Há uma semana fui vê-lo ao IPO, Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil, em Coimbra. Eu sabia que o Saraiva estava muito mal. Há muito tempo que o cancro que minava o seu corpo, encurtando o resto da sua vida, como torpedo imparável, ia avançando sem que nada o conseguisse deter. Como se estivesse a vê-lo agora, estava lúcido sentado numa cadeira de braços. Tinha naturalmente um aspecto muito debilitado. Além de eu saber que estava em fase terminal, notava-se o seu ar esbranquiçado, cadavérico. Apesar disso, nestes casos anómalos, quando visito um doente, é para mim sempre um conflito. Estar calado, marcando apenas presença, falarmos de assuntos vagos, ou falarmos da sua doença? E se falando dela, sabendo nós todo o historial clínico, o que se deve dizer?
Faço sempre a mesma coisa, entro pela porta da mentira condescendente, do tipo de verborreia que ninguém acredita, nem eu, mesmo esforçando-me por parecer convincente, muito menos o doente que me escuta, e foi o que fiz mais uma vez.
“ Então como vai isso Saraiva?!...Estás com bom aspecto. Pareces mais novo, até o cabelo retornou, e mais preto ainda”. -Entrei com ele, tentando ou achando que com isso o animaria.
Ele olhou para mim, com os seus olhos tristes, não proferiu palavra, mas o seu silêncio, embrulhado na mensagem do seu olhar, disse-me mais do que se tivesse falado. Foi como tivesse dito “porque não te calas? Achas que não sei o que me espera? Precisas de mentir descaradamente? Pensas que sou parvo?”.
Passado um tempo, em que pareceu estar absorto, soletrou meigamente, de forma conclusiva, que não admitia réplica: “ goza bem a vida Luís. Goza o teu dia. Goza-o como se fosse o último. As coisas que deveria ter feito e não fiz. As viagens que rejeitei, para poupar dinheiro. Para quê, saberás tu responder?! Foi-me proposto ir a Espanha, fazer uma operação, um novo método, através de uma total transfusão de sangue, davam-me 80% de garantias de sucesso. Custava dez mil euros. Não fui. Até os tinha… pensava que isto passava. Estás a ver, vou eu e o dinheiro fica… “
Hoje, dia 31 de Dezembro, em que todos velamos o ano velho, para logo, antes da meia-noite, cuidarmos do encaminhamento e do seu féretro, o meu amigo Saraiva foi a enterrar, por acasos do destino, umas horas antes do funeral do ano de 2007.
Que lições a tirar de um ano velho que se vai e uma vida que se finda? Muitas. Façamos os possíveis para deixarmos de nos preocuparmos com coisas simplistas de lana caprina. Esta nossa mania de ampliarmos os nossos problemas até à exaustão, esquecendo-nos, tantas vezes, que mesmo ao nosso lado estão problemas gravíssimos sem uma única solução possível. E, como o meu amigo Saraiva, sem um queixume em relação ao futuro, apenas lamentando aquilo que não fizeram em prol de si mesmo.
Às vezes somos tão miudinhos e mesquinhos, não somos? Vale a pena pensar nisto?
Que a morte do meu amigo, na sua frase profética, carpe diem (goza o teu dia), sirva para nos fazer parar um momento, neste movimento louco, e pensar se vale a pena continuar no mesmo estilo de vida que levámos até hoje.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
sábado, 29 de dezembro de 2007
ADEUS ANO VELHO
ADEUS ANO VELHO
Vais embora dois mil e sete,
não me deixas recordações,
se te acusar, dizes que não te compete,
mas a verdade é que foste só desilusões;
Há um ano entraste de mansinho,
prometeste ser melhor que o antecedente,
passado um ano, és mesmo mentirosinho,
és como os políticos a aldrabar a gente;
Já nem sei bem porque te aceito,
se por obrigação, se pela esperança,
este sentimento que não me sai do peito,
o teu incumprimento fere-me como uma lança;
Se pudesse mandava-te parar ó tempo,
fazes-me velho, só me trazes desilusões,
sem te ver, vergastas-me como o vento,
fazes de mim um velho perdido de ilusões;
Está bem, pronto, não faças essa cara, então,
não fiques triste, foi apenas um desabafar,
mais uma vez, mais um ano, estou na tua mão,
não me frustres, não acabes com o meu sonhar;
Promete, ao menos, que te vais esforçar,
se não conseguires para mim, darás ouvidos,
escutarás, tomarás em boa conta, vais realizar,
todos os sonhos de todos os meus amigos.
