segunda-feira, 4 de junho de 2007

AS REFORMAS DO POMBAL

AS REFORMAS DO POMBAL
“Chamo-me Sempio. Sou um velho e decrépito pombo que há muitos anos vive a sobrevoar os telhados dos prédios da Baixinha de Coimbra.
Talvez por me encontrar em “baixo” –psicologicamente, é claro, porque pela força
das circunstâncias, estou sempre em cima- hoje deu-me para isto. Espero que tenham paciência para me lerem até ao fim, para compreenderem o meu desânimo, o meu grito, como quem diz o meu pio. Mas, sabem, estou farto. Farto de tanta promiscuidade no pombal.
Quando era novo, éramos poucos e todos tínhamos de trabalhar arduamente para comer. Tínhamos de largar a comodidade dos beirais da Baixa e deslocarmo-nos para os campos do Mondego, onde havia milheirais e arrozais com grande fartura, mas era muito difícil de lá chegar, devido à guarda de honra de uma panóplia de espantalhos artistas. Eles uivavam, eles contorciam-se, eles dançavam e tudo à força do vento norte. Era um espectáculo ver os campos do baixo-mondego todos ornamentados a rigor, como se todos fossem para uma procissão. Hoje, que estou velhote, assisto com preocupação à desertificação destes celeiros do nosso contentamento passado.
Mas aqui é que reside o busílis da questão. Pensarão, certamente, que, em face da crise agrária, haverá fome no pombal e que venho, por este meio, fazer exigências ou reivindicar melhores condições de vida para os meus irmãos columbinos. Puro engano. Há imensas pessoas na Baixa, amigas da liga dos pombos –ainda inexistente mas a criar proximamente-, com parcas reformas de pouco mais de duzentos Euros e que chegam a gastar metade dessa verba em milho. Que tenho eu a ver com isso e, provavelmente, reclamo com a barriga cheia, pensarão os leitores, com alguma razão. Porém, o que me leva a aborrecer-vos com esta história, que mais parece ter sido escrita para pombos, é que, simplesmente, estou muito preocupado com a devassa no pombal.
Como não precisam de trabalhar para ganharem o milho que comem, a vida aqui, no pombal, resume-se, apenas e só, em gozar em pleno o ócio, como dizem por aqui, com ar de intelectuais: o carpe diem. O gozar o dia elevado ao extremo, uma profunda malandragem. O que sabem fazer é comer, fornicarem e borrar os transeuntes.
Há tanto milho no chão das calçadas que se chega a pensar que seja alguma nova e repetida forma de protesto dos agricultores. E é claro, os meus colegas de poleiro comem, comem que nem abades, salvo seja. Grandes alarves! E depois sabem o resultado, sabem? Nem imaginam! Por cima dos telhados é só porcaria e um fedor desgraçado, uma autêntica cacofonia. E mais, chegam a fazer concursos de bufas. Ao que isto chegou! Aquele rapaz da bufa sinfónica que foi ao programa do Herman José
-há uns anos, lembram-se?- comparado com estes porcalhões era um amador. E por exemplo, se lá de cima se apercebem de uma donzela, armada em fina, de salto alto e vestido branco, pimba, é fatal, leva o selo sem demora. A fazerem tiro ao alvo, é vê-los a gozar de contentamento galhofeiro. Esta é, infelizmente o admito, a geração rasca que temos.
E quanto ao sexo nem é bom falar. Até sinto vergonha de contar. Copulam, copulam, sem o mínimo respeito ou complexo inibidor. Qualquer canto serve, a qualquer hora e todos os dias da semana –não, não é isso, não comecem a pensar que tenho inveja. È que custa-me ver estas orgias, todos ao molho e fé …no prazer. Fornicadores de uma figa! Filhos da… pomba! Admito confessar alguma saudade dos meus tempos, mas, impressiona-me e queixo-me com algum constrangimento, mas é demais, a promiscuidade sexual é tão grande que até a pedofilia se pratica no pombal. Penso que levando em conta o mau exemplo dos humanos, os pombeiros-mores não estarão envolvidos, penso eu, com algumas dúvidas. Com esta crise de princípios e valores, onde é que isto vai parar?
É urgente uma revolução silenciosa, como quem diz uma revolução contraceptiva no pombal. Há quem defenda a castração dos machos, mas os membros do senado pombalino pensam que não se deve ir nem por um nem por outro e que assim está muito bem, ou talvez antes pelo contrário. Uma coisa é certa, alguma coisa terá de ser feita, deve seguir-se o exemplo do Governador Civil de Beja, Manuel Monge, que mandou capturar mais de cinco mil pombos numa acção de controlo, tendo por objecto a defesa do edificado do Centro histórico desta cidade alentejana.
Quanto às borradas é de mais, até cheira mal. No meu tempo de jovem, éramos tão poucos e civilizados que só por acidente se acertava num ser humano. Era tão raro que, talvez por isso, se criou o adágio popular de que se apanhado por projéctil de pombo dever-se-ia, imediatamente, jogar no totobola, loto ou lotaria. E as pessoas acreditavam e jogavam.
Hoje a barrasquice e o abandalhamento no pombal é tão grande que se borra toda a gente; de tal maneira que abalou a própria fé e a estrutura lúdica dos jogos da Santa Casa entraram em crise e já ninguém acredita nos nossos jogos de fortuna e azar. Agora só o Euromilhões. E claro, no pensar de algumas cabeças humanas iluminadas, os pombos é que são os culpados.
Conta-se, cá em cima, no pombal, que se está a pensar em formar um batalhão destes pombos da caca para actuar por cima das grandes superfícies e contratados pelos comerciantes da coligação do comércio tradicional de rua.
Tenho de ficar por aqui. Acabo de levar com uma grande bosta em cima. UFA!!”

