quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

BARRÔ: ENSAIO PARA QUE A FESTA DE ANO NÃO ACABE (3)

 



Nos últimos três dias, numa espécie de rosário (terço), trazendo à discussão a festa de ano em Barrô, fui desfolhando as contas. Ainda que possa parecer provocatório, a intenção é, trazendo o assunto à liça, tentar perceber o que se passa, dando ideias, e, pelos interessados, fazer reflectir para o futuro.

Bem sei que, alguns, estarão a pensar: “olha p’ra ele armado em esperto. Se sabe tanto, que faça ele!

Como ressalva, pelo que vou escrever a seguir, mais uma vez peço desculpa se alguém se sentir ofendido.

Levando à letra o pensamento que me levou a redigir esta série de textos, a solução para elevar esta terra no espectro concelhio não reside num homem só, mas sim num grupo de moradores dispostos a largar a sua área de conforto e que esteja disposto a romper com a inércia, a preguiça da inactividade. Sobretudo, despender algum do seu tempo em nome de um projecto social sem fins lucrativos que, destinado a um colectivo amorfo e silencioso, pode falhar e implicar o endividamento dos envolvidos.

Apesar de habitar, de facto, há cerca de quatro anos, já deu para ver que, na generalidade, os moradores na aldeia são pouco solidários uns com os outros.

Numa catarse mal tratada, muitos permanecem em conflito consigo mesmos desde que nasceram e procuram na religião a abstracção que lhes traga a redenção.

Numa espécie de capa comunitária de mentira, todos se dão bem. Mas isso é apenas o que parece. No fundo, bem no fundo, dissimulado nas entranhas, há um ódiozinho de estimação a minar as relações de fraternidade.

Voltando a ideias que possam dar resistência e manter a festa de ano de pé, vou elencar algumas “deixas”:


1 -Anualmente, deveriam ser nomeadas duas comissões de mordomos:


A sacro, que seria responsável unicamente pela realização das homilia e procissão solene.

Este grupo, constituído por três residentes, embora independente, ficaria ligado à Comissão de Capela. Com uma conta bancária associada mas autónoma, este movimento de entradas e saídas de dinheiro, embora sobre consulta por parte da comissão de capela, apenas seria movimentado por dois elementos nomeados para gerir a festa do ano em curso.

Em caso de contas positivas, sempre tornadas públicas sejam negativas ou positivas, o remanescente deveria ser depositado num fundo de reserva transitando de um ano para o seguinte e servir de almofada a quem vier de novo.

A este grupo de três pessoas, mais que certo senhoras, durante o ano de vigência mordoma, cabe-lhe tomar várias iniciativas, na aldeia e fora dela, de modo a conseguir verbas que lhe permita fazer melhor do que o ano anterior – mais abaixo enumero uma série de actividades que podem ser aplicadas, isto para além do peditório directo ao povo;


2 A profana, constituída por três pessoas essencialmente homens, seria a comissão nomeada anualmente para realizar as festividades alegóricas, tais como, arruada com gaiteiros, contratação de grupos de baile e outras iniciativas artísticas.

Embora independente, este grupo ficaria ligado à Associação Recreativa - tenho esperança que, mais dia menos dia, acorde do seu longo sono letárgico -, com uma conta bancária independente do clube. Esta conta seria movimentada por dois dos três mordomos nomeados. Em caso de resultados positivos, o remanescente transitaria para um fundo de reserva, para servir de almofada para os anos seguintes.

A Associação Recreativa, sem força executiva nos planos de mordemia, serviria como incubadora, parte consultora e comparte na ajuda à realização dos eventos;


3 – Iniciativas para angariar fundos ao longo do ano (que podem servir para as duas comissões Sacra e Profana):


Janeiro – percorrer as casas com o cantar das Janeiras (5, 6 e 7 de Janeiro), pedindo dinheiro ou géneros. Esta alegoria seria para usar na festa a seguir, passados uns dias.

- Pedir nos estabelecimentos comerciais, no concelho, géneros variados.

- Os géneros, garrafas de vinhos, licores, chouriças, salpicão, presunto, broa, roupas, artigos de bricolage, outros, seriam leiloados no Sábado ou Domingo do Dia da Festa, a ocorrer em 20 de Janeiro, no Largo da Capela.

