“Estou a dar os meus habituais passeios. Quando preciso de me ausentar da minha “chatérrima” vida venho para este paradisíaco jardim. Aqui parece que me transcendo, é como se o meu espírito abandonasse o meu corpo. Neste lugar, onde os anjos não se vêem mas sentem-se, através dos silêncios, ora entrecortados pelo correr da água na cascata, ora pelo chilrear dos passarinhos, faço uma catarse, uma purificação emocional, uma terapêutica psicanalítica, visando o desaparecimento dos meus fantasmas recalcados, ainda que não fale com ninguém. Mas com quem poderia falar? Quem me entenderia, a não serem os meus querubins invisíveis, que me acompanham e só eu vejo e sinto à minha volta?
Estou neste fantástico país europeu há cerca de 10 anos. Adoro esta Nação. Sou ali do centro de Portugal. Se fosse feliz adoraria acabar aqui os meus dias. Mas assim, neste fado angustiante que me acompanha, não sei o que me irá acontecer. Porque serei tão insegura e carregada de solidão e tristeza? Quase me rio sem vontade…uma bela mulher de 40 anos a lamentar-se…
Tudo começou na minha infância, quando comecei a sentir que os meus pais gostavam mais da minha irmã mais velha. Eu era como o patinho feio, triste e abandonado. A minha companheira e confidente de noite e dia era a minha boneca de trapos, a Esmeralda. Era com ela que dormia, bem agarradinha, até mesmo já na puberdade. Tantas vezes me lembro de me acariciar e, nos meus sonhos eróticos de menina, a imaginar uma mulher e fazer amor com ela.
Comecei cedo a brincar aos casamentos. Com 15 anos perdi a virgindade com aquele que aos 18 viria a ser meu marido, o João. Era meu vizinho lá na aldeia. Aproximamo-nos talvez pelos nossos problemas comuns. Ele também era preterido em relação à irmã mais velha. Além disso começou a trabalhar muito cedo, mal acabou a escola primária, hoje chamada de básica. Todo o dinheiro que ganhava ia inteirinho para casa. A mãe e a irmã eram umas senhorinhas, não queriam fazer nada. O pai, para azar, teve uma doença e foi obrigado a aposentar-se muito cedo. O João sentia-se a besta de carga mal-amada daquela casa. Mas, nunca entendi porquê, nunca admitia que eu aflorasse o quanto estava a ser usado e maltratado pelos pais. Parecia que nada disso o afectava. Era como se tivesse ido buscar forças não sei onde. Cedo notei que ele não era uma pessoa carinhosa. No princípio, durante muito tempo, desculpei-o, por causa da infância que ele teve. Se não recebeu amor como poderia ele dá-lo a alguém?
Logo depois de casarmos, tinha então eu 18 anos, fiquei grávida do meu filho. Ele foi a luz que veio substituir a falta de carinho e afecto que eu sentia da parte do meu marido. Enquanto o meu filho foi pequeno, foi nele que projectei a minha carência de afecto, tão marcada na minha mente, já desde os meus tempos de cachopita. Aos poucos fui notando que a infância é marcante mas também não explica tudo. Todos nós vamos apreendendo, em constante aperfeiçoamento, até à puberdade. Além disso, na nossa experiência empírica, quando temos vontade de melhorar podemos modificar-nos para melhor. Acontece que o meu marido não mudava, porque era profundamente egoísta, um egocêntrico no seu pior. Nunca deu nada a ninguém e muito menos a mim. -Hoje que tenho 40 anos e estou casada há 22, nunca me ofereceu um presente no natal, nem nos anos. Nem uma simples flor. Não é capaz desses gestos. Quando lho lembrava, a resposta era sempre a mesma: “queres, compra”.
Em 1997, depois de uma tentativa frustrada de separação, deixámos o meu filho com os meus pais e viemos para este maravilhoso país no centro da Europa. Continuei a ser, como hoje, a mesma mulher carente, insegura, perfeccionista e insatisfeita. Nada me contenta. É como uma obsessão a correr atrás de uma satisfação que sei antecipadamente que jamais será satisfeita. Posso esfarrapar-me para conseguir uma coisa, mas depois de a conseguir desinteresso-me dela. No campo sexual sou igual: sou uma predadora. Posso interessar-me pela presa enquanto não a conquisto e domino. Logo que sinta que é meu escravo, desprezo-o profundamente. Detesto a rotina.
Adoro sexo. Ás vezes penso se não serei uma ninfomaníaca. Tenho a certeza de que tudo vem da infância, a falta de amor que não recebi. Projecto essa carência no sexo. Masturbo-me todos os dias. O meu sonho é participar em orgias. Adorava estar com vários homens ao mesmo tempo. -Uma vez um amigo meu, ligado aquelas coisas do espiritismo, disse-me que eu seria uma reencarnação de uma cortesã.
Logo que viemos para este país, o João, meu marido, começou a ficar até altas horas na Internet, com as amigas, noite dentro; até 4 e 5 horas da manhã. Eu ia dormir. Até que me comecei a chatear.
Para me iludir, começou a falar-me em swing. Em princípio alinhei. Só mais tarde entendi que não era bem assim. Ele queria ludibriar-me. O que ele queria mesmo era estar com as amigas da net. Eu por arrasto, fui entrando neste mundo, tendo-me sentido cada vez mais só. Os diálogos virtuais eram a minha companhia diária, até que me fartei disto. Entediei-me de ter sempre o mesmo tipo de conversas: aqui 99% dos homens só sabem falar de sexo ou futebol. Agora, habitualmente estou off line. Gosto de falar de tudo, mas, fogo, falar sempre da mesma coisa, até para mim que adoro sexo, chateia. Estes homens só têm areia no cabeçote.