QUE PENA SINTO EM NÃO SER POETA

Eu gostava de ser poeta e descrever,
tudo o que visse, qualquer acareação,
tudo o que sentisse, dentro do meu ser,
pegar na caneta, três frases, uma situação,
não andar à procura da rima, num desespero, e ter,
de pensar, pensar; ser poeta não é isso, é ter criação;
Ser poeta é ser autêntico, não é ser fingidor,
é ter alma, ter no âmago, o infinito do universo,
é pintar de cores berrantes o escuro, é ser criador,
é dar força anímica, dar vida ao próximo, num simples verso,
é fazer dum inverno depressivo, uma primavera de amor;
Ser poeta é dar o espírito e não vender a alma,
é defender a causa, mesmo perdida, se sendo justa,
ajudar o indigente de afecto, é tocar na sua mão, na sua palma,
da solidão, construir um abraço, sem lhe mostrar quanto custa,
ser um sol brilhante, numa noite escura, numa irritação, ser a doce calma.

sábado, 2 de junho de 2007

1-A BAIXA DE COIMBRA: QUE FUTURO?





 Como foi amplamente noticiado, vai ser levado a efeito na Câmara Municipal, no dia 5 de Junho, pelas 21 horas, uma conferência, cujo tema será “A Baixa de Coimbra: que futuro?”-Estratégias de Revitalização Comercial-, inserida, segundo um folheto distribuído com o logótipo da autarquia, "URBE VIVA –NORTH EAST SOUTH WEST –INTERREG IIIC ESTE", e com a bandeira da Comunidade Europeia. Pressupõe-se assim –para os mais lerdos como eu- que se tratará de uma conferência inserida, provavelmente, no III quadro Comunitário de apoio. Digo eu, sei lá. Podiam ter tido essa preocupação de esclarecer. Bom, mas não tiveram…está bem, continuemos. Eles também não têm culpa que eu seja ignorante, sejamos justos. Pela solenidade, com abertura da sessão pelo presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Carlos Encarnação, tudo indica que esta CONFERÊNCIA FINAL LOCAL DO PROJECTO URBE VIVA INTERREG III C ESTE… é coisa para intelectuais.
Mas como às 21h45 é feita (finalmente, abrenúncio!) a apresentação da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC): apresentação, objectivos e intenções, tudo indica que foi uma maneira enfeitada e floreada de, finalmente, fazer o arranque da ex-defunta e agora ressuscitada, candidata a finada APBC.
Como às 22h15 estará anunciado o debate sobre a tão propalada revitalização comercial e, inevitavelmente, da Baixa, já que ambos, como siameses, dependem um do outro. Ou seja, não haverá revivificação comercial sem a subsequente revigoração da Baixa. Se morrer um morrem os dois. É uma pena que os gestores da polis, nos últimos 15 anos não o tenham entendido. Isto é -retiro o que disse-, claro que entenderam, mas como a sua função é entreter as hostes com palavras quiméricas, os actos ficarão para quem vier a seguir. Estes apanharão os cacos do que restar de uma jóia que, por desleixo e incúria, todos -e incluo, por desleixo, os próprios comerciantes-,  a têm abandonado à sua sorte.
Eu que, sou muito modesto, digo que sou presciente, que adivinho, posso já garantir antecipadamente o que se vai passar na pomposa conferência. Posso garantir que se vai dizer que a crise dos Centros Históricos é transversal ao país. Uns vão acusar a câmara de ser culposa na diáspora dos dos residentes. Irão dizer que devido à endémica diarreia crónica dos PDM (Planos Directores Municipais) -como canídeo a sofrer mal dos intestinos, qualquer lugar serve para evacuar-, qualquer zona à volta da cidade também serve para construir e o resultado está à vista: novas centralidades à custa do esvaziamento do Centro Histórico. É claro que, perante este exemplo, um bocado para o merdoso, como quem diz a cheirar pouco convenientemente, vai intervir um comerciante e, aproveitando-se do mesmo exemplo, irá dizer que o comércio dito tradicional sofre do mesmo enquistamento. Dirá que os milhares de empregos precários criados nas grandes superfícies têm sido feitos à custa de empregos efectivos do comércio de rua.
