matide, de apenas cinco anos de idade. É certo que a supervisão artística foi da mãe, Susana Maças, mas não deixa de se realçar a habilidade das miúdas para a arte.

Por outro lado, num lugar onde nada acontece, esta iniciativa, como a estimular os vizinhos, deixa-nos de sobreaviso para o que virá no futuro.

Uma grande salva de palmas para a mãe, Susana e para as filhas Leonor e Matilde.


DESCULPE PERGUNTAR, MAS...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)


VAI DESCULPAR A PERGUNTA, MAS…


Faz sentido, na Internet, nas páginas dos laboratórios recomendados pela Direcção Geral de Saúde como postos de colheita laboratorial para testes ao Covid-19, ser referido um, e único, na Mealhada, o Beatriz Godinho, na Avenida Dr. Luís Navega, e neste posto não haver colheita e ser remetido para Oliveira do Bairro e Coimbra, concelhos vizinhos da terra do leitão?

Será que o nosso concelho é assim tão tão insignificante que não mereça outra postura laboratorial? Não é por nada, mas...


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

MEALHADA: O ENSURDECEDOR SILÊNCIO DA ESCOLA DE MÚSICA

 

(Foto de Igor Alves surripiada do Facebook)


No calor da envolvência pandémica, o encerramento da Escola de Música da Mealhada (EMM), ocorrido em Março por acção do confinamento, passou despercebido à maioria. Estou em crer, o conhecimento do facto saltou para a berlinda quando há cerca de uma semana foi colocada essa eventualidade no grupo “Mealhadenses que amam a sua terra”, no Facebook. Em seguida, perante alguns comentários, surgiu um especial, o de Igor Alves, presidente da associação sem fins lucrativos e também professor de música neste estabelecimento de ensino, que, indicando o seu número de telefone, se prontificava a esclarecer quem o solicitasse.

Por entendermos que todas as instituições ligadas à formação e à cultura, para além de merecerem da nossa parte uma atenção especial, precisam dos apoios institucional e de todos nós enquanto cidadãos, fomos saber o que aconteceu.

Para isso, contactámos Igor Alves e propusemos-lhe responder pessoalmente a uma série de perguntas feitas por nós.

E aqui ficam conforme nos foram transmitidas:



- Blogue Questões Nacionais (QN): Quantos alunos tinha a Escola de Música da Mealhada (EMM) em Março deste ano?

- Igor Alves (IA): Entre oitenta a noventa alunos. Eram eles os associados da associação.

A nossa escola tinha também um quadro de nove professores, todos a

Recibos Verdes, na modalidade de prestação de serviços, e que se

deslocavam à escola consoante a necessidade de haver aulas.


QN: Qual o valor mensal do arrendamento pago pelas instalações

ocupadas pela EMM?

- IA: o arrendamento mensal era de 300.00€.


- QN: Quanto pagava cada aluno, em média, supondo que a propina seria diferenciada?

- IA: Sim, havia duas mensalidades. A média andaria próximo dos 47.00€.


QN: Quais eram os custos de funcionamento mensais da EMM?

-IA: os custos fixos (renda, água, luz, Segurança Social, comunicações, o meu vencimento, que auferia sobre o ordenado mínimo) eram de cerca de 1500.00€.

A partir de Abril deixou de haver receita, porque, devido ao confinamento, deixou de haver parcerias – instituições protocoladas com a EMM.


QN: Escreveu no “Mealhadense” que “durante 10 anos houve duas

esmolas”, nunca houve verdadeiro apoio a não ser aquele que nós

prestávamos aos pedidos de atuação não remunerados... quando realmente precisámos não houve apoio devido, mas houve para quem foi ocupar as nossas instalações”.

Pode explicar melhor?

-IA: É simplesmente isso mesmo. Reitero o que escrevi.


QN: A EMM nasceu em 2012. Ao longo destes oito anos sentiu sempre a falta de apoio da Câmara Municipal da Mealhada (CMM)? Ou foi somente este ano?