O meu marido é a mesma merda. No princípio, alinhei com ele, começámos a fazer sexo em frente à webcam. Até gostava, era para mim uma coisa nova. Ver do outro lado aqueles pobrezinhos mentais a babarem-se todos, como cadelas com cio, a masturbarem-se à minha frente. Era excitante. Com o tempo, comecei a sentir que ele só pensava no prazer dele. Exibia-me como um troféu de caça, como se fosse o meu dono. Para mostrar que eu era sua propriedade. Que era ele que me comia e eles, de língua de fora, só me podiam ver. Fazia gestos obscenos, mostrando as minhas mamas e proclamava: “querias? Contenta-te em ver”.
Ele só pensa no prazer dele. Dá-me nojo. Ele só pensa em mim como objecto de prazer e como propriedade sua. Ele não pensa em mim como pessoa. Estou farta dele e das suas atitudes. Acho que o odeio.
Agora passa a vida a masturbar-se na net. Embora não mostre a cara, há tempos uma gaja que o conhecia fodeu-o: gravou-o, fez a montagem do rosto e do corpo e mostrou-o na web. Ficou fora de si. Em vez de se culpar pelo descuido, ainda veio culpar-me a mim…fode-me o juízo. Depois proibiu-me de ligar a câmera que me poderiam fazer o mesmo. Mas se eu lhe desse “abébias” fazia sexo comigo em frente ao computador a toda a hora. O cabrão…
Há tempos fez-me uma proposta: que passássemos um fim de semana especial: ele iria com uma amiga, eu iria com quem quisesse. Assim fizemos: ele foi e eu fui com um meu amigo muito mais velho do que eu –porque eu gosto de homens maduros e muito mais velhos- que andava a namorar, aqui na net, já há uns tempos. Claro que a proposta que ele me fez veio mesmo a calhar, eu já matutava nisso há muito tempo. Simplesmente ele pensava que eu ia uma vez e que não queria mais. Acontece que quero mais. Caiu o Carmo e a Trindade. Como ele não quer repetir e eu ameaço sair de casa, usa esse episódio como meio de chantagem; se eu sair ele ameaça contar a toda a gente e até ao meu filho dirá que eu andei com um homem casado. Ele usa a coacção, magoa-me mais do que mil bofetadas. Agora chama-me puta constantemente. Há dias baptizou-me de puta-mor da net. Sinto-me uma prisioneira, enclausurada no seu castelo.
Quando estive com o Francisco –este meu amigo de fornicação de fim de semana- senti-me muito bem: feliz e realizada. Tenho a certeza que o sexo não é a coisa mais importante da minha vida, mas, uma coisa sei: faz-me sentir muito bem, faz-me sentir gente.
Se ficasse só, viveria com os meus gatos e o cão…mais ninguém. Talvez arranjasse alguém, mas com a liberdade de cada um ir com quem lhe apetecesse. Gostava que nos encontrássemos; termos umas conversas…mas jamais viver comigo.
Mas eu não sei se consigo largar este inferno algum dia. Teria de deixar muita coisa para trás: o meu filho, os meus dois gatos e o meu cão. Estes, são já velhotes e tenho pena de os deixar. Se não fossem eles, eu já teria ido há muito. Gosto tanto deles como do meu filho. Se eu partisse, o meu marido era capaz de os matar para me magoar.
Cada vez me sinto mais só. Um oceano de vazio e um mar de angústia.
Estou tão cansada que só me apetece desistir da vida…simplesmente desistir.
A minha decisão já está tomada.
É só dar tempo ao tempo. Ele se encarregará de decidir.
Estou farta de lutar contra tudo e contra todos. Ninguém me compreende.”
(HISTÓRIA VERÍDICA -ESCRITA COM BASE EM DEPOIMENTO DA PROTAGONISTA)
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
BOM PARTIDO, PROCURA
Quero uma mulher de quarenta,
boa, se expresse bem e saiba o que diz,
não quero uma “cota” de setenta,
só se for muito rica e me faça feliz;
Se for nova, posso ajudar,
transmitir o meu conhecimento,
se for velha e rica, posso amparar,
viajar pelo mundo, dividir o sofrimento;
Tenho um largo ombro e sei ouvir,
qualquer historia muito recuada,
se for nova, no pulso, posso sentir,
posso jurar que vai ser muito amada;
Se for rica pode ser separada ou viúva,
ter oitenta anos, uma verruga, e andar de bengala,
se for nova, assenta-me com o uma luva,
afirmo, porto-me como um magala;
Se for minha mãe, pode até ter marreca,
desde que tenha cartão dourado sem limite,
se for virgem e nova pode até ser uma alforreca,
desde que os seus olhos brilhem como uma pirite;
Quero apenas o que tenho direito,
e nem estou a pedir demasiado,
se fosse ambicioso pedia as duas a eito,
como sou despretensioso, caio para qualquer lado;
Qualquer uma me serve, nem sequer escolho,
não digam que exijo e tenho mania de bonzão,
se for velha e rica até pode ter só um olho,
se for nova e virgem, também pode ter um bom carrão.
boa, se expresse bem e saiba o que diz,
não quero uma “cota” de setenta,
só se for muito rica e me faça feliz;
Se for nova, posso ajudar,
transmitir o meu conhecimento,
se for velha e rica, posso amparar,
viajar pelo mundo, dividir o sofrimento;
Tenho um largo ombro e sei ouvir,
qualquer historia muito recuada,
se for nova, no pulso, posso sentir,
posso jurar que vai ser muito amada;
Se for rica pode ser separada ou viúva,
ter oitenta anos, uma verruga, e andar de bengala,
se for nova, assenta-me com o uma luva,
afirmo, porto-me como um magala;
Se for minha mãe, pode até ter marreca,
desde que tenha cartão dourado sem limite,
se for virgem e nova pode até ser uma alforreca,
desde que os seus olhos brilhem como uma pirite;
Quero apenas o que tenho direito,
e nem estou a pedir demasiado,
se fosse ambicioso pedia as duas a eito,
como sou despretensioso, caio para qualquer lado;
Qualquer uma me serve, nem sequer escolho,
não digam que exijo e tenho mania de bonzão,
se for velha e rica até pode ter só um olho,
se for nova e virgem, também pode ter um bom carrão.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
"DIVAGAÇÕES DE UMA MULHER"
“É 1 hora da manhã. Sinto-me abraçada pelo silêncio. Só ele me entende, só ele me conforta. Estou deitada, bem desperta. Nua de roupas e de preconceitos. Ou se calhar demasiadamente vestida, em pensamentos, com um julgamento desfavorável formado com alguma razão objectiva. Lá fora, de vez em quando, um gato mia ou ouve-se um rolar barulhento de um recipiente do lixo, talvez pontapeado por algum ébrio abandonado de amores e entregue displicentemente nos longos e tolerantes braços do prazer etílico.
