quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O VENDEDOR DE CASTANHAS



Quem passa na Praça 8 de Maio, junto à Igreja de Santa Cruz, facilmente se apercebe, através da inalação do cheiro, dos vários vendedores e vendedeiras de castanhas. No dia em que tirei esta foto eram, pelo menos, três pessoas a vender.
Felizmente que estes vendedores ainda vão resistindo. Mas, atentando nas suas idades, tudo indica que é por pouco tempo que, ao vivo, podemos regozijar-nos com o seu desempenho laboral.
O São Martinho está à porta (comemora-se a 11 de Novembro). Os vinhos trasfegados para pipas e tonéis estão prontos para prova. E, neste acto simbólico de tradição, nada melhor do que umas castanhas a acompanhar. E se o vinho não agradar podem ser acompanhadas com água-pé –para quem não souber o que é, explico que é uma bebida de baixo teor alcoólico, extraída do “ingaço” (bagaço).
Depois de se retirar o vinho dos cachos de uvas, entretanto pisadas, a seguir acrescenta-se água e sai então a água-pé, uma espécie de vinho palheto, fraco de teor etílico, mas fortemente apalado.

A INSENSIBILIDADE PACÓVIA





Cerca das 11,30, passei junto à Igreja de Santa Cruz, subi a rampa de acesso à Rua Visconde da Luz, e, em frente ao Banco Espírito Santo, reparei que a Polícia Municipal (PM) estava a importunar a Patrícia, a excelente instrumentista de concertina que a Baixa, e quem passa, a custo zero, tem o privilégio de poder ver e ouvir ao vivo.
O que me indigna, é verdade, indigna mesmo, é a forma como a PM a estava a “enxotar”. Pela forma (e substância) deu para perceber que a estavam a tratar como se ela fosse uma qualquer indigente. Lembro que a “Edith Piaf da Calçada” –foi assim que a “baptizei” pelas extremas semelhanças com a cantora francesa- paga 35 euros mensais para poder mostrar o seu extraordinário talento de autodidacta de executante de concertina.
Se, quanto a mim, a autarquia –que no limite até lhe deveria pagar- abusando do seu direito, já explora em demasia esta e outros músicos na cidade, por outro lado, constata-se que não é pessoa (jurídica) de boa fé. Ou seja, ao receber uma taxa mensal, abusiva de 35 euros, está a contratualizar um serviço. No mínimo o que se espera é que, entre as partes, cumpra a sua. Acontece, pelo que eu vi, que ao mandar a PM “enxotar” esta música instrumentista, está a entrar pelo incumprimento contratual. E não é caso único, ainda há dias outro músico, o Luís Cortês, lamentava, no Diário de Coimbra, a forma como era tratado pela PM nas ruas da Baixa.
Volto a reiterar o meu protesto: será que esta gente insensível que, localmente, nos governa (mal) da Praça 8 de Maio não verá que estas pessoas, sobretudo músicos, são uma alegria para estas ruas sombrias e de gente triste? O que quererão eles? Será que querem transeuntes sombrios, cabisbaixos, anorécticos ensimesmados, que mostrem bem a cruz aos ombros?
Tristeza saloia! Desculpem lá, ó saloios da região de Mafra, não é convosco. Esta tristeza tem a ver com gente suburbana, que se consideram urbanos, no trato e na cidadania, e que são simplesmente campónios de uma rusticidade atroz.

A PIETÁ



(CLIQUE EM CIMA DA FOTO E SINTA A EXPRESSÂO DE SOFRIMENTO NOS ROSTOS DESTES DOIS SERES)

A mulher está dormindo,
juntamente com o menino,
talvez sonhe que está indo,
levando o seu pequenino,
para a sua terra, partindo;
Na Loja do Cidadão,
onde começa o Eldorado,
para uns que cá estão,
pensam que está tudo acabado,
outros, sem nada, valorizam até tostão;
Não deixa de ser irónico,
o “hoje”, afirmativo, da cidadania,
a disfunção entre o “ser” e o biónico,
concentrando a vontade e a mais-valia
na máquina, desprezando o “ser crónico”;
Esta mulher é a “Piedade”,
retrato dum tempo corrente,
sofre e chora de saudade,
pela injustiça que sente,
nos humanos, a maldade;
O menino representa Jesus a morrer,
nos braços da Virgem Maria,
a mulher simboliza o sofrer,
a Loja do Cidadão a utopia,
a gente que passa, a insensibilidade do “ser”.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O CEGUINHO

(CLIQUE EM CIMA DA FOTO E ATENTE NA CARA DESTE HOMEM. PARECE DIZER..."HUM...A MIM NINGUÉM ENGANA")