Depois este comerciante –porque atenção serão poucos os que vão lá estar, quase que podia dizer o número, mas depois iam dizer que me estou armar…e isso não…eu sou muito modesto- irá dizer que a autarquia não tem tido sensibilidade para a deslocalização de serviços públicos da Baixa, nomeadamente, com a saída da 2ª esquadra para a Solum, com a provável mudança do Tribunal para a margem esquerda, assim como, se houvesse dinheiro, o encerramento da Estação Nova –aqui o Governo também não será poupado pelo ostracismo a que votou Coimbra. Continuará este comerciante a fitar, olhos-nos-olhos, o presidente da autarquia e dir-lhe-à que não haverá nenhum centro histórico que resista a uma burocracia emperrativa, como é o caso de uma loja danificada no dia 1 de Dezembro -em consequência da ruína de dois prédios- e que hoje, passados mais de seis meses, continua fechada. O comerciante, dono da loja, por tantas vezes ser visto a correr para a Câmara, já é chamado de o "Al Paciente, o árabe", porque pensam que o edifício da autarquia é uma mesquita e ele, certamente, irá rezar, de cócoras, em direcção a Meca. Continuará o comerciante orador a dizer-lhe, também, que a câmara, não mostrando nenhuma sensibilidade para os mercadores de rua, aproveitando-se do cataclismo que foi a ruína dos dois citados edífícios, e, contrariamente, ao que deveria ter feito, passou a exigir a qualquer profissional do comércio uma série de documentos. Como por exemplo, se requerer um simples horário de funcionamento, passarão a pedir a licença de utilização acompanhada de um estudo de sustentabilidade do prédio, assinada sob responsabilidade de um engenheiro. Acontece que falamos de prédios centenários cuja bitola de segurança deveria caber por inteiro à autarquia, através dos bombeiros e protecção civil. Dá-se também a coincidência, apenas coincidência, de acontecer que qualquer engenheiro para assumir uma imensa responsabilidade destas quer mais de um milhar de Euros.
Dirá este comerciante, ainda –“mais?”..Perguntará Carlos Encarnação com as orelhas a arder, “que mal fiz eu a Deus para levar com um trambolho reivindicativo destes?”- que não
haverá revitalização possível, quando um órgão do Estado é completamente insensível
à harmonização entre os interesses deste (que representa o colectivo) e os interesses particulares. Apresentará exemplos concretos de vários prédios que estão entaipados, há um ano, á espera de poderem continuarem as obras de restauro e bloqueadas pelo IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico). É que o maior absurdo é que, simplesmente, as obras estão paradas e nem sequer se vêem lá técnicos a trabalhar em arqueologia, dirá de chofre ao impacientado Carlos Encarnação. Dirá ainda que é um absurdo insistir, pelo menos actualmente, na erradicação de automóveis de algumas artérias, como tem sido seguido pela autarquia.