No meu quarto, o silêncio é quase total, o que me permite uma profunda reflexão. A meu lado o meu companheiro dorme profundamente. A minha paz dos anjos só é interrompida, ora por um respirar mais profundo, em forma de silvo, do meu companheiro, ora por um estalido da madeira, vindo talvez da cómoda, imperceptível durante o dia, mas que a esta hora, em que tudo parece descansar dos afazeres da luz, se torna para mim tão notado e tão ribombático no ecoar das profundezas da noite.
Não tenho sono. Há pouco mais de uma hora o meu companheiro fez amor comigo. Foi comigo que ele fez amor? Ou seria com ele próprio? Porque será que os homens não conhecem as mulheres? Só olham para o nosso físico, sem nunca entrarem na alma? Dizia-me há dias uma amiga que tudo começa no nascimento. Logo aí, se é menino, o discurso é muito mais musculado. Mesmo depois, em bebé, se andar vestido de rosa, o paparicar da criança é totalmente diferente. Depois, na educação, sempre os conselhos castradores: “os meninos podem mexer nos órgãos sexuais, as meninas não. As meninas não devem fazer isto, é feio. Os rapazes devem ir às “meninas” quando chegarem à puberdade, as raparigas não devem deixar que lhes toquem na mão”. –pelo menos no meu tempo era assim, tenho 45 anos e estes conceitos estão bem marcados a fogo na minha mente, embora hoje se note uma ligeira diferença, a sexualidade continua a ser reprimida e muito diferenciada no género. As alterações são aparentes e apenas ligeiras.
Os homens, hoje, continuam a tratar uma mulher como há trinta anos atrás. Imaginam que nós somos enroladas pelos seus cordelinhos grossos de macho em vias de extinção. Pensam que sabem tudo e que têm sempre o comando das operações, quando, na verdade, nós fazemos apenas o que queremos, estritamente o que pensamos. Pobres almas sem tino! Continuam a não nos conhecerem. Olho para o lado e vejo o meu marido a dormir. São tão diferentes quando dormem. Parece tão estranhamente calmo e descontraído. Parece uma coisa inerte e sem vida. Como se tivesse perdido o seu encanto. São tão teimosos, os homens! É sempre preciso ir para cama com eles, como se a passagem por este lugar de grandes batalhas, em que se perdem e ganham guerras, tudo resolvesse. Estes pedantes, infelizmente tão necessários à nossa rotineira vida, chegam a ser aborrecidos. Assim que mirarem as nossas mamas e nos tocarem numa mão julgam-se obrigados a mostrar a sua virilidade, como se nós fôssemos bonecas de brincar ao sabor do seu desejo. Como se quisessem pôr o selo ou a bandeira na terra conquistada. Mas se ao menos a revitalizassem. O problema é que após a conquista fica para ali abandonada como eu.
O meu companheiro, após saciar a sua fome, quase que ia adormecendo em cima de mim, virou-se para o outro lado e adormeceu imediatamente. São tão insensíveis estes mastronços. Nem uma conversa após o acto. E mesmo durante o pouco tempo que durou, pouco se preocupou comigo. É certo que eu deveria ter a mente mais aberta, mas a verdade é que, apesar de eu ser extraordinariamente culta, eu falo sempre de sexo com preconceito. Tantas vezes dou por mim a pensar que se deveria tratar o tema, relativo ao sexo, como se falasse de política ou religião, mas a verdade é que depois, até com o meu companheiro, eu não consigo. Eu crio as minhas próprias barreiras de arame farpado. Sinto que se eu lhe confessar que gostava que ele explorasse o meu corpo do mesmo modo que se explora uma gruta virgem e inacessível, ele vai achar-me uma devassa e uma vulgar maluca. Parece que o meu desejo roda obsessivamente em círculo. Quero que ele explore o meu corpo. Às vezes chego a desejar que ele, como violador, me tome pela força. Mas, outras vezes, raramente, quando ele me incentiva a deixar-me tomar, dizendo que eu, ao não deixar, é que perco, é verdade, eu sei que deveria mudar, mas não consigo. Eu sei que é um conflito para mim. Mas que diabo, ele, se me conhecesse, deveria saber que nunca se deve acreditar naquilo que uma mulher parece defender aguerridamente: daquilo que parecemos querer e dizer não pensamos; só parecemos pensar naquilo que queremos sem o dar a notar, mas isso eles não entendem. É demasiada areia para uma caixa fechada tão minúscula.
Gosto de ser observada por um homem. Isso gosto. Qualquer mulher sabe do que falo. Qualquer uma conhece essa sensação confortante de ser despida pelos olhos, a chispar fogo, de um homem. E já são tão poucos aqueles que olham despretensiosamente. Tudo caminha para que até um simples piropo a uma mulher seja banido.
Bem…são 3 horas da manhã…vou mas é dormir…”
No meu quarto, o silêncio é quase total, o que me permite uma profunda reflexão. A meu lado o meu companheiro dorme profundamente. A minha paz dos anjos só é interrompida, ora por um respirar mais profundo, em forma de silvo, do meu companheiro, ora por um estalido da madeira, vindo talvez da cómoda, imperceptível durante o dia, mas que a esta hora, em que tudo parece descansar dos afazeres da luz, se torna para mim tão notado e tão ribombático no ecoar das profundezas da noite.