IA: Desde que criei o projecto fui sempre pedindo instalações. Nunca foram cedidas. Verdadeiramente nunca senti apoio. O apoio que tinha era a cedência gratuita do Cine-teatro Messias, mas, comparando com as outras que fazem, isso não era nada.


QN: Já que este ano não houve inscrição, qual foi a verba cabimentada pela CMM à escola no ano passado?

- IA: No ano passado recebemos 797.00€.

Em 2018 cerca de 600.00€. Nos anos anteriores nunca recebemos nada, por haver um problema com a inscrição na Segurança Social.

QN: Sente que, em relação a outras associações, pelos valores atribuídos, a EMM foi discriminada?

- IA: Não senti que a EMM fosse discriminada, mas sinto que era pouco valorizada, tendo em conta o espectro cultural no trabalho desenvolvido.


QN: O que esteve na origem da rotura de diálogo com a autarquia?

- IA: Não houve diálogo. Não havia solução por parte da edilidade.

Da nossa parte havia boa-vontade para continuar o projecto.


QN: O confinamento por causa do COVID teve alguma coisa a ver com o corte de apoio por parte da CMM? Ou seja, essencialmente, a pandemia foi factor crítico para o encerramento da EMM?

-IA: O COVID foi o factor crítico para o encerramento da escola. Porque sem receitas não conseguia suportar os custos.


QN: A edilidade impôs alguma condição para continuar a apoiar o projecto?

- IA: Por parte da autarquia, não houve estratégia clara para continuar o projecto.


- QN: A ter havido comparticipação este ano quanto teria sido?

- IA: Se houvesse comparticipação este ano teria sido na ordem dos 300.00€, uma vez que, devido ao Coronavírus, não haveria possibilidade de actividades ao vivo.


QN: Após a sua decisão de encerrar a escola foi contactado por algum político da CMM, presidente ou vereador, a tentar demovê-lo para não desistir?

- IA: Nunca fui contactado por algum político da CMM no sentido de se arranjar uma solução para o problema. O que mais lamento, tendo em conta o meu esforço e a dedicação como me entreguei a este projecto cultural, foi a forma como fui destratado. Foi uma profunda falta de respeito… Mas a vida continua.


E A CÂMARA, VAI OU NÃO EXERCER O CONTRADITÓRIO?


Através do Facebook, na página da “Câmara Comunicação Mealhada”, contactámos o senhor director de comunicação a convidar a edilidade a exercer o contraditório. Escrevi que poderia comentar o assunto para incluir nesta edição, assim como fazê-lo posteriormente, ou ainda, se preferisse, pela igualdade de tratamento, poderia optar por responder a várias perguntas enviadas por e-mail. Até ao momento não recebemos qualquer comunicação.




segunda-feira, 5 de outubro de 2020

MEALHADA: O “QUID PRO QUO” (TOMAR UMA COISA POR OUTRA)

 

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




FACTOS:


Em quarenta e cinco anos de eleições para o poder local (1976-2021), a Câmara Municipal da Mealhada foi “apenas” conquistada duas vezes pelo PSD, em 1979 e 1985 – no primeiro mandato, em coligação com o CDS/PP, Centro Democrático Social, e PPM, Partido Popular Monárquico. Nos restantes 10 mandatos autárquicos o PS ganhou sempre com maioria absoluta.


RESSALVA


Esta crónica, sem ter a veleidade de ser confundida com análise científica, a ter alguma razão para ser escrita, tem somente uma ideia de, ao esmiuçar factos históricos, contribuir para ajudar a clarificar um fenómeno, que certamente não sendo único no país, não deixa de constituir um certo mistério.

E porquê o PSD? Interrogou um membro, leitor, aquando do lançamento tema para discussão no grupo “Mealhadenses que Amam a sua Terra”, no Facebook.

Respondendo objectivamente, adianto que, no oposto, poderia colocar a questão ao contrário e interrogar o porquê de, ao longo de mais de quatro décadas, os Socialistas terem tanto sucesso. Poderia, mas, do ponto de vista jornalístico, ressalta muito mais o insucesso dos Sociais-democratas.