Dirá ainda mais: que é preciso apostar na discriminação positiva para inverter a actual desertificação de moradores. Como é que isso se faz? Ele explicará que é necessário cativar os donos dos prédios devolutos –uma vez que o Novo Regime de Arrendamento Urbano não veio resolver absolutamente nada…antes pelo contrário- e os comerciantes que têm nos andares superiores armazéns, através da isenção de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis)deveriam ser incentivados a colocar estes locados inertes no mercado de arrendamento. Além disso, é necessário que haja vontade, pela autarquia, de agilizar e facilitar projectos de aberturas independentes para os andares superiores. Como se sabe, devido à antiguidade dos imóveis, a entrada para os andares cimeiros é feita, em muitos casos, por uma única porta que é, ao mesmo tempo, a entrada para o estabelecimento. É claro, posso adivinhar, que Carlos Encarnação vai dizer que está previsto, em projecto, pela SRU (Sociedade de Reabilitação Urbana) uma espécie de emparcelamento destes andares e que será feito por uma porta única que dará acesso a todos. Porém, arguirá o comerciante, que é um contra-senso, vai fazer-se o assassínio dos interiores de casas de cariz medieval –fogo, que este comerciante é chato como as melgas, quem é que o pode aturar?
Como se não chegasse, vai dizer que é urgente criar um Gabinete de apoio ao arrendamento. Este gabinete serviria para a captação, quer de novos locados para arrendamento, quer no "aliciamento" de novos casais candidatos a moradores. Serviria, também, de apoio jurídico aos jovens futuros residentes, para que não aconteça novamente o mesmo que se viu, esta semana, aqui na baixinha. Ou seja, uma casa ser arrendada, sem licença de habitabilidade, a precisar de obras urgentes, não ser passado recibo. E para terminar este cenário terceiro-mundista o dono da casa ainda lhes trocou as fechaduras numa acção completamente indigna e ilegal, para os obrigar a despedir-se. É evidente que foram porque não tinham dinheiro para consultar um advogado e também, como a maioria dos jovens, carregados de ignorância e falta de coragem. Já agora, vou lembrar que o comerciante vai dizer que esta renda era de 400 euros. Rematará que perdemos todos, com esta acção indigna.
E agora, estou a prever, vão começar os problemas para este comerciante, o moderador, começa a admoestá-lo, que está ser muito longo, que outros querem falar. O trabalhador do comércio continua e chama a atenção para o facto de a baixa ter comércio a mais, nomeadamente, de sapatarias e pronto-a-vestir. Sublinha que é necessário apostar em actividades de vanguarda, com comércio alternativo e indústria hoteleira, com casas de hotelaria viradas para fado e jazz (como é o caso do Salão Brazil) e, o mais importante, que os seus horários de abertura vão para além da meia-noite –claro que sem esquecer a harmonização, por causa do ruído, entre os estabelecimentos e os moradores que habitualmente é conflitual, remata.
É aqui que se dá o estrondo, como quem diz, o moderador desliga o microfone ao comerciante. Este homem, porque gosta muito da Baixa, é lá que trabalha e, por isso, muito interessado em tudo o que diga respeito ao centro histórico, com ar embasbacado vai perguntar ao moderador: “porque me desligou o micro? “
O moderador vai responder: "MEU CARO SENHOR, O TEMPO TOTAL QUE TÍNHAMOS DISPONIBILIZADO, NO PROGRAMA APRESENTADO, ERA DE 15 MINUTOS…ORA O SENHOR…FOI O ÚNICO A FALAR E DEMOROU 16 MINUTOS".
O comerciante, com ar de parvo, vai retorquir: “ai o tempo programado era de 15 minutos?...Entendi…sou parvo…mas não sou burro…”. Este comerciante sou eu.