- Alguns destes géneros, assim como outros angariados, seriam canalizados para uma quermesse com rifas enroladas junto à capela e outra dentro do salão recreativo.

- Sendo este o dia das festividades, recuperar a moda do Ramo, a dança da flor nos arraiais.

- Venda de garrafas, ou outros, em leilão nos intervalos musicais.

- Concurso para os melhores pares dançantes.

-Realizar, neste dia, uma Feira de Velharias no Largo Assis Leão.


Fevereiro – Feitura de vários livros, com senhas numeradas, com três prémios a sortear no dia da festa.


Março – Primeiro peditório porta-a-porta na povoação. Possibilidade de angariar fundos em outros lugares da freguesia.

(usar o Dia de Páscoa como instrumento para captar fundos)


Abril – Primeiro grande almoço a realizar na Associação Recreativa de Barrô para angariação de fundos.


Junho – (re)criar os populares “cravanços”, constituídos por duas pequenas fitas cruzadas e um alfinete.

Começar a cravar os populares com uma moeda, fora e dentro do lugar.


Julho – Realizar o segundo almoço na Associação Recreativa de Barrô, para angariar fundos.


Setembro – Realizar um almoço no Pavilhão de Várzeas para angariar fundos – em troca, Várzeas usaria o salão de Barrô em Novembro, aquando das festas locais.


Novembro – Num Domingo, realizar uma matiné na Associação Recreativa de Barrô com um grupo musical, por exemplo, um organista e outro.

Convidar, por exemplo, o Ruizinho de Penacova para actuar em Barrô.


Dezembro – Usar o presépio de Natal, no Largo da Capela, como incentivo a pedir donativos aos visitantes.


FIM


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

BARRÔ: ENSAIO PARA QUE A FESTA DE ANO NÃO ACABE (2)




Em anterior apontamento referi a dificuldade em angariar fundos para um evento, a Festa de Ano da aldeia – e que penso ser transversal -, que é cada vez mais encarado como algo desnecessário, que não faz falta nenhuma, que nem aquece nem arrefece. Mas não é assim, a festa de ano de um lugar habitado não é apenas a alegoria em si mesmo, é a identidade cultural das suas gentes, é o abraço de quem saiu menino e nesse dia regressa coxo e cheio de cabelos brancos.

Numa longa lista, podemos elencar em primeiro lugar as dificuldades económicas das famílias na actualidade.

E como entender que o Estado, através de várias licenças camarárias e outras para espectáculos, cerca de oito licenciamentos, seja cerceador de iniciativas?

Será mesmo por estes dois obstáculos principais que as romarias e outras festas populares estarão em crise?

Como se explica que na década de 1960 e seguintes, quando o número de habitantes/moradores era menor do que hoje, onde o lugar de Barrô era um dos mais pobres na freguesia de Luso, se realizavam três festas anuais: São Sebastião (esta incluía procissão), São José e Alminhas? E não se pense que as festas eram abrilhantadas com um acordeonista e pouco mais. Nada de mais errado.

Enquanto criança e adolescente, relembro muito bem de ver aqui actuar os “Yankes”, o “Amadeu Mota”, os “Pavões”, os “Perus” e até o “Pop Men”. Bandas que eram o top na altura.

É bom recordar que os arraiais eram feitos na via pública – hoje existe na aldeia uma das melhores associações recreativas no concelho, que, desconhecendo-se quem manda nela, não funciona há vários anos.

Na altura, o Domingo da festa era o melhor dia do ano. Era ver os abastados com o seu desempoeirado fato domingueiro e chapéu na cabeça e os mais necessitados com as calças e camisas remendadas nos sovacos no Largo da Capela, colocando de lado os desentendimentos, de rostos abertos e felizes.

A seguir ao Dia de Páscoa, o Dia de São Sebastião, em Janeiro, em Barrô, era o prenúncio da paz na família para todo o ano que se iniciava. Os familiares, que moravam nas redondezas, vindos montados nas suas bicicletas, eram os convidados de honra.

Independentemente da classe, para além de galinhas e coelhos, quase todos matavam uma ovelha ou cabra para fazer chanfana, que era assada nos fornos a lenha situados na parte traseira da habitação. Nestes dias, como perfume a anunciar a vinda de um tempo novo, com os fios ondulantes de fumo a saírem das chaminés, o cheiro a carne assada invadindo tudo em redor, transformava a paisagem em quadro edílico.