UM ABRAÇO DO TAMANHO DO MUNDO
Vais embora dois mil e sete,
não me deixas recordações,
se te acusar, dizes que não te compete,
mas a verdade é que foste só desilusões;
Há um ano entraste de mansinho,
prometeste ser melhor que o antecedente,
passado um ano, és mesmo mentirosinho,
és como os políticos a aldrabar a gente;
Já nem sei bem porque te aceito,
se por obrigação, se pela esperança,
este sentimento que não me sai do peito,
o teu incumprimento fere-me como uma lança;
Se pudesse mandava-te parar ó tempo,
fazes-me velho, só me trazes desilusões,
sem te ver, vergastas-me como o vento,
fazes de mim um velho perdido de ilusões;
Está bem, pronto, não faças essa cara, então,
não fiques triste, foi apenas um desabafar,
mais uma vez, mais um ano, estou na tua mão,
não me frustres, não acabes com o meu sonhar;
Promete, ao menos, que te vais esforçar,
se não conseguires para mim, darás ouvidos,
escutarás, tomarás em boa conta, vais realizar,
todos os sonhos de todos os meus amigos.
UM ABRAÇO DO TAMANHO DO MUNDO
PARTIDOS SEM ÉTICA
A proprietária do imóvel, Maria José Correia, onde está assente há cerca de três décadas o Partido Social Democrata (PSD), na Rua dos Combatentes, salvo erro, há poucos anos moveu uma acção de despejo ao maior partido de oposição, demanda esta julgada procedente pelo tribunal com base em obras ilegais. Estas alterações arquitectónicas feitas pelo PSD, foram efectuadas sem autorização da senhoria. Creio, à posterior, veio esta a autorizar e a ratificar um novo contrato a termo que caduca agora. Se a minha memória não falha os factos foram assim.
Segundo o que li na imprensa, há pouco tempo, Jaime Soares, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares, eleito pelo PSD, ameaçava impugnar a caducidade do contrato de arrendamento.
Pegando no desabafo da proprietária do edifício, “morro sem ter o prazer de entrar nela como sendo minha. Que tristeza possuir um bem que os outros põem e dispõem a seu bel-prazer e não a entregam aos seus legítimos proprietários”. Realmente é uma tristeza, ou melhor um escândalo, quando o inquilino é o maior partido de oposição e com aspirações a ser governo. Quando entidades, representadas por pessoas com responsabilidade social agem assim, realmente dá vontade de perguntar que espécie de governantes serão amanhã. É por estas e por outras que os partidos, incluindo os seus quadros de topo, caíram completamente no descrédito.
Segundo o que li na imprensa, há pouco tempo, Jaime Soares, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares, eleito pelo PSD, ameaçava impugnar a caducidade do contrato de arrendamento.
Pegando no desabafo da proprietária do edifício, “morro sem ter o prazer de entrar nela como sendo minha. Que tristeza possuir um bem que os outros põem e dispõem a seu bel-prazer e não a entregam aos seus legítimos proprietários”. Realmente é uma tristeza, ou melhor um escândalo, quando o inquilino é o maior partido de oposição e com aspirações a ser governo. Quando entidades, representadas por pessoas com responsabilidade social agem assim, realmente dá vontade de perguntar que espécie de governantes serão amanhã. É por estas e por outras que os partidos, incluindo os seus quadros de topo, caíram completamente no descrédito.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
O BOMBISTA SUICIDA DA CULTURA COIMBRÃ
Augusto barros (AB), encenador da Companhia de teatro “A Escola da Noite” –Grupo de Teatro de Coimbra, segundo o seu site na Internet, é uma Associação Cultural, sem fins lucrativos, reconhecida como Instituição de Utilidade Pública desde 1998- na última Quarta-Feira, dia 26 de Dezembro, deu uma longa entrevista, de duas páginas, ao Diário de Coimbra (DC).
Para que o leitor perceba melhor, mesmo correndo o risco de me alongar demasiado, tomo a liberdade de reproduzir alguns excertos proferidos por AB. Começa por naturalmente fazer o auto-elogio da companhia de teatro a que pertence, o que até se compreende e nem se leva a mal. Depois, objectivamente, traça um quadro negro do nosso ensino das artes em Portugal, sobretudo, quando diz que “ o grau de iliteracia, até de analfabetismo, e, fundamentalmente, uma coisa que depois condiciona tudo, que é a falta de educação artística desde os mais tenros anos de idade. Isso marca em definitivo a nossa vida futura. Se nós não convivemos com as artes desde pequeninos, continuamos a ser um país pobre”.