Não tenho sono. Há pouco mais de uma hora o meu companheiro fez amor comigo. Foi comigo que ele fez amor? Ou seria com ele próprio? Porque será que os homens não conhecem as mulheres? Só olham para o nosso físico, sem nunca entrarem na alma? Dizia-me há dias uma amiga que tudo começa no nascimento. Logo aí, se é menino, o discurso é muito mais musculado. Mesmo depois, em bebé, se andar vestido de rosa, o paparicar da criança é totalmente diferente. Depois, na educação, sempre os conselhos castradores: “os meninos podem mexer nos órgãos sexuais, as meninas não. As meninas não devem fazer isto, é feio. Os rapazes devem ir às “meninas” quando chegarem à puberdade, as raparigas não devem deixar que lhes toquem na mão”. –pelo menos no meu tempo era assim, tenho 45 anos e estes conceitos estão bem marcados a fogo na minha mente, embora hoje se note uma ligeira diferença, a sexualidade continua a ser reprimida e muito diferenciada no género. As alterações são aparentes e apenas ligeiras.
Os homens, hoje, continuam a tratar uma mulher como há trinta anos atrás. Imaginam que nós somos enroladas pelos seus cordelinhos grossos de macho em vias de extinção. Pensam que sabem tudo e que têm sempre o comando das operações, quando, na verdade, nós fazemos apenas o que queremos, estritamente o que pensamos. Pobres almas sem tino! Continuam a não nos conhecerem. Olho para o lado e vejo o meu marido a dormir. São tão diferentes quando dormem. Parece tão estranhamente calmo e descontraído. Parece uma coisa inerte e sem vida. Como se tivesse perdido o seu encanto. São tão teimosos, os homens! É sempre preciso ir para cama com eles, como se a passagem por este lugar de grandes batalhas, em que se perdem e ganham guerras, tudo resolvesse. Estes pedantes, infelizmente tão necessários à nossa rotineira vida, chegam a ser aborrecidos. Assim que mirarem as nossas mamas e nos tocarem numa mão julgam-se obrigados a mostrar a sua virilidade, como se nós fôssemos bonecas de brincar ao sabor do seu desejo. Como se quisessem pôr o selo ou a bandeira na terra conquistada. Mas se ao menos a revitalizassem. O problema é que após a conquista fica para ali abandonada como eu.
O meu companheiro, após saciar a sua fome, quase que ia adormecendo em cima de mim, virou-se para o outro lado e adormeceu imediatamente. São tão insensíveis estes mastronços. Nem uma conversa após o acto. E mesmo durante o pouco tempo que durou, pouco se preocupou comigo. É certo que eu deveria ter a mente mais aberta, mas a verdade é que, apesar de eu ser extraordinariamente culta, eu falo sempre de sexo com preconceito. Tantas vezes dou por mim a pensar que se deveria tratar o tema, relativo ao sexo, como se falasse de política ou religião, mas a verdade é que depois, até com o meu companheiro, eu não consigo. Eu crio as minhas próprias barreiras de arame farpado. Sinto que se eu lhe confessar que gostava que ele explorasse o meu corpo do mesmo modo que se explora uma gruta virgem e inacessível, ele vai achar-me uma devassa e uma vulgar maluca. Parece que o meu desejo roda obsessivamente em círculo. Quero que ele explore o meu corpo. Às vezes chego a desejar que ele, como violador, me tome pela força. Mas, outras vezes, raramente, quando ele me incentiva a deixar-me tomar, dizendo que eu, ao não deixar, é que perco, é verdade, eu sei que deveria mudar, mas não consigo. Eu sei que é um conflito para mim. Mas que diabo, ele, se me conhecesse, deveria saber que nunca se deve acreditar naquilo que uma mulher parece defender aguerridamente: daquilo que parecemos querer e dizer não pensamos; só parecemos pensar naquilo que queremos sem o dar a notar, mas isso eles não entendem. É demasiada areia para uma caixa fechada tão minúscula.
Gosto de ser observada por um homem. Isso gosto. Qualquer mulher sabe do que falo. Qualquer uma conhece essa sensação confortante de ser despida pelos olhos, a chispar fogo, de um homem. E já são tão poucos aqueles que olham despretensiosamente. Tudo caminha para que até um simples piropo a uma mulher seja banido.
Bem…são 3 horas da manhã…vou mas é dormir…”
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
EM BUSCA DO PARAÍSO
Maria casou cedo,
ali para os lados do norte,
o marido partiu logo,
em busca da melhor sorte;
Foi parar ao Luxemburgo,
um país muito interessante,
aos poucos foi-se esquecendo,
da sua terra distante;
Nos primeiros anos veio,
em cada ano um pimpolho,
Maria olhava o futuro,
como um cego vê de um olho;
Um dia disse para si,
aqui não vou ficar mais,
vou partir ao encontro dele,
mesmo que o não encontre jamais;
Ninguém engana uma mulher,
sobretudo na intuição,
ela é dotada de instinto,
natural e de adivinhação;
Largou tudo, levou os rebentos,
apenas de mala na mão,
galgou quilómetros aos centos,
foi encontrá-lo então;
Nos braços de outra mulher,
entre mil prantos de solidão,
sabe que resiste se souber,
encontrar outra paixão;
O trabalho nunca foi problema,
muito menos a tristeza,
afinal o que vale um homem,
sem uma mulher à mesa?
ali para os lados do norte,
o marido partiu logo,
em busca da melhor sorte;
Foi parar ao Luxemburgo,
um país muito interessante,
aos poucos foi-se esquecendo,
da sua terra distante;
Nos primeiros anos veio,
em cada ano um pimpolho,
Maria olhava o futuro,
como um cego vê de um olho;
Um dia disse para si,
aqui não vou ficar mais,
vou partir ao encontro dele,
mesmo que o não encontre jamais;
Ninguém engana uma mulher,
sobretudo na intuição,
ela é dotada de instinto,
natural e de adivinhação;
Largou tudo, levou os rebentos,
apenas de mala na mão,
galgou quilómetros aos centos,
foi encontrá-lo então;
Nos braços de outra mulher,
entre mil prantos de solidão,
sabe que resiste se souber,
encontrar outra paixão;
O trabalho nunca foi problema,
muito menos a tristeza,
afinal o que vale um homem,
sem uma mulher à mesa?