Se no princípio era o verbo, devemos começar pela democracia, pelas primeiras eleições locais para o Executivo, em 1976, para a Assembleia Municipal e para as Juntas de Freguesia, depois do 25 de Abril de 1974.

Por falta de tempo – e se calhar, para o caso, nem é muito importante – vou debruçar-me simplesmente sobre as eleições para a Câmara (executivo).


COMECEMOS, ENTÃO, PELO PRINCÍPIO


Pegando no historial do PS/Mealhada:


Em 1976 o PS local estreou-se logo com uma maioria absoluta.

Em 1979, com o PSD a concorrer em coligação (AD), o PS veria fugir-lhe a vitória para os Sá-Carneiristas. Estes viriam a conseguir a sua primeira maioria absoluta.

Em 1982 o PS recuperaria novamente a liderança com maioria.

Em 1985, com o PS a sair derrotado, o PSD, concorrendo sozinho, recuperaria a maioria absoluta.

Em 1989 o PS recuperaria novamente a edilidade com maioria.

Em 1993, com uns retumbantes 55 por cento, o PS repetiu a façanha.

Em 1997, com cerca de 54 por cento, o PS continuava de pedra e cal no Executivo.

Em 2001, com cerca de 43 por cento, continuava a acenar com o lencinho ao maior partido da oposição.

Em 2005, com cerca de 50 por cento, o partido liderado por José Sócrates continuava de pedra e cal na terra do leitão.

Em 2009, com o PS local a eleger cinco vereadores numa possibilidade de sete, lá longe, Sócrates dava saltos de contente.

2013, com o PSD a concorrer em coligação, o PS viria a obter cerca de 47 por cento e a eleger quatro vereadores contra três da coligação “Juntos Pela Mealhada”.

Em 2017, mais uma vez o PS sairia vencedor com cerca de 48 por cento, elegendo quatro representantes contra três da coligação “Juntos pelo concelho da Mealhada”.


PARTIDOS À ESQUERDA QUEM VOS VÊ NA BANCADA?


Em 1976 começaram por concorrer à Câmara o MRRP e a FEPU, Frente Eleitoral Povo Unido, uma coligação liderada pelo PCP e outras agremiações à sua esquerda. Juntos, sem elegerem representantes, conseguiram cerca de dez por cento do eleitorado.

Em 1979 a APU, Aliança Povo Unido, teve um resultado de cerca de 12 por cento. Elegeu um vereador.

Em1982 a APU, elegendo um representante, obteve um resultado de cerca de dezanove por cento do eleitorado. E o PCPT/MRPP teve menos de meio ponto.

Em 1985 a APU, novamente elegendo um vereador, voltou a obter cerca de dezanove por cento. O MRRPP já não concorreu.

Em 1989 o PCP-PEV (CDU) teve cerca de seis por cento.

Em 1993 o PCP-PEV (CDU) conseguiu cerca de quatro por cento.

O PSN, Partido da Solidariedade Nacional, ligado aos aposentados, viria a contar com 1.75%.

Em 1997 o PCP-PEV (CDU) teve 6.11%.

Em 2001 o PCP-PEV (CDU) conseguiu cerca de quatro por cento.

Como curiosidade, neste ano, um grupo de cidadãos concorreu à Câmara e conseguiu um resultado de cerca de vinte por cento e eleger um vereador.

Em 2005 a CDU teve cerca de oito por cento nas urnas.

Em 2009 a CDU conseguiu cerca de sete por cento.

Em 2013 a CDU teve cerca de oito por cento.

Em 2017 a CDU teve 6.5%, muito atrás do Bloco de Esquerda, que obteve 6.66%.


O CENTRO-DIREITA A SUMIR-SE NO HORIZONTE


Em 1976 o CDS obteve um resultado para a Câmara de 9.22%.

Em 1979 e 1985 concorreu em aliança com o PSD.

Em 1989 o CDS desapareceu em combate.

Em 1983 teve um resultado de 1.83%.

Em 1997 teve 2.68%

Em 2001 desapareceu.

Em 2005 teve 1.22%.

Em 2009 desapareceu nas trevas.