QUEM ME TIRA DESTA ESTRADA

QUEM ME TIRA DESTA ESTRADA

Quem me roubou o sorriso,
ao inferno vai parar,
uma alma tão sem siso,
que deixou de me amar;
às vezes, quero morrer,
e partir sem direcção,
eu não quero envelhecer,
ferido no coração;
Quem me tira desta vida,
e me indica a salvação,
pode ser qualquer querida,
que me encha de ilusão;
às vezes sou inocente,
e creio sem duvidar,
num sorriso que me tente,
começo logo a sonhar;
Quem me tira esta angústia,
que afoga todo o meu ser,
quem me dá um sedativo,
e vontade para viver;
Afago a minha tristeza,
nas nuvens que vejo passar,
escrevo versos sem certeza,
desta mágua libertar;
Sou um mendigo de amor,
carente e pobrezinho de afecto,
estendo a mão cheio de ardor,
na esperança de ter um tecto;
Um tecto que me albergasse,
e me desse consolação,
um só brilho, talvez, chegasse,
e me garantisse protecção;
Estendo as mãos à caridade,
como um indigente numa esquina,
perdido numa grande cidade,
em vão, tentando fugir à sua sina.

A PROCURA DA FELICIDADE

À PROCURA DA FELICIDADE
Quando, como tonto, passeio por aí,
Olho as árvores, prenhas do chilrear das aves,
é uma banda desafinada, uns tocam em Dó, outros em Si,
deste caos ruidoso, sai uma ordem, uma harmonia,
como se não fizesse sentido a escala de sons, a clave;
será que a natureza, bucólica ou intempestiva, é sintonia?
O que fará tão felizes os passarinhos? Darão graças por viver?
Pergunto, a mim próprio, em surdina, será isto a felicidade?
O rico, o remediado, o pobre, por ela vivem, sofrem, será uma utupia,
felicidade para aqui, felicidade para ali, é um verbo de encher;
É um vernáculo, uma frase meia feita, à medida, um rifão,
que se fala, por falar, como dizer:”até amanhã se Deus quiser”,
“eu só preciso ser feliz”, diz o rico, de barriga avantajada,
“felicidade era eu ser milionário”, diz o pobre, rebuscando um tostão,
“se mantiver o que tenho, sou feliz”, pensa o remediado, de cara preocupada;
“Eu para ser mesmo, mesmo feliz, diz a idosa, só preciso de uma televisão”,
“Ká p’ra moi, um popó, boa mesada, um telemóvel e tenho tudo”, pensa o adolescente,
“o que preciso, diz o pai, é duma casa na praia, um barquito e um bom carrão”,
“filhos da abastança, basta-me uma novela”, retorqui a dona de casa desesperadamente;
“Materialistas, infelizes, ó corruptos nascidos dos anseios económicos”- grita a beata:
“Senhor tende piedade destas almas tresmalhadas, que só reivindicam, nada dão”,
“só queria ver, diz o cego, pouco importa o dinheiro; a felicidade, o raio que a parta”,
Pensa o pássaro: “tomem Prozac, embriaguem-se e embrulhem-se na globalização.