GENTE FELIZ ATÉ NA INFELICIDADE
Maria casou cedo, ali para os lados do norte. Mal o padre acabou de soletrar a programática interrogação: “aceita Maria…” e já o recém-empossado marido estava a agarrar na mala e a correr para o comboio à procura de melhor sorte. Corria o ano de 1982. Por aqui as coisas estavam dificilíssimas. Os juros bancários chegavam aos 38 por cento. E, por muito que se admirem hoje, o montante correspondente a um ano ficava lá imediatamente. Quem pedisse emprestado um milhar de contos –se tivesse a felicidade de lhe ser concedido o empréstimo, que na altura era coisa rara- levaria para casa cerca de 620 contos. Hoje, este procedimento, parece anedótico, mas era assim. João, o marido de Maria, lembra-se, uma vez, pouco antes de casar, de ir a um banco pedir crédito e o funcionário bancário, do alto do seu pedestal imaginário, medir João, de alto a baixo, várias vezes, até o olhar se imobilizar nos coçados sapatos e entre várias perguntas, quase com gozo sádico, interrogar João: “o senhor tem alguma coisita de seu?”. Claro que João não tinha nada, a não ser uma indominável vontade de vencer. É evidente que João saiu vencido mas não convencido. Mentalmente, pelo caminho, com raiva pensava: “um dia hão-de querer emprestar-me dinheiro e eu não vou querer”. Por isso, logo a seguir à cerimónia nupcial, partiu, levando uma mala cheia de sonhos, sem saber exactamente onde pararia o comboio. Parou no Luxemburgo e foi lá que João desceu. O Luxemburgo é um Grão-Ducado, com uma monarquia constitucional parlamentarista desde 1868. Fica ali ao pé, entre a Alemanha, França e Países-Baixos, como quem diz a Holanda.
Entretanto Maria ficava por cá, perdida entre mantas de lágrimas de solidão e saudades de João. Ia trabalhando no que podia lá na terra, sempre esperando boas-novas do João.
Quando vinha o carteiro, era a pergunta repetida até à exaustão: “traz carta para mim, senhor Ambrósio?”. De vez em quando vinha uma. Poucas vezes porque João não era muito dado às letras.
Nos primeiros anos, João vinha visitar Maria uma vez por ano. Quando partia deixava-a sempre prenhe duas vezes: de uma nova vida dentro de si e grávida de esperança de um dia se poder juntar ao marido. A vida foi correndo. João sempre cumpriu com o envio do vale de correio mensal. Maria era muito poupada, nunca estragou um tostão no mal gasto. Ia trabalhando na terra e toda a mensalidade do marido ia para a conta-poupança-emigrante. Com os filhos espigadotes, Maria comprou o trespasse do pequeno café da terra. Trabalhava que nem uma galega. Chegava a laborar 18 horas por dia. Com o seu jeito para o negócio e esforço transpirado até quase ficar exangue, Maria abre um segundo, agora com pastelaria. Este estabelecimento era a menina dos seus olhos. Era um sucesso na terra. Mas Maria não era feliz. As cartas de João começaram a rarear e as suas visitas também, se bem que sempre enviasse o vale atempadamente. Uma noite de poucas horas deitada, fazendo que dormia, Maria toma uma decisão: Vou ter com o meu João. Vou vender tudo. Se melhor o pensou, melhor o fez.
Deixa os filhos aos cuidados dos seus pais e em 1999 parte para o Luxemburgo ao encontro de João. Mas João, malandrão, não resistira aos encantos de uma Grã-Duquesa e já não se inclinava para Maria. De certa forma não fora surpresa para ela. No seu íntimo já o suspeitava. Mas Maria era uma mulher tesa. Não seria um sonho de amor desfeito que a iria mandar ao tapete. Olhou sempre para a frente. Fez mil trabalhos ocasionais, sempre honestos, como gosta de sublinhar. Foi cozinheira, balconista, e até empregada de limpezas, que aliás hoje mantém como profissão. Mais tarde chamou os filhos. Hoje, com 45 anos, uma bela e apetitosa “cota”, está muito bem financeiramente. Continua a trabalhar muito. Às vezes chega às 12 horas diárias. Quando lhe pergunto se vai voltar um dia a Portugal, a resposta vem directa, em forma de interrogação e constatação: “acha?...Jamais!”.
Porquê? Insisto. "Olhe, porque é o melhor país do mundo para se viver. Aqui até a chorar, na desgraça, as pessoas são felizes". Ainda dizem que o dinheiro não traz felicidade, digo eu, de modo a instigá-la a falar. Claro, pode não ser tudo mas é o seu maior braço de alegria. Já viu? –Responde-...aqui o salário mínimo é de 1450 euros. Um professor ganha cerca de 4000 euros mensais. Se tiver mais de dois filhos não paga impostos (aqui a média de natalidade é de quatro crianças por casal). As despesas com saúde são 80% reembolsáveis. A Alimentação é mais barata que aí em Portugal. Só as rendas de casa é que são muito caras. Uma casita pequena pode levar cerca de 800 euros do ordenado mensal auferido. Este pequeno país tem o maior PNB (produto nacional bruto), per capita, do mundo, além de baixa inflação e baixo desemprego. Por exemplo aí em Portugal, quando toda a gente abandonou a agricultura de subsistência, aqui continua a predominar a pequena courela, baseada em fazendas de pequenas famílias. Mantém uma taxa de crescimento estável. Acha que vou para aí, para Portugal fazer o quê? Mendigar? Conviver com a tristeza palpável nos rostos dessa gente? Tenha dó. Quer um conselho? Fuja daí".