Como escrevi ontem, pode até pensar-se que, no pior dos cenários, desaparece a parte profana (vinda de artistas e grupos de baile) mas mantém-se a religiosa. Como defendi, nada de mais falacioso. Se morrer uma, inevitavelmente, a outra entra em coma… A menos que que sejam alterados os métodos de licenciamento e planeamento na logística.

Por outras palavras, se não houver uma reviravolta no pensamento comum, sensibilizando todos para um bairrismo saudável e apelando uma maior generosidade, se não se transformar a sua organização em algo mais sustentável, o mais provável é morrer de vez.

Naturalmente, por parte dos mordomos nomeados não se pode arriscar investir cinco ou dez mil euros e, se o tempo for chuvoso, ficarem com uma dívida às costas, sem rede e sem suporte financeiro.

Por isso mesmo, embora pareça despiciente, é preciso parar e pensar o que queremos. Se queremos mesmo continuar, é preciso não continuar a assobiar para o lado. E que todos se entreguem à causa com honestidade e responsabilidade, de alma e coração.

Não se pode continuar a fingir que a feitura de um evento cultural é apenas para os outros. Os que realizam, assumindo a responsabilidade, devem entregar-se com empenho. Os que assistem tem o dever de comparticipar nos custos e, acima de tudo, comparecerem, para mostrar que estão ao lado de quem faz.


(CONTINUA AMANHÃ) 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

BARRÔ: ENSAIO PARA QUE A FESTA DE ANO NÃO ACABE (1)




Para os que seguem o que escrevo, na semana passada, publiquei várias crónicas sobre as festividades em honra de São Sebastião, o padroeiro da aldeia de Barrô, que se comemorou ontem, 21 de Janeiro.

Através de um ou outro texto mais sério e outros, a maioria, em maneira mordaz (que morde, sarcástico), fui dando conta do evoluir da situação, como quem diz, se iria haver ou não festa religiosa - e já agora que chamo à colação o estilo em jeito de brincadeira, aproveito para pedir desculpa a alguém que se sentisse ofendido.

Praticamente, só nos últimos dias se chegou à conclusão que, em virtude de alguns donativos de maior vulto, seria possível realizar a missa e em seguida a procissão solene.

Relembro que, pelos usos e costumes, esta alegoria divide-se em duas faces: a sagrada e a profana.

A sagrada, constituída pela missa e procissão, tal como o nome indica, destina-se essencialmente aos crentes - para expressarem a sua fé enquanto alimento espiritual - e também àqueles que pretendem pagar promessas ao santo que fizeram durante o ano antecedente, depois de ver os seus desejos realizados.

A parte profana é constituída por pequenos vícios que visam servir o corpo físico com coisas que a igreja poderá não aprovar, isto é, tudo o que é alheio à religião.

Exemplos de profanação: um ou vários eventos com música, com artistas de nomeada ou banda de baile, ou outro teor artístico variado.

De salientar, ainda que opostos, os conceitos sagrado e profano estão ligados entre si como irmãos siameses. Só haverá crescimento de uma se a outra se desenvolver em harmonia. Se uma morrer, inevitavelmente, a outra desaparece em seguida.

Por outras palavras, se não se realizar a festa sagrada, ou se for perdendo importância, proporcionalmente vão decaindo os fiéis e a heresia vai crescendo nas comunidades. Por outro lado, a importância da imagem santífica na hagiografia (estudo da biografia dos santos) vai caindo na acreditação católica e, levando à descrença popular e falta de apelo, este protector, a médio prazo, pode desaparecer.

Não se fazendo as festividades anualmente as portas das casas da aldeia não se abrirão e cada vez mais as pessoas se tornarão vizinhos mais individualistas e solitários. Não virão os nascidos na terra e a residir e a trabalhar noutras cidades portuguesas. E muito menos os distribuídos na diáspora, os dispersados pelo mundo fora.

Estas celebrações pagãs são, sobretudo, um motivo para convívio anual e encontro de gerações.

Mas sabendo que a colectividade se mostra progressivamente mais desinteressada da memória e tradições populares, e, por outro lado, a sua contribuição pecuniária é cada vez mais insignificante – testemunhei um residente contribuir com uma moeda -, como se poderão fazer omeletas sem ovos?