“Uma moeda, por amor de Deus, senhor”,
repete mil vezes o ceguinho em ladainha,
encostado, sem ver, na esquina da ruinha,
em prece carecente, exaustiva de amor,
aos poucos, sente, vai caindo a moedinha;
Passa a velhinha desafortunada,
sem sorte, cujo marido perdeu,
olha para o cego, que não vê nada,
retira uma moeda, o rosto emudeceu,
pensa em Deus, numa prece sagrada;
Calmamente, passa o comerciante falido e sonhador,
outrora, corredor de fundo, dono da rua,
“que Deus lhe pague em dobro, senhor”,
ouve o cego, dá meia-volta e recua,
deposita uma moeda, pensa Nele com fulgor;
Dona Maria, dona de casa, cheia de solidão,
ouve o cego: “ajude, por amor de Deus!”,
abre a carteira, tira uma nota com a mão,
pensa para si: "que o Senhor limpe os pecados meus,
me dê forças e paciência para aturar o meu João";
Passa um casal de namorados, ele é generoso,
no gesto, mostra à sua cara-metade a sua bondade,
ela, sem dizer, pensa, quanto ele é tolo e vaidoso,
não se impressiona com aquela facilidade,
assim, só lhe mostra o quanto é manhoso;
Pára um político, cumprimenta o cego, faz-se notado,
olha em volta, quer ser visto, pensa no que seria,
se desse uma nota de dez, de vinte, ao pobre coitado,
talvez passasse um jornalista e tirasse fotografia,
no dia seguinte, em “cacha”, “O amigo do necessitado”;
No meio de cegos, o menos invisual é o que não pode ver,
todos precisam da sua cegueira para os fantasmas expiar,
o gesto hipócrita de dar não passa de ambição de receber,
na fé, em promessa a um Deus generoso capaz de multiplicar,
o cego, que não vê, lendo a alma desta gente, parece tudo ver.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO


João Braga disse...
A propósito de assaltos, aqui fica em jeito de notícia:

No início desta semana do meu estabelecimento Retrosaria Zig-Zag, um energúmero cidadão, desses que andam por aí de mochila às costas, vulgarmente designados por drogados, entra loja adentro, e com o maior dos desplantes agarra num jogo de toalhas e toca a fugir. Azar dos azares. A minha esposa como é uma mulher de armas e não é de de se ficar, toca a correr atrás dele. Com o auxilio de um cidadão que ao vê-la a correr lhe perguntou o que se passava e se prontificou a correr também, conseguiram por detrás das instalações das "Viagens Abreu" retirar-lhe o referido jogo, embora o espécime ainda tenha mostrado resistência. Esta já não é a 1ª vez que tal aconteçe e receio que esta tendência se venha a agravar. Espero que estas palavras sensibilizem e sirvam para alertar alguem que tem o dever de zelar pelos interesses e bens dos cidadãos, que contribuem com o seu esforço e dedicação para o desenvolvimento deste país.
22 de Outubro de 2008 11:42

(RECEBI ESTE COMENTÁRIO, E, COM A DEVIDA VÉNIA AO SEU AUTOR, TOMO A LIBERDADE DE O TRANSCREVER)

SEIS VISITAS EM 2008






A firma José Geraldes de Almeida, Lª, no Largo da Sota nº1, ali por detrás da antiga Zara, onde outrora funcionou o saudoso cinema Tivoli, é um estabelecimento que se dedica a sucatas. Este ano, de 2008, já foi assaltado seis vezes. A penúltima foi à hora do almoço. Entraram pelo telhado, calmamente foram ao cofre, que estava aberto e, na maior das calmas, surripiaram 100euros e saíram pela porta principal.
A última vez que foi assaltado, há cerca de uma semana e pouco, no fim-de-semana, através de arrombamento, entraram, ligaram uma rebarbadora e fizeram o trabalho ao cofre que está na foto. Para além dos estragos materiais, foram roubados do cofre cerca de 200 euros em dinheiro.
Tal como muitos outros comerciantes só fala em desistir do negócio. Profundamente revoltado, diz que não vale a pena continuar. “Se fosse mais novo montava uma firma de gamanço, isto agora é o que está a dar. O risco de ser apanhado em flagrante é diminuto e mesmo quando se é reconhecido raramente se “vai dentro”. E se, no limite, se for mesmo apanhado, há sempre alguém que nos livra do “enrascanço”. Haverá sempre mais um recurso em perspectiva”, conclui o Geraldo, convictamente.
Agora uma perguntita inocente -que, acreditem mesmo, eu não sou nada maldoso, juro pela minha mãezinha e pela alminha da minha avozinha que só por infelicidade não estará no céu- esta casa está a menos de cem metros do estabelecimento do presidente da ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, e, conforme declarações ao JN, há dias, de que no último ano só tinha conhecimento de um assalto, assim sendo, das duas uma: ou durante o passado ano só veio uma vez à cidade ou então anda mesmo distraído.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

ENCERROU A CATEDRAL?



Ao que parece, segundo declarações de vizinhos, a loja José Novais, Lª, no Largo da Portagem encerrou.
Esta casa de tecidos a metro, que vestiu várias gerações, teria cerca de sete décadas de existência. “Era a nossa catedral, a casa que nos servia de guia, aqui no Largo”, diz-me um comerciante de olhos humedecidos pela amargura de ver desaparecer mais um ícone do comércio tradicional.