sábado, 30 de junho de 2007

ADEUS BIJU

A Biju morreu! Nos últimos cinco anos, habituei-me a vê-la, com o seu ar ladino e traquina, como se, com a sua luz resplandecente, fosse, metaforicamente, um candeeiro de luz intensa que ilumina tudo em redor. A Biju morava na Rua Eduardo Coelho, nº58, mais conhecida por Rua dos Sapateiros, na Baixa de Coimbra. A Biju era parte integrante da rua. Com a sua morte, vai, também, um pouco de todos nós, da nossa vivência diária e um pouco do espírito societário e urbano daquela artéria. Com a sua morte também um pouco da rua se vai, como lágrimas se esvaindo pelo intervalo das pedrinhas da calçada. A Rua dos Sapateiros ficou mais triste e desoladora. Sem o movimento anímico da Biju esta rua não voltará a ser a mesma. A Biju foi assassinada. O seu corpo, ou que restava dele, foi trasladado, no sábado, numa carreta de duas rodas, a fazer lembrar o transporte dos féretros de há trinta anos. Contrariamente ao que acontecia há três décadas, na sua última viagem, apenas duas pessoas a acompanharam: o Nuno e a Cristina. O Nuno, de olhos encovados e ar triste, fazendo um esforço hercúleo para não chorar, talvez agarrado ao velho aforismo de que um homem nunca chora. A Cristina, como mulher, mais prática e sem raízes nos adágios populares, de olhos vermelhos, chorava a bom chorar. Ali, como se imaginariamente se ouvissem os toques de finados, naquele carro simples de duas rodas, ia um pouco das suas almas e parte das suas vidas. A Biju não teve direito a discurso que encomendasse o seu corpo. Ninguém, ou poucos se aperceberam do súbito desaparecimento da Biju. Talvez na semana seguinte, quando se aperceberem do papel na porta a anunciar a sua morte, então, em jeito de comentário, entre o lamento pesaroso e a volúvel indiferença, muitos dirão: “A BIJU MORREU!”.
A Biju não era uma mulher. Era uma casa comercial que se finou. Mais uma que se apagou. Muitos dirão, com a costumada insensibilidade e desinteresse, que é a lei da vida, ou melhor a lei dinâmica do mercado livre ou, como sói dizer-se, a economia de mercado: uns nascem e outros morrem.
Porém, há um pormenor, a Biju morreu assassinada, por homologia. Morreu devido há insensibilidade e ganância do proprietário da loja para com o seu inquilino. A Biju pagava de renda dois mil euros e, ainda, mais IVA, o que dava, no total cerca de dois mil e quinhentos euros. Esta verba até poderia estar bem há cerca de cinco anos atrás. Hoje, restou-lhe claudicar perante a insuficiência de clientes diários e, por essa decrescência, a impossibilidade de pagar tal montante de renda.
Sou um defensor da economia de mercado, embora sem esquecer as regras legitimadoras e essenciais ditadas pelo Estado, enquanto parte interessada na defesa dos mais débeis, que permitam aos mais pequenos sobreviverem entre os gigantes. Para que as relações contratuais se não tornem no princípio da selva, ou seja a lei do mais forte. E aqui, neste caso, pelo menos no tocante ao contrato de arrendamento bilateral estabelecido entre inquilino e arrendatário, não poderão ser assacadas culpas ao Estado.
Trata-se, isso sim, duma questão moral e ética. O proprietário da loja foi durante décadas comerciante nesse mesmo local. Sabe, fruto da sua anterior experiência, que aquela renda, hoje, com o contraciclo da economia, é impossível de pagar. Está no seu direito? Sem dúvida, a casa é dele e, no âmbito do direito, quanto a isso não se contesta. Mas, embora as regras morais não tenham força obrigatória geral -isto é, como no direito, em que são sempre acompanhadas de uma vis, uma força centralizada, essencialmente, nos órgãos policiais- a verdade é que devem sempre transcender a lei. Devem estar entrosadas nos princípios que nos regem. Quando assim não acontece, tornamo-nos numa sociedade legalista, em que apenas se faz o que a lei manda, como autómatos, sem sentimentos e sem emoções, com um cérebro virado para o calculismo, sempre com uma interrogação presente: o que é que eu ganho com isto? Em que se ajudará o próximo, apenas e só, se daí provier interesse ou a lei o prescrever. Infelizmente, cada vez mais caminhamos para essa forma legalista, rasteira e interesseira de encarar o outro.
Ora, neste caso da Biju, estamos perante um modelo nato e acabado, onde o interesse individual desmesurado, mesmo dentro da lei, transcende a própria relação contratual a dois, para tocar no interesse geral que são os restantes comerciantes.
Claro que podemos pôr a hipótese de o senhorio, possivelmente, arrendar facilmente a loja a chineses, uma vez que este povo do oriente, sem o querer, penso, está a inflacionar as rendas comerciais nos centros históricos. Mas põem-se a pergunta: então as Baixas comerciais vão ser, no futuro, apenas lojas de artigos baratos da China? Com todo o respeito por estes comerciantes. Mas o que ao longo de séculos tornou os centros históricos atractivos foi a sua amálgama de comércio representativo de vários ramos identificativos da nossa cultura de antanho. Se acontecer esta concentração de comerciantes chineses, estes centros comerciais a céu aberto cada vez mais se tornarão desertificados, desinteressantes e identificadores de uma cultura indígena para se tornarem em “Chinatowns”.