À pergunta do jornalista se “percebendo que a cultura não é rentável, no sentido de ter um retorno financeiro, uma companhia de teatro profissional não deveria tentar profissionalizar-se também do ponto de vista comercial? Para não depender totalmente de subsídios.” Responde AB: “Não se pode querer que tudo dê lucro. Eu bem sei que estamos numa sociedade muito louca, que só funciona através do dinheiro, mas que diabo, qualquer empresário percebe que quanto menos pessoas formar pior é a sua empresa. Como é que a ópera ou o teatro pode dar lucro? A não ser que se invista mais, de maneira a que as pessoas sejam mais educadas, vão mais às coisas culturais e o nível de educação geral se eleve com benefícios para a sociedade produtiva. Claro que há fórmulas comerciais que têm muita gente. Já não são arte, nem educação. São diversão e entretenimento. As coisas “pimba”, os Quim Barreiros, os “La Féria “, são clichés que se reproduzem, mas que não ensinam ninguém.”
Continuando a citar o encenador de “A Escola da Noite”, à pergunta do jornalista se não será possível um meio termo, responde aquele: “Esta é uma questão que, infelizmente, em Coimbra, é muito discutida (…) com a contradição entre o que é popular e o que é erudito. (…) Não é verdade que os ranchos sejam para todos. Não é verdade que a “dita” cultura popular –porque a maior parte do trabalho dos ranchos 90%são adulterações- seja para todos. São coisas mal feitas e que dão má imagem da cultura popular.” Não há trabalho de pesquisa bem feito por estes grupos? –pergunta o jornalista. Responde AB: “Eu já dei 10% para isso. Mas não sou eu que o digo. São os especialistas. Até nos congressos de etnografia e folclore passam a vida a dizer que a maior parte dos grupos está a fazer aldrabices. Estão a macaquear tempos antigos. E a fazer ficções sobre tempos antigos que não foram assim. Vejo coisas ridículas, de gente vestida aparentemente à século XIX, com danças que nada têm a ver com aquilo. Não é cultura popular. O vereador da Cultura (da Câmara Municipal de Coimbra -CMC-, Mário Nunes) é um vereador contra a cultura. Julga que defendendo ranchos e bandas consegue votos. É apenas uma questão eleitoral. (…) o vereador da cultura é anticultura. Basta ver-se qual tem sido a viagem do orçamento da Cultura nos últimos quatro ou cinco anos.”
Para salvaguarda de conflitos de interesses, e para que não fique qualquer dúvida, não represento a AFERM, Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego, o Ministério da Cultura, ou o Vereador da Cultura da CMC.
Depois desta ressalva, dentro da minha abominável ignorância, vou tentar responder a Augusto Barros. Faço-o porque, sinceramente, creio que este senhor foi, acima de tudo, arrogante, absolutista e tremendamente injusto para todas as pessoas que citou e, muito mesmo, mas mesmo muito, para os ranchos folclóricos. Eu conheço muito bem o “interior” destes grupos. Aliás, a AFERM deveria ter uma resposta para dar a este senhor Barros. Mas também não me admira, em Coimbra raramente as instituições respondem a qualquer assunto, mesmo que seja insulto. Só a Psicologia Social poderá explicar este reiterado comportamento.
Vamos então analisar, sob o meu vesgo olhar, ponto por ponto, as afirmações deste douto e futuro candidato a vereador da Cultura de Coimbra. Temos homem. Alegremo-nos ralé de ignorantes.
Comecemos por quando responde que não se pode crer que tudo dê lucro. Porque não? É obrigatório que a cultura, baixa ou alta, popular ou erudita, deva viver à custa de subsídios estatais? Não pode ser auto-sustentável, pelo menos parcialmente? É certo que o Estado não dá os melhores exemplos, agindo discricionariamente, discriminando pessoas e grupos. Favorecendo uns e prejudicando outros. Porém, a meu ver, o princípio que deve estar subjacente à feitura de cultura para massas ou minorias mais eruditas deve ser a sustentabilidade financeira própria e não o contrário, ou seja, o viver-se continuamente à custa de subsídios. Não é que considere que o subsídio seja despiciendo, nada disso. É importante, mas deve ser o acessório e não o essencial, como argumenta aqui o encenador de “A Escola da Noite”. Fala de La Féria como cliché? A meu ver, todos os encenadores ao falarem deste senhor deveriam pôr-se em sentido. Contrariamente ao que afirma, tem muito a ensinar aos subsidio-dependentes que grassam no país.
