Nos
últimos dois anos, São José entristeceu no largo com o mesmo nome,
na Póvoa da Mealhada. Como se fosse uma sombra do antigamente, o
aspecto era macilento, olhos encovados e rodeados de acentuadas
olheiras, cabelos desgrenhados e barba hirsuta, mal cuidada, e até
os braços, outrora fortes que seguravam o menino, estavam agora
flácidos e muito magrinhos.
Pelos
crentes pelo seu bom trabalho ao longo dos séculos, agora prostrado
em descrédito pela população, tudo indicava ser mais um fazedor de
milagres caído em desgraça na comunhão dos mais de vinte mil
nomeados pela igreja.
Os
transeuntes, olhando para dentro do pequeno altar instalado nas
“Alminhas”, mandado erigir por um grupo de moradores em
1967, a propósito muito escanzelado e com as paredes a largar a
tinta em farrapos como pingos de suor, no terreiro com o nome do
Santo, dividiam-se em duas classes, uma que desculpava o seu
deplorável estado anímico com uma lamúria: “Coitadinho, está
esgotado, isto tem a ver com a pandemia. Nem os eleitos por
Deus escapam”. E faziam o sinal da cruz.
Outros,
sem qualquer respeito pelo esforçado labor histórico da entidade,
numa espécie de “se não trabalhas não levas nada”, já
nem se davam ao trabalho de fazer contratos. Com o maior despautério,
despropósito, mandavam um olhar de desprezo e, espiritualmente mais
vazios do que nunca, continuavam a passo largo em direcção a
nenhures.
Foi
então que, apercebendo-se da tragédia anunciada no Largo de São
José, Hugo Santos, um burriqueiro nascido no sopé da Serra do
Bussaco, no Luso, mas gentilmente acolhido e acarinhado pelo povo da
Póvoa, bom samaritano, em muitas noites de insónia, começou a
engendrar uma forma de dar a mão à venerável criação divina,
começando por restaurar a pequena ermida.
Se
melhor o pensou mais depressa levou a ideia à prática. Contactou um
grupo de amigos “carolas”, que estão sempre prontos a ajudar,
falou com algumas firmas locais para ajudarem nos materiais de
construção civil e de repente, o homem sonha e a obra nasce. E
pronto, a capelinha estava um “brinquinho”.
Mas
o nosso homem, como a primeira obra correu bem, não descansou
enquanto não partiu para outra. A seguir iria recuperar a velha
festa de São José, que há muito não se realizava. É óbvio que
iria criar engulhos em alguns humanos e concorrência pouco virtuosa
entre a classe milagreira.
Os
locais, com língua afiada, e que não podem ver uma camisa lavada a
uma imagem santifica, acusaram o “Santos” de estar a
beneficiar a família… dos Santos.
Por
sua vez, Sant’Ana, a cerca de uma centena de metros mais abaixo na
catedral com o mesmo nome, foi tomada de ciúmes pouco edificantes e,
pronta abrir uma guerra entre trabalhadores do mesmo ofício, na
falta de seu marido, São Joaquim, falecido há muito tempo, pôs
logo o digníssimo Provedor da Santa Casa da Misericórdia da
Mealhada ao barulho.
Alegadamente,
a venerada, mãe de Maria de Nazaré, entendia que, sendo mais
importante na cidade que São José, estava a ser discriminada. Não
se sabe como é que o responsável pela irmandade “descalçou a
bota”.
E
CHEGOU O DIA DO SANTO
E
veio o dia 19 de Março, Dia de São José e Dia do Pai.
O
largo estava todo engalanado. A capela das “Alminhas”, com
novo “lifting”, refulgia no cruzamento de vários destinos
desta vida. Como se fosse uma tapeçaria persa, um tapete de flores
naturais, duplamente, enaltecia no chão a veneração ao Dia do Pai
e ao padroeiro da festividade.
Dentro
do oratório, São José, que só tinha vistas de enleio para o
benfeitor Hugo Santos, de olhos brilhantes e faces rosadas, parecendo
rejubilar de alegria, só lhe faltava falar e dizer o quanto estava
agradecido, e, já recuperado da melancolia, estava pronto para as
curvas.
Ao
bater das 10h00, realizou-se uma caminhada solidária em torno da
Póvoa, Reconco e São Romão.
Pelas
14h00, com a colaboração do pároco local, houve uma cerimónia
para homenagear os fundadores do pequeno templo de oração e
seguindo-se uma arruada com a Banda Filarmónica da Pampilhosa.
Pelas
18h00 houve missa na igreja dirigida pelo padre Rodolfo Leite,
E
o culminar da alegoria foi o fogo de artifício, pelas 19h30.
Hugo
Santos está eternamente agradecido a todos, à sua equipa “faz
tudo”, Câmara Municipal, União de Freguesias da Mealhada, Ventosa e Antes, empresas e particulares, aos que
permitiram a realização deste evento.
“Este
ano largas dezenas de pessoas participaram. Para o ano, se tiver quem
me acompanhe, vamos fazer um grande arraial e contar com várias
centenas”, enfatizou Hugo Santos.