O CARROCEL DOS IMPOSTOS

O Diário de Notícias, de hoje, dia 30 de Junho, publica, no seu caderno de economia, que a União Europeia (EU) vai mudar as regras do IVA para combater a fraude-carrocel. Ainda segundo este Jornal, este esquema consiste, “no chamado “modelo típico”, em implicar uma cadeia de empresas em que uma delas se dedica ao import-export com os mercados exteriores à EU. Beneficia de isenção completa de imposto, mas deduz o IVA. Ou seja, recebe do Estado suportado com as supostas compras de bens ou serviços. A cadeia de empresas abrange vários sujeitos passivos de imposto (empresas) e mistura-se, inclusive, com sociedades com actividade económica legal e fora dos esquemas fraudulentos. Em paralelo funcionam, também, firmas cujo objectivo é a mera emissão de facturas falsas e que realizam operações fictícias, a chamada “fraude na aquisição”(…). Esta mudança visará a ressurreição do desaparecido e enterrado Imposto de Transacções (IT) que vigorou no nosso país até quase ao final da década de 80, do século passado. Lembra-se que este imposto, contrariamente ao IVA – Imposto sobre o Valor Acrescentado, tal como o nome o indica, consiste num valor acrescentado em cadeia, isto é, cada operador acrescenta-lhe valor, sendo deduzido progressivamente o imposto anteriormente pago- era liquidado apenas a montante, ou seja, o último agente económico encarregar-se-ia obrigatoriamente de se autotributar pela aquisição a jusante e posterior valor acrescentado a montante.
Pela ilustração se infere que quanto mais os estados-membros da EU acossam e apertam os agentes económicos no pagamento de impostos, alguns “chicos-espertos”, saliente-se, duma forma inusitada, descobrem esquemas que levam completamente à insolvência um qualquer Estado, depauperando e destruindo toda a alguma base económica inerente aos impostos. Nomeadamente, a sua doutrina moral em que assenta a redistribuição pelos mais carenciados.
Nas últimas décadas as Nações Europeias, e sobretudo Portugal, apenas têm tido uma preocupação: sacar, sacar e mais sacar. É tão deprimente quanto contraproducente. Esta obsessiva perseguição a quem gera riqueza leva à profunda desmotivação de quem trabalha arduamente. Falo sobretudo das pequeníssimas empresas e algumas médias, que, em termos de percentagem, no ranking europeu, ocupam mais de 90% no panorama económico. Porque é evidente se o Estado estrangula de uma forma quase assassina os criadores de riqueza é lógico que os mais desenvoltos arranjam esquemas de fuga. E aqui escuso-me a fazer juízos de valor. É, no fundo, a teoria paradigmática do saco plástico: apertando abruptamente na entrada o ar contido no seu interior, inevitavelmente, terá de sair pelos fundos. Dê por onde der. Não há volta a dar-lhe.
Não tocarei na justeza dos mais ricos subsidiarem violentamente os mais carenciados, porque, como se sabe, existem alguns constitucionalistas que põem em causa esse princípio, considerando-o discriminador, mas uma coisa é certa os mais ricos e, por inerência, a grande empresa consegue sempre pagar o menos possível e, o mais caricato, sempre a coberto da lei. Os mais pequenos, sem defesa…meu amigo, vão capitulando.
Segundo as notícias publicadas na imprensa do ano transacto, o Estado Português gasta cerca de 60% da totalidade dos impostos recebidos em custos com logística e com pessoal para assegurar a manutenção de serviços essenciais e recebimento de impostos.
Então, imaginemos que sou muito burro, deixem-me opinar, não seria mais fácil criar um imposto único para todos os agentes económicos? Em vez de ter uma plêiade seria tudo congregado num só. Penso que nem seria dificil, bastaria escalonar as empresas por grupos. Qualquer operador económico teria obrigatoriamente de pagar uma verba certa, sabendo antecipadamente o quanto teria de pagar ao Estado mensalmente. Fará algum sentido uma empresa ter de demonstrar prejuízos?
Se dá prejuízo encerra. Uma empresa é criada, geneticamente, para dar lucro se dá prejuízo deve encerrar. Se os Estados optassem por esta via simplista, tenho a certeza, mais de 40% de custos com pessoal, para fiscalizar e recuperar as verbas não liquidadas,
seriam poupados.
Mas, enfim, eu sou mero espectador que assiste, provavelmente, daqui a tempos ao funeral do IVA e ressurreição do IT, para daqui a uma dezena de anos acontecer o inverso. Porque enquanto o pau vai e vem vão-se mantendo umas ocupações que, bem no fundo, não interessa mexer. É a retórica do costume.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