LUIS FERNANDES
(COIMBRA)

CARTA A UM FANTASMA CONHECIDO

CARTA A UM FANTASMA CONHECIDO
São vinte horas e o sonho vai começar,
percorro todos os sites, o que eu faço para te encontrar,
meu fantasma confidente, querido, meu amigo,
tenho em ti toda a esperança, eu só quero estar contigo;
Sofregamente, vejo o menssenger…não estás lá,
vou ao mail, a correr, ansiosa, nem sinal de ti,
prometeste, ontem aqui, não faltavas, estavas cá,
jogo um jogo, a ver se vens, não sei que vai ser de mim;
Durante o dia, no trabalho, contava os minutos, expectava,
O relógio, contra mim, tic-tac…tic-tac… lentamente,
parecia querer provocar e, grosseiro, desafiava,
quase a rir, para mim, o insolente, parecia contente;
O meu chefe, que não é tolo, tantas vezes perguntou:
“Que se passa?...Pareces não estar aqui…”
O bom homem, que adivinha, interesse nem mostrou,
com sorriso, meio tímido, inclinei a cabeça, assenti;
Mal tocou, essas desejadas, as badaladas de saída,
arrumei a papelada, tanta pressa de chegar,
nem ao lanche eu quis ir, até estranhou a Guida,
só queria ganhar tempo, ir para casa e jantar;
Confesso que cá em casa, sobretudo, a limpeza…
está adiada, passar a ferro, bem como assim o jardim,
o que importa é eu estar bem, isso é concerteza,
falar contigo, é o que quero, é tudo para mim;
És a droga que consumo e, aos poucos, me consome,
és a alma que não tinha, por estar negra, nem sorria,
és o comprimido diário que eu tomava e, agora, outra tome,
és o espírito, a minha graça, o meu amor, a minha alegria;
Noite dentro, muito tarde, já brinca a luz, quase dia,
vou para a cama, o sono tarda, dou voltas para adormecer,
lembro o passado, em mágoa, rola uma lágrima, sem ti o que seria?
És o vento que toca as velas, deste corpo… DE TODO O MEU SER!

LUIS FERNANDES
(COIMBRA)

ELEGIA A UMA CEREJA

ELEGIA A UMA CEREJA
Era uma vez uma Cereja…
Tão brilhante, tão madura, madurinha,
tanta calma, tanta lucidez… salvo seja,
a proteger as cerejas verdes, parecia uma galinha;
A Cereja madurinha ficara na árvore desde a última safra,
no mesmo ramo, nasceu outra pequena cerejinha,
na grande árvore fruteira, Cereja madura era como o Convento de Mafra,
tão pequena para o mundo, tão enorme para quem com ela vivia, uma queridinha;
Mas Cereja madurinha tinha um segredo: sofria de solidão,
olhava as cerejinhas verdinhas e sentia que estava a envelhecer… sozinha,
os homens, todos a queriam comer, mas Cereja tinha um filho e eles: NÃO!
E Cereja, doce fruta, palmarés de eleição, tão excitante, chorava coitadinha;
“Ninguém me quer, ninguém me ama, só me querem saborear,
preferem as verdes, ainda que mais azedas, estão sós e são mais durinhas”,
na grande árvore, pejada de vida, cheia de fruta, um pássaro a chilrear,
e o homem, esse louco que só vê a rama, apanha as novas e olvida a mais velhinhas;
Pouco lhe importa a experiência, o brilho resplandecente, quer a fruta sem ser picada,
a mais madura, no universo da beleza, é apenas aquela que respeitamos…mas passou,
é ícone representativo, a mãe de todas as frutas, o doce desejo eterno de ser amada,
venerada pelas cerejinhas, todas a mimam, bela madura espera aquele que lhe calhou;
às vezes, em desespero, apetece-lhe saltar, não fosse o seu filhinho, e Cereja teria caído,
no universo da fruta, Cereja madura nunca cai, é eleita p’ro senado nesta falsa verdade,
frustrada, Cereja sonha, idilicamente, realiza o desejo de outra, mesmo o mais querido,
Cereja madura espera o príncipe, aquele que a vai comer, nesta vida, nesta universidade.


LUIS FERNANDES
COIMBRA)