Em 2013 desapareceu nas trovas do vento.

Em 2017 continua-se à procura no concelho onde pára o CDS.


A ABSTENÇÃO COMO FONTE DE REFLEXÃO


Em 1976 a Abstenção foi de 45.36%.

Nos anos seguintes, até 1997, foi descendo para a ordem dos trinta por cento.

Em 1997 foi de cerca de quarenta e três por cento.

Em 2001 foi de cerca de trinta e oito por cento.

Em 2005 a Abstenção foi de cerca de quarenta e dois por cento.

Em 2009 foi de cerca de quarenta e três por cento.

Em 2013 foi de cerca de quarenta e nove por cento.

Em 2017 a Abstenção foi de cerca quarenta e nove por cento.


VOTOS BRANCOS CONTAM?


Em 1976 os eleitores do voto em branco alcançou uma percentagem de 2.47%

Ate 1997 o número de brancos, em queda, manteve-se estável.

Em 1997 a percentagem de brancos foi de 3.12%

Em 2001 foi de 1,95%.

Em 2005 foi de 3.75%.

Em 2009 foi de 2.92%.

Em 2013 foi de 4.41%.

Em 2017 a percentagem de votos brancos foi de 4.19%.


CONCLUSÃO NÃO CONCLUSIVA


Dá para apreender que o concelho da Mealhada, que elege sete vereadores para o executivo, na política não anda bem de saúde. Seguindo o rotativismo entre o PSD e o PS, sendo igual ao que se passa na política executiva nacional mas que dá hipótese a outras forças políticas de respirarem, nas terras mealhadenses os partidos pequenos não conseguem furar o bloqueio e, com esta não-inscrição, contribui fortemente para o seu desaparecimento. Só para exemplificar, basta ver que para além dos dois grandes partidos, PS e PSD, só a APU elegeu um deputado nos anos de 1979, 1982 e 1985. E também o movimento cívico, em 2001, conseguiu eleger um representante.

Ou seja, em quarenta e cinco anos de democracia, só em quatro mandatos partidos fora do arco do poder conseguiram eleger.

E isto é grave? A meu ver, que pouco percebo de política, por distorcer as forças em confronto e impedir alianças à esquerda e à direita, acabando por favorecer o partido mais votado, do ponto de vista da alternância, é gravíssimo.


MAS, E CULPADOS HÁ?


Salvo melhor opinião mais avalizada, o Método de Hondt, fórmula matemática destinada a calcular a distribuição de mandatos proporcionalmente ao número de votos, será porventura o factor maior que está a deteriorar fortemente a diversidade partidária neste concelho.

A seguir vem a abstenção, esse enorme monstro que tanto preocupa os políticos, mas só em tempos de eleições. Depois de eleitos, em quatro anos de mandato, durante três todos a esquecem e convivem alegremente com a falta de comparência de eleitores às urnas. No ano que falta para o sufrágio, como sempre vamos ouvir o apelo ao voto , desde o Presidente da República até ao deputado mais apagado do Parlamento. Nas últimas décadas, nem o maestro máximo da Nação, nem qualquer político com assento numa câmara perdeu tempo a pensar como se ultrapassa o fenómeno da abstenção. Não sabem porque não querem. Vejam o exemplo dos presidentes de junta e aprendam. Estes homens do povo, na maioria simples e sem canudos, estão sempre ao lado de quem os elegeu – claro que há execepções na Mealhada, mas isto também acontece em todo o lado.

Costumo comparar muito a abstenção nas eleições com a crise que alastra na imprensa local. A abstenção não é um fim em si mesmo. É um meio para demonstrar a revolta, o abandono a que foram votadas as populações. A não comparência nas urnas é um subproduto da não ligação existente entre os eleitos e os eleitores, do desprezo, pela altivez e soberba presunçosa com que são tratados os cidadãos.

A imprensa local, de igual modo à política, perdeu a proximidade. Os periódicos, praticamente sem excepção, em vez de escreverem sobre os problemas políticos da sua zona, sem difundirem o que se passa nas ruas da cidade, as dificuldades das povoações em redor, falam de outros concelhos e de notícias distribuídas pelas agências noticiosas. E o mais grave é que estão a contribuir para a iliteracia e o analfabetismo social. Como é que querem, assim, vender jornais?