A DIALÉCTICA DO VAZIO




  Os Jornais nacionais, quer diários, quer semanários, transversalmente, apostam todos na opinião dos políticos partidarizados. Ou seja, a sua opinião é, como diria José Gil, uma não inscrição, sendo mais claro, é uma não opinião do próprio, mas sim a opinião da doutrina do partido, ou nalguns casos, é um discurso de subserviência ao líder nacional ou regional. Assim como, na maioria das vezes, se percebe, é um discurso visando sempre o seu interesse pessoal a médio e a longo prazo. Estes discursos que, estou em crer, a maioria dos leitores não lê, são uma espécie de continuação programática dos partidos políticos. São ricos nas “trincas” e normalmente nunca trazem nada de novo. São uma espécie de chover no molhado, uma projecção da Assembleia da República, uma continuação do discurso balofo e vazio de conteúdo.
Ora, assim sendo, é pertinente a pergunta, porque continua a apostar a imprensa escrita em “opinions makers”, quando essa opinião é condicionada pelo peso partidário?
Não estará a imprensa a ser servil e, com esse servilismo, a prestar um mau serviço aos seus leitores? Pessoalmente, penso que sim. Porque não apostam em comentadores independentes que, certamente dariam uma visão menos redutivista das questões em apreço? É que evitavam, ao leitor, um exercício mental de, à medida que vai avançando no texto, ter que que ir descontando, não levando em conta , certos pontos de vista. Parecendo, por analogia, como se estivéssemos a fazer compras em Marrocos e à medida que o vendedor avança um preço, mentalmente, vamos pensando quanto vale a sua afirmação, para lhe oferecer metade do valor pedido.
Claro que poderá dizer, e bem, o meu leitor, que também é o caso da televisão, sobretudo os canais estatais. Por muito bons que sejam os fazedores de opinião –e aqui estou a lembrar-me de Marcelo Rebelo de Sousa- a sua convicção, sem exclusão do receio de errar, apesar de ser uma argumentação brilhante, tentando a todo o custo mostrar que é independente, a verdade é que é sempre, a meu ver, tendenciosa. É inevitável. Se partirmos do princípio de que nenhum humano será, intrinsecamente, independente, todos dependemos de algo e, sobretudo, das nossas referências anteriores e do meio que nos cerca, como o poderá ser um “animal político”? Sem dúvida que será através da abstracção, quem o conseguir na totalidade, que, nessa imanência, se atingirá esse tão pretendido estado de independência mental. Por tudo isso, pode-se esperar independência de um servidor de um partido político, quando, pelo que se vê, o que todos os correlegionários pretendem é agradar ao chefe para que este, numa próxima eleição, o coloque em lugar elegível?!
Lembrei-me de escrever este texto ao ler uma crónica de hoje, dia 29 de Junho, no Diário as Beiras, de Paulo Penedos, com o Título: “Que Estratégia para Coimbra?”.
É simplesmente deprimente ler este texto “déjà vu”. O facto de não trazer nada de novo, o bater no ceguinho, o mais de mais, do menos menos, a que estas cabeças pensantes nos habituaram. É deplorável, porque falamos de um político jovem, que, em princípio deveria trazer uma frescura nova…se conseguisse ser independente. Isto é, se conseguisse pensar pela sua própria cabeça. Só que não consegue, pelo menos nesta crónica não. E assim, em resumo, perdemos todos; os jornais porque fazem um frete ao político, estes políticos partidários porque fazem um carrego ao político-mor e os leitores fazem um fretamento ao terem de pagar um frete para servir outros fretes.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