Depois fala dos ranchos (grupos folclóricos) como se conhecesse alguma coisa destes grupos. Pelo que fala, não sabe, nem conhece nada destes agrupamentos culturais. A maioria dos membros concorre por amor à camisola. Não é só o tempo que despendem como também as roupas e as suas deslocações, que é tudo à sua custa. Os últimos subsídios camarários, aos diversos ranchos da região de Coimbra, salvo erro, rondaram em média entre os 1000 e os 9000 euros. Pensa, por acaso, que esta pequena migalha tapa os buracos destes agrupamentos se não for o altruísmo dos seus membros? Para não falar na forma injusta quando refere que a percentagem de 90% são adulterações -era engraçado saber onde foi colher este valor, seria por amostra?- e o”macanquear” de tempos idos e das suas recolhas. Fala de Giacometti e Leite de Vasconcelos. Foram de facto a pedra basilar para que o nosso folclore não se perdesse, mas sem a carolice dos ranchos muita coisa se teria perdido também. Os Ranchos Folclóricos, tal como uma peça de teatro, não têm de ir ao absurdo da cópia fiel. O seu trabalho é a representação da memória ao mais aproximado possível.
Para que o leitor perceba melhor, mesmo correndo o risco de me alongar demasiado, tomo a liberdade de reproduzir alguns excertos proferidos por AB. Começa por naturalmente fazer o auto-elogio da companhia de teatro a que pertence, o que até se compreende e nem se leva a mal. Depois, objectivamente, traça um quadro negro do nosso ensino das artes em Portugal, sobretudo, quando diz que “ o grau de iliteracia, até de analfabetismo, e, fundamentalmente, uma coisa que depois condiciona tudo, que é a falta de educação artística desde os mais tenros anos de idade. Isso marca em definitivo a nossa vida futura. Se nós não convivemos com as artes desde pequeninos, continuamos a ser um país pobre”.
À pergunta do jornalista se “percebendo que a cultura não é rentável, no sentido de ter um retorno financeiro, uma companhia de teatro profissional não deveria tentar profissionalizar-se também do ponto de vista comercial? Para não depender totalmente de subsídios.” Responde AB: “Não se pode querer que tudo dê lucro. Eu bem sei que estamos numa sociedade muito louca, que só funciona através do dinheiro, mas que diabo, qualquer empresário percebe que quanto menos pessoas formar pior é a sua empresa. Como é que a ópera ou o teatro pode dar lucro? A não ser que se invista mais, de maneira a que as pessoas sejam mais educadas, vão mais às coisas culturais e o nível de educação geral se eleve com benefícios para a sociedade produtiva. Claro que há fórmulas comerciais que têm muita gente. Já não são arte, nem educação. São diversão e entretenimento. As coisas “pimba”, os Quim Barreiros, os “La Féria “, são clichés que se reproduzem, mas que não ensinam ninguém.”
Continuando a citar o encenador de “A Escola da Noite”, à pergunta do jornalista se não será possível um meio termo, responde aquele: “Esta é uma questão que, infelizmente, em Coimbra, é muito discutida (…) com a contradição entre o que é popular e o que é erudito. (…) Não é verdade que os ranchos sejam para todos. Não é verdade que a “dita” cultura popular –porque a maior parte do trabalho dos ranchos 90%são adulterações- seja para todos. São coisas mal feitas e que dão má imagem da cultura popular.” Não há trabalho de pesquisa bem feito por estes grupos? –pergunta o jornalista. Responde AB: “Eu já dei 10% para isso. Mas não sou eu que o digo. São os especialistas. Até nos congressos de etnografia e folclore passam a vida a dizer que a maior parte dos grupos está a fazer aldrabices. Estão a macaquear tempos antigos. E a fazer ficções sobre tempos antigos que não foram assim. Vejo coisas ridículas, de gente vestida aparentemente à século XIX, com danças que nada têm a ver com aquilo. Não é cultura popular. O vereador da Cultura (da Câmara Municipal de Coimbra -CMC-, Mário Nunes) é um vereador contra a cultura. Julga que defendendo ranchos e bandas consegue votos. É apenas uma questão eleitoral. (…) o vereador da cultura é anticultura. Basta ver-se qual tem sido a viagem do orçamento da Cultura nos últimos quatro ou cinco anos.”