Como é que os políticos autárquicos, sem passarem cavaco aos munícipes querem captar o seu voto?

Vale a pena pensar nisto?


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

UM OUTONO NA ALDEIA, COMO SEMPRE, NOSTÁLGICO

 

(Imagem da Web)




Assim, como neblina matinal, com passinhos de lã, o Outono, devagar, devagarinho, entrou sorrateiramente e, com toque delicado, empurrou o Verão para o ano que virá.

A chuva grossa e miudinha, como a desejar as boas-vindas a uma estação transitória entre o seco e o molhado, entre o frio e o calor, pareceu sorrir no meio de um riso acabrunhado e taciturno.

Está na hora de repor mais um cobertor na cama, retirar do guarda-roupas e das gavetas das cómodas o vestuário mais encorpado. As meias-mangas e a roupagem de algodão vão hibernar, pelo menos, durante seis meses.

As árvores de sombra, até há pouco totalmente cobertas por ramagem verde, progressivamente, começando no amarelo-torrado, vão ficar despidas para dar lugar ao milagre da substituição.

Começando agora a embalar a trouxa, as andorinhas, as aves lindas dos poetas, percorrendo milhares de quilómetros, preparam a partida para o Norte de África, onde, sem incerteza, o clima quente vai continuar.

Na minha povoação de infância, em Barrô, o tempo corre devagar. Sem a pressa e o ambiente enfadonho da grande cidade, com o citadino a correr para ter tempo para trabalhar e alguma sobra para a família, onde o Sol é apenas sentido por alguns na vertical, a aldeia, ensolarada e estendida transversalmente no espaço, parece transpirar ar-puro, vida, saúde e bem-estar.

Neste 30 de Setembro, quando a tarde cai, calma e serena, e a estrela maior do Universo se prepara para descansar lá longe sobre o mar, vamos encontrar o casal “Manuel” e “Gertrudes” - nomes inventados – de cerca de sessenta anos, a passar o milho no Erguedor, aparelho manual, muito antigo, que serve para limpar o milho das impurezas que o acompanham. Aposentado por ter sido sujeito a varias operações à coluna vertebral por esforçados esforços na terra dura, o “Manel”, a arfar e com o suor a escorrer pela fronte, dá à manivela que, movendo a roda de grandes pás, vai fazer vento e separar o “joio” do fruto.

Gertrudes, que há muitos anos trocou um emprego rotineiro e sem sabor pela lavoura, mais ágil, vai apanhando o fruto amarelo do chão para um balde plástico de vinte litros e vai despejando na boca-aberta da máquina agrícola. Como se fossem polvilhados do Céu, ambos, marido e mulher, estão camuflados pela fuligem.

Como outras jornadas cheiinhas desde há quinze dias para cá, o dia foi extenuante. Começou pelo acordar ao toque de “Avé-marias”, pelas seis e trinta da manhã, na torre-sineira do povoado. Depois de um pequeno-almoço frugal, era preciso aproveitar os raios solares “prometidos” na véspera, na Terça-feira, pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, para secar o milho na eira. As previsões, consultadas diariamente pelo agricultor, são um instrumento fundamental para projectar a semana. E Quinta-feira vai chover. Não havia tempo a perder para secar, limpar e arrumar os grãos amarelos nas grandes arcas de madeira, herdadas dos ancestrais. Até a sesta, período de descanso após o almoço, sempre cumprida religiosamente, neste dia de grande pressa, não pode ser cumprida. “hoje vamos para a cama cedo, Gertrudes! Estou que nem posso!”, enfatizou Manuel, depois de levar o braço atrás das costas e massajar as cruzes.

Desde há um mês para cá tem sido mesmo uma canseira. Primeiro foi o cortar rente os “canoilhos” onde a massaroca vem agarrada. Depois veio a “descamizada” ou “desfolhada”, ao cair do dia, com a ajuda dos filhos, que laboram na cidade e, ao entardecer, regressam ao domicílio.