QUEM ESPERA NÃO AUGA

Um dia destes, pelas 9,45 da manhã, na Caixa Geral de Depósitos em Coimbra; entrei, para fazer o levantamento de um cheque, retirei a minha senha de aceso à caixa. Saíu-me em sorte o número 56. Desloquei-me para a secção do balcão correspondente. No placar luminoso, a fazer lembrar as salas de Bingo, corria o número 46. Das quatro caixas existentes só duas estavam a funcionar. A atender o público dois funcionários, uma senhora e um homem de quarenta e muitos, careca e de cabelo crescido atrás, a fazer lembrar Léo Ferré. Sentados nas cadeiras a aguardar vez, cerca de uma dezena de pessoas, aparentemente com mais de sessenta anos. Todas com ar resignado e de enfado, aguardavam a sua vez. Volta e meia lançavam um olhar suplicante para o visor luminoso, como se estivessem, através de uma prece, a apelar a uma entidade divina para realizar um desejo, mas o maldito, insensível, lá continuava como alentejano caminhando lentamente em direcção à sua courela.
Às tantas a funcionária levantou-se e ficou o "Léo Ferré" sozinho a atender. Passados, aproximadamente, dez minutos regressou a funcionária, nas calmas e a conversar com uma colega. Quando se sentou foi admoestada pelo "Léo Ferré". O que ele lhe disse não deu para perceber, mas, pela cara fechada, calculava-se que era uma reprimenda. A funcionária, que não gostou -notou-se- retorquiu-lhe que não stressasse e já um pouco irada, atirou-lhe de chofre: "você não tem nada com isso". Levantou-se então o "Léo Ferré" e ficou a atender, sozinha, a funcionária.
Entretanto, entra uma sexagenária, vestida de cores garridas, de passo apressado, toda lareta, dirige-se à funcionária, com um cumprimento familiar, e entrega-lhe um papel. A funcionária fala-lhe com afectividade. Ao meu lado, um septuagenário, não se contendo, vira-se para mim e, em surdina, diz: "já viu?...Ainda agora chegou e já está a ser atendida…o que faz ser conhecida. Sabe quem ela é?" Como se eu encolhesse os ombros, continuou, "é aquela que casou com um polícia que nunca se levantou da cama". Como tivesse, finalmente, chegado o meu voo, como quem diz o meu número 56, levantei-me, deixando o velhote a meio da narração, interrompida pela força das circunstâncias. Eram 10, 30 e lá segui a minha vida, procurando outras vidas. A funcionária, de cara dividida entre o expedito e o prestável, tentando levar a sua função a bom termo, continuava sozinha a atender um público heterogéneo, mas acentuadamente idoso.

ESTE É O PORTUGAL QUE MERECEMOS?