Para salvaguarda de conflitos de interesses, e para que não fique qualquer dúvida, não represento a AFERM, Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego, o Ministério da Cultura, ou o Vereador da Cultura da CMC.
Depois desta ressalva, dentro da minha abominável ignorância, vou tentar responder a Augusto Barros. Faço-o porque, sinceramente, creio que este senhor foi, acima de tudo, arrogante, absolutista e tremendamente injusto para todas as pessoas que citou e, muito mesmo, mas mesmo muito, para os ranchos folclóricos. Eu conheço muito bem o “interior” destes grupos. Aliás, a AFERM deveria ter uma resposta para dar a este senhor Barros. Mas também não me admira, em Coimbra raramente as instituições respondem a qualquer assunto, mesmo que seja insulto. Só a Psicologia Social poderá explicar este reiterado comportamento.
Vamos então analisar, sob o meu vesgo olhar, ponto por ponto, as afirmações deste douto e futuro candidato a vereador da Cultura de Coimbra. Temos homem. Alegremo-nos ralé de ignorantes.
Comecemos por quando responde que não se pode crer que tudo dê lucro. Porque não? É obrigatório que a cultura, baixa ou alta, popular ou erudita, deva viver à custa de subsídios estatais? Não pode ser auto-sustentável, pelo menos parcialmente? É certo que o Estado não dá os melhores exemplos, agindo discricionariamente, discriminando pessoas e grupos. Favorecendo uns e prejudicando outros. Porém, a meu ver, o princípio que deve estar subjacente à feitura de cultura para massas ou minorias mais eruditas deve ser a sustentabilidade financeira própria e não o contrário, ou seja, o viver-se continuamente à custa de subsídios. Não é que considere que o subsídio seja despiciendo, nada disso. É importante, mas deve ser o acessório e não o essencial, como argumenta aqui o encenador de “A Escola da Noite”. Fala de La Féria como cliché? A meu ver, todos os encenadores ao falarem deste senhor deveriam pôr-se em sentido. Contrariamente ao que afirma, tem muito a ensinar aos subsidio-dependentes que grassam no país.
Depois fala dos ranchos (grupos folclóricos) como se conhecesse alguma coisa destes grupos. Pelo que fala, não sabe, nem conhece nada destes agrupamentos culturais. A maioria dos membros concorre por amor à camisola. Não é só o tempo que despendem como também as roupas e as suas deslocações, que é tudo à sua custa. Os últimos subsídios camarários, aos diversos ranchos da região de Coimbra, salvo erro, rondaram em média entre os 1000 e os 9000 euros. Pensa, por acaso, que esta pequena migalha tapa os buracos destes agrupamentos se não for o altruísmo dos seus membros? Para não falar na forma injusta quando refere que a percentagem de 90% são adulterações -era engraçado saber onde foi colher este valor, seria por amostra?- e o”macanquear” de tempos idos e das suas recolhas. Fala de Giacometti e Leite de Vasconcelos. Foram de facto a pedra basilar para que o nosso folclore não se perdesse, mas sem a carolice dos ranchos muita coisa se teria perdido também. Os Ranchos Folclóricos, tal como uma peça de teatro, não têm de ir ao absurdo da cópia fiel. O seu trabalho é a representação da memória ao mais aproximado possível.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
MANUAL DE MOTIVAÇÃO DO EMPREGADOR LUSO
O presidente de uma IPSS, Instituição Particular de Solidariedade Social, com 13 anos de existência na cidade de Coimbra, cuja função tem sido sobretudo virada para projectos de índole Social, nomeadamente em valências para famílias desestruturadas e crianças em risco, com sede nesta cidade, e com privilegiada articulação com o Centro Distrital de Segurança Social de Coimbra, a 21 de Dezembro último, enviou, como mensagem natalícia, aos seus cerca de uma dúzia de funcionários, entre auxiliares de base e técnicos superiores, em forma de prospecto, entregue de mão em mão, o texto que abaixo reproduzo. Saliento que, por acaso e só por acaso, este senhor presidente desta instituição ocupa um lugar de relevo, como político, numa cidade satélite de Coimbra.