A seguir veio o separar o grão do casulo através de uma “malhadeira” mecânica ligada a um tractor, cujo dono é o antigo proprietário do último café que encerrou há meia-dúzia de anos e agora vai ajudando quem precisa dos seus serviços.

Depois, então, vem a fase do secar e arrumar a semente nas arcas para, durante os meses de carestia de pasto, poder servir de alimento aos animais ali ao lado, e que, num berrar sintonizado, clamam por atenção.

E sem darmos por isso, o crepúsculo, ao ralenti, foi-se instalando vagarosamente. O milho está todo arrumado. Amanhã já pode chover à vontade. A Gertrudes foi fazer o jantar. São agora 19h30 – só de pensar que ainda há um mês atrás a claridade se estendia até às 21h30 dá um arrepio de saudade, pensa para com seus botões o filho da terra.

As luzes públicas, que iluminam o negro alcatrão, como a anunciar a chegada, começam a piscar.

Como o jantar é sempre às oito (20h00), vai dar o seu costumado passeio para arejar as ideias. A passo cadenciado, reflectindo na vida e dando por acabado que a existência é demasiado curta para perder farrapinhos ou bocadinhos com coisinhas de nada, “Manuel” encaminha-se para a ribeira a uma centena de metros do velho campanário. Apesar da noite estar a estender o seu manto, no antigo lavadouro colectivo, ainda se encontra a lavar uns panos a mulher mais idosa da localidade. Com um meio-sorriso de saudação e a pergunta rectórica “ainda? Olhe que são quase oito”, o pensador caminhou mais vinte passos para frente, em direcção ao velho moinho, na margem da ribeira e agora abandonado como coisa imprestável e sem valor.

A velha represa comunitária, cuja água, durante os meses de canícula, serviu para regar o “Barreiro”, a horta, o celeiro da aldeia, está agora vazia. Por obrigação legal ligada a velhos hábitos de antanho, anualmente, em 30 de Setembro devem ser retiradas as comportas e liberada a água.

Por momentos, a planar sobre pensamentos retrospectivos, mesmo com o breu implantado, comparou ali a vida há dias atrás, com o coaxar das rãs e dos sapos, e agora, com o silêncio do fundo vazio, uma pequena regueira de água rodeada de lama teimava em caminhar para o mar.

Manuel”, olhando o Céu sem estrelas, deixou escapar: “Amanhã vai chover! Não se enganaram não...




terça-feira, 29 de setembro de 2020

A DESPEDIDA DO PROGRAMA PRÓS E CONTRAS

 



Depois de 18 anos em cena, passou ontem na RTP1 o último “Prós e Contras” apresentado por Fátima Campos Ferreira.

Sendo um programa de debate de elevada qualidade, que ao longo de tantos anos ajudou o público/telespectador a perceber certas decisões administrativas e políticas, não me parece acertado a televisão do Estado acabar com um projecto, único, que sempre teve elevada audiência.

Pelo que se consta, ao que parece a apresentadora vai transitar para outro modelo mais simplificado. Mas, mesmo assim, não haveria outro profissional que a pudesse substituir?

Será que a 5 de Outubro, em sua representação, para nos fazer cada vez mais brutos, quer impingir-nos mais telenovelas, em cima de telenovelas, como o que se passa nos canais privados?

Nem sempre reconheci a Fátima Campos Ferreira a imparcialidade desejada em todos os programas, mas, admito, que possa ter sido um erro meu, ou, não sendo, aceito como lapso admissível. No entanto, tal como foi ontem dito por várias personalidades, retiro-lhe o chapéu e curvo-me à sua competência na forma bem informada como sempre se apresentou às Segundas-feiras em nossas casas.

Uma pena a RTP1 ter decidido assim. Enfim...


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O TRABALHO CAMARÁRIO OFERECIDO A NÉ LADEIRAS





1 – Hoje, na Câmara Municipal de Coimbra (página não oficial), deu à estampa um apregoado “Postal do Dia”, espécie de carta-aberta, uma publicação assinada por Luís Osório, respeitado jornalista, dirigida ao Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado.