Entretanto Maria ficava por cá, perdida entre mantas de lágrimas de solidão e saudades de João. Ia trabalhando no que podia lá na terra, sempre esperando boas-novas do João.
Quando vinha o carteiro, era a pergunta repetida até à exaustão: “traz carta para mim, senhor Ambrósio?”. De vez em quando vinha uma. Poucas vezes porque João não era muito dado às letras.
Nos primeiros anos, João vinha visitar Maria uma vez por ano. Quando partia deixava-a sempre prenhe duas vezes: de uma nova vida dentro de si e grávida de esperança de um dia se poder juntar ao marido. A vida foi correndo. João sempre cumpriu com o envio do vale de correio mensal. Maria era muito poupada, nunca estragou um tostão no mal gasto. Ia trabalhando na terra e toda a mensalidade do marido ia para a conta-poupança-emigrante. Com os filhos espigadotes, Maria comprou o trespasse do pequeno café da terra. Trabalhava que nem uma galega. Chegava a laborar 18 horas por dia. Com o seu jeito para o negócio e esforço transpirado até quase ficar exangue, Maria abre um segundo, agora com pastelaria. Este estabelecimento era a menina dos seus olhos. Era um sucesso na terra. Mas Maria não era feliz. As cartas de João começaram a rarear e as suas visitas também, se bem que sempre enviasse o vale atempadamente. Uma noite de poucas horas deitada, fazendo que dormia, Maria toma uma decisão: Vou ter com o meu João. Vou vender tudo. Se melhor o pensou, melhor o fez.
Deixa os filhos aos cuidados dos seus pais e em 1999 parte para o Luxemburgo ao encontro de João. Mas João, malandrão, não resistira aos encantos de uma Grã-Duquesa e já não se inclinava para Maria. De certa forma não fora surpresa para ela. No seu íntimo já o suspeitava. Mas Maria era uma mulher tesa. Não seria um sonho de amor desfeito que a iria mandar ao tapete. Olhou sempre para a frente. Fez mil trabalhos ocasionais, sempre honestos, como gosta de sublinhar. Foi cozinheira, balconista, e até empregada de limpezas, que aliás hoje mantém como profissão. Mais tarde chamou os filhos. Hoje, com 45 anos, uma bela e apetitosa “cota”, está muito bem financeiramente. Continua a trabalhar muito. Às vezes chega às 12 horas diárias. Quando lhe pergunto se vai voltar um dia a Portugal, a resposta vem directa, em forma de interrogação e constatação: “acha?...Jamais!”.
Porquê? Insisto. "Olhe, porque é o melhor país do mundo para se viver. Aqui até a chorar, na desgraça, as pessoas são felizes". Ainda dizem que o dinheiro não traz felicidade, digo eu, de modo a instigá-la a falar. Claro, pode não ser tudo mas é o seu maior braço de alegria. Já viu? –Responde-...aqui o salário mínimo é de 1450 euros. Um professor ganha cerca de 4000 euros mensais. Se tiver mais de dois filhos não paga impostos (aqui a média de natalidade é de quatro crianças por casal). As despesas com saúde são 80% reembolsáveis. A Alimentação é mais barata que aí em Portugal. Só as rendas de casa é que são muito caras. Uma casita pequena pode levar cerca de 800 euros do ordenado mensal auferido. Este pequeno país tem o maior PNB (produto nacional bruto), per capita, do mundo, além de baixa inflação e baixo desemprego. Por exemplo aí em Portugal, quando toda a gente abandonou a agricultura de subsistência, aqui continua a predominar a pequena courela, baseada em fazendas de pequenas famílias. Mantém uma taxa de crescimento estável. Acha que vou para aí, para Portugal fazer o quê? Mendigar? Conviver com a tristeza palpável nos rostos dessa gente? Tenha dó. Quer um conselho? Fuja daí".
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
A MINHA AMIGA VIRTUAL
A primeira vez que falei com ela, na net, a sua conversa era de fazer chorar as pedras. Os seus vocábulos eram repetidos à exaustão: tristeza, solidão, desilusão, saudade, mágoa, infelicidade, desdita, nuvens grossas, ofuscadas e escuras, cinzentas, choro, lágrimas, tempestades, aborrecida, abandono, esquecida, estática, dramatismo, melancolia, vazia, tormenta, desigual, desânimo, amordaçada, envelhecimento.
São demasiados adjectivos para uma pessoa só. Mas é a verdade. Não há dúvida de que a minha amiga carrega consigo uma carga negativa insuportável. Sem dúvida que está profundamente depressiva. Mas com as sucessivas conversas comecei a aperceber-me que as suas palavras negras e melancólicas são, por um lado, uma permanente chamada de atenção, como se com elas usasse uma bandeira, sistematicamente em riste e quisesse dizer em mensagem cripto-verborreica: “estou aqui, por favor ajudem-me, estou só, não me abandonem”. Por outro, é um discurso hábil que pretende persuadir, seduzindo numa lábia entrosada na própria pessoa. Ela não se apercebe que se viciou na sua própria tristeza. É possível que numa primeira fase ela manipulasse a tristeza a seu bel prazer, porém, na continuação, sem que ela se dê conta é o manto diáfano da solidão que, como um vírus, se instala, se aloja e toma conta dela.
A depressão é uma pescadinha-de-rabo-na-boca. Anda-se em círculo, vai-se alimentando e esta vai crescendo até submergir a pessoa. Um dos exemplos mais comuns: uma pessoa está depressiva, apetece-lhe comer –sintoma mais comum da depressão que paradigmatiza a carência de afecto-, então come, come, vai engordar mais e, com essa obesidade, com excesso de tecido adiposo, vai sentir-se mais deprimido ainda e só pára quando não couber nas portas. A depressão toca a todos, não haverá ninguém que numa determinada fase da vida não a tivesse conhecido. Simplesmente não nos devemos deixar vencer por ela. Todos sabemos que a depressão é, psicologicamente, um estado mental caracterizado pela persistência de vários sintomas, entre eles a apatia, o desânimo, a melancolia, o cansaço crónico e a ansiedade.