Eis então a pérola, que, pela força motivadora, pode, por um lado fazer doutrina; por outro explicar como vão as relações contratuais no pequeno rectângulo à beira-mar plantado. Saliento que o texto que se segue é a transcrição fiel da mensagem entregue no sapatinho para integrar na árvore natalícia dos funcionários a 21 de Dezembro passado:
LOGOTIPO DA INSTITUIÇÃO
MENSAGEM DE NATAL
Está a chegar ao fim, o ano de 2007.
Tal como tinha dito, no almoço de Natal de 2006, ia ser um ano muito difícil, dado que terminavam projectos, os financiamentos eram escassos e a aprovação de novos Acordos na Segurança Social está cada dia mais difícil.
Apelei na altura a um empenhamento de todos os que ficavam na altura, tentando marcar a diferença pela qualidade, rigor e profissionalismo.
Constato ao fim deste ano de 2007 (apesar de sucessivos apelos), que nem todos adoptaram esta mensagem e esta postura: o horário cumpre-se, mas não se é rigoroso ao nível dos processos dos utentes, dos registos dos giros e das actividades, do envolvimento nas acções, na organização dos Dossiers técnico-pedagógicos,…
Cumpre-se, apenas quando alguém chama a atenção dos prazos e os incumpridores, têm sempre uma desculpa na ponta da língua, para o que não fizeram, mas que deveriam ter feito.
Muitos destes, fomentam a intriga e o “diz que diz”, pensando que assim conseguem subir mais rápido na instituição. Desenganem-se! ! Eu estou muito atento. É mais fácil apanhar um mentiroso, do que um coxo.
Felizmente, encontro alguns (não muitos), funcionários da Instituição que justifique o meu voluntariado e o dos membros dos Corpos Gerentes, na Instituição: estes funcionários são disponíveis, empenhados e são rigorosos. Só é pena que sejam poucos.
No inicio do novo ano de trabalho de 2008, alguns de vocês, não estarão na Instituição: uns por opção própria e outros por opção da Instituição (os tais incumpridores).
Para quem fica, dou o seguinte conselho: Não chega apenas apregoar nos corredores que temos muito trabalho, que a Instituição é muito exigente. É preciso (em tempo de grandes restrições) deixar apenas de apregoar e trabalhar efectivamente –cumprindo com rigor os prazos e com qualidade as tarefas que estão distribuídas a cada um.
Já agora um outro conselho: só está na (…) –nome da Instituição-, quem quer. Quem acha que não está bem, tem um rumo: vá-se embora.
Este ano, não vai haver almoço de Natal da Instituição: não é por dificuldades financeiras, é por opção: assim acaba-se com um espaço de intriga! Ainda não me esqueci do que aconteceu no ano passado. Acabado o Almoço de Natal, algumas pessoas, saíram cheias de pressa, para fazer o seu acto preferido: a intriga –foram telefonar para alguns dos que não estiveram presentes a adulterar as minhas palavras.
Para terminar, um último conselho: continuem assim e um dia destes, não tem Instituição para trabalhar.
Votos de bom Natal e de Bom ano Novo de 2008.
Coimbra, 21 de Dezembro de 2007.
O Presidente da Direcção Nacional.
(segue-se a assinatura e, entre parêntesis, o nome)
Eis então a pérola, que, pela força motivadora, pode, por um lado fazer doutrina; por outro explicar como vão as relações contratuais no pequeno rectângulo à beira-mar plantado. Saliento que o texto que se segue é a transcrição fiel da mensagem entregue no sapatinho para integrar na árvore natalícia dos funcionários a 21 de Dezembro passado:
LOGOTIPO DA INSTITUIÇÃO
MENSAGEM DE NATAL
Está a chegar ao fim, o ano de 2007.
Tal como tinha dito, no almoço de Natal de 2006, ia ser um ano muito difícil, dado que terminavam projectos, os financiamentos eram escassos e a aprovação de novos Acordos na Segurança Social está cada dia mais difícil.
Apelei na altura a um empenhamento de todos os que ficavam na altura, tentando marcar a diferença pela qualidade, rigor e profissionalismo.