O “Postal começa por trazer à liça o “drama” de Né Ladeiras, reconhecida cantora conimbricense que fez parte dos grupos Banda do Casaco e Brigada Vitor Jara. Para além disso, colaborou com outras bandas e fez carreira a solo.

Há cerca de um mês, Ladeiras publicou no Facebook uma carta onde, com coragem, dava a conhecer as enormes dificuldades económicas porque estava a passar. Referia, nomeadamente, que, depois de ter perdido a voz, já tinha trabalhado em vários empregos, como a servir à mesa num restaurante. Dizia que, incluindo o dono do estabelecimento, não lhe pagaram a sua prestação. Com alguma lucidez, pedia que lhe arranjassem qualquer coisa. Que estava disposta a tudo (estou a citar de memória).


2 – Segundo reza o “Postal” de Luís Osório, pelos vistos, em face do apelo divulgado, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado, remeteu-lhe “um convite, ao que sei, para limpar a merda das casas de banho e vigiar alunos no IGAP” (Instituto de Gestão e Administração Pública?).

Continuando a citar o “Postal”, “Não estou a desvalorizar o trabalho de quem o faz. Uma pessoa não perde a dignidade por limpar casas de banho, ser caixa de supermercado ou limpar as casas dos outros.

Muito pelo contrário.

Mas sabem… as pessoas têm o seu percurso. E no seu percurso vão acumulando experiências que podem ser úteis noutras áreas.

Não haveria na Câmara de Coimbra, na área cultural, um lugarzinho onde a Né Ladeiras pudesse caber?” - interroga Luís Osório.


3 – Não posso deixar de recordar que em 2016, falando pessoalmente com um vereador e através do blogue, lancei um apelo à Câmara Municipal de Coimbra para um ex-arrumador no Estádio Universitário, José Ferreira da Costa, homem demais conhecido pela sua atenção e bonomia. O Costa, a trabalhar no Cemitério da Conchada como coveiro, havia um ano, através de um POC, Programa Ocupacional, promovido entre o IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional e os Recursos Humanos da autarquia conimbricense, foi pura e simplesmente despedido. Pobre, sem recursos, sem poder voltar ao Estádio Universitário para arrumar carros, porque o espaço entrou em obras, ficou sem rendimentos e a sua condição de precariedade ficou num limbo. A edilidade não quis saber.

Por acaso, um amigo de outras andanças, que gere uma grande instituição na cidade, leu o meu apelo no blogue e, condoído com a situação do Costa, contactou-me para eu lá mandar o ex-coveiro. O Costa foi lá, ficou a contrato durante os últimos anos e hoje, para minha satisfação, está com vínculo efectivo à função pública.


4 – Quero dizer o quê, ao contar o caso do José Costa? Tão só que se em 2016, com o actual executivo, a Câmara não respondeu ao apelo de um cidadão comum - que trabalhava já para si -, e agora, no caso de Né Ladeiras, já ofereceu um trabalho, sem pretender ser irónico, está a melhorar muito. Ou não? Ou foi simplesmente para ficar bem na fotografia? No entanto, mudando a agulha, vou virar o raciocínio…


5 – Por caso Né Ladeiras, pelo facto de ter sido uma artista, merece ser tratada muito acima do vulgar cidadão trabalhador? Onde fica a tão apregoada igualdade de tratamento que todos pugnamos para a generalidade dos cidadãos? Sim defendemos a equidade desde que não sejam nossos amigos -contra mim falo.

Em Lisboa há dezenas ou centenas de artistas a viver das dádivas do Banco Alimentar -é o que noticia a imprensa. A Câmara Municipal lisboeta deve arranjar um “lugarzinho” para todos?

Acho que nestas coisas da amizade há demasiada emoção e pouca racionalidade. Quando vimos um amigo nosso nas redes da miséria ficamos com o olhar turvo. Só assim se pode entender este inusitado postal.

Afinal, ficamos sen perceber: Né Ladeiras quer um trabalho ou um emprego?