(CONTINUA AMANHÃ)

 

domingo, 21 de janeiro de 2024

BARRÔ: NOTÍCIAS BREVES

 


* Com a Capela cheiinha até à rua – o que também não é muito difícil já que é pequena -, com início às 15h00 e durante mais de uma hora, o pároco celebrante da missa em honra de São Sebastião entusiasmou-se nos conceitos bíblicos e, com simplicidade e simpatia, com um sermão estruturado em paradigmas do quotidiano, através de um convite à prática da bondade e implementação do perdão, tentou apelar à conversão dos fiéis mais tresmalhados.

Já passava das quatro horas quando os quatro andores, entre eles o do padroeiro, transpuseram o átrio e em direcção ao Largo.

Foi bonito de ver a imagem de São Sebastião, no púlpito do andor todo engalanado com flores naturais de várias cores, ao ombro de quatro voluntários. Deu para perceber que o protector contra a fome e a guerra estava contente. Sem preconceitos, de cabeça erguida, olhos fixos no firmamento, tresandava a orgulho e solenidade.

Abrilhantada por uma mini-banda filarmónica, reunida à pressa, de Vila Nova de Monsarros e, alegadamente, por professores de uma escola de música de Coimbra – que, a propósito, desempenharam muito bem o seu papel artístico -, a Procissão, em passo cadenciado, muito bem dirigida por Edite Pedro, zeladora da Capela, percorreu toda a aldeia.

A fazer relembrar outros tempos de antanho tão presentes na nossa memória, o estralejar constante de foguetes ecoou no Céu que cobre Barrô.

Foi bonita a festa, pá!


* Na última Sexta-feira, António Pita, chefe de Divisão (DAS), engenheiro na Câmara Municipal da Mealhada, acompanhado de um técnico andaram a fazer o levantamento topográfico dos terrenos confinantes à represa pública situada na Ribeira do Salgueiral, junto ao moinho de água, em Barrô.

O objectivo deste estudo orográfico visa complementar a intenção de ali construir uma praia fluvial. Relembro que esta promessa consta do caderno de encargos das propostas eleitorais do Movimento Independente Mais e Melhor, liderado por António Jorge Franco, e que ganhou as eleições autárquicas em 2021.


* Na última Sexta-feira, por iniciativa da Junta de Freguesia de Luso, praticamente todas as ruas e ruelas da aldeia foram varridas, algumas lavadas e noutras foram arrancadas as ervas das bermas. Durante a tarde, um camião cisterna dos Bombeiros Voluntários da Mealhada, com agulheta de alta-pressão, onde chegaram, deixaram um ar limpo.

Embora parecesse que um ministro viria de visita à povoação neste fim-de-semana, como já adivinhámos, foi por causa da festa religiosa em honra de São Sebastião.

Foi bonito de ver, pá!




BARRÔ: ENSAIO PARA UMA SAÍDA AIROSA

 




O relógio na torre sineira da Capela de Barrô está prestes a martelar as doze badaladas e anunciar o meio-dia de um dia soalheiro que promete aquecer qualquer osso, até de imagem de santo.

A porta da capela está encerrada. Paro e sento-me no patim da entrada. Ponho-me a pensar que hoje, Dia de São Sebastião – o meu amigo Sebastião, como o trato em longas conversas mudas -, a pequena catedral deveria estar de portas escancaradas. Não é por nada mas é muito natural que o Sebastião se sinta como preso no presídio. Sim porque, durante um ano, só vê a luz do dia quando há missa – e na procissão da Festa de Ano, se houver. Hoje vai haver.

Como já escrevi anteriormente, o meu amigo, por estes dias, tem andado com a psico às voltas. Por outras palavras, muito deprimido, coitadinho. Sobretudo quando anunciaram só missa e sem procissão para o dia do seu aniversário – que foi ontem, mas isso não interessa nada. É preciso é que se lembrem, sem esquecer, a pobre alma.

Mas ontem, quando se soube que iria haver mesmo procissão, o meu fiel já parecia outro.