Constato ao fim deste ano de 2007 (apesar de sucessivos apelos), que nem todos adoptaram esta mensagem e esta postura: o horário cumpre-se, mas não se é rigoroso ao nível dos processos dos utentes, dos registos dos giros e das actividades, do envolvimento nas acções, na organização dos Dossiers técnico-pedagógicos,…
Cumpre-se, apenas quando alguém chama a atenção dos prazos e os incumpridores, têm sempre uma desculpa na ponta da língua, para o que não fizeram, mas que deveriam ter feito.
Muitos destes, fomentam a intriga e o “diz que diz”, pensando que assim conseguem subir mais rápido na instituição. Desenganem-se! ! Eu estou muito atento. É mais fácil apanhar um mentiroso, do que um coxo.
Felizmente, encontro alguns (não muitos), funcionários da Instituição que justifique o meu voluntariado e o dos membros dos Corpos Gerentes, na Instituição: estes funcionários são disponíveis, empenhados e são rigorosos. Só é pena que sejam poucos.
No inicio do novo ano de trabalho de 2008, alguns de vocês, não estarão na Instituição: uns por opção própria e outros por opção da Instituição (os tais incumpridores).
Para quem fica, dou o seguinte conselho: Não chega apenas apregoar nos corredores que temos muito trabalho, que a Instituição é muito exigente. É preciso (em tempo de grandes restrições) deixar apenas de apregoar e trabalhar efectivamente –cumprindo com rigor os prazos e com qualidade as tarefas que estão distribuídas a cada um.
Já agora um outro conselho: só está na (…) –nome da Instituição-, quem quer. Quem acha que não está bem, tem um rumo: vá-se embora.
Este ano, não vai haver almoço de Natal da Instituição: não é por dificuldades financeiras, é por opção: assim acaba-se com um espaço de intriga! Ainda não me esqueci do que aconteceu no ano passado. Acabado o Almoço de Natal, algumas pessoas, saíram cheias de pressa, para fazer o seu acto preferido: a intriga –foram telefonar para alguns dos que não estiveram presentes a adulterar as minhas palavras.
Para terminar, um último conselho: continuem assim e um dia destes, não tem Instituição para trabalhar.
Votos de bom Natal e de Bom ano Novo de 2008.
Coimbra, 21 de Dezembro de 2007.
O Presidente da Direcção Nacional.
(segue-se a assinatura e, entre parêntesis, o nome)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
MENSAGEM NATALÍCIA A UM AMIGO
Lembro-me de ti amigo(a),
nesta data tão especial,
pesa-me o pouco tempo que falei contigo,
desde o último natal;
Sei que não sou o amigo que desejarias,
que nem sempre soube entender o teu olhar,
que não estava quando tu mais precisarias,
não te emprestei o ombro para a tua cabeça pousar;
Quando choravas não te limpei nenhuma lágrima furtiva,
nem perguntei a razão dessa tristeza, dessa solidão,
estava longe, não senti a tua dor, porque estavas cansativa,
que raio de amigo sou eu então?
Só me lembro de ti, uma vez por ano, em Dezembro,
se isto é amizade, vale mais sermos inimigos declarados,
fazer de conta que não te conheço, de ti nada lembro,
de ti nada espero, nem sorrisos, só abraços sonegados;
Vale alguma coisa a desculpa, a minha retratação?
se amanhã, outro dia, outro ano, farei tudo de modo igual?,
Ou crês que depois destas palavras, em jeito de confissão,
me tornarei melhor, te darei mais atenção e minguarei o meu mal?;
E tu, por acaso, és diferente, cuidas da minha amizade como um jardim?
Como se eu fosse o teu recanto, o teu porto de abrigo, o teu portal?
És um justo jardineiro, gostas de todos os cheiros, não só do jasmim?
Lembras-te de mim, de vez em quando, não uma vez por ano, apenas no Natal?
nesta data tão especial,
pesa-me o pouco tempo que falei contigo,
desde o último natal;
Sei que não sou o amigo que desejarias,
que nem sempre soube entender o teu olhar,
que não estava quando tu mais precisarias,
não te emprestei o ombro para a tua cabeça pousar;
Quando choravas não te limpei nenhuma lágrima furtiva,
nem perguntei a razão dessa tristeza, dessa solidão,
estava longe, não senti a tua dor, porque estavas cansativa,
que raio de amigo sou eu então?