Vamos na rua e ouvimos, quase como ladainha mística; os políticos são assim, os políticos são assado. Que a Câmara de tal parte abriu um concurso, para subida de categoria, de provimento de um jurista feito à medida exacta da vereadora (também jurista)… que providenciou essa mesma admissão para que esse lugar lhe assentasse que nem uma luva. À partida, nessa autarquia, todos sabiam que aquele concurso foi feito de encomenda e quase ninguém concorreu com receio de retaliação. Excepto uma jurista que, de “peito feito” se apresentou ao júri do concurso interno. Até aqui, louve-se a sua atitude. O que vem a seguir é que não se entende: ela não impugna o acto administrativo, por vício formal, ou ilegalidade material. Quando lhe perguntam porque não contesta, meio evasiva e, sem disfarçar o incómodo que a interrogação lhe causa, responde com alguma irascibilidade: “para quê?...não serve de nada…”
Uma Cooperativa do sul do país, foi lesada por um administrador, supõe-se, em cerca de um montante muito próximo de 500.000 Euros. Pensa-se em peculato, abuso de confiança, apropriação ilegítima de bens para uso próprio, entre outras acusações. Por esse facto a instituição, financeiramente, passa um mau bocado, tendo que recorrer á banca e, subsequentemente, à hipoteca de bens. Quando alguém pergunta a um membro da direcção o que pensa fazer acerca desse lesa-património, responde o director: “sabe, é que a Cooperativa recebeu verbas comunitárias e se isto, por acaso, vier a público, a instituição terá de devolver todos os subsídios recebidos e até, provavelmente, será o fim da Cooperativa”. Mas a pessoa insiste, mas a Cooperativa pode e deve mover uma acção de ressarcimento pelas verbas apropriadas ilegitimamente. “Não, as coisas estão controladas e vale mais continuarem assim”. Mas quem entende esta atitude? Poderão estas pessoas dormir descansadas? Podem estas pessoas, em surdina, continuarem a vociferar impropérios contra os políticos, os empresários, ou outra classe qualquer, e, sobretudo, continuarem a dizerem mal deste país, se, duma forma acomodada, para não dizer cobarde, se mostram incapazes de denunciarem seja o que for por receio? Por acaso pensam no futuro dos seus filhos? Alguma vez pensaram que o país futuro será sempre o resultado das nossas acções presentes? Como se pode querer um país melhor, se essa melhoria começa em nós mesmos? Normalmente é a eterna questão: “porquê eu?...O meu vizinho não se importa”. Sinceramente, este comportamento começa a ser tão corrente que começo a ter dúvidas se, verdadeiramente, não serão eles que estarão certos. E quem escreve estas linhas, das duas uma: ou é completamente louco, ou então, julgando-se iluminado, pensa ser profeta da verdade. Com franqueza começo mesmo a questionar-me se este pensamento não será uma fixação e não me conduzirá, inevitavelmente, a uma instituição psiquiátrica.
Não admira também que a recorrência a denúncias anónimas, hoje, seja o “pão nosso de cada dia”. Quem ousa dar a cara? Até porque vale a pena atirar e fugir. É o próprio sistema que empurra a que assim seja, senão vejamos:
Em caso de denúncia anónima, cujo procedimento não dependa de queixa ou de acusação particular, é imediatamente aberto um processo de investigação e esta prossegue a sua tramitação sem ter em conta o seu autor que, recorrendo a um cobarde procedimento, facilitista e irresponsável, pode estar a acusar infundadamente;
Se um cidadão seguir os ditames da sua consciência, fizer a denúncia, identificando-se mas solicitando o anonimato tal requisito não lhe é concedido porque é invocado o Código Penal (artº365º), referente a denúncia caluniosa e subsequente imputação de medida disciplinar ou contra ordenação. Ou seja, estamos perante uma aberração jurídica. Sabendo todos que a lei devendo premiar o altruísmo, a coragem e o exercício da cidadania, pelo contrário incentiva o “atira e foge” e, ainda mais grave, desonera completamente –a coberto do anonimato- o autor de qualquer penalidade ou censura social, do seu acto atentatório ao (mau) uso da liberdade, da moral e dos bons costumes e, ao invés de fomentar a licitude e a conspicuidade, esta prescrição legislativa, incentiva o ataque soez.
Para terminar, cito J. F. Kennedy: “não perguntem à América o que pode ela fazer por vós, perguntem antes a cada um de vocês o que podeis fazer pela América”.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