Dizia eu então que, parando e sentando-me no patim do pequeno adro, comecei a ouvir uns ruídos esquisitos, uns murmúrios do lado de dentro da pequena ermida. Não eram barulhos inquietantes, nada disso. Era mais para o adocicado. Eram mais ou menos assim: “estes ficam-me bem. Gosto mais da cor daquele”…

Ó pá, vão-me desculpar, bem sei que é feio, muito feio espreitar pelo buraco da fechadura, mas não resisti ao chamamento da curiosidade.

Rodeados por vários andores todos engalanados por flores naturais – um mimo, sim senhor!- junto ao altar-mor, estavam várias imagens a ensaiar roupa. Mas atenção, não era uma roupita qualquer da marca “el cigano”. Nada disso, tudo marcas de grande qualidade, “Lacoste”, por exemplo, mas original, que de modas percebo eu. Fiquei levemente indignado. Estas imagens santíficas levam à letra o comportamento papal. Não é admirar se os sapatos forem da marca “pravda”.

Mas isso vá que não vá. O que me fez saltar a tampa – ou seja, não saltou por respeito ao meu amigo do peito – foi ver a imagem de Nossa Senhora de Fátima em trajes menores, também a vestir e despir roupa. Francamente! É preciso ter lata, digo eu, uma Senhora daquela idade, e naqueles preparos! Pouca vergonhice, é o que é!

Acabei por perceber a razão da porta da capela estar encerrada – para não mostrar poucas-vergonhas.


sábado, 20 de janeiro de 2024

BARRÔ: AFINAL, AMANHÃ, SEMPRE HÁ FESTA RELIGIOSA




Antes de escrever o que me levou a pegar na folha branca, gostaria de tranquilizar as centenas de amigos que desde ontem, logo que coloquei a crónica no ar, inquietadíssimos com a saúde de São Sebastião, não pararam de me telefonar para saber o estado físico e anímico da santidade. Só para exemplificar, não consegui pregar olho. Estou como umas olheiras mais sombrias que um silvado no ribeiro.

Logo de manhã, pouco mais do que o romper da aurora, fui ao Largo da Capela. Pé-ante-pé, para não acordar o Sebastião – pela nossa longa amizade, é assim mesmo que o trato -, cheguei perto da porta encerrada do pequeno templo e encostei o meu ouvido direito à madeira. Para meu alarme, comecei a ouvir a voz do padroeiro: “ai… ai… ai. Deixem-me, não me atormentem mais. Ai...ai!

Comecei a ser invadido por suores frios. Querem ver que o Sebastião luta com espíritos malignos, ou, quem sabe, está a pôr termo à sua vida de “não fazer nada”, e ser reconhecido por isso? Relembro que ontem escrevi aqui que o meu amigo estava mais em baixo que as pedras da calçada. Completamente desmoralizado, repetia que as pessoas à sua volta eram egoístas, só lhe pediam, pediam, favores, sem se preocuparem minimamente com o seu estado de alma. Sim, porque imagem de santo, para além de sofrer como nós, também terá alma. Pode é ser de outra cor, como quem diz, talvez branca.

Está de ver como fiquei. A agonia começou a tomar conta de mim.

Voltei a ouvir a sua voz ofegante e trémula: “ai… ai… ai. Por amor de Deus, não me toquem mais. Não aguento mais… ai...ai...

Mau, mau. Não estava nada a gostar do que ouvia. Mas uma coisa parecia certa, aquilo não eram gemidos aflição.

Foi então que espreitei pelo buraco da fechadura e fiquei a perceber quase tudo. Duas senhoras zeladoras da capela ocupavam-se em limpar o corpo do Sebastião. No chão de mosaico, dois baldes com esfregona dentro indicavam que iria haver mesmo festa grossa na capelinha e redondezas.

Olhando à volta, um bocado envergonhado pela minha cusquice, não fosse apanhado em falso, fiquei mais tranquilo. O meu amigo já não chorava, dava gritos de contentamento: “ai… ai… Tenho cócegas!”

Tinha de, imediatamente, tentar saber o que se passava. Sim, porque alguma coisa aconteceu para o meu amigo Sebastião, de ontem para hoje, ter mudado da chuva copiosa para um Sol radiante.


AFINAL, AMANHÃ, VAI HAVER PROCISSÃO


Consumido pela curiosidade, fui a casa, enfiei o meu colete de “freelancer” (trabalhador independente), peguei no meu gravador e na minha velha máquina fotográfica, e voltei à rua.