Só me lembro de ti, uma vez por ano, em Dezembro,
se isto é amizade, vale mais sermos inimigos declarados,
fazer de conta que não te conheço, de ti nada lembro,
de ti nada espero, nem sorrisos, só abraços sonegados;
Vale alguma coisa a desculpa, a minha retratação?
se amanhã, outro dia, outro ano, farei tudo de modo igual?,
Ou crês que depois destas palavras, em jeito de confissão,
me tornarei melhor, te darei mais atenção e minguarei o meu mal?;
E tu, por acaso, és diferente, cuidas da minha amizade como um jardim?
Como se eu fosse o teu recanto, o teu porto de abrigo, o teu portal?
És um justo jardineiro, gostas de todos os cheiros, não só do jasmim?
Lembras-te de mim, de vez em quando, não uma vez por ano, apenas no Natal?
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
O PAI NATAL DA PRAÇA 8 DE MAIO
Começo por me apresentar,
espero que não me levem a mal,
estou na Praça, em pedestal, vou contar,
tudo o que daqui vejo; sou o Pai Natal;
Em projecto, fui criado pela ARCA,
pensado pelo Condomínio da Baixa,
prometeu pagar o Góis, diz o Gaspar, em ressaca,
“Eu?” Diz o Góis, “nem pensar”, arreganhando a tacha,
“sei que sou o homem da Caixa, mas dos pobres sem casaca,
não sou a Caixa Geral de Depósitos, que empresta com taxa”;
Sou um Pai Natal gigante, na minha sacola tenho lembranças,
tenho uma para o Encarnação, com laço e dentro duma lata,
embrulhada, em seda, cor de laranja, com afiadas lanças,
é uma carta de demissão deste, para oferecer ao Pina Prata;
Tenho outra prenda para o Mário Nunes, vereador da cultura,
é um disco de folclore, em vinil, com mensagem teatral,
os grupos de teatro da cidade dedicam-lha em rotura,
“Que vá para o Alasca, fique por lá, depois do Natal”;
Tenho outra, embrulhada, para o vereador Gouveia Monteiro,
vem da associação de Moradores do Ingote, são coisas sortidas,
tem o preço marcado, cinco euros, com pregão corriqueiro:
“Comprem, comprem, é barato, tem dois pesos e duas medidas”;
Rebusco no saco, tenho uma para o Castanheira Barros,
é uma chaminé, vem do Partido Social Democrata, vai ficar contente,
tem uma mensagem escrita: continua que em 2050 serás presidente;
Tenho outra para Sócrates, foi eleito, em Coimbra a personalidade do ano,
destronou Luís de Matos, na magia, deu cartas na levitação,
transmutou daqui serviços, ministérios, mandou tudo para o catano,
foi o novo Merlin da Europa, do moderno simplex, da globalização.
espero que não me levem a mal,
estou na Praça, em pedestal, vou contar,
tudo o que daqui vejo; sou o Pai Natal;
Em projecto, fui criado pela ARCA,
pensado pelo Condomínio da Baixa,
prometeu pagar o Góis, diz o Gaspar, em ressaca,
“Eu?” Diz o Góis, “nem pensar”, arreganhando a tacha,
“sei que sou o homem da Caixa, mas dos pobres sem casaca,
não sou a Caixa Geral de Depósitos, que empresta com taxa”;
Sou um Pai Natal gigante, na minha sacola tenho lembranças,
tenho uma para o Encarnação, com laço e dentro duma lata,
embrulhada, em seda, cor de laranja, com afiadas lanças,
é uma carta de demissão deste, para oferecer ao Pina Prata;
Tenho outra prenda para o Mário Nunes, vereador da cultura,
é um disco de folclore, em vinil, com mensagem teatral,
os grupos de teatro da cidade dedicam-lha em rotura,
“Que vá para o Alasca, fique por lá, depois do Natal”;
Tenho outra, embrulhada, para o vereador Gouveia Monteiro,
vem da associação de Moradores do Ingote, são coisas sortidas,
tem o preço marcado, cinco euros, com pregão corriqueiro:
“Comprem, comprem, é barato, tem dois pesos e duas medidas”;
Rebusco no saco, tenho uma para o Castanheira Barros,
é uma chaminé, vem do Partido Social Democrata, vai ficar contente,
tem uma mensagem escrita: continua que em 2050 serás presidente;
Tenho outra para Sócrates, foi eleito, em Coimbra a personalidade do ano,
destronou Luís de Matos, na magia, deu cartas na levitação,
transmutou daqui serviços, ministérios, mandou tudo para o catano,
foi o novo Merlin da Europa, do moderno simplex, da globalização.
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