No
passado dia 22 de Novembro, com transmissão directa via Internet,
realizou-se a terceira reunião de Câmara Municipal de Coimbra
depois da instalação do novo executivo.
Com
início às 15h00, como nos encontros últimos e posteriores, entre o
gesticular de mãos, o sorriso sarcástico e a recorrência
permanente a um passado recente, decorria a sessão num ambiente faz
de conta, como numa batalha de “paintbal” com a mancha
psicológica e pouco efeito pragmático, onde a teatralização dos
presentes, por efeitos da visualização fílmica mundial, passou a
marcar o compasso do tempo político e partidário.
De
entre acusações de lado a lado, como quem diz, entre a oposição
que agora é governo e a presidência que já foi e agora é
oposição, cada parte tentava mostrar através da argumentação ser
melhor que a outra. E depressa o relógio marcou 17h00 em ponto,
período destinado à intervenção do público – para quem se
lembrar, conquistar o cumprimento desta norma em 2019 ao antigo
regime foi difícil e levou muita teimosia e transpiração.
Apresentou-se
em cena um novo actor até agora desconhecido do grande público, um
munícipe de nome Manuel Bragança para apresentar a sua tese sobre
cidadania. O presidente da mesa, José Manuel Silva, melífluo, doce,
harmonioso e suave, bem sentado no cadeirão-mor ainda em fase de
adaptação ao lugar de mestre, procurando mostrar ser cumpridor e
não ser acusado de ter tiques autoritários como na anterior
vigência, apresentando as boas-vindas, mandou dar início ao
desempenho teatral do cidadão.
O
citadino, engatando a primeira mudança de arranque, começando por
elogiar e dar os parabéns ao novo mestre-de-cerimónias, afirmou que
“anteriormente não se sentia bem naquela sala por haver tanta
arrogância e tanta prepotência que era levada por todas as
pessoas que estavam aqui presentes (...)”. Pressentiu-se na
sala um questionar silencioso e todos os ouvidos ficaram em sentido.
Mais que certo o presidente, em solilóquio, perguntava-se onde
conduziria aquela performance do homem com a destemperada acusação
no cravo e outra na ferradura. Mau, mau! Afinal, José Manuel Silva
também fazia parte do anterior elenco.
E
prosseguia o acutilante, “não podemos ver as mordomias
existentes aqui na Câmara. Isto é chocante! Ainda agora vi ali fora
três carros, ainda falta o outro. Que eu mandasse, se
eu tivesse plenos poderes, aquele carro, se calhar, seria afundado
ali no rio Mondego. Olhe, é execrável!”
E
continuou o candidato a munícipe do ano, “Eu vou dar um
exemplo, num outro dia vi umas pessoas a comentarem, aqui
no café, que fulano (e citou o nome) que tem um carro com
motorista, e, veja bem, que nunca fez nada na vida (...)”.
Os
vereadores socialistas, revolvendo-se nas cadeiras, pareciam deitar
fumo pelas orelhas. E o nosso amigo Bragança, sentindo-se o maior da
cantareira e agora já em quarta velocidade, com uma longa lista na
mão, continuava a malhar em tudo o que mexia, sobretudo se cheirasse
a socialistas. Por falar em cheiro, disse o denunciante, a estufa do
jardim Botânico é uma vergonha. Aquilo parece uma pocilga. E o
culpado é o Reitor da Universidade, que “eu tenho impressão
que o senhor Reitor também deve ser mais ou menos o tipo da área em
que está habituado a ser educado”.
E
voltou a virar a seta apontadora para os vereadores socialistas ali
ao lado, “eram uns indivíduos, coitados, não se conhece o
passado destes senhores em nenhuma empresa privada e nada fizeram de
positivo na cidade”.
E
para terminar a conferência, virando-se para Carlos Cidade, vereador
da oposição, rematou: “eu fiquei extremamente feliz quando o
vi a chorar por ter sido derrotado nas eleições. Boa tarde, e passe
bem!”
SAI
UMA CERTIDÃO PARA A ESQUERDA
Começo
por escrever que, a meu ver, o morador Conimbricense se excedeu e, de
facto, como afirmou Carlos cidade – que na última reunião
camarária pediu que se extraísse uma certidão de teor para
promover uma acção por denúncia caluniosa -, o munícipe colocou
pessoas e entidades em causa – e pode ainda levar, como bónus, uma
acusação pelo Ministério Público de incentivo à destruição de
bens do Estado.
Mesmo
assim, esta intervenção pouco dignificante deve ser resolvida entre
os interessados sem chegar a tribunal - nada que um pedido de
desculpas particular ou público por parte de Manuel Bragança não
possa resolver.
Tendo
em conta o contexto, isto é, desta manifestação do citadino ter
sido feita em cima da mudança de poder, num certo “ambiente
revolucionário”, levando em nota o que se passou no mandato
anterior com os urbanos que pretendiam intervir no hemiciclo, e a
circunstância, ou seja, o facto de Carlos Cidade abdicar de vir a
ser deputado nestas próximas eleições para ser o candidato à
Câmara Municipal, pelo PS, em 2025, este assunto não deve ir além
do que já foi. O que se deve fazer é, fazendo cumprir o Regimento,
evitar que se repita para o futuro. Dar uma certa margem de encaixe,
conforme retorquiu José Manuel Silva, o presidente, acaba por
engrandecer toda a vereação.
Carlos
Cidade se teimar em levar o pleito à barra, seja qual for o
resultado final, fica sempre a perder e marcado pelo anátema de,
alegadamente, ter intentado contra a livre expressão de um habitante
da cidade.
Vale
a pena pensar nisto?