Tive sorte, muita sorte. Primeiro, por dar de caras com uma fonte idónea e credível. Segundo, por, embora na condição de anónimo, estar na disposição de falar. Ainda não contei, mas aqui, na aldeia, é muito difícil encontrar alguém que fale seja sobre o que for. Talvez seja medo de se exporem, sei lá! A verdade é que o meu futuro como "jornalista" tem os dias contados – e não é pela crise da imprensa em papel. O meu papel na informação é que está em crise.

Bom, contava eu que encontrei a tão desejada informação. Afinal, amanhã, Domingo, Dia da Festa do meu amigo Sebastião, para além da sagrada missinha, às 15h00, logo de seguida vai realizar-se a popular procissão. E mais: a abrilhantar os dois eventos, com música de anjos, teremos uma orquestra vinda de Vila Nova de Monsarros.

Segundo a minha fonte, foi tudo resolvido ontem, em cima da hora, em cima do joelho, como sói dizer-se.

Até antes de ontem não havia pilim para fazer cantar um cego. “Os residentes são pouco generosos para se poder fazer festas”, enfatizou o meu informador anónimo.

Tivemos sorte, por que ontem encontrámos um emigrante, o… não sei se conheces… que nos deu uma maquiazinha jeitosa. Depois mais uma nota de aqui e outra acolá. Contámos a massa e vimos que já dava para fazer arruada durante a manhã e procissão, no Domingo. E até fomos comprar uma dúzia de foguetes!

Fiquei então a compreender a completa mudança do meu amigo Sebastião.

Ainda bem. Sem ressentimentos. Estamos todos de parabéns.


CRÓNICAS RELACCIONADAS


"Barrô: Barulhos ao virar da esquina numa Sexta-feira"

"Barrô: Um comentário recebido sobre a alegoria de São Sebastião"

 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

BARRÔ: BARULHOS AO VIRAR DA ESQUINA NUMA SEXTA-FEIRA

 



Como há muito não se via, nesta Sexta-feira, desde o raiar da aurora, Barrô esteve todo em estranho alvoroço, como há muito já se não via.

Logo de manhã, vieram vários funcionários da Junta de Freguesia com uma camioneta de caixa-aberta e em cima uma máquina de rasto. Com os seus coletes reflectores, como um pequeno pelotão em busca de um renegado invasor, o grupo dividiu-se pelas artérias da aldeia. Uns levavam máquinas de cortar erva a tiracolo, outros vassouras, enxadas e pás. Com voz de comando anteriormente comunicada, ali o inimigo a abater eram as ervas rastejantes e algumas elevadas e presas nos muros de pedra das bermas dos caminhos.

Durante a tarde, veio um camião-cisterna dos Bombeiros da Mealhada com homens, e, estes, mandando deslocar os pachorrentos automóveis do seu letárgico e pacífico estacionamento de fim-de-semana, com uma longa agulheta de alta-pressão para pôr o alcatrão a brilhar, impondo as ordens com voz grossa e rasgada de comando, puseram o pessoal barrosense em sentido.

Perante tanto ensurdecedor barulho, as cabras, em berros lancinantes, protestaram com veemência, as ovelhas, olhando com desdém o que se passava à volta mugiam a bom mugir, as galinhas, alvoraçadas, fazendo desta sexta-feira um dia negro, não puseram ovos como habitualmente.

Quem viesse de fora e visse a inusitada faxina, mais que certo, pensaria que viria um ministro em visita à povoação, mesmo de governo em gestão, e promessas de partidos candidatos em banho-maria.

Mas o motivo de tanto empenho não era nada disso.

Um insólito e profundo matraquear vindo da capela, mesmo lá de dentro, como se viesse das profundezas da terra, fazia parar os poucos transeuntes que trocavam as voltas a mais um dia de calendário gregoriano. Um ou outro, surpreendido pelo ribombar de trovoada, mais fiel e seguidor dos destinos da vontade divina, pensando ser um milagre de santo, durante largos minutos, ajoelhava no frio negro da calçada e cruzava o braço em sinal da cruz. Outros, mais desligados do santificado, assim, como hei-de dizer, católicos a tempo parcial, que só recorrem ao auxílio de São Sebastião quando estão em extrema aflição, passavam ao largo, pouco se importando se o Padroeiro contra a fome, peste e contra a guerra, e protector da povoação, por acaso estaria em padecimento. Sim, porque Santo, como humano que já foi, também sente e sofre na pele o desprezo a que é votado.