Há quem a considere a doença do nosso século. Porém uma coisa é certa, seja doença ou não, a verdade é que é com disciplina mental que se consegue ultrapassar esse enfraquecimento intelectual. Com regras que possam reger o nosso comportamento, elevando a autoestima, com ocupação contínua da mente, escrever, pintar, ler, andar, conversar, ir ao cinema, são terapias ocupacionais das mais indicadas. Por exemplo deve recorrer-se a exercícios mentais permanentes onde se oblitere frases que nos conduzam à melancolia –como as que enumero no primeiro parágrafo do texto. Curiosamente, creio, que a Internet não ajudará ninguém, antes pelo contrário, a ultrapassar esta letargia. Os chats são, penso, ansiolíticos, que colmatam a ansiedade provocada pela solidão. Serão uma sensação de um acompanhamento virtual para quem está vazio de amor e sozinho de ninguém. O “consumo” exagerado deste virtuosismo leva inevitavelmente a uma maior solidão. Todos devemos ter atenção. Quem anda por aqui sabe do que falo. E quem viaja nestas ondas, por mais que diga que não, está só e procura algo ou alguém. A consciência para uma melhor racionalidade começa por nos apercebermos dos nossos exageros.
Dirão vocês, e muito bem; bem prega frei Tomás…
São demasiados adjectivos para uma pessoa só. Mas é a verdade. Não há dúvida de que a minha amiga carrega consigo uma carga negativa insuportável. Sem dúvida que está profundamente depressiva. Mas com as sucessivas conversas comecei a aperceber-me que as suas palavras negras e melancólicas são, por um lado, uma permanente chamada de atenção, como se com elas usasse uma bandeira, sistematicamente em riste e quisesse dizer em mensagem cripto-verborreica: “estou aqui, por favor ajudem-me, estou só, não me abandonem”. Por outro, é um discurso hábil que pretende persuadir, seduzindo numa lábia entrosada na própria pessoa. Ela não se apercebe que se viciou na sua própria tristeza. É possível que numa primeira fase ela manipulasse a tristeza a seu bel prazer, porém, na continuação, sem que ela se dê conta é o manto diáfano da solidão que, como um vírus, se instala, se aloja e toma conta dela.
A depressão é uma pescadinha-de-rabo-na-boca. Anda-se em círculo, vai-se alimentando e esta vai crescendo até submergir a pessoa. Um dos exemplos mais comuns: uma pessoa está depressiva, apetece-lhe comer –sintoma mais comum da depressão que paradigmatiza a carência de afecto-, então come, come, vai engordar mais e, com essa obesidade, com excesso de tecido adiposo, vai sentir-se mais deprimido ainda e só pára quando não couber nas portas. A depressão toca a todos, não haverá ninguém que numa determinada fase da vida não a tivesse conhecido. Simplesmente não nos devemos deixar vencer por ela. Todos sabemos que a depressão é, psicologicamente, um estado mental caracterizado pela persistência de vários sintomas, entre eles a apatia, o desânimo, a melancolia, o cansaço crónico e a ansiedade.
Há quem a considere a doença do nosso século. Porém uma coisa é certa, seja doença ou não, a verdade é que é com disciplina mental que se consegue ultrapassar esse enfraquecimento intelectual. Com regras que possam reger o nosso comportamento, elevando a autoestima, com ocupação contínua da mente, escrever, pintar, ler, andar, conversar, ir ao cinema, são terapias ocupacionais das mais indicadas. Por exemplo deve recorrer-se a exercícios mentais permanentes onde se oblitere frases que nos conduzam à melancolia –como as que enumero no primeiro parágrafo do texto. Curiosamente, creio, que a Internet não ajudará ninguém, antes pelo contrário, a ultrapassar esta letargia. Os chats são, penso, ansiolíticos, que colmatam a ansiedade provocada pela solidão. Serão uma sensação de um acompanhamento virtual para quem está vazio de amor e sozinho de ninguém. O “consumo” exagerado deste virtuosismo leva inevitavelmente a uma maior solidão. Todos devemos ter atenção. Quem anda por aqui sabe do que falo. E quem viaja nestas ondas, por mais que diga que não, está só e procura algo ou alguém. A consciência para uma melhor racionalidade começa por nos apercebermos dos nossos exageros.
Dirão vocês, e muito bem; bem prega frei Tomás…
terça-feira, 21 de agosto de 2007
O ABROLHOS E OS TÍTULOS DE "CAIXA ALTA"
Hoje sinto falta de qualquer coisa ou de alguém. Olho à volta e vejo rostos vazios, como se carregassem o mundo às costas, como se tivessem perdido o jeito de rir. Bolas, não gosto disto! É que para eu ver toda esta solidão é porque estou igual. Vou passando nestas ruas estreitas, carregadas de história, onde o edificado têm o mesmo brilho dos semblantes. Ou seja, não têm nenhum. Realmente, penso para mim, se as ruas perderam toda a sua graça imanente, como podem as pessoas estarem alegres? Hoje é um bucolismo demasiado implantado, não é que a vida simples, inocente, quase paradisíaca não agrade, nada disso, mas as cidades não são campos perdidos na imensidão, apenas calcorreados por pastores, dos poucos que restam, se é que ainda os há. As cidades são vulcões em erupção, fervilhando de gente, com barulhos quebrando os silêncios incomodativos. É a pequena discussão de rua, é a lenga-lenga do cego na esquina: “uma esmolinha, por favor, senhor…que Deus lhe pague senhor”. É a abordagem das figuras típicas a solicitar-nos uma moedinha. É o romeno a vender o “Borda de água”. É o seropositivo no “cravanço” de uma “flor” -dois bocaditos de fitas coloradas, com um pequeno alfinete- e apelando, num discurso remelado e viscoso, para uma qualquer instituição fictícia de luta contra a sida. É o cigano, com um cesto, a vender t-shirts, com o grito estridente: “comprem meninas…é só 5 euros”. Sempre com o olho no transeunte e outro a ver se vem o polícia municipal. Mas mesmo este ruídos estão a desaparecer. Qualquer dia as urbes serão cemitérios de silêncios, percorridos por vivos-mortos que nem força anímica terão para reclamar de um encontrão levado por alguém mais afoito.
Olho para os comerciantes de rua: apáticos, tristes, como sentinelas em posição de sentido, de guarda às portas, dos seus estabelecimentos. Como se o vazio de clientes passasse a ser a companhia diária de fantasmas invisíveis. E até o Santo Onofre, num cantinho escondido, meio adormecido pelo torpor à sua volta, parece ter deixado de lutar, contra as políticas desvitalizantes e desertificadas de quem nos governa, que, apregoando o bem do todo, leva sistematicamente à destruição do individual. E o mercador de rua, paradigma dessa política de purga neoliberal, assiste à queda diária de mais uma loja que se finou. E, no seu pensar constante, fazendo contas à vida, interroga-se acerca do que quererão estes burocratas de gabinete que não conhecem o pulsar das gentes que populam as cidades.
Fogo, desculpem lá isto, mas como ia a caminhar da Praça do Comércio até à Praça 8 de Maio não pude deixar de pensar nesta coisa. Desculpem mesmo. Que raio de pensamento este, completamente pessimista. Ainda bem que vou beber um café com o meu amigo Almerindo Abrolhos. Ele é para mim uma espécie de carregador energético, quando estou assim, é a ele que recorro, à sua boa disposição recorrente.
Lá está ele na esplanada do Café Santa Cruz. Parece estar absorto a ler o jornal, mas eu sei que está completamente vigilante, sobretudo “à coca” duma morenaça brasileira, ou duma pálida e esquálida loiraça nórdica. O Almerindo lá nisso não discrimina ninguém. Aprecio este seu altruísmo. Estou a aproximar-me. Apercebo-me do carisma imanente deste homem. Não admira que todas as mulheres gostem dele. Pudera. Se eu fosse mulher queria-o para mim.
-Bom dia Abrolhos…as saudades que tinha de ti, homem. –cumprimento efusivamente com calor, envolvendo as suas mãos nas minhas.
-Xô…”ó meu”, estás-te a passar ó quê? Desconfio que estás “a virar”. Mau, mau, chega-te p’ra aí…descola...descola! –e remata com uma sonora gargalhada, parecia que lhe tinha saído o Euromilhões. Todos os clientes da esplanada levantaram os olhos e até uma “cota” toda bem artilhada fisicamente, que estava a tomar chá, ficou com a com a chávena parada entre o pires e a boca. Parecia hipnotizada.
-Ó pá, vamos mudar de assunto –rematei quase secamente, um pouco incomodado por ter todos os olhos centrados em nós, coisa que para o Almerindo pouco incomoda- vamos mas é às novidades. Conta-me tudo.
-Ó “meu”, por aqui “no lo passa nada”. Isto é uma pasmaceira. Basta veres as notícias nos jornais, a falta de “caixa alta” é “bué” de deprimente. Olha aqui –e aponta no “Diário de Coimbra”- vê bem: “tomateiro com mais de 3 metros de altura”. Como se isto fosse notícia. Parece que estamos no Entroncamento, “meu”. Há dias foi no “Diário As Beiras”: duas páginas para noticiar uma licenciada numa aldeia próximo de Coimbra. Ó “meu” notícia seria alguém que não se licenciou, “tás” a ver coisa? Por este andar, um dia destes até eu viro notícia. "Ó meu", agora já nem o cão que morde o dono é notícia, estes jornalistas não têm faro para a coisa. –conclui o Almerindo com ar solene e profético.
-Ó pá entendo tudo isso –falo um pouco mais grosso, como que a admoestá-lo- mas eu quero saber verdadeiras novidades. Ainda não disseste nada. Estás a perder qualidades, ou é impressão minha?
-Ó “meu”, não me fales assim que até os meus cabelos do peito se eriçam. A única novidade, presentemente, é o duelo entre o Pina Prata e o Encarnação…
-Espera aí –interrompo o Abrolhos de supetão- o duelo? Entre o Pina…quê?
-Ó “meu”, estás lerdo ó quê? Então o Pina Prata não é aquele vereador do PSD que foi em tempos presidente da ACIC e depois vice-presidente da Câmara? E que primeiro era compadre do presidente da Câmara, depois zangaram-se e agora parecem comadres a trocarem galhardetes? –esclarece o Almerindo como se fosse professor. Isto é o que ele mais gosta de fazer.
-É pá, estou a ver…tens de me contar isso tin-tin-por-tin-tin. -solicito com olhos apelativos.
-Desculpa “meu” mas fui nomeado padrinho do duelo que vai ser aqui na Praça 8 de Maio, em frente ao fundador da nacionalidade, para a coisa ter mais solenidade. De modo que tenho ainda que pensar nas armas com que vão lutar. Não sei se aconselhe a espada, a pistola ou se será ao murro. Ainda estou a pensar.
De maneira que, “meu”, desculpa não tenho tempo agora. –começa a levantar-se da cadeira, como a querer pirar-se.
-Ó pá…deixas-me assim? –faço cara de zangado.
-Estou com pressa “meu”, depois falamos. Paga aí os cafés. –e abala a correr.
Fico a olhar para as costas dele, como habitualmente de boca-aberta. Eu sei a causa de ele abalar a correr: ele vai atrás daquela negra boazona de mini-saia.
Mas eu já o conheço, sei que ele um dia destes vai contar-me esta história inteirinha. Além disso estou muito melhor. Até parece que tomei um anti-depressivo. Pareço outro.
Mentalmente agradeço ao Abrolhos, mesmo tendo que pagar os cafés, aliás, como sempre.
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