UM PEQUENO NACO DE AMOR

O homem teria cerca de trinta anos. Estava algemado. Vinha a sair do Tribunal de Família e Menores acompanhado com um guarda prisional. Cá fora um carro celular, de porta entreaberta e um outro agente, armado, esperava o detido. Entre a porta do Tribunal e a carrinha celular distariam cerca de cinco metros, mediados por um largo passeio, como se este espaço, simbolicamente, pudesse representar uma ponte de liberdade, entre o cárcere e o Tribunal. Este, metaforicamente, um Coliseu romano onde a sorte do prisioneiro é decidida, não pelo Imperador mas por um Juiz, onde o seu veredicto assenta na prudência, transcendendo-se, tentando atingir o equilíbrio entre o abstracto e o concreto e, nessa ponderação, sentenciará o futuro do homem. Sempre vigiado pela deusa da Justiça, de olhos vendados, simbolizando a imparcialidade e a igualdade de direitos. Coadjuvada, na mão direita , pela espada, representando a imposição da força –que o direito sem essa força impositiva não passaria de uma doutrina frouxa pouco mais do que moral. Na mão esquerda, uma balança, representando o equilíbrio e a equidade entre as partes em conflito e entre estas e a sociedade.
Sem que, aparentemente, nada o fizesse prever o homem detido, ao sair do Tribunal de menores, ao atravessar aquele espaço de fronteira entre a porta e o carro celular, dá de caras com uma mulher sexagenária com uma criança, de cerca de cinco anos pela mão. A criança, largando abruptamente a mão da avó, corre em direcção ao homem, abraçando-o comovidamente com a pureza de uma ternura só própria de uma criança de cinco anos. O guarda, hipnotizado pelo quadro cortante dos sentidos, ficou estático. Um homem, transeunte, apanhado de surpresa por aquela cena de fazer amolecer qualquer empedernido coração, parou a olhar fixamente aquele encontro. A mulher, mãe do detido, como maestrina de uma orquestra, foi a primeira a soltar um grito sentidamente dorido de choro compulsivo. Como se fosse possível combinar toda esta afinação de sentidos, as lágrimas soltaram-se de todos os rostos em catadupa. Os guardas, aparentando uma calma e um domínio que não sentiam, tentavam, a todo o custo, conter as lágrimas, mas estas, desobedientemente, rolavam nas suas faces. Ao apelo lancinante da criança, “papá…papá…”, as pessoas que iam a passar, como peças de xadrez descomandadas de um jogo cerebral e frio, desataram a chorar como se estivessem descompensadas de um domínio de sentimentos que deveria fazer parte da sua forma humana de ser. Todos eles, perante esta expressão genuína de amor, não resistiram ao choro compulsivo.
A muito custo, notava-se nos seus gestos, os guardas prisionais levaram o prisioneiro para a carrinha celular. Aqueles cinco metros, poderiam ser facilmente quinhentos, se fossem filmados em câmara lenta. O homem entrou dentro do carro, sempre a estender as mãos algemadas para a criança. Já com a porta do carro semicerrada, as mãos continuavam do lado de fora, como pedissem clemência ao mundo, e a criança, entre convulsões e gritos de dor, continuava,”papá… papá… volta aqui”, estendendo as suas pequeninas mãozinhas como se quisesse ir também com o seu progenitor, sofregamente, continuava a beijar aquelas mãos estendidas, como se lhe pedissem perdão de lhe dar apenas estas migalhas de amor.
Finalmente, os guardas arrancaram com o prisioneiro, deixando atrás de si um rasto de dor.