Santo, como é mais que óbvio, alimenta-se essencial e especificamente do espiritual. Mas se aqui, neste lugar habitado, poucas pessoas rezam com verdadeiro fervor no silêncio epicural, como pode aguentar-se o apóstolo do Criador? Imagine-se que a imagem para sobreviver e manter-se na capela firme e hirto, comia como todos nós. Quem se dignava dar-lhe uma côdea?

Ninguém se admire se, a curto prazo e já que estamos a entrar em campanha eleitoral, houver manifestações públicas da Esquerda à Direita, acusando-se uns e outros de discriminação, abuso e exploração para com as imagens veneradas em todas as igrejas e capelinhas.

Em boa verdade, esta defesa dos direitos sociais e económicos de todos os trabalhadores para a fé até deveria ser feita pela classe episcopal, desde padres a bispos, passando pelos cardeais, deveriam deixar cair a sotaina que esconde os abusos.

Até podem rir-se e chamarem-me bacoco, pouco me importa. Mas uma coisa é certa, São Sebastião nasceu em França. Ainda jovem mudou-se para Milão, Itália. Tornou-se soldado e preferido pelo imperador Diocleciano, que o nomeou comandante da Guarda Pretoriana. Não vou adiantar muito mais, até por que o resto da sua história de vida é por demais conhecida, mas sabe-se que veio para Portugal por ter sido maltratado no país transalpino. Em suma, é mais um refugiado, um imigrante (com “i”, como agora se diz) entre nós em busca de uma dignidade perdida.


FUI FALAR COM O SANTO


Ainda não disse isto aqui: sou unha com carne com o meu amigo São Sebastião – Sebastião, simplesmente como eu o trato, e ele a mim chama-me “Toino”.

A nossa amizade – que não tem nada a ver com esta do Facebook – começou há cerca de quatro anos, quando vim viver definitivamente para cá.

O que mais o prendeu a mim foi a minha sinceridade. Logo nas primeiras conversas coloquei logo os pontos nos “is”. Ele não me tentava convencer que fazia milagres – até porque eu não ia acreditar – e eu também não o induzia para ele crer nas minhas verborreias. Até por que nem era preciso dizer.

Como moro a a escassos metros da capela – e também por que a zoada me incomodava -, dei por mim a sobrepor o patim e a bater com estrépito na porta de madeira da velha e popular ermida. Mal entrei, fui logo envolvido pelo o intenso perfume a depressão. Nem sei bem explicar, era assim uma mistura entre folhas de eucalipto, mirra e urtigas refogadas.

Encontrei o Sebastião de rastos, coitadinho. Palavra de honra, jamais o vira assim, com tamanho ar de enjoo. Tinha descido do plinto (a base onde assenta os pés) e, sentado na posição de Rodin (o Pensador), com a cabeça sobre as pernas, parecia uma galinha choca. Mas o que mais me impressionou foi ter entre as mãos a corda que anteriormente o amarrava ao troco de árvore. Temi mesmo o pior.

Dando-lhe um apertado abraço, e misturado com lamurias de grande amigo, grande amigo, conta-me o que te provoca esse negrume solitário nesse bondoso coração.

E a imagem de santo blasfemou, blasfemou, chorou, chorou, falou, falou, e nunca mais se calou:

Em Setembro passado, alegadamente, foram retirados pela Junta de Freguesia de Luso para serem restaurados os dois bancos que havia aqui junto à entrada, onde os velhinhos, como tu, se sentavam ao cair da tarde, quando o Sol se escondia no horizonte. E até hoje não foram devolvidos. Saberás lá tu, “Toino”, a tristeza que me atormenta? Bem sei que sou um lamechas, “Toino”, mas que queres?

E agora fazem-me mais esta… Isto é mesmo para me derrubar. Não aguento tanta falta de consideração. Já não há mesmo respeito pelos velhinhos. Porra!

Então a festa em minha honra, que seria comemorada no próximo Domingo, 21 de Janeiro, só merece uma missa? Uma missa? É só mesmo isto que eu mereço?

Nem ao menos uma procissãozinha? Estou farto...”


TEXTO RELACCIONADO

"Barrô: Um comentário recebido sobre..."