sábado, 23 de junho de 2007

A FEIRA DE VELHARIAS




  É sábado, são 5h30 da manhã, o senhor Joaquim e a esposa estacionam a carrinha no largo da cidade, mais vulgarmente conhecido por Praça Velha. Se as pedras centenárias da calçada falassem quantas “istórias” contariam, quantas lágrimas caídas ao longo dos séculos, de mercadores sofridos de produtos vários, de latoaria, de géneros hortícolas, cebolas, alfaces, tomates, que tal, como o vendedor de velharias, também teriam vindo dos arrabaldes da cidade, muito cedo, montados no seu jumento, e, depois de o ter prendido pelas rédeas no Pelourinho, também teriam exposto toda a sua mercadoria e acompanhados do pregão, criado na ocasião, tentariam chamar os fregueses.
Tal como há cem anos atrás, o senhor Joaquim estende a manta no chão e, com o carinho pelas suas peças como só uma mãe sente por um filho, começa a expô-las, afagando-as com as mãos calejadas, como se com esse gesto as tornasse mais brilhantes aos olhos do futuro comprador. Embora a luz de Junho comece a despontar, à sua volta ainda reina o silêncio adormecido da cidade. Ali perto, um gato preto mia e o seu grito estridente ecoa no largo, como se reclamasse de, poucas horas antes, os homens da higiene da cidade, sem nenhuma sensibilidade, tivessem limpo tudo e lhe coarctassem o seu legítimo direito de minguar a sua fome num qualquer jacob de entulho e lixo.
Perante o miar do gato o senhor Joaquim deu um salto. Assustou-se. "Bolas, ainda por cima preto. Porra!", pensou para si. De certeza que o dia lhe iria correr mal, era sempre assim. Sem o querer, foi incorporando esta superstição. Ele sabia, era sempre assim, ainda há pouco, em Aveiro, aconteceu a mesma coisa e nem o poder de Santo Onofre, mesmo junto a seus pés, como se estivesse a fitá-lo, de costas para os compradores, valia contra o mau presságio dum gato preto. Começou a praguejar uma ladainha por entre dentes. A senhora Maria, a esposa, já o conhece bem, talvez melhor que a ela própria, e já sabe, nestes casos o que tem de fazer para puxar o homem à razão. Solta um chorrilho de pragas, misturadas com insultos ao marido, clamando contra a sua crendice, e, normalmente, o homem acalma e prega os pés no chão. Só que desta vez, mal ela estava a começar a lengalenga, então não é que o senhor Joaquim deixa cair um prato “ratinho”, que, no contacto com as lajes da calçada, se desfez em mil pedaços? “Vês…mulher…eu não te dizia?!...Eu já sabia…é sempre assim…malditos gatos pretos!…”.
“Cala-te mas é, estupor! Tu é que partes e depois a culpa é do gato?!”-refila, enfurecida a mulher do vendedor de velharias.
Por volta das sete e meia começam a aparecer os primeiros compradores. Os chamados batedores. São estes que vindo mais cedo, tentando antecipar-se a outros, sempre à procura daquela peça especial e, ao mesmo tempo, sabendo muito bem que as melhores compras são as que se fazem logo ao raiar da aurora e ao entardecer, aquando do fecho do certame. As primeiras são sempre boas porque o vendedor de velharias é muito crente em rituais e está ansioso por estrear-se, uma espécie de quebra do hímen e perder a virgindade. Se assim for, acredita, irá ter um dia cheio de vendas. Se tal não acontecer, se a castidade se mantiver durante a manhã, pode regressar a casa sem provar o clímax de uma única venda. 
As compras ao entardecer, aquando do fecho do mercado franco, são igualmente promissoras para o comprador, porque muitos dos vendedores não se tendo estreado, para fazerem algum dinheiro para o regresso a casa, vendem a qualquer preço.
Voltando ao senhor Joaquim, hoje, não está nos melhores dias. Fosse do gato ou do acaso da sorte aziaga, a verdade é que as vendas…”não pintam”. Há dias assim. Vejam bem que uma velha desdentada, de cabelo desgrenhado, cerca das oito horas, nem de propósito, foi oferecer-lhe, para ele comprar, uma colecção de uma dúzia de…gatos pretos em porcelana. Sinceramente, é preciso lata! Irritado como estava e ainda por cima o raio da velhota, parecendo gozar com ele, teimosa que nem uma mula, vai querer que ele compre os gatos. Homessa! Nem pensar! E a velha insistia, “compre-me os gatos, dê-me o que o senhor quiser…seja justo”, declamava em corrupio a persistente senhora. O senhor Joaquim, embora habitualmente calmo, já não podendo ouvir a mulher, passou-se e mandou-a, desabridamente, para o raio-que-a-partisse. A resmungar, a velha foi vender ao colega, mesmo ao lado, os doze gatos pretos por dez euros. O senhor Joaquim respirou de alívio. Francamente! Hoje não era decididamente o seu dia. Tudo girava em volta de gatos pretos. 
Ainda estava a pensar nisto, quando olhou para o lado e viu o seu colega vender a dúzia de gatos, comprados há minutos, por…duzentos e cinquenta euros. 
"Raios parta a minha sorte! Malditos gatos negros e todo o mito de assombração que lhe está associado!", resmungou por entre dentes o vendedor de bric